eu na rua ele na rua
perguntou-me se podíamos
disse sim sem titubeio
desde então todos os dias
nunca mais nos separamos
tornamo-nos um par
de meios
:
tão iguais tão diferentes
como todos os casais
com remendos no dedão
buracos no calcanhar
entrou pela porta dos fundos
lavou os copos os pratos
necessitou tomar banho
usou a minha toalha
o roupão o sabonete
dirigiu-se até meu quarto
recostou-se em minha cama
cobriu-se com as cobertas
acordou pôs meus chinelos
as roupas pegou no armário
:
sentiu-se bem com direitos
fez de mim gato
e sapato
beijo-lhe as bochechas
e a testa e seu nariz
também beijo-lhe os pezinhos
os joelhos a barriga
não existe neste mundo
um perfume que eu prefira
mais que o cheiro de um bebê
recém-nascido
logo cedo eu me levanto
digo olá ao novo dia
encaminho-me ao banheiro
dou bom-dia para o espelho
(santo dio eu fiquei velho)
faço tudo que preciso
privada banho higiene
tomo os medicamentos
café leite pão e queijo
(a caminhada eu adio)
leio os jornais um livro
telefono para os filhos
peço notícia dos netos
falo com meus amigos
e passo as demais horas
a fazer algum versinho
antes que a sorrateira
empurre-me pela ladeira
para o fundo de uma cova
e jogue terra por cima
as minhas mãos calejadas
tanto trabalho forçado
cansaram-se e nada fazem
não cozinham não tricotam
mas também não se aposentam
cismadas em fazer versos
em transcreverem o que penso
banhei seu corpo
troquei-lhe as fraldas
e ao vê-lo engravatado
do lado desses doutores
seguro o riso
:
ele tem coceiras
cócegas
pequenas pintas na bunda
pavor de barata e aranha
e medo do escuro
quem nascer no ano da minha morte vai ter uma sorte e um azar
sorte por ocupar o lugar que deixo e me dá muito prazer
e azar em não partilhar comigo o ar que respira
este defeito nos olhos as bordas ficam difusas
confundo o real com o sonho e quando observo o mundo
vejo bolas de cristal – faço adivinhações
:
tenho lembranças futuras
mas nada sei do que fui
o sol veio de um lado a lua veio de outro e lá no meio do céu os dois se esbarram e brigam ela branca ele amarelo logo no primeiro encontro : foi um pandemônio
diz-me
espera
e quando eu me volto
ela
incrédula
fala-me quase
sem fôlego
:
bom te saber por perto
é triste o destino das pedras
passamos séculos e séculos
sem que se cumpram
as promessas
as pessoas que ele amava
não eram lá essas coisas
mas quando escolheu a mim
que me havia em grande conta
vesti-me da carapuça
tratei de ser mais modesta
conquanto tão pequenina e nada quase soubesse
discernia o que era belo
muito mais que as outras primas
a mãe previa – a menina
não se conforma com pouco sempre escolhe pela cor
perfume
ou mesmo por algum brilho
:
feita mulher
é artista