sexta-feira, 18 de setembro de 2020

chilique

líria porto

é que a rosa
tão segura
protegida
por espinhos
descabela
mais que as outras
desespero
sem motivo

*

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

a matriarca

líria porto


àquela alma devassa
o corpo virou clausura
:
os que não ficaram à altura
viraram cinzas escaras

*

voo

líria porto

ao chegar a minha hora
parto sem dor e sem fórceps

*

quase

líria porto


afora a muita idade
que molesta alguma junta
(mais de três quartos de século)
eu tenho boa saúde
e plena capacidade
de me fazer companhia
arrumar minha bagunça
cuidar de mim e das coisas
reclamar do desgoverno
agradar o neto
a neta
e tentar tecer uns versos

(porém olho espio
nem sempre enxergo
:
tenho mais de um ponto cego)

*

domingo, 13 de setembro de 2020

níveis

líria porto


os que a ignoram
os que fecham os olhos
os que só a olham com binóculos
os que caminham com ela
e aceitam a morte
como integrante
da trajetória

*

margarida

líria porto


agudos obtusos
jamais um ângulo reto – então
por favor
não me enquadrem
prefiro a forma do circo
da bola da lua
do que é feito em compasso
:
qual uma flor com miolo
que abriu mão
do perfume

*

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

furtacor

líria porto


chamam-me
sonolenta desconverso
viro pro canto cochilo
percebo –– existe um grilo
a zumbir no meu ouvido
abro o olho e só vejo
escuridão

*

domingo, 6 de setembro de 2020

até quando?

líria porto


os silêncios grávidos
de palavras de aplausos
de risadas

*

(peguei o sol no pulo) lui

líria porto


acordar que pesadelo
partiste pra não voltar e no sonho
é que te vejo

*

terça-feira, 1 de setembro de 2020

empatia

líria porto


as paredes
têm-me ouvido
os silêncios
os sussurros
os gemidos

*

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

despedida

líria porto


esvai-se pouco a pouco
a minha flor
vou-me a passos largos

*

carência

líria porto


eu tive a alma marcada
com ferro e fogo
por isso rio de lado
trago nos olhos dois lagos
e essa mania de polvo
:
quero um abraço

*

tensões

líria porto


a morte puxa de um lado
a vida de outro
até que a corda rebente
do lado mais fraco

*

isolados

líria porto


durante a pandemia
as dores aparecem a poesia some
e a gente come mais do que devia

*

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

lombada

líria porto


outra vez pelas encostas
a dor escala a colina
do sopé até o cume
(do cóccix até a nuca?)
e a velha montanha de guerra
soterra sua postura

*

terça-feira, 25 de agosto de 2020

a minha margem de erro adora pisar em falsos

olhar

líria porto


quem nos mede dos pés à cabeça
tem complexo de inferioridade

*

cético

líria porto

sou o tipo da pessoa
que duvida das certezas
e põe fé nas dúvidas

nocaute

líria porto


o cúmulo da elegância
é um tapa com luva
de pelica

divórcio

líria porto

da porta pra dentro um cavalo
da porta pra fora um gentleman
condenaram-na - mulher infiel
um homem tão bacana

*

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

ameaçador

líria porto


um vilão invisível
exilou-nos em nossa casa
acorrentou-nos a nós mesmos
afastou-nos dos filhos dos netos
dos amigos
condenou-nos a morrer
sozinhos

*

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

cambalhota

líria porto

funciono na vertical
porém se oblíquo da vida
ponho-me na horizontal
espero o âmago animar-se
dou novo salto (i)mortal
e confesso piamente
odeio rima
                 e abacate

