líria porto
meu soneto é capenga e obsoleto
minhas rimas óbvias como minhas primas
minhas trovas são a prova de que nenhum poema
nenhum verso poderá salvar-me
*
domingo, 23 de novembro de 2008
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
olhos d'água
líria porto
implorei ao mandachuva
tivesse dó do sertão
por lá tecesse umas nuvens
não de inundação dilúvio
um chuvisqueiro molenga
que perdurasse algum tempo
preenchesse o nosso açude
amansasse-nos a sede
engordasse o nosso gado
salvasse o feijão
o milho
o azul não demudou
o sol continua a pino
a chão racha esfarinha-se
permaneço de joelhos
a insistir na ladainha
:
se este céu não tiver senso
não acudir quem precisa
será desleixo desdém
pelos bichos pelas gentes
destas terras desvalidas
*
implorei ao mandachuva
tivesse dó do sertão
por lá tecesse umas nuvens
não de inundação dilúvio
um chuvisqueiro molenga
que perdurasse algum tempo
preenchesse o nosso açude
amansasse-nos a sede
engordasse o nosso gado
salvasse o feijão
o milho
o azul não demudou
o sol continua a pino
a chão racha esfarinha-se
permaneço de joelhos
a insistir na ladainha
:
se este céu não tiver senso
não acudir quem precisa
será desleixo desdém
pelos bichos pelas gentes
destas terras desvalidas
*
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
forasteiro
líria porto
entrar e sair - tão fácil
se lá dentro não existir
um olhar de azeviche
que sem precisar suplique
: fica
*
entrar e sair - tão fácil
se lá dentro não existir
um olhar de azeviche
que sem precisar suplique
: fica
*
terça-feira, 18 de novembro de 2008
moe(n)da
líria porto
(es)colhe teu destino
o tempo se (es)coa
(a vida não perdoa
quem se omite)
cara ou coroa?
*
(es)colhe teu destino
o tempo se (es)coa
(a vida não perdoa
quem se omite)
cara ou coroa?
*
entardece
líria porto
à volta da mesa
oito cadeiras
sirvo-me de ausências
e sopa de feijão
quem sabe amanhã?
*
à volta da mesa
oito cadeiras
sirvo-me de ausências
e sopa de feijão
quem sabe amanhã?
*
pia batismal
líria porto
não sei se posso
faço-o sem permissão
por um verso laço letra
qualquer palavra
se ela tiver asas
caço-a numa rede
chamo-a borboleta
e só
*
não sei se posso
faço-o sem permissão
por um verso laço letra
qualquer palavra
se ela tiver asas
caço-a numa rede
chamo-a borboleta
e só
*
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
(publicado no livro garimpo - editora lê) - incondicional
líria porto
não me queiras bem ou mal por uma pétala
por um gesto a mais ou um deslize
quere-me pelo todo – corola miolo haste
folhas
espinhos cor pólen perfume
raízes
*
não me queiras bem ou mal por uma pétala
por um gesto a mais ou um deslize
quere-me pelo todo – corola miolo haste
folhas
espinhos cor pólen perfume
raízes
*
sem pantufas
líria porto
arredou nuvem e trovão
a chuva puxou pro lado
enxugou todo o azul
fez manhã de salto alto
*
arredou nuvem e trovão
a chuva puxou pro lado
enxugou todo o azul
fez manhã de salto alto
*
decepção
líria porto
desembaraçar nós destrinçar-nos fio a fio
é descobrir na verdade um amontoado
de mentiras
*
desembaraçar nós destrinçar-nos fio a fio
é descobrir na verdade um amontoado
de mentiras
*
domingo, 16 de novembro de 2008
vaticínio
líria porto
divagar
vestir os vestígios da alvorada
desvendar vértices voragens
vertigens
voar é vocação
*
divagar
vestir os vestígios da alvorada
desvendar vértices voragens
vertigens
voar é vocação
*
sábado, 15 de novembro de 2008
depois da tempestade
líria porto
minha mãe a grande árvore
guardou-me entre folhagens
protegeu-me do mau tempo
cresci dentro dum invólucro
sem conhecer chuva e vento
um dia caiu um raio
derrubou folhas e galhos
abalou tronco e raiz
ainda assim me agarrei
à sombra imaginária
de mamãe herdei o verde
tatuado no espírito
*
minha mãe a grande árvore
guardou-me entre folhagens
protegeu-me do mau tempo
cresci dentro dum invólucro
sem conhecer chuva e vento
