domingo, 16 de dezembro de 2012

passagem

líria porto

no meio do caminho o cipó
no meio do cipó a formiga
no meio da formiga a vida
tão efêmera
tão pó

*

sábado, 15 de dezembro de 2012

boca livre

líria porto

olha a lua
um sorriso
que aumenta
a cada dia
vira um ovo
uma bola
depois rola
poesia

*

lavor

líria porto

por mais sorte que haja
não vai cair do céu
nem vai brotar
do nada
:
o que vais conseguir
nascerá dos teus braços
e do teu intelecto

*

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

julgamentos

líria porto

não te posso condenar
eu nada sei de miséria
de filhos famintos

no teu lugar talvez eu
cometesse todos os delitos
pelos quais te julgam

*

fome

líria porto

num canto da cozinha
uma dúzia de olhos imensos
e seis barrigas que roncam

*

graffiti

líria porto

escrevi nas paredes
versos da minha lavra

alguém chamou a polícia?

condenem-me pelo delito
não pela arte

*

rédeas

líria porto

coleira gaiola sapatos casamento ordens repressão
qualquer coisa que me imponha limites
estouro as amarras

*

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

sertão

líria porto

o céu promete chuva
promete mas não cumpre

*

rabo de peixe

líria porto

nunca fui
serei-a?

(sempre
uma dúvida)

*

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

cavalgada

líria porto

na cela do amor
ciúme

na sela do amor
liberdade

*

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

retorno

líria porto

diz-me
espera
e quando eu me volto
ela
incrédula
fala-me quase
sem fôlego
:
bom te saber por perto
é triste o destino das pedras
passamos séculos e séculos
sem que se cumpram
as promessas

*

controle

líria porto

nem fosse pedra
ficava tão quieta

ele passa
seguro o fôlego

(só
o coração
dis_para)

*

enfaro

líria porto

comeu-a a de a a e tanto se satisfez
que cuspiu no prato
:
ingrato

*

domingo, 9 de dezembro de 2012

ô_dores

líria porto

a vida é uma roseira
pétalas efêmeras e espinhos
duradouros

*

des_encontro

líria porto

o tempo nos transforma
e se eu sou outra e se o outro é outro
como manter o mesmo sentimento?

*

sábado, 8 de dezembro de 2012

paladar

líria porto

ora adora ora detesta
e de resto –– doce amargo azedo apimentado
conforme a hora

(igual sexo)

*

desvio

líria porto

para alongar a vida
atravesso-a na diagonal

*

martelo

líria porto

quer queiras quer não queiras
vou à feira leiloar o nosso amor
quem pagar melhor por ele
vai levar nós dois

vai ficar com a parte
                            que te coube

*             

risco

líria porto

saiu da zona de conforto
e pairou no céu da manhã
:
lua de papel
puta à luz do dia

*

chacina

líria porto

perguntas piadas ciúme
suspeitas insinuações
e foi indiscreto impulsivo
o amor se encolheu
escondeu  sumiu de vez

*

desdém

líria porto

digo que não me interesso e que tampouco me importo
mas não sou sincero – espero consiga encontrar-te
em meu ponto cego

*

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

pentelha

líria porto

cão chupando manga
rebelde a não mais poder
não paguei aqui na terra
a minha prole
                   é de pérola

(escapei de bamba)

*

reconhecimento

líria porto

olho o espelho o que vejo
e a cara velha sem máscara
tem o que espero das caras
:
coragem para enfrentar-se
e um riso sem mágoa

*

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

cimento

líria porto

poeta das curvas
niemeyer deu-lhe asas
e fez o concreto voar

*

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

laia

líria porto

as pessoas que ele amava
não eram lá essas coisas
mas quando escolheu a mim
que me havia em grande conta
vesti-me da carapuça
tratei de ser mais modesta

*

danado

líria porto

seu olhar de lambe-lambe 
dá-me água na boca


*

pressáágio

líria porto

conquanto tão pequenina
e nada quase soubesse 
discernia o que era belo
muito mais que as outras primas
a mãe previa  a menina
não se conforma com pouco
sempre escolhe pela cor
perfume
ou mesmo por algum brilho
:
feita mulher
é artista

