domingo, 23 de agosto de 2015

das convicções

líria porto

não fica em cima do muro
ou está dentro ou está fora

se dentro mergulha fundo
se fora não participa

há causas que não aprova
não sabe fazer intriga

atear fogo no circo

*

maciço

líria porto

no dia da despedida
o abraço maior do mundo
entraste pelos meus poros
formamos u'a massa única
metade de nós foi embora
a outra ficou em mim

*

sábado, 22 de agosto de 2015

versos noturnos

líria porto

não vou me deixar morrer
por um sonho arruinado
nem sempre nossos anseios
correspondem à realidade
melhor arregaçar as mangas
e continuar

*

o mentiroso

líria porto

nem co'a boca na botija
e provas que o acusam
admite a falcatrua

põe uma cruz sobre o peito
faz cara de cu pra dizer –– não fiz mal algum
ao trono não renuncio

(e que tudo o mais se foda)

*

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

plasta

líria porto

tinha sangue de barata
a mosca-morta

*

jardim da infância

líria porto

pátio do colégio
criançada de uniforme
bando de andorinhas

arrulhos brinquedos
alegria que floresce
risos que borbulham

*

mamãe

líria porto

eu te amo
mas não sem conflito
quando dás um grito
ou me ameaças
eu sinto vontade
de fugir de casa

quando eu crescer
e fores velhinha
como a vovó
vais morar comigo
e não num asilo
não te abandono

então eu te digo - fica calma mãe
vou ser um bom homem

*

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

das emoções

líria porto

o amor é discreto
raramente atravessa as paredes
o piso o teto ou vai à janela gritar
:
o ódio é que faz escândalo

*

partícula

líria porto

eu é tão pouco
a_penas grão de areia
e deserto

eu é quase nada
e ao mesmo tempo
é oásis

*

(para o livro sem pecado não tem salvação) desejos mínimos

líria porto

o que eu quis e quero
não é ser bailarina do moulin rouge
nem dançar um tango em buenos aires
o que mais desejo é dançar bolero
com um cafajeste
                        num motel da estrada

*

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

sequestro

líria porto

o vento me empurra
(que amante rude)
arranha-me a pele
embola meus pelos
e nem se desculpa

*

(para o livro sem pecado não tem salvação) sem rima nem métrica

líria porto

eu tenho a boca suja mas mãos limpas
mando à puta que pariu fico com raiva
reconheço que errei peço desculpas
o que tenho a dizer digo na cara

eu não conto os segredos do ex-amigo
não deduro companheiro nem a pau
e nem julgo o que fez os seus motivos
cada qual sabe de si e ninguém mais

falo não falo talvez e falo sim
faço silêncio se preciso preservá-lo
quero distância é dos donos da verdade

eu não temo a solidão – prefiro assim
a caminhar na caravana dos fingidos
dos que sorriem e nos furam com punhal

*

sábado, 15 de agosto de 2015

chave de braço

líria porto

para o pai era atrevida
para o marido mandona
o avô achava-a
um amor
;
trata-nos como rebeldes
quem nos quer domesticar
calar-nos a boca

*

pitbulls

líria porto

nem havia cercas
depois fincaram estacas
esticaram arames
levantaram muretas
muros altos
puseram cacos de vidro
passaram fios elétricos
e por último
os rolos de aço
pontiagudo
:
ninguém mais
dá bom-dia

*

passaredo

líria porto

os ninhos acordam
piu firifiu fiu fiu fiu
a sinfonia

*

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

madeira de lei

líria porto

foi-se
não sem resistência
teimava em viver
amava mais a vida
do que amou a mim
ou outra pessoa

*

descompasso

líria porto

o bicho-homem
sedento faminto
ávido por lucro
nem mastiga
devora tudo

a natureza
o seu ritmo
gasta séculos
para recompor
os recursos

(a noite se aproxima)

*

perdulários

líria porto

quem atira pérolas aos porcos
ainda vai usar colar
de pipoca

*

margaridas

líria porto

singelas
sem perfume
embelezam campos
praças ruas becos
casas casebres
e avenidas
:
florescer é um ato heroico

*

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

bicho-do-mato

líria porto
o lugar que moro –– rente a quase tudo
um furo na terra para onde rolo
e fujo do perigo
(sou o tatu-bola)