um dia caiu um raio
derrubou folhas e galhos
abalou tronco e raiz
ainda assim me agarrei
à sombra imaginária
de mamãe herdei o verde
tatuado no espírito
*
desmedida
líria porto
arrombo as molduras
as retas os planos
desprezo os quadrados
prefiro as montanhas
os morros os gordos
os triângulos
*
arrombo as molduras
as retas os planos
desprezo os quadrados
prefiro as montanhas
os morros os gordos
os triângulos
*
natimorto
líria porto
o único filho
morreu enforcado
nas cordas do corpo
que homem seria
feliz infeliz
não tenho respostas
o filho varão
talvez preferisse
ser uma menina
(e fosse quem fosse
de todas as formas
seria minha cria)
*
o único filho
morreu enforcado
nas cordas do corpo
que homem seria
feliz infeliz
não tenho respostas
o filho varão
talvez preferisse
ser uma menina
(e fosse quem fosse
de todas as formas
seria minha cria)
*
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
onde cantam os bem-te-vis (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)
líria porto
esta terra tem um cheiro
beiro a serra sinto um bem
um ardor me atravessa
um prazer um arrepio
um desalojar das penas
um desejo singular
de morrer neste lugar
e de aqui renascer
*
meninice
líria porto
as mangas amadurecem
meus olhos não descem das galhas
o cheiro se espalha pelas lembranças
(e se eu pulasse o muro?)
*
as mangas amadurecem
meus olhos não descem das galhas
o cheiro se espalha pelas lembranças
(e se eu pulasse o muro?)
*
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
repeteco
líria porto
a cabeça ferve
igual caldeirão
intenções
pensamentos
ideias
versos reversos
conversas
repetição
*
a cabeça ferve
igual caldeirão
intenções
pensamentos
ideias
versos reversos
conversas
repetição
*
terça-feira, 11 de novembro de 2008
pôr de solas
líria porto
a loucura dos olhos abertos
o tempo a pesar-nos as pernas
o verso apesar dos invernos
a boca amarga o chá de ervas
(se a película é tão fina
quanto bolha de sabão
por que tocá-la?)
devia haver um decreto
deixem quieto o poeta
é lindo viver
de brisa
*
a loucura dos olhos abertos
o tempo a pesar-nos as pernas
o verso apesar dos invernos
a boca amarga o chá de ervas
(se a película é tão fina
quanto bolha de sabão
por que tocá-la?)
devia haver um decreto
deixem quieto o poeta
é lindo viver
de brisa
*
boca a boca
líria porto
quando meu amor falou tenho carunchos no pulmão
não consegui nem chorar
meu peito doeu meu coração doeu minha alma doeu
e só pude dizer –– não há de ser nada
respiro por nós
*
quando meu amor falou tenho carunchos no pulmão
não consegui nem chorar
meu peito doeu meu coração doeu minha alma doeu
e só pude dizer –– não há de ser nada
respiro por nós
*
eureca
líria porto
perdeu-se o sono entre as trevas
a noite dura mil anos – não sei pedir
nem rezar
vigio o escuro
sua cara sem cabimento
sequer um sonho
ou um susto
acendo um verso
invento uma estrela
*
perdeu-se o sono entre as trevas
a noite dura mil anos – não sei pedir
nem rezar
vigio o escuro
sua cara sem cabimento
sequer um sonho
ou um susto
acendo um verso
invento uma estrela
*
contradições
líria porto
para (en)cobrir seus (esc)ombros
precisou tecer mil xales
(o corpo do pobre jazia no esquife
envolto por flores cercado de olhares
tão liso tranquilo tal qual pedra
mármore)
às vezes a morte
é mais generosa
que a vítima
*
para (en)cobrir seus (esc)ombros
precisou tecer mil xales
(o corpo do pobre jazia no esquife
envolto por flores cercado de olhares
tão liso tranquilo tal qual pedra
mármore)
às vezes a morte
é mais generosa
que a vítima
*
roda-viva
líria porto
a rotina – pata de elefante – amassa-nos a alma
precisamos sair do casulo buscar a cor
das nossas asas
quando a lida me tortura tem a dureza do jugo
cato alegria no bolso
a roda do mundo gira e nada fica parado
passam o sol o vento a chuva
a lua o rio a estrada
eu era moço outro dia
fiquei velho num piscar
:
danças comigo?