*

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

resguardo

líria porto

a gata pariu e os gatinhos
todos de olhos azuis
mamavam sua energia

a pobre gata ainda fosca
estava muito orgulhosa
com a saúde da prole

eles corriam voltavam
abocanhavam-lhe as tetas
que pareciam vazias

e a gata magra sem forças
sequer provou da comida
que sua dona lhe trouxe

*

despacho

líria porto

constatou  não tem mais jeito
retirou o ponto a vírgula
botou um ponto final

*

miragem

líria porto

eu vi a felicidade lá na linha do horizonte
caminhei para alcançá-la  eu andava ela andava
eu corria ela corria na mesma velocidade

*

sismo

líria porto

o amor foi terremoto
cinco graus na escala richter
não houve desabamento
mas a paixão meu senhor
esta sinto - é tsunami

*

sem gravidade

líria porto

morte é sono profundo
sem sonho nem pesadelo
é livrar-nos desse mundo
do peso do sofrimento

*

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

colo

líria porto

sou eu quem baldeia maria
levo-a por todo canto
vejo transbordar-lhe o riso
insisto em secar-lhe o pranto
:
rio-me às cataratas

*

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

alagado

líria porto

não peçam nem meçam o que faço
doo-me assim que poça

*

cobertor de orelha

líria porto

nem marido nem namorado
alguém que se deite comigo
e respeite o meu lado

*

safra

líria porto

os zeros não são nulos
os milhões são grãos de milho
para alimentarem os filhos
dos pobres de todo o mundo

*

escudo

líria porto

sei que tenho proteção
que em torno do meu corpo
tem um exército de almas boas
que me salva e me protege
dos espíritos obsessores

*


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - moldagem

líria porto

tão cedo eu me acordo com aurora no quarto
eu cerro meus olhos preciso dormir
lá longe se escuta o canto de um pássaro
adeus meu sossego tem verso na agulha

tal como a bigorna que bate que surra
que insiste em dar forma às barras de ferro
assim faz a mente com meu sentimento
até que ele tenha compasso de música

vem dia vem noite vem sol e vem chuva
a lua se esconde por trás de uma nuvem
porém meu poeta lhe sai à procura

vasculha os escuros o espaço o infinito
arreda as estrelas recolhe a neblina
faz tudo o que pode – sua lua o sepulta

*



terça-feira, 27 de novembro de 2012

ao pé da árvore

líria porto

palhinhas e galhos secos
um ninho quase completo
o vento a fazer besteira
tem passarinho sem teto

*

rangidos

líria porto

a cadeira de balanço
suas molas tão antigas
suportaram sucessivas
barrigas de nove meses

*

poema para wânia

líria porto

ela aleitou a letícia e também a luciana
lavou-lhes fraldas cabelos - minha irmã já tens o céu
isso é merecimento não precisas rezar tanto
podes rasgar o verbo as meninas são mulheres
e agora o mundo é delas

*

folgados

líria porto

tal como o domingo ou sábado à tarde
um vestido velho um par de chinelos
o riso do amigo um disco antigo
um nó desfeito

*

(peguei o sol no pulo) babado

líria porto

a vida não é justa
–– é plissada franzida godê ––
e é curta

*

emoção

líria porto

um canto em cada canto
tal encanto a transbordar-me
se eu cantasse acalantos
guardava espantos na lágrima
teria nós na garganta
seria santa ao contrário

*

biruta

líria porto

para onde vou eu não sei
de onde vim nem me lembro
eu cá estou en_caminho-me
com essas asas de vento

*

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

compromisso

líria porto

respondo pelo que faço
mesmo quando eu me perco
nalguma queda de abraço

*

acusação

líria porto

apontou-me o dedo assim
como se fora um revólver
dei meia volta e senti
a dor de um tiro
nas costas

*

acerto

líria porto

pode chover canivete faca prego punhal
quando devo eu pago mas também pego
meu troco

