líria porto
estas meninas de minas
com elas não tem miséria
tais como broas de milho
goiabada pães de queijo
feitos em fogão de lenha
estas mulheres rendadas
poetas joias mineiras
são feras demais ferozes
defendem a pátria a prole
iguais as onças pintadas
panteras jaguatiricas
não pisem nos calos delas
nem lobos e nem raposas
poetas minas mimosas
perfumosas mais que flor
plantam versos como horta
no coração na aorta
da gente simples
do povo
*
terça-feira, 30 de junho de 2009
imersão
líria porto
dormi sobre o teu livro
senti todas as folhas me abraçarem
deste-me longos beijos nos capítulos
as vírgulas lamberam-me
pontuaram-me
no sussurrar das tuas reticências
tu me arrepiavas
mordiscavas-me com a tua sutileza
enfiavas-te pelas minhas fendas
e teus versos deslizavam-se em meu corpo
tais quais versos de seda
pressenti tua presença em cada linha
em todas havia o teu perfume
eras tu que passavas as minhas páginas
conhecias-me os detalhes
desvendavas meus segredos
:
com a língua
*
dormi sobre o teu livro
senti todas as folhas me abraçarem
deste-me longos beijos nos capítulos
as vírgulas lamberam-me
pontuaram-me
no sussurrar das tuas reticências
tu me arrepiavas
mordiscavas-me com a tua sutileza
enfiavas-te pelas minhas fendas
e teus versos deslizavam-se em meu corpo
tais quais versos de seda
pressenti tua presença em cada linha
em todas havia o teu perfume
eras tu que passavas as minhas páginas
conhecias-me os detalhes
desvendavas meus segredos
:
com a língua
*
folia
líria porto
quem lá no céu esparrama
nuvens depois do almoço
espalha no azul barroco
flocos e flores brancas
tem santo pra todo lado
tem anjo a fazer bagunça
a semear no assoalho
algodão doce
e açúcar
é um deus nos sacuda
*
quem lá no céu esparrama
nuvens depois do almoço
espalha no azul barroco
flocos e flores brancas
tem santo pra todo lado
tem anjo a fazer bagunça
a semear no assoalho
algodão doce
e açúcar
é um deus nos sacuda
*
afronta
líria porto
a pedra enfrenta o mar
olha-o desafiadora
ele vem bate de frente
espatifa-lhe a alma
ela não arreda o pé
não doeu não doeu
ele volta dá-lhe um soco
e a cena se repete
(arde-lhe o corpo
porém rocha não se entrega)
a pedra enfrenta o mar
olha-o desafiadora
ele vem bate de frente
espatifa-lhe a alma
ela não arreda o pé
não doeu não doeu
ele volta dá-lhe um soco
e a cena se repete
(arde-lhe o corpo
porém rocha não se entrega)
*
segunda-feira, 29 de junho de 2009
respingos
líria porto
e quando a chuva caía
eu ia com a enxurrada
beirava rente a calçada
descia junto da flor
e ria a risada d'água
aquela alegria d'água
brincava que era a flor
mas depois sentia frio
lembrava-me então do rio
da flor que o rio levou
e os meus olhos choviam
:
eu era como a enxurrada
fui ficando poça d'água
que o tempo chorou
chorou
*
e quando a chuva caía
eu ia com a enxurrada
beirava rente a calçada
descia junto da flor
e ria a risada d'água
aquela alegria d'água
brincava que era a flor
mas depois sentia frio
lembrava-me então do rio
da flor que o rio levou
e os meus olhos choviam
:
eu era como a enxurrada
fui ficando poça d'água
que o tempo chorou
chorou
*
domingo, 28 de junho de 2009
convivência
líria porto
queixou-se do muito sal
do excesso de pimenta
disse-lhe – aguenta amor
felicidade carece
tempero
*
queixou-se do muito sal
do excesso de pimenta
disse-lhe – aguenta amor
felicidade carece
tempero
*
sem cerimônia
líria porto
cheirou-me lambeu-me
partiu-me em pedaços
comeu o que quis
e o resto deixou
às baratas
(os ratos tiram proveito)
*
cheirou-me lambeu-me
partiu-me em pedaços
comeu o que quis
e o resto deixou
às baratas
(os ratos tiram proveito)
*
sábado, 27 de junho de 2009
rente
líria porto
um cão que me mordesse o calcanhar
o chão que sujasse minha sola do pé
um bicho-de-pé que coçasse
a meia furada
o sapato apertado
um calo no dedo
:
qualquer coisa que não fosse
indiferença
*
um cão que me mordesse o calcanhar
