não sei se por hábito
talvez de propósito
ao chegar em casa
raspava a garganta
então nós meninos
por medo da fera
do seu cinturão
(que nem era usado)
corríamos pro quarto
ou para o quintal
sem briga nenhuma
e sem palavrões
chegue a qualquer hora chore mágoas ninharias enxurre-me com falas tolas tome chá em minha xícara enxugue-se em minha toalha deixo até que ele cochile em minha cama entre as colchas porém sem passar da margem sem se achar o meu dono sem beijar a minha boca sem me chamar de amor
segundo quem acredita as nossas noites os dias quaisquer que sejam os momentos no balancete da vida serão contabilizados depois cobrados de todos com juros e correção
o frio queimava
doíam-nos as mãos
os pés a terra a folhagem
as raízes
morriam as plantas a esperança
e a gente ainda agradecia
:
melhor a lavoura
que nós
igual flor que despetala
(mal-me-quer mal-me-quer)
na sala tira os sapatos
joga a bolsa no sofá
arranca a blusa a saia
a calcinha o sutiã
larga tudo no assoalho
depois vai até a cozinha
pega a faca
e corta o pulso