*
a rotina – pata de elefante – amassa-nos a alma
precisamos sair do casulo buscar a cor
das nossas asas
quando a lida me tortura tem a dureza do jugo
cato alegria no bolso
a roda do mundo gira e nada fica parado
passam o sol o vento a chuva
a lua o rio a estrada
eu era moço outro dia
fiquei velho num piscar
:
danças comigo?
*
indigência
líria porto
abstrato prato
maltrato concreto
a fome não tem muro
casebre quatro por quatro
tapera de pau a pique –– pobreza
a mostrar a cara
miséria em riste
*
abstrato prato
maltrato concreto
a fome não tem muro
casebre quatro por quatro
tapera de pau a pique –– pobreza
a mostrar a cara
miséria em riste
*
(para o livro sem pecado não tem salvação) pragmatismo
líria porto
eu te uso
tu me usas
não é abuso
é no máximo
o mínimo recurso
dos solitários
*
eu te uso
tu me usas
não é abuso
é no máximo
o mínimo recurso
dos solitários
*
franqueza
líria porto
coçou-se-me a ponta da língua
cuspi depressa a saliva
a dor foi junto aprendi
toda palavra engasgada
precisa encontrar destino
ou vira tumor maligno
*
coçou-se-me a ponta da língua
cuspi depressa a saliva
a dor foi junto aprendi
toda palavra engasgada
precisa encontrar destino
ou vira tumor maligno
*
(publicado no livro garimpo - editora lê) - espinhos
líria porto
vermelhas gritam
brancas se calam
amarelas omitem-se
não há rosa inofensiva
*
vermelhas gritam
brancas se calam
amarelas omitem-se
não há rosa inofensiva
*
recesso
líria porto
manhã cinzenta
vidinha mole
rimas me espetam
versos me bolem
fico na cama
olhos fechados
a chuva bate
molha o molhado
:
feriado prolongado
manhã cinzenta
vidinha mole
rimas me espetam
versos me bolem
fico na cama
olhos fechados
a chuva bate
molha o molhado
:
feriado prolongado
*
timidez
líria porto
tô fraco tô fraco tô fraco
bicho aflito
dispara do mato pro pasto
para o quintal
tô fraco tô fraco tô fraco
o corpo cinzento pintado de branco
corre dum lado pra outro
pra cima pra baixo
sem direção
tô fraco tô fraco tô fraco
galinha d’angola que graça
bota ovo no buraco
tô fraco tô fraco
tô forte?
*
tô fraco tô fraco tô fraco
bicho aflito
dispara do mato pro pasto
para o quintal
tô fraco tô fraco tô fraco
o corpo cinzento pintado de branco
corre dum lado pra outro
pra cima pra baixo
sem direção
tô fraco tô fraco tô fraco
galinha d’angola que graça
bota ovo no buraco
tô fraco tô fraco
tô forte?