*

terça-feira, 18 de agosto de 2020

incógnitas

líria porto


não sei não sabes
pouco sabemos
uns sobre os outros
sobre nós mesmos


domingo, 16 de agosto de 2020

periculosidade

líria porto


seu orlando
o terrível comunista
perseguido pelos militares
preso durante a ditadura
esculpia anjos e rosas de madeira
contava histórias para crianças
e deixava torneiras mal fechadas
para dar de beber 
aos marimbondos


sábado, 15 de agosto de 2020

recanto

líria porto

chegava meio fugido e saía de soslaio
quando eu o devolvia para o recinto do lar

:
eu era só seu oásis


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

turbulência

líria porto


o mundo de ponta cabeça
a gente de pernas pro ar
se desistir me enfraqueço
se resistir quebro a cara

eu vou do quarto pra sala
eu volto da sala pro quarto
o corredor me espiona
parado no meio da casa

preciso ter paciência
fazer desfazer remendar
já sei – a vida tem preço
e a hora do verso 

é no caos


*

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

incompleta

líria porto


cristalinos e amígdalas
vesícula apêndice um rim
útero ovários memória
equilíbrio juízo paciência
alguns dos dentes

:
faltam-me uns pedaços
nem por isso sou vazia


*

monotonia

líria porto

ontem pareceu-me domingo
hoje parece-me também
se amanhã for domingo
– sequência de dias inúteis –
o eixo do mundo emperrou
ou eu morri
e não sei

*

desgosto

líria porto


o meu verso já foi doce
e até apimentado
depois se tornou azedo
agora meu verso amargo
é o retrato falado
de um tempo de fel na boca
saliva grossa
tristeza

*

profundidade

líria porto


uns passam ao largo
não prestam atenção
olham e não veem
outros atêm-se aos detalhes
percebem as linhas
as nervuras
perguntam interessam-se
querem saber mais


*

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

extermínio

líria porto


se eu fosse autoridade
mandasse em alguma coisa
fazia plantar quaresmeiras
ou talvez pés de ipê roxo
onde houvesse covas rasas
(ou pelo menos no entorno)
pra que ninguém se esquecesse
que num tempo em minha pátria
(2020 - ano da pandemia)
existiu um desgoverno
(da cloroquina ao ozônio)
que não assistiu seu povo
permitiu e incentivou
que houvesse morte
em massa

*


sábado, 8 de agosto de 2020

bumerangue

líria porto


eu que amei doidos e putas

brumas e tempestades 

confesso que nesta vida

também eu fui bem amada


*

fura-buxo

líria porto


a morte antecipada
de uma das suas flores
revelou-lhe o que sabia
não tinha nenhum preparo
para perdas prematuras
pras ciladas do destino
metido a inverter a ordem
:
esperasse a sua vez


*

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

tom conselheiro

líria porto


segundo meu alter ego
poetas são tristes
(ou mal-humorados)
clamam da vida
do sofrimento
não riem de si
falam o menos possível
(e de preferência
mantêm silêncio)

mandei-o à merda
e agora na dúvida
(sou libriana)
:
fiz mal
ou fiz bem?


*

insônia

líria porto


eu era boa de cama
deitava e dormia

a pandemia bagunçou
meu lençol


*

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

desprezíveis

líria porto

os ricos são péssimos
(os homens de bem)
só têm compromisso com o lucro
e reservam ao resto do mundo
seu asco veneno
e dejetos

(os podres de ricos)

*

vergonha

líria porto

o cheiro de amônia na cama e na alma
mamãe e os demais a chamarem-me mijona
eu tinha vontade morrer mas o sonho era maior
e crescer
a saída possível

terça-feira, 4 de agosto de 2020

agora

líria porto

o antes já se foi
e o depois
quem garante?


*

sexta-feira, 31 de julho de 2020

falastrão

líria porto


quem não diz a verdade
rasura tanto as palavras
e depois remenda-as


(mal 
e porcamente)


*

responsabilidades

líria porto

as palavras  quase todas
pesadas medidas adequadas
funcionam como carimbo
são ferros que marcam o gado

*

dona dona

líria porto


engoliu a voz
guardou as palavras consigo
e pedia com os olhos
e agradecia com sorrisos
e a partir desse dia
só falou por escrito


*


(peguei o sol no pulo) empatia

líria porto

cada qual – plural e singular
multiplica-se ou se divide conforme
a circunstância

