líria porto
nem nós sabemos quem somos
menos ainda que não nos conhece
e se aproxima
não sou a pessoa que amaste
não é a pessoa que amei
nós nus
*
líria porto
nem nós sabemos quem somos
menos ainda que não nos conhece
e se aproxima
não sou a pessoa que amaste
não é a pessoa que amei
nós nus
*
líria porto
nem bilhete nem recado
não ouvirei das palavras
quaisquer hostilidades
(entrei em greve de fala)
preciso desta energia
para os derradeiros versos
que precedem as definições
*
líria porto
queres competir prepara-te
ultrapasso-te sem sair do lugar
minhas rugas credenciam-me
*
líria porto
já fui mais tu
sou mais eu
não sou rainha
não és rei
sei que sou minha
e tu
és de quem?
*
líria porto
o mundo caiu
desabou
quase bati
as botas
(por um tris)
susto
arranhão
e eu firme
uma p
é
t
a
l
a
*
líria porto
nem tu nem eles
eu - nem ninguém
sabemos a hora
que a morte vem
já esvazio
caixas gavetas
destruo as cartas
rasgo os bilhetes
não há quem me ofenda
não guardo mágoas
que a morte chegue
sem muito alarde
prefiro que seja
enquanto durmo
venha de luvas
e de pantufas
meu corpo gasto
descanse em paz
entre as raízes
e as minhocas
sábado ou domingo
*
líria porto
ninguém mais ali
e repleta de lembranças
da casa da minha mãe
continua à volta
da mesa da cozinha
*
líria porto
cansei-me de romance
de poesia
casei-me comigo
e dentro do possível
voltei a ser feliz
*
líria porto
um anjo viruu-me do avesso
esticou-me as veias
tocou banjo violão violino
(n)as cordas do meu coração
e rebolou e sambou
e tocou pandeiro
*
líria porto
com o fio dos dias
teceu uma vida
ponto a ponto
laçada a laçada
após o arremate
prendidas as franjas
cobriram-na
:
aos 93 anos
*
líria porto
nem o primeiro nem o único
o último - o que lhe fechasse os olhos
para outras conquistas
*
líria porto
despir-te inteiro
observar teus poros
rugas pelos cheiro
o formato das unhas
guardar tua voz
e nunca esquecer
detalhe algum
:
vencer a timidez
olhar nos teus olhos
*
líria porto
o filho do sargento
passava em nossa porta
freava a bicicleta
fazia acrobacia
(ia e vinha
ia e vinha)
e era tão bonito
o filho do sargento
:
eu na janela
*
líria porto
gosto muito da mulher do meu amado
é que ela - a titular - faz para ele
o que eu não faria nem por mim_o
*
líria porto
recordo-me das conversas dos encontros
dos restaurantes e hotéis onde estivemos
do elevador panorâmico
das transas - inúmeras em poucos dias
do teu cheiro eu me lembro
das roupas da camiseta branca
de saíres e voltares do trabalho
dos pastéis de queijo com cerveja
mas de algo eu não consigo
:
beijaste-me alguma vez?
*
líria porto
imbróglio
embrulho engulho
mergulho rebuliço
a disposição das letras
os encontros vocálicos
a sonoridade
indicam exatamente
o que as próprias palavras
simbolizam
*
líria porto
minhas mãos repletas
letras pequeninas
plenas de nanquim
rolam feito seixos
pelas linhas tortas
desses descaminhos
letras transversas
nascidas pelo avesso
nem métrica nem peia
asas passarinhos
crianças travessas
sem ponto sem vírgula
os pedaços soltos
sentimentos êxtases
emoções protestos
voam buliçosos
e não prestam conta
da própria existência
sonhos sem rédeas
fins sem começo
pétalas largadas
bambas minhas letras
desconhecem amarras
não sei a que vêm
peço não se apressem
já me vou esperem
elas - folhas secas
vão-se com o vento
percebem pressentem
nosso tempo breve
(eu envelheço)
*
líria porto
naquela manhã
tal como vieram ao mundo
sem folha de parreira nem nada
eva e adão - ao invés de maçã
chuparam manga
*