*

o outro lado da moenda

líria porto

quem procura
pode achar um furo
em qualquer postura

quadrados e cúbicos – prefiro
os redondos

*

terça-feira, 11 de agosto de 2015

varredura

líria porto

soltam-se as folhas
curvam-se as cerdas
formam-se bolhas
nas mãos das servas

vassouras varrem
o vento suja
o vento não sabe
quanto lhes custa

*

malcriada

líria porto

desafiar a censura
dar banana à opressão
dizer não se esperam sim
e quando precisar
um palavrão

(as rimas em ão são mais brutas)

*

(meta)morfose

líria porto

o feto
o bebê o menino
o moço o adulto o velho
o defunto
:
todos num corpo só
da entrada à saída do mundo

*

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

o mundo

líria porto

descartável fictício virtual
não mais olhos nos olhos
encontros de família

a convivência?
nas redes sociais

a lua?
uma fotografia

*

nutrição

líria porto

não nasci ontem
sou de outro século
do tempo que a gente
não precisava de gotinhas
de vitamina d
nem usava complemento
vitamínico

tem sol lá fora
feijão milho laranja e banana no pé
:
chão é laboratório

*

domingo, 9 de agosto de 2015

dom juan

líria porto

faz tempo que não te beijo
mas não me esqueço do cheiro
do jeito que me abraçavas
horas inteiras no leito
de algum lugar

o despertar apressado
cada qual pra sua casa
pra não levantar suspeita
e tanta coisa era feita
debaixo do acolchoado

*

sábado, 8 de agosto de 2015

impenetráveis

líria porto

pedra é pedra
até certo ponto
depois vira piso
teto alicerce lápide
muro
estátua imagem
facínora

*

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

periféricos

líria porto

os dedos formigam
e assim
dormentes
não sentem nas pontas
as teclas que insistem
em versos capengas
tão mal empilhados
sem sumo e sem cepa
quais fossem um punhado
de cacos de vidro
ou areia

*

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

interpretação

líria porto

poder eu posso não sei se devo
as circunstâncias são favoráveis
penso nas consequências
:
a vida cobra – é cascavel

*

drible

líria porto

em caso de pesadelo
trocar de cama e manter
a luz acesa

monstros são formigas
desbaratada a trilha
eles não retornam

*

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

nascimento

líria porto

a urgência o sexo
trinta e seis semanas
e a vida a jorrar
entre as pernas

*

cascatas

líria porto

as águas
a correnteza
o penhasco
o salto
o véu da noiva
a pedra
o rompimento do hímen
;
já não existem
donzelas

*

difícil

líria porto

mas dentro da casca grossa
pode haver sabor incrível – vide
o abacaxi

*

terça-feira, 4 de agosto de 2015

caudaloso

líria porto

meu amor nasceu na serra
fez a curva deu a volta
tropeçou na pedra
transbordou
não encolheu seu destino
:
morreu no mar
como um rio

*

ponto

líria porto

comboio de dúvidas de ansiedades
tombamento no meio
da página

*

maria fumaça

líria porto

nos mesmos trilhos
enquanto vou ela vem
é certo –– na hora certa
a gente bate de frente
:
a morte e eu

*

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

reincidência

líria porto

vez em quando vez em sempre
vez por outra menos mais
saberei com qual frequência
dir-te-ei nunca
jamais

*

satélite

líria porto

no universo da pele
o maior órgão do corpo
a sensação que me impele
a girar no seu entorno

*

desacordo

líria porto

eu sou a minha patroa
boa para mandar –– péssima
para obedecer

*

de verdade

líria porto

amélia
é que era
mulher
deserdada

*

santo

líria porto

dai-me algum sonho
um chá pelo menos
uma farda prateada
um padrinho
algo que me aproxime
do vosso deus

*

resgate

líria porto

sinto saudades tuas
mesmo se estás do lado
amo-te por nós duas
água do mesmo pote
farinha do mesmo pão
terra do mesmo barro

*

domingo, 2 de agosto de 2015

(peguei o sol no pulo) amargura

líria porto

como falar de flor
se hoje estou um espinho


*

demora

líria porto

quem espero
não me alcança

*

(para o livro sem pecado não tem salvação) sedução

líria porto

tem homem que me deixa tonta
o garçom por exemplo

*

sábado, 1 de agosto de 2015

a namorada do papai

líria porto

sem louros medalha
com a calma das trepadeiras
:
a pele sempre boa

*

a casa

líria porto

a passarada acorda
todos abrem o bico
pai mãe filho vizinhança
ninguém se entende

voa um pra cada lado
a árvore em silêncio

*

aposentado

líria porto

palavras cruzadas
a mesma letra a servir a outras tantas
verticais horizontais
e o velho a queimar tutano

