sexta-feira, 30 de novembro de 2012

colo

líria porto

sou eu quem baldeia maria
levo-a por todo canto
vejo transbordar-lhe o riso
insisto em secar-lhe o pranto
:
rio-me às cataratas

*

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

alagado

líria porto

não peçam nem meçam o que faço
doo-me assim que poça

*

cobertor de orelha

líria porto

nem marido nem namorado
alguém que se deite comigo
e respeite o meu lado

*

safra

líria porto

os zeros não são nulos
os milhões são grãos de milho
para alimentarem os filhos
dos pobres de todo o mundo

*

escudo

líria porto

sei que tenho proteção
que em torno do meu corpo
tem um exército de almas boas
que me salva e me protege
dos espíritos obsessores

*


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - moldagem

líria porto

tão cedo eu me acordo com aurora no quarto
eu cerro meus olhos preciso dormir
lá longe se escuta o canto de um pássaro
adeus meu sossego tem verso na agulha

tal como a bigorna que bate que surra
que insiste em dar forma às barras de ferro
assim faz a mente com meu sentimento
até que ele tenha compasso de música

vem dia vem noite vem sol e vem chuva
a lua se esconde por trás de uma nuvem
porém meu poeta lhe sai à procura

vasculha os escuros o espaço o infinito
arreda as estrelas recolhe a neblina
faz tudo o que pode – sua lua o sepulta

*



terça-feira, 27 de novembro de 2012

ao pé da árvore

líria porto

palhinhas e galhos secos
um ninho quase completo
o vento a fazer besteira
tem passarinho sem teto

*

rangidos

líria porto

a cadeira de balanço
suas molas tão antigas
suportaram sucessivas
barrigas de nove meses

*

poema para wânia

líria porto

ela aleitou a letícia e também a luciana
lavou-lhes fraldas cabelos - minha irmã já tens o céu
isso é merecimento não precisas rezar tanto
podes rasgar o verbo as meninas são mulheres
e agora o mundo é delas

*

folgados

líria porto

tal como o domingo ou sábado à tarde
um vestido velho um par de chinelos
o riso do amigo um disco antigo
um nó desfeito

*

(peguei o sol no pulo) babado

líria porto

a vida não é justa
–– é plissada franzida godê ––
e é curta

*

emoção

líria porto

um canto em cada canto
tal encanto a transbordar-me
se eu cantasse acalantos
guardava espantos na lágrima
teria nós na garganta
seria santa ao contrário

*

biruta

líria porto

para onde vou eu não sei
de onde vim nem me lembro
eu cá estou en_caminho-me
com essas asas de vento

*

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

compromisso

líria porto

respondo pelo que faço
mesmo quando eu me perco
nalguma queda de abraço

*

acusação

líria porto

apontou-me o dedo assim
como se fora um revólver
dei meia volta e senti
a dor de um tiro
nas costas

*

acerto

líria porto

pode chover canivete faca prego punhal
quando devo eu pago mas também pego
meu troco

*

leviana

líria porto

botei-a numa bateia
junto com muita gente
peneirei lá não ficaste
só selecionei as gemas
as que têm muito valor
que se prestam à amizade
jamais à enganação
à cobiça ao interesse
:
fica longe bem atrás
de ti eu quero
distância

*

atração

líria porto

quem quer não espera
os rios caminham e o mar os recebe
de águas abertas

*

domingo, 25 de novembro de 2012

desjuízo

líria porto

eu tento entender o vento
ouvi-lo um pouco mais calma
porém perco a paciência
ele vai vem assobia
tira a roupa do varal
bate a porta espalha as folhas
enche a casa de poeira
não presta atenção em mim

*

vogal

líria porto

assim eu me assanho
assim eu me assento
assim eu me assisto
assim eu me assomo
assim eu me assunto
:
nua

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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