*
de floração (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)
líria porto
apraz-me olhar as árvores
a calma com que se movimentam
parecem-se a mulheres grávidas
no aguardo do rebento
*
apraz-me olhar as árvores
a calma com que se movimentam
parecem-se a mulheres grávidas
no aguardo do rebento
*
(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - desbandeirada
líria porto
vou-me embora pro horizonte
lá sou amigo do infante
aquele que adiante
depois da ponte da fonte
busca a nascente o poente
vou-me embora pro horizonte
não me pergunte o quadrante
nem me peça que o aponte
vou-me embora pro horizonte
(lá onde o sol alua)
*
vou-me embora pro horizonte
lá sou amigo do infante
aquele que adiante
depois da ponte da fonte
busca a nascente o poente
vou-me embora pro horizonte
não me pergunte o quadrante
nem me peça que o aponte
vou-me embora pro horizonte
(lá onde o sol alua)
*
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
pôr de lua
líria porto
estou naquela fase
cheia de resumo
foge-me o verso
a rima escapole-me
peço a são jorge
lave-me leve-me
love me
*
estou naquela fase
cheia de resumo
foge-me o verso
a rima escapole-me
peço a são jorge
lave-me leve-me
love me
*
domingo, 9 de novembro de 2008
na mesma moenda
líria porto
encontros diários
ficaram semanais
mensais
e eu que era a outra
sei que há outra
mente para ela
para mim
ela acredita
eu finjo
(e vou dar-lhe o troco)
encontros diários
ficaram semanais
mensais
e eu que era a outra
sei que há outra
mente para ela
para mim
ela acredita
eu finjo
(e vou dar-lhe o troco)
*
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
(publicado no livro olho nu - ed. patuá) dentuça
líria porto
durante a tua ausência
deitei-me do outro lado
dormi de rosto colado
com a tua fronha
a saudade é uma doninha
a saudade é uma toupeira
ela rói dentro e fora
rói os ossos rói o peito
o corpo os sentimentos
a saudade rói os sonhos
e mostra os dentes
*
durante a tua ausência
deitei-me do outro lado
dormi de rosto colado
com a tua fronha
a saudade é uma doninha
a saudade é uma toupeira
ela rói dentro e fora
rói os ossos rói o peito
o corpo os sentimentos
a saudade rói os sonhos
e mostra os dentes
*
um mapa para vítor
líria porto
se vieres à tarde
à tua frente terás o pôr-do-sol
à esquerda mangas prestes a madurar
à direita uma parede
eu no corre_dor
(as grades ficarão para trás)
dormirás
em berço
de almo/fadas
*
se vieres à tarde
à tua frente terás o pôr-do-sol
à esquerda mangas prestes a madurar
à direita uma parede
eu no corre_dor
(as grades ficarão para trás)
dormirás
em berço
de almo/fadas
*
suflair
líria porto
ao cozer em fogo brando
certas letrinhas minúsculas
tomou-me espécie de encanto
recheá-las com borbulhas
deixá-las leves macias
iguais suspiros de açúcar
daqueles que em nossa língua
transformam-se em gostosuras
levam-nos a flutuar
em carruagens de espuma
*
ao cozer em fogo brando
certas letrinhas minúsculas
tomou-me espécie de encanto
recheá-las com borbulhas
deixá-las leves macias
iguais suspiros de açúcar
daqueles que em nossa língua
transformam-se em gostosuras
levam-nos a flutuar
em carruagens de espuma
*
anarquista
líria porto
fico a olhar a moça recolher o lixo
ajuntar o cisco com vassoura e pá
vem depois o vento está tudo limpo
espalhar as folhas bagunçar o pátio
*
fico a olhar a moça recolher o lixo
ajuntar o cisco com vassoura e pá
vem depois o vento está tudo limpo
espalhar as folhas bagunçar o pátio
*
(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - sumidouro
líria porto
foi-se o sol
levou meu xale de lã
igual a canoa
o sonho resvala
para as águas turvas
do inconsciente
os medos as dúvidas
tudo vem à tona
depois se dissipa
dentro da sombra
*
foi-se o sol
levou meu xale de lã
igual a canoa
o sonho resvala
para as águas turvas
do inconsciente
os medos as dúvidas
tudo vem à tona
depois se dissipa
dentro da sombra
*
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
(publicado no livro olho nu - ed. patuá) cheiro verde
líria porto
em nossa casa
quando nascia menino
vovó – cozinheira de mão cheia
fazia durante o resguardo
sopa de galinha com farinha de milho
muita salsa e cebolinha
meu pai engolia o quarto
quinto sexto sétimo oitavo
nono filho
às colheradas
depois dizia
sou rico
*
em nossa casa
quando nascia menino
vovó – cozinheira de mão cheia
fazia durante o resguardo
sopa de galinha com farinha de milho
muita salsa e cebolinha
meu pai engolia o quarto
quinto sexto sétimo oitavo
nono filho
às colheradas
depois dizia
sou rico
*
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
terça-feira, 4 de novembro de 2008
exagero
líria porto
qui-lo
pintou-se-me então um grilo
: se este for como o outro
e eu cometer a estultice
a sandice a imprudência
de elevá-lo ao altíssimo?