*

quando eu morrer vou virar entrelinha

sexta-feira, 31 de julho de 2015

pauta

líria porto

mim bemol
si sustenido
no rol
das lembranças
tardias
das claves
de sol
e de lua

*

novos e velhos

líria porto

os sapatos
que transportam
nossos passos
a lugares
conhecidos
também erram
os caminhos
e nos jogam
no buraco
:
os chinelos
são mais íntimos

*

entraves

líria porto

no máximo
com muita vontade e empenho
e não sem dificuldades
modificamos os hábitos
mudamos-nos
mas não do vinho
pra água

*

quinta-feira, 30 de julho de 2015

incompatibilidade

líria porto

a lua feita a compasso
qual hóstia na eucaristia
ela chega triunfal
o sol se esvai

(o céu é pequeno)

*

esquadro

líria porto

ninguém segura o tempo
o vento a tempestade
nada detém a infância

caminho com meu neto
de mãos dadas

*

novos e velhos

líria porto

os sapatos
as sandálias
que transportam
nossos passos
a lugares
conhecidos
também erram
os caminhos
apertam-nos
os calcanhares
escorregam
e nos jogam
no buraco
:
os chinelos
são mais íntimos

*

quarta-feira, 29 de julho de 2015

filho

líria porto

se não posso compartir sofrimentos
é porque não confias e é isso que dói
e magoa
:
não me poupes sou mais forte
do que pensas

*

arautos

líria porto

o galo canta
acaba de nascer
um dia novo

a passarada
em grande algazarra
comemora

(quem quiser
faça o café
amélia dorme)

*

nós

líria porto

mais que vínculos de sangue
os laços da amizade 

*

volta por cima

líria porto

em mim me ancoro
quando desabo
levo-me junto
arrasto tudo
depois levanto-me
volto em meu colo
e me consolo
e me ajudo
pois sem eu mesma
eu não seria
mais que uma lesma
ou parasita

*

terça-feira, 21 de julho de 2015

associações

líria porto

a curva da lua
a curva da rua
a curva do rio
a curva do cio
a curva do seio
a curva da bunda
a curva da curva
o cu

*

ocos

líria porto

eu te espero não vens
tu me esperas não chego
entre nós existe um vão
que nada preenche

*

segunda-feira, 20 de julho de 2015

invasor

líria porto

plutão era um cão tranquilo quieto no seu canto
depois que americano enfiou-lhe a sonda
perdeu o sossego

*

acolhimento

líria porto

os braços de morfeu
a cama boa os sonhos
a noite fria

(pisei a lua)

*

sábado, 18 de julho de 2015

ioiô

líria porto

uma vez algumas vezes
insistimos não deu certo
:
por que puxar para perto
quem já nos fez
infelizes?

*

teatro

líria porto

catamos palavras
aqui e ali
algumas sensatas
as outras sem tino
com elas traçamos
as cenas os atos
as incongruências
do camarim

*

quinta-feira, 16 de julho de 2015

artísticos

líria porto

entre pelados e nus
há detalhes que os diferem
os pelados tiram tudo
os nus se vestem
de pele

*

teóricos

líria porto

conhecemos o belo
sabemos os modelos
não conseguimos mudar
o que temos

*

estrelado

líria porto

de vagar se vai aonde
vênus brilha mais que júpiter

*

mundana

líria porto

pendurava os pecados no varal
e voltava para a esquina
:
ia nua
alma limpa

*

l'amour à trois

líria porto

sussurro teu nome não acordes
vou penetrar o teu sonho
revestir tua pelve
:
agora desperta
chama a fêmea que dorme do lado
façamos sexo –– nós três

*

o velho

líria porto

o machismo continua
mas a austeridade
foi pro brejo

*

abusos

líria porto

o velho a levantar-lhe a saia
o tio a mostrar-lhe o pinto
e depois o enfermeiro
a deslizar os dedos
em sua coxa

(devia ter lhe contado
mas tinha medo do pai)

*

terça-feira, 14 de julho de 2015

boca suja

líria porto

pinto com todas as letras
o quadrado o cubículo
o buraco negro

*

coxinhas

líria porto

eu faço amor co'as palavras
com falastrão faço guerra
não tentem calar meu verso
não vivo de ocasião
e muito menos de merda

frangotes vão para o corte
eu que sou vaca
dou leite

*

artísticos

líria porto

entre pelados e nus
há detalhes que os diferem
os pelados tiram tudo
os nus se vestem
de pele