*

quarta-feira, 22 de julho de 2020

legado

líria porto

minha mãe me deixou de herança
uma asa extirpada de anjo
e uma dor nas costas

essa dor se me monta à cacunda
e é sem dó que me finca
a espora

*

terça-feira, 21 de julho de 2020

inferioridade

líria porto

um homem minúsulo
com intensa preferência
por mulheres grandes
:
nem olhava o caráter
bastava-lhe a altura 
a largura do quadril
o tamanho da bunda
e dos peitos

(foi esmagado 
pelo bico do sapato
da madame)

*

quinta-feira, 16 de julho de 2020

incompletude

líria porto

o sonho recorrente
         quase um pesadelo

na subida do colégio
o uniforme impecável
os livros a tiracolo
perceber os pés descalços
e não haver tempo hábil
pra voltar
                pra prosseguir

*

sexta-feira, 10 de julho de 2020

limites

líria porto

a vida
um corredor
melhor
quanto mais largo

*

quinta-feira, 9 de julho de 2020

parceiro

líria porto

é que aqui o vento urra
e eu que adoro o vento
mais e mais o estimulo
urra vento urra muito
que estou a ficar surda
:
e aí o vento zune

(zune
e uiva)

*

regressão

líria porto

o poeta nasce velho
demonstra sabedoria
já maduro ele adolesce
apaixona-se pela lua
passa o tempo
passa o vento
re_conhece a meninice
engatinha até as nuvens
suga as tetas da montanha
olha tudo com espanto
enrola-se no próprio
umbigo

*

quarta-feira, 8 de julho de 2020

moça-velha

líria porto

a flor regateira
na beira da estrada
que sobe o barranco
nem pede licença
que nasce ali mesmo
na chuva
na seca
é a flor predileta
dos filhos da terra
e dos andarilhos

*

segunda-feira, 29 de junho de 2020

a dança

líria porto

a vida fosse um tango
mal não haveria que me conduzisses
mas viver é um bailado solo
:
eu me vire
tu te conformes

*

domingo, 28 de junho de 2020

bagunceiro

líria porto

o vento
ô moleque malcriado
chuta a porta espalha o cisco
faz de mim gato
e sapato

*

aterrissagem

líria porto

o tempo como uma águia
voa rápido vai tão longe
todos nós em suas garras

quando chega a nossa hora
entrega-nos a um paraquedas
que não se abre

*

sexta-feira, 26 de junho de 2020

carnívoro

líria porto

o louva-a-deus é voraz
devora sem piedade
moscas baratas passarinhos
serpentes gafanhotos mariposas
borboletas joaninhas grilos
lagartixas
e prefere comê-los
vivos

(em nome de deus
o diabo)

*

registro

líria porto

no fatídico ano de 2020
um tal corona vírus
–– pelo conluio e/ou omissão das autoridades constituídas ––
contaminou e matou milhões de homens e mulheres
e sepultou em covas comuns
–– sem a presença da família e dos amigos ––
suas pobres carnes

*

quinta-feira, 25 de junho de 2020

apartamento 903

líria porto

estou numa bolha
e dentro dela
a orquídea a cebola
o fogão a panela
os livros os papéis
as notícias da morte
a cama as cobertas
a saudade dos netos
e o tempo que passa
inexorável
:
no espelho
uma velha

*

afazeres

líria porto

se penso que sou minha escrava
estou muito enganada

faço o que quero
quando quero
como quero
e se não ficar do meu agrado
eu me dane

*

domingo, 21 de junho de 2020

peleja

líria porto

ao nascer sobrevivi
pra viver –– muitos tropeços
e morrer ninguém garante
possa haver algum
sossego

*

sábado, 20 de junho de 2020

crateras

líria porto

o dedo podre do chefe
seleciona auxiliares
entre os piores canalhas
com eles promove estragos
e transforma nossa pátria
num terrível cemitério

