segunda-feira, 12 de setembro de 2011

guia (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto


pé limpo foi com pé sujo
descobrir caminhos

não sabia dos espinhos
nem dos pedregulhos

deu uns pulos sentiu dor
mas pé sujo lhe ensinou

não chores nem fiques triste
com o tempo o couro engrossa

e viver aqui no mundo
é para os fortes

*

despoema

líria porto

a caneta
não escreve

os segredos
eu não conto

tudo é breve
grave greve

faz de conta

*

sábado, 10 de setembro de 2011

irreconhecível (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto

eu tinha uma canoa –– minha
boa
com ela atravessava o rio
ria
ia
beirava o horizonte
e debaixo do arco-íris
virava homem
:
a barba crescia eu voltava
bebia com os pescadores
contava vantagem

*

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

fragil_idade

líria porto

meu coração uma bomba
bate/apanha leva tombo
cada tunda cada pé
na bunda

não tem vergonha?

*

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

as coisas não são o que são

doido

líria porto

desde que rachou a cabeça
o prego não bate bem
:
fica tão confuso
              e em parafuso
enrosca-se inteirinho
na bucha da parede

*

borracha

líria porto

o coração é um balão vermelho
repleto de (des)ilusão – ou murcha
ou estoura

*

florida

líria porto

pele de pétala
a mocidade é bonita
como a primavera

*

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

sovado é o pão que o diabo amansou

monocultura

líria porto

a cana chupa a terra
e deixa só o bagaço

*

sonolência

líria porto

sol meio sonso
desses d'inverno
roça o horizonte
e a minha janela
boquiaberta
fita-o de longe
como se quisesse
puxar pela ponta
sua manta
de lã

*

terça-feira, 6 de setembro de 2011

melancolia

líria porto

partiste
o alegre ficou triste
o triste irrecuperável

*

carências

líria porto

chegou ela era velha
ele era alto simpático
tinha vigor mocidade
instalou-se em sua cama
deitou-se espichou as pernas
ficou lá tal qual um lord

aceitou – fazer o quê
melhor assim que ninguém
mesmo que fosse breve
desse-lhe aborrecimento
um fruto assim suculento
não se bota para fora

ela até que remoçou
tornou-se alegre vaidosa
comprou joias roupas de seda
vai lhe dar um automóvel
(um conversível vermelho)
vai pô-lo no testamento

(os sobrinhos
aqueles que nunca vê
estão furiosos)

*

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

solidão que nada - todo poeta tem a musa que o habita

escuridão

líria porto

amanhãs que tardam noites eternas
nenhum canto de galo nenhum pássaro
silêncios são espectros

*

domingo, 4 de setembro de 2011

passarim

líria porto

passo e peço
posso passear em seu paço
possuir um pedaço do espaço?
:
sim sim sim
se solfejares swing

*


derradeira

líria porto

a passagem é uma viagem
às vezes rápida
              às vezes morosa
:
e ninguém deixará
de fazê-la

*

sábado, 3 de setembro de 2011

escola (um poema para diovani mendonça)

líria porto

letras são sementes em busca de mentes férteis
crianças são canteiros repletos de possibilidades

(pão e poesia alimentam corpo
                                          e espírito)

*

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

andorinhas

líria porto

cortam recortam o espaço
picotam as nuvens o azul

entrelaçam os olhares
bicam a claridade

juntam depois espalham
a purpurina solar

*

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

um canto

líria porto

ao rés do chão
para barulhar as caturritas
para decantar os olhos

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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