*
qui-lo
pintou-se-me então um grilo
: se este for como o outro
e eu cometer a estultice
a sandice a imprudência
de elevá-lo ao altíssimo?
*
crepúsculo
líria porto
um sino corta a pracinha
hora do ângelus
naquela conversa mole
de céu de mar de azul
enquanto o sol extrapola
bebe cerveja no bar
a lua fica lá fora
a caminhar pela areia
com sua saia de roda
e sandália rasteira
*
um sino corta a pracinha
hora do ângelus
naquela conversa mole
de céu de mar de azul
enquanto o sol extrapola
bebe cerveja no bar
a lua fica lá fora
a caminhar pela areia
com sua saia de roda
e sandália rasteira
*
(publicado no livro olho nu - ed. patuá) retorno
líria porto
chegar de viagem
entrar sem vacilo pela porta da frente
deitar a bagagem na sala
percorrer a casa
cômodo por cômodo
de canto a canto
e concluir
aqui é o paraíso
*
chegar de viagem
entrar sem vacilo pela porta da frente
deitar a bagagem na sala
percorrer a casa
cômodo por cômodo
de canto a canto
e concluir
aqui é o paraíso
*
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
vigia
líria porto
enquanto dormem
fico eu alerta
quando despertam
voo pra cama
e sem um toque
nenhum fonema
vidas se escorrem
(s)em segurança
(merde)
*
enquanto dormem
fico eu alerta
quando despertam
voo pra cama
e sem um toque
nenhum fonema
vidas se escorrem
(s)em segurança
(merde)
*
(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - perdição
líria porto
não sei o que fazer
em noites como esta
estou à flor da pétala
é essa lua portenha
a infiltrar-se nas brenhas
eu finjo não a desejo
invento sono bocejo
ela me roça
entrego-me
*
não sei o que fazer
em noites como esta
estou à flor da pétala
é essa lua portenha
a infiltrar-se nas brenhas
eu finjo não a desejo
invento sono bocejo
ela me roça
entrego-me
*
domingo, 2 de novembro de 2008
promessa
líria porto
juro pela língua que esta língua há de lamber
pelo cale-se do vinho cuja cor reduz-me o verso
pelos cravos e espinhos arrancados destas pétalas
pelos passos que caminham nestes caminhos de pedra
hei de me entoar poeta
*
juro pela língua que esta língua há de lamber
pelo cale-se do vinho cuja cor reduz-me o verso
pelos cravos e espinhos arrancados destas pétalas
pelos passos que caminham nestes caminhos de pedra
hei de me entoar poeta
*
sábado, 1 de novembro de 2008
cantoria
líria porto
enquanto o velho poeta
em seu cansaço abissal
arrisca um verso abstrato
a poesia concreta-se
no bico do pássaro
*
enquanto o velho poeta
em seu cansaço abissal
arrisca um verso abstrato
a poesia concreta-se
no bico do pássaro
*
fora do trilho
líria porto
trombada de nuvem dá cada estrondo
pior que trombada de trem
tem gente que afirma
nuvem é vapor
: eu não acredito
*
trombada de nuvem dá cada estrondo
pior que trombada de trem
tem gente que afirma
nuvem é vapor
: eu não acredito
*
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
manivela
líria porto
olhos vagos passos trôpegos
dedos trêmulos
quis voltar atrás
estrada sem retorno
caminho percorrido
foz de rio
*
olhos vagos passos trôpegos
dedos trêmulos
quis voltar atrás
estrada sem retorno
caminho percorrido
foz de rio
*
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
(publicado no livro olho nu - ed. patuá) filosofia
líria porto
frida foi à feira à fábrica à farmácia
enfrentou fila
fartou-se de feijão farofa frango frito
anfetamina fenilefrina fenilanina
frustrou-se
ficou frágil e infeliz
falei-lhe –– frida faz-me o favor
afrouxa a face flauteia flui
afirma-te
viver é outra coisa
*
frida foi à feira à fábrica à farmácia
enfrentou fila
fartou-se de feijão farofa frango frito
anfetamina fenilefrina fenilanina
frustrou-se
ficou frágil e infeliz
falei-lhe –– frida faz-me o favor
afrouxa a face flauteia flui
afirma-te
viver é outra coisa
*
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
oxalá
líria porto
nuv'encorpada
igual uma barca
vagueia no ar
o bafo de fogo
mormaço quentura
quem atura?