*

quinta-feira, 18 de junho de 2020

sonetinho pandêmico coletivo

líria porto

deitar ao relento
cobertos por terra
sob o olhar da estrela
nosso sono eterno

última aventura
sequer algum plano
e na companhia
dessa gente estranha

(tal qual fosse guerra
todos condenados
à morte sumária

uma pá de cal
a terra por cima
a gente debalde)

*

tititi

líria porto

tal cobra venenosa
a língua bipartida
da maledicência

*

quarta-feira, 17 de junho de 2020

dona de casa

líria porto

nunca foi uma brastemp
não almejava ser máquina
nem modelo para nada
tinha medo de robôs
e desprezo por maridos
esses ladrões de energia

*

segunda-feira, 15 de junho de 2020

dos pesos e desmedidas

líria porto

rica
bonita
talentosa
e a outra
dio santo
desamada
desprovida

) vário
é o desígnio
do adeus (

*

pedido

líria porto

plantem um ipê amarelo
sobre minha cova rasa
ou deitem-me as cinzas
aos pés da sibipiruna

*

baixo clero

líria porto

em nome de deus
a mando do diabo
a política veste farda

(brasil
velório coletivo
sepultamento em massa)

*

sábado, 13 de junho de 2020

enfermos

líria porto

quando a vida mastiga os corpos
a morte tem piedade

*

fernando

líria porto

quisera alisar tua calva
deixar teus bigodes fazerem-me cócegas 
sentar-me contigo à beira do rio
sossegadamente - as mãos enlaçadas
:
trair-te com teus heterônimos

*

sexta-feira, 12 de junho de 2020

con_finados

líria porto

o acampamento
bom por uns tempos
quebra a rotina
expande nosso espírito
mas a volta aos trilhos
por mais necessária
ela acaba sendo
o teu caminhar
sobre uma navalha
:
estás por um f(r)io

*

quinta-feira, 11 de junho de 2020

muralhas

líria porto

em nome do progresso
os homens plantam prédios
caixotes de concreto
empilham as janelas
estendem as paredes
impedem nossos olhos
de irem além
do nariz

(de pouco em pouco
um rato come
       meu horizonte)

*

sexta-feira, 5 de junho de 2020

(peguei o sol no pulo) homilia

líria porto

a pomba gorducha
da dona beata
armava a garrucha
do senhor vigário
que todo domingo
lá na sacristia
comia-a e louvava
a virgem maria

*

quarta-feira, 3 de junho de 2020

seirabeira

líria porto

a flor que outra flor me trouxe
tão rubra quão seus cabelos
aquela veio em buquês - a outra
é a mãe do pedro

*

contraponto

líria porto

sou maria vai co'as ostras
sempre à procura das pérolas
as legítimas –– tão difíceis
não as outras
feitas em laboratório
como os falsos democratas
(oportunistas golpistas)
que ora formam manadas
travestem-se de patriotas
e assinam manifestos
depois de terem apostado
no que há de pior
mais nefasto

(nós os conhecemos
e não é de hoje)

*

terça-feira, 2 de junho de 2020

calma

líria porto

jacarés no alagado
dormem - parecem pedras
a água se move ao lado
as asas da borboleta

nuvens passam
                   lavam o azul

*

desfile

líria porto

do alto da sua pose
a girafa me desdenha
não sou como aquela moça
que brilha na passarela
que passa como se fosse
a mais bonita gazela
a rainha do universo

*

sopro

líria porto

o vento
é o fio condutor
do frio

*

fome

líria porto

ante a frieza
a poesia congela
não tem comida na mesa
só esse grito
na goela

*

haicai

líria porto

a lua crescente
igual papoula amarela
plantada na treva

*

haicai

líria porto

luas perambulam
flutuam na escuridão
atrás dos planetas

*

desmito-o

líria porto

comparo nero com naro
e sem pôr a mão no bolso
taco fogo no ignaro

*

musical

líria porto

as lâminas da persiana
(qual teclado de piano)
dedilhadas pelo vento

*

displicência

líria porto

empurra co'a barriga
depois perde a cabeça
e paga alto preço
pela preguiça
:
está sempre
em dívida

