quarta-feira, 2 de março de 2016

plantio

líria porto

as letras
as sílabas
as palavras
a sentença
:
lavrai a língua
semeai em fileiras
todas as luzes
e sombra

*

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

polidez

líria porto

não cito ninguém
um pouco porque não devo
um pouco porque sei aquém

vivo à margem do trem que percorre
teus trilhos

*

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

impunidade

líria porto

silêncio espanto
pessoas esquálidas
a lua inquieta
e na moita
o covarde

*

livres

líria porto

mares rios 
ventania

o pensamento 
não para

ninguém acorrenta 
o tempo

nem algema 
a tempestade

*

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

desigual

líria porto

de cima para baixo a pressão
o mercado a exigir super-homens

de baixo para cima
o esforço o cansaço o suor
dos que tentam vencer obstáculos
por mérito próprio

(o tubarão e as sardinhas)

*

língua bipartida

líria porto

fala mal dos amigos
(dos bem sucedidos)
tentará atingi-los
colocá-los na mira
pois que seu fracasso
abrirá um caminho
à mediocridade
(esse ser rastejante)

*

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

negociatas

líria porto

queimaram a mata o pomar
e tudo virou pasto
:
não sobrou nenhuma árvore
nem sequer um pé de fruta

(o que dá lucro
é o gado)

*

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

vai e vem

líria porto

moças num piscar de olhos
amadurecem viram velhas
e de novo voltam a ser
meninas com pés
de galinha

*

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

minhoca

líria porto

perco a cabeça
e toda vez que ela some
arrasto-me sem rumo
daqui pr'ali pra lá
procuro-a
e que loucura
sem cabeça olhos boca nariz
lembrança nenhuma

(servir de isca)

*

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

preferências

líria porto

há quem goste de adjetivos
advérbios –– eu não
prefiro substantivos pronomes
(nada que os qualifique
ou retire seu valor)
e o movimento dos verbos

(pão pão
queijo queijo)

*

dona dona

líria porto

não fez enxoval
nunca quis se casar
mas para fugir do pai
(ele era uma fera)
arrumou um consorte
:
deu azar

*

desejo

líria porto

procuras-me nos sonhos
e nós – antigos amantes
deitados na mesma cama
consolamo-nos

(cinzas
debaixo
de brasas)

*

domingo, 14 de fevereiro de 2016

filme caseiro

líria porto

vi-me pelo lado de fora
sem saber o que pensava
o que faria adiante

achei-me estranha
justo naquela hora
e com gente
tão íntima

*

resistência

líria porto

baratas são fortes
vivem (sempre viveram) e sobrevivem
a chineladas e aerosóis

(vovô usava
bomba de flit)

*

sábado, 13 de fevereiro de 2016

cunha

líria porto

não vale a comida que come
o chão que pisa nenhum tostão 
dólar furado ou risco n'água
:
não vale nádegas

*

amarras

líria porto

falo de nós
(a palavra é laço)
e eu temo
que tudo se desfaça

*

abalos

líria porto

só tomo remédio
em último caso
casei-me com médico
e ele revela
não sou paciente

(na hora da crise
o pau come)

*

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

haicai

líria porto

manancial de azul
os dias nessa secura
o gado faminto

o poeta

líria porto

jogavam palavras fora
catava-as uma por uma

palavras sujas sem lume
limpava-as colava-as todas

e elas – mesmo encardidas
tornavam-se-lhe preciosas

(com elas fazia livros)

então voltava às esquinas
e pedia esmolas

*

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

o inseto

líria porto

dentro do mato
sacos e sacos de lixo
e quem fez isso – eu acho
posso chamá-lo
assassino

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

Arquivo do blog