ô mandachuva
manda brasa
manda água
água
á
g
u
a
*
nuv'encorpada
igual uma barca
vagueia no ar
o bafo de fogo
mormaço quentura
quem atura?
ô mandachuva
manda brasa
manda água
água
á
g
u
a
*
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
culpa
líria porto
aquela mulher miserável
a remexer o lixo
fez-me sentir vergonha
do nosso estilo
de vítima
*
aquela mulher miserável
a remexer o lixo
fez-me sentir vergonha
do nosso estilo
de vítima
*
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
escaravelho
líria porto
anda a vida por aqui a passos largos
não consigo alcançar as próprias pernas
em tempo tão curto paguei muito caro
finaram-se cinco sextos da minha espécie
*
anda a vida por aqui a passos largos
não consigo alcançar as próprias pernas
em tempo tão curto paguei muito caro
finaram-se cinco sextos da minha espécie
*
recesso
líria porto
comer dormir e sonhar
usar chinelo de pano
roupa larga leque de abano
rir da morte das desgraças
andar de cara lavada
deixar que a vida te faça
afagos de vez em quando
*
comer dormir e sonhar
usar chinelo de pano
roupa larga leque de abano
rir da morte das desgraças
andar de cara lavada
deixar que a vida te faça
afagos de vez em quando
*
sobrevivente
líria porto
levei um tiro
entrou no ouvido
foi por um triz
bebi veneno
agora quero
dropes de anis
eu sou não muito
um quase tanto
porém feliz
a missa é omissa
mas meu pecado
é só preguiça
chega domingo
voo ao mercado
pinga e linguiça
ao fim the end
au revoir c'est fini
(tanto faz dar na cabeça
quanto na cabeça dar)
*
levei um tiro
entrou no ouvido
foi por um triz
bebi veneno
agora quero
dropes de anis
eu sou não muito
um quase tanto
porém feliz
a missa é omissa
mas meu pecado
é só preguiça
chega domingo
voo ao mercado
pinga e linguiça
ao fim the end
au revoir c'est fini
(tanto faz dar na cabeça
quanto na cabeça dar)
*
contorno
líria porto
seus braços
a exata medida
do meu manequim
:
não sobra nem falta
um milímetro
*
seus braços
a exata medida
do meu manequim
:
não sobra nem falta
um milímetro
*
a poesia
líria porto
acaricio-a
ela finge me querer
mas dorme com uns
com outras
:
puta com cara
de santa
*
acaricio-a
ela finge me querer
mas dorme com uns
com outras
:
puta com cara
de santa
*
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - altar
líria porto
tal como o padre ergue a hóstia entre os dedos
o sol se levanta atrás da montanha
e consagra a manhã
*
tal como o padre ergue a hóstia entre os dedos
o sol se levanta atrás da montanha
e consagra a manhã
*
preocupação
líria porto
persigo um cisco preto
não sei se ponto ou se letra
fecho o olho ele aparece
abr'olho ele se esguelha
ninguém dorme sossegado
com a pulga atrás d'orelha
*
persigo um cisco preto
não sei se ponto ou se letra
fecho o olho ele aparece
abr'olho ele se esguelha
ninguém dorme sossegado
com a pulga atrás d'orelha
*
arrepio de morte
líria porto
afastou-se de mim
afastei-me dele
e aquela história de pele
foi para o espaço
sorte nefasta que afasta de nós
o prazer
*
afastou-se de mim
afastei-me dele
e aquela história de pele
foi para o espaço
sorte nefasta que afasta de nós
o prazer
*
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
divisão de tarefas
líria porto
amor
limpa por favor a geladeira
não me sobrou um queijinho
cerveja laranja pudim tomate
ou pedaço de pizza
*
amor
limpa por favor a geladeira
não me sobrou um queijinho
cerveja laranja pudim tomate
ou pedaço de pizza
*