*

quarta-feira, 27 de maio de 2020

auriga

líria porto

a vida é uma égua
que puxa minha carroça
a morte maneja as rédeas

*

sexta-feira, 22 de maio de 2020

esvaziamento

líria porto

tão sem poesia
meu verso
arremedo de ironia e medo
ao arrepio da letra
faz silêncio

*

a odontóloga

líria porto

a moça
com todo o aparato
tal qual astronauta
no meu céu da boca
sondava as crateras
por onde caminha
a dor
:
achou-a
num
canal
estreito

*

machão

líria porto

há uma espécie de gajo
que puxa o saco do chefe
desconsidera as mulheres
escraviza os subalternos
e mora dentro
                     do armário

*

cautela

líria porto

negaram o mar aos mineiros
em compensação
além das montanhas
dos campos
temos queijo goiabada
fogão de lenha
e poupança

*

domingo, 17 de maio de 2020

origem

líria porto

eu já sabia
o endereço
da avó maria
não ia lá

sua pobreza
incomodava-me
e eu morava
naquele bairro
de gente besta
onde as pessoas
ignoravam-me
por eu ser preta

*

sábado, 16 de maio de 2020

elas

líria porto

às divas os divãs
às marias o fogão
o tanque
a pia

*

comunicado

líria porto

tu não sabias –– pois saibas
quem me cura da agonia de viver
é a poesia

*

16 de maio

líria porto

à segunda década
(definitiva)
entrou menina
(maricota)
sairá mulher
(maria luiza)
autônoma
dona absoluta
dos seus dias
:
beijos
meu amor
sê feliz

*

quinta-feira, 14 de maio de 2020

bunda lelê

líria porto

amigos me seguem
um vírus me persegue
filhas e netos telefonam-me
porém quem me faz companhia
(livros lápis papel poesia)
é esse mau jeito acidulce
de fazer piadinha

*

terça-feira, 12 de maio de 2020

incompreensível

líria porto

sou a ovelha grega da família
o que falo ninguém entende

*

in_capaz

líria porto

em tudo fui leiga
legal umas vezes
noutras ilegal
da morte sei pouco
da vida quase nada
nem o necessário
pra sobrevivência

*

segunda-feira, 11 de maio de 2020

haicai

líria porto

em tempos de vírus
com o coração nas mães
saudades dos filhos

*

apelo

líria porto

façamos de conta
que o baile é de máscaras
e dancemos sem par
por enquanto

*

perversos

líria porto

têm bílis nas veias
têm sangue nos olhos
veneno entre os dentes
e seus descendentes
e seus aderentes
têm ódio desprezo
pelo saber a ciência
e os pobres

seu deus
o dinheiro

sua intenção
o extermínio

até quando?

*

sábado, 9 de maio de 2020

delícia

líria porto

orquídeas assim
tão brancas
lembram-me flores de coco
doce que mamãe fazia
com a fruta in natura
fatiada bem fininha
numa plaina

açúcar água as fitas
até dar ponto de bala
depois com a colher de pau
batia-as bem e pingava-as
na mesa de mármore

*

per si

líria porto

um vírus emparedou-nos
estamos dentro de casa
prisioneiros de nós mesmos
guardiões do próprio cárcere

(quem não trabalha não come
quem suja limpa)

*

sexta-feira, 8 de maio de 2020

apocalipse

líria porto

num ano bissexto
(o ano da besta)
um ser turbulento
além da doença
dor e sofrimento
causou a desgraça
a pobreza a tristeza
de um povo inteiro
então sepultado
(verde e amarelo)
sem reza sem bênção
em cova rasa

o castigo chega 
a cavá-lo

*

quarta-feira, 6 de maio de 2020

insaciável

líria porto

dom juan tinha uma tara
além de encher a cara
depois de esgotar a vara
entre as pernas das mulheres
dormia de cor-de-rosa
com um lindo baby doll
colado em algum marmanjo
que usasse barba
e bigode

*

terça-feira, 5 de maio de 2020

entrelinha

líria porto

puta que me pari
parto sem dor

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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