*

sábado, 11 de julho de 2015

das vergonhas

líria porto

lugar de timidez
não é no palco
é na coxia

*

do preconceito

líria porto

lá ia o negrinho
seu corpo franzino
tocava os pedais

corria corria
e era feliz
como todo menino

então a freada
o carro que cessa
a sua alegria
:
bicicleta roubada?
não senhor guarda
ganhei no natal
:
recolho o objeto
para averiguação

*

sacripantas

líria porto

às santas mulheres
que pensam indecências
receitam água-benta

(e molestam crianças
em nome de deus)

*

dom juanito

líria porto

joão-de-barro – bom de bico
adora arrastar a asa e cantar
as andorinhas

quando retorna à casa
(muita vez estropiado)
tem batom no colarinho

*

autoimunidade

líria porto

a dor que é tua
na primeira pessoa
a dor que é minha
não descrevo

*

sexta-feira, 10 de julho de 2015

fogaréu

líria porto

velho é igual mato seco
quando aparece uma chispa

*

quinta-feira, 9 de julho de 2015

miopia

líria porto

lunetas
binóculos
e agora esta lupa
tu me observas
procuras defeitos
se apenas me olhasses
verias todos
:
não uso disfarces

*

sem cobertor

líria porto

a lua lá
sozinha de fazer dó
na noite fria

*

morri muitas vezes

líria porto

havia uma índia
nuinha na selva
tal qual veio ao mundo
quiseram que a vestisse
tapasse-lhe as partes
(não o fiz)

depois nu'a mama
falava de câncer
e noutra um anjo
barroco criança
havia entre as pernas
um sininho

por fim o modelo
assim sem camisa
achava-o tão belo
sequer tinha sexo
chamava-o andrógino
acusaram-me
:
a morte sumária
quedei sem defesa

*

dedo-duro

líria porto

tomara encolha
tomara bolhas
pus e ferida
tomara latrina
seu habitat

*

estado interessante

líria porto

em cama larga
durmo do lado avesso
no outro deita um fantasma
que à meia-noite me come
engravida-me de sonhos
e pesadelos

acordo prenha
de espasmos

*

segunda-feira, 6 de julho de 2015

um poema para elza

líria porto

às vezes eu me evaporo
fujo pro fundo do quarto
deságuo enxurro empoço-me
nas portas da tua (c)alma

então enxugas meus olhos
dás-me da tua água-benta
e desse modo eu aguento
tanta mudança
:
eu sou criança de sorte

*

fixação

líria porto

eu cismo com muita coisa
com uma ideia uma dúvida
só depois do entendimento
consigo embainhar
o sabre
:
qual uma vaca
eu rumino

*

pontual

líria porto

espicha as horas
dribla o tempo
mente a idade
estica a cara
porém a morte
impossível
o seu relógio
não atrasa

*

domingo, 5 de julho de 2015

segunda-fera

líria porto

lá vem o sol
de_vagar

também pudera
é inverno

até o sol
tira folga

no arremedo
da aurora

*

sábado, 4 de julho de 2015

polígamo

líria porto

medalhinha de ouro
pendurada na corrente
debaixo dos panos
a segunda mulher

a caneta
no bolso da camisa
essa pode aparecer
a mãe dos seus filhos

*

motivo

líria porto

por isso não fui
(e fiz bem)
eu não quis vê-la contigo
e embora saiba que existe
mantenho a pose

(o que os olhos não veem
machuca menos
ilude-nos)

*

descomunal

líria porto

morre-se muitas vezes
de amor de medo de raiva
de saudade sono tédio
porém não existe remédio
pra morte por abandono

*

imputável

líria porto

eu sou só eu e mais nada
e não tenho costas largas

*

sexta-feira, 3 de julho de 2015

periferia

líria porto

se esta rua fosse minha eu capinava a calçada
pintava os paralelepípedos colocava postes lâmpadas
limpava a boca de lobo

se esta rua fosse minha
tinha água encanada coleta de lixo
esgoto

(se esta rua fosse minha
seria eu o prefeito)

*

manivela

líria porto

não sei com quem andas
por onde caminhas
só sei que nos vimos
voltaste no sonho
e como se o tempo
já nem existisse
cantavas sorrias
tal como no dia
que te conheci

(éramos meninos)

*

quinta-feira, 2 de julho de 2015

disputa

líria porto

corrida de folha seca
o vento dá a partida
tem folha que é tartaruga
tem folha que é borboleta

*

quarta-feira, 1 de julho de 2015

ponto e vírgula

líria porto

este ou aquela – nenhum
não ter também é escolha

não consumo desse item
nem maria vai com todos

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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