domingo, 19 de outubro de 2008
viúva negra
líria porto
a aranha ruiva
contrasta com luto
combina com lágrima
atiça os marmanjos
remexe com_padre
*
a aranha ruiva
contrasta com luto
combina com lágrima
atiça os marmanjos
remexe com_padre
*
rede
líria porto
(versos para lui)
o corpo balança ao sabor do vento
apascento as tristezas as preocupações
durmo ao relento releio drummond
(o sonho passeia
na praia de santos)
*
(versos para lui)
o corpo balança ao sabor do vento
apascento as tristezas as preocupações
durmo ao relento releio drummond
(o sonho passeia
na praia de santos)
*
sábado, 18 de outubro de 2008
ai meu pai
líria porto
(para fátima queiroz)
na pedra
dentro da sua couraça
a dor mais antiga da terra
a dor de existir
no rio
a pedra deitada em seu leito
chora e soluça calada
é dor resistir
*
(para fátima queiroz)
na pedra
dentro da sua couraça
a dor mais antiga da terra
a dor de existir
no rio
a pedra deitada em seu leito
chora e soluça calada
é dor resistir
*
terça-feira, 14 de outubro de 2008
domingo, 12 de outubro de 2008
(publicado no livro olho nu - ed. patuá) estupefata
líria porto
traíste-me partiste parti-me
puta que pariu fiquei tão triste
devia ter ficado indignada
*
traíste-me partiste parti-me
puta que pariu fiquei tão triste
devia ter ficado indignada
*
sábado, 11 de outubro de 2008
(peguei o sol no pulo) surto
líria porto
a mim não me importa
se o verso é curto se a rima é torta
se a morte furta o calor do corpo
o sangue o suor
prossigo absorto a tirar da aorta
o ardor a força e persigo a sorte
por sentir que a vida tem norte
e tem cor
a mim não me importa
se o verso é curto se a rima é torta
se a morte furta o calor do corpo
o sangue o suor
prossigo absorto a tirar da aorta
o ardor a força e persigo a sorte
por sentir que a vida tem norte
e tem cor
*
traição
líria porto
a ferida jorra
chaga aberta em minhas costas
suja o chão de vinho
bebo o sangue do barril
à pura que te pariu
*
a ferida jorra
chaga aberta em minhas costas
suja o chão de vinho
bebo o sangue do barril
à pura que te pariu
*
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
(peguei o sol no pulo) bisturi
líria porto
poeta
nau frágil
mar de emoção
navegar é preciosismo
escrever é precisão
*
poeta
nau frágil
mar de emoção
navegar é preciosismo
escrever é precisão
*
terça-feira, 7 de outubro de 2008
rouquidão
líria porto
se a pena emudecer
quero um bico um gorjeio um assobio
um rio pra rimar remar mudar de rumo
um amor roma romã
avessos e direitos
*
se a pena emudecer
quero um bico um gorjeio um assobio
um rio pra rimar remar mudar de rumo
um amor roma romã
avessos e direitos
*
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
fumaça
líria porto
queimou-se como vel(h)a
perdeu cera forma pavio
a c(h)ama ficou pouca
e agora
na penumbra
não deslumbra
nem son(h)a
fuma
*
queimou-se como vel(h)a
perdeu cera forma pavio
a c(h)ama ficou pouca
e agora
na penumbra
não deslumbra
nem son(h)a
fuma
*
domingo, 5 de outubro de 2008
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - botequim
líria porto
na quina da rua
a tonta da lua
fazia ponto
igual uma puta
naquela disputa
de homens
*
na quina da rua
a tonta da lua
fazia ponto
igual uma puta
naquela disputa
de homens
*
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nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio
(líria porto)
*
fiamos o plenilúnio
(líria porto)
*
quem tem pena de passarinho
é passarinho
(líria porto)