o chão que sujasse minha sola do pé
um bicho-de-pé que coçasse
a meia furada
o sapato apertado
um calo no dedo
:
qualquer coisa que não fosse
indiferença
*
sem comparação
líria porto
sou pequenina
das pernas grossas
nasci na roça
vim pra cidade
belas são altas
cambitos finos
elas nos pisam
com pés de alface
*
sou pequenina
das pernas grossas
nasci na roça
vim pra cidade
belas são altas
cambitos finos
elas nos pisam
com pés de alface
*
chapeuzinho
líria porto
não vi os teus pelos
não sei se são crespos
compridos vermelhos
se lisos curtinhos
de piche ou de milho
só quero um chumaço
um cacho
um pentelho
:
sou lobo bom
(de bico)
*
não vi os teus pelos
não sei se são crespos
compridos vermelhos
se lisos curtinhos
de piche ou de milho
só quero um chumaço
um cacho
um pentelho
:
sou lobo bom
(de bico)
*
(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - sofreguidão
líria porto
a minha cadela
pequena vadia
comeu os meus versos
cagou poesia
morrer não morreu
ficou aluada
não morde não late
os olhos na estrada
se vê um cãozinho
faz olhos de arrego
se vê um poeta
a_deus meu sossego
*
a minha cadela
pequena vadia
comeu os meus versos
cagou poesia
morrer não morreu
ficou aluada
não morde não late
os olhos na estrada
se vê um cãozinho
faz olhos de arrego
se vê um poeta
a_deus meu sossego
*
(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - prenhez
líria porto
esta doida de sentires e de pedras
de nublares de viveres e de luas
de sonhares de tornados de dilúvios
esta insana das noites seculares
dos falares dos silêncios dos transtornos
das tempestades desaguares e de lama
esta louca dos amores impossíveis
das demências dos pulsares dos entornos
das claridades dos escuros e dos vãos
esta mulher como tant(r)as
habita-me
*
esta doida de sentires e de pedras
de nublares de viveres e de luas
de sonhares de tornados de dilúvios
esta insana das noites seculares
dos falares dos silêncios dos transtornos
das tempestades desaguares e de lama
esta louca dos amores impossíveis
das demências dos pulsares dos entornos
das claridades dos escuros e dos vãos
esta mulher como tant(r)as
habita-me
*
poente (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)
líria porto
não é noite ainda
nem dia
nesta hora aflita
ninguém interdita
o ocaso
fica mais um pouco
espera a estrela
ela não demora
hoje é domingo
ou segunda-feira?
(não importa o tempo
não importa a mágoa
esse limiar
é e sempre foi
a gota d'água)
a vida se esvai
esgota-nos apouca-se
salve-se o amor
alvo dos chacais
cria indefesa
*
não é noite ainda
nem dia
nesta hora aflita
ninguém interdita
o ocaso
fica mais um pouco
espera a estrela
ela não demora
hoje é domingo
ou segunda-feira?
(não importa o tempo
não importa a mágoa
esse limiar
é e sempre foi
a gota d'água)
a vida se esvai
esgota-nos apouca-se
salve-se o amor
alvo dos chacais
cria indefesa
*
eterno
líria porto
) agora é sempre agora
embora já não seja (
*
agora é menos
que um piscar de olhos
) agora é sempre agora
embora já não seja (
*
confiança
líria porto
em teu barco embarco de borco
de lado de costas de cócoras
em cima de um barril de pólvora
na proa na popa no fundo
e se o barco naufragar
afundo junto
*
em teu barco embarco de borco
de lado de costas de cócoras
em cima de um barril de pólvora
na proa na popa no fundo
e se o barco naufragar
afundo junto
*
coitadinha
líria porto
fui ali ouvir a chuva
escutar a sua história
ela fala ela sussurra
ai meu deus a chuva chora
mais parece uma viúva
xale cinza –– rima
pobre
*
fui ali ouvir a chuva
escutar a sua história
ela fala ela sussurra
ai meu deus a chuva chora
mais parece uma viúva
xale cinza –– rima
pobre
*
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dedicatória
nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio
(líria porto)
*
fiamos o plenilúnio
(líria porto)
*
quem tem pena de passarinho
é passarinho
(líria porto)