terça-feira, 30 de janeiro de 2018

monogamia

líria porto

periquito e periquita
um namoro do barulho
tanto apego tanto arrulho
tanto apupo
e as bicadas tão maciças
doem mais que traição

*

frígida

líria porto

a cor azul cinza
dos olhos gelados
de mariazinha
:
em seu corpo rijo
nem ai nem gemido
nenhum arrepio

*

limiar

líria porto

entre a vida e a fantasia
a linha tênue
–– espécie de corda bamba ––
por onde vai o poeta
com a sombrinha
de frevo

*

domingo, 28 de janeiro de 2018

bi

líria porto

periquita quer periquito
periquito procura outro galho
pensa em mudar de vida
dessa vez quer
papagaio

*

no cu do mundo

líria porto

dezembro m'irrita
desencapa-me os nervos
a chuva maciça as ruas lotadas
a grana tão curta
(compras induzidas)
não saio da toca
por nada

*

paraíso

líria porto

eva comeu a cobra
adão comeu
a maçã

*

invisibilidade

líria porto

o nosso
o couro da parede do muro
do quarteirão do bairro da cidade
do estado do país do continente
e por fim
a crosta do mundo

(nós
dentro do bulbo
como a gema da cebola
na réstia do universo)

*

cratera

líria porto

o que o verso insinua
está no inverso –– no avesso
da lua

*

o sovina

líria porto

a olhar para baixo
cerzir meias vigiar moedas
evitar buracos prevenir-se da chuva
jamais viu estrelas ou mirou
horizontes

*

escambo

líria porto

ofereci-lhe meus quartos
meus terços metades
e não pude negar
nem cu e nem nádegas
a quem me deu tudo
sem nada pedir
ou cobrar

*

serralheria

líria porto

o esmeril come o ferro
o ferro –– macho –– resiste
chega a soltar faísca
e geme
:
fica afiado o espeto
perfeito para o churrasco
a queima da carna
a brasa

*

abandono

líria porto

insustentável solidão
a das viúvas de marido
vivo

*

sede

líria porto

a pressa do rio
vontade de (a)mar
seguir aos tropeços
livrar-se das margens
vagar noutras plagas
de sal lambuzar-se
sumir de si mesmo
deixar-se beber
naufragar

*

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

linda

líria porto

mamãe
mais doce que papaia
a sua pele de pêssego
ou de maçã
como queiram
a mamãe é fera livre
quando se trata
dos filhos

*

in_tranquilidade

líria porto

minha cabana de taipa
não tem tranca não ter cerca
tão somente a vira-lata
(ótima companhia)
e eu

a mansão do magnata
tem muralha tem guarita
câmeras de segurança
quatro pitbuls
dois buldogues
carros blindados
motoristas
guarda armado até os dentes
e gente trêmula

*

moreno

líria porto

esperavas-me no saguão
e tua camisa branca
tive ímpetos de manchá-la
com batom

*

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

soberano

líria porto

o corpo –– qual gaiola –– trancafia
toda a nossa dor e sofrimento
só o pensamento voa livre
e não há polícia nem juízes
que o condenem ao cárcere
ao exílio
:
nosso pensamento é quem governa
nosso pensamento é quem preside

*

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

fruta

líria porto

cravo os dentes
e nem precisava
de força
:
a polpa é macia

*

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

desejo

líria porto

tentávamos não nos trair
nós nos atraíamos –– havia algo nos corpos
alguma espécie de imã

*

domingo, 21 de janeiro de 2018

haicai

líria porto

qual lua crescente
a ceifar a escuridão
a foice afiada

*

novos tempos

líria porto

nossas verdades e dúvidas
antes gravadas na testa
são tatuadas na nuca

*

sábado, 20 de janeiro de 2018

perseguição

líria porto

os vãos do desespero
espero não nos alcancem

*

oportunista

líria porto

nem direita
nem esquerda
(aí que mora o perigo)
ele é coluna
do meio

*

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

dos donos do apito

líria porto

a justiça não é cega
nem surda
nem muda
é mouca vesga arbitrária
faz que não vê 
que não ouve
fala mais que o necessário
protege os apaniguados
e persegue o povo

(de olho na mídia)

*

domingo, 14 de janeiro de 2018

bigode

líria porto

meu amor parece um cacto
é espinhento e dá flor
o seu recato um disfarce
a rondar a minha boca

*

criptografia

líria porto

o son(h)o vem de pantufas
passa ferrolho nas pálpebras
caminha olhos adentro
percorre nossos lugares
de montanhas tão disformes
repletas de espinheiros
o córrego
(massa cinzenta)
e o dialeto
que ninguém entende

*

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

con_traste

líria porto

o pai era fraquinho
fraco da cabeça
fraco dos ossos
fraco das pernas
(falava grosso)

a mãe –– fortíssima
levava nas costas
o casamento
(instituição falida)
a família
e um sobrenome
que não era seu
(piava fino)

*

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

baque

líria porto

na curva do vento
aposto no abismo e atiro no espaço
o que nem era vida

(precipito-me)

*

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

salto

líria porto

na curva do vento
cotovelo no barranco
frio na barriga
:
por pouco eu morria

*

barranco

líria porto

água dura em terra mole
tanto bate que desaba

*

gajo

líria porto

hás de ter um meio
de partir o quarto
sem rezar o terço
ou ficar de quinta
para sexta-feira

*

cena

líria porto

último ato
da peça que a vida nos prega
ao soprar as vel(h)as e cerrar
as cortinas

*

chagas

líria porto

coração imenso –– culpa
do barbeiro

*

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

novelo

líria porto

quem nos enrola
aparentemente em silêncio
mas com todo o seu palavrório
é o pensamento

*

politicagem

líria porto

acordos conchavos
de deus e o diabo
governam o mundo

corrompem subornam
prometem não cumprem
(e nós somos cúmplices)

*

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

palavrão

líria porto

a forma da palavra
a quantidade das letras
não o conteúdo

(mal intencionados
mudam o sentido das coisas)

*

braveza

líria porto

enfrento o medo
olho-o no fundo do olho
até lhe faço careta
:
chego a tremer
a sentir as pernas bambas
mas fico firme
não deixo que me domine
que me esmague a cabeça

*

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

cadentes

líria porto

comovê-las como as velas
que choram enquanto
iluminam

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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