*

leviana

líria porto

botei-a numa bateia
junto com muita gente
peneirei lá não ficaste
só selecionei as gemas
as que têm muito valor
que se prestam à amizade
jamais à enganação
à cobiça ao interesse
:
fica longe bem atrás
de ti eu quero
distância

*

atração

líria porto

quem quer não espera
os rios caminham e o mar os recebe
de águas abertas

*

domingo, 25 de novembro de 2012

desjuízo

líria porto

eu tento entender o vento
ouvi-lo um pouco mais calma
porém perco a paciência
ele vai vem assobia
tira a roupa do varal
bate a porta espalha as folhas
enche a casa de poeira
não presta atenção em mim

*

vogal

líria porto

assim eu me assanho
assim eu me assento
assim eu me assisto
assim eu me assomo
assim eu me assunto
:
nua

*

friagem

líria porto

de lá nevoeiro
de cá sentimentos nublados
que buscam encontrar noutros braços
um cadinho de sol

*

troco

líria porto

a vida esmurrou-lhe o fígado mas não foi a nocaute
revidou com força deu-lhe uma baita banana
e seguiu sua estrada

*

humor

líria porto

o sol não veio – é domingo
a nuvem cinza espreguiça-se
se o tempo faz cara feia
quem vai ter cara bonita?

*

justiceiro

líria porto

um raio atingiu
aquele que contra os seus
impetrou palavrões fez desfeitas
invocou o coisa ruim
tentou destruir quem lhe deu
leite feijão e peixes

*

sábado, 24 de novembro de 2012

providência

líria porto

se a dor é funda viro-me do avesso
mas se a dor é rasa corto-lhe as asas
e as penas

*

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

recato

líria porto

com a lua eu me esbaldo
porém as estrelas
brilhantes pontudas
cheias de si e de orgulho
estas me calam
eu me assombro
eu me escondo
eu não falo

*

imaginação

líria porto

a lua é uma bola uma hóstia uma moeda um queijo
ou a_penas um satélite com lugar garantido na vida
do poeta?

*

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - calores

líria porto

um pôr de sol das arábias
daqueles de areia quente
e a lua que se prepara
pra sua dança
do ventre

*

condenação

líria porto

trancafiou o amor
impediu-o de ir e vir
de conhecer-se no espaço
e o pássaro cativo
esqueceu as próprias asas
já não sabe assobiar
ficou triste triste triste
quis sequer comer alpiste
recusou-se a beber água

*

monotonia

líria porto

na encosta da montanha
de olho no pôr do sol
maria lua vivia
sua vidinha sem nuvem
a fazer poesia
sem sentir solidão
:
tudo com bolinhas
do mesmo corte

*

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

raios

líria porto

não deve ser tão ruim a longa noite sem fim
no que de mim depender vou esperá-la
de pé

*

cúmplices

líria porto

teu olhar qual uma adaga atravessa pensamentos
adivinhas-me num momento e se tento disfarçar
tu me abraças e me consolas

*



história da carrocinha

líria porto

o príncipe virou sapo
o amor ressentimento
a relação foi pro brejo
e a princesa dá duro
para sustentar os filhos

(o real é proletário
e o tal do romantismo
um caso policial)

*

anos de chumbo

líria porto

dói-me dentro
dói-me fora
entre também dói

tem um medo que me rói
tem um peso que me mói
uma pata de cavalo
um quepe de general

*

tirana

líria porto

não deve ser tão ruim
no que depender de mim
vou esperá-la de pé

*

domingo, 18 de novembro de 2012

de coração

líria porto

as promessas
os adiamentos a decepção
mesmo que eu não queira
o que era belo
põe-se como um zero
à esquerda

(esperei sentada)

*

sábado, 17 de novembro de 2012

destino

líria porto

por onde caminho
meu pé abre a picada

*

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

a rosa

líria porto

desabrocha depois despetala
e por uns momentos o seu cheiro
paira
:
alegrias não perduram
nem tristezas

*

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

dilema

líria porto

todo poeta vive na berlinda
sem saber ao certo se dá
ou desce

*

bolor

líria porto

sobre as telhas das casas antigas
sob as cabeças ultrapassadas
o mofo dos conservadores
dos que só pensam
em si

*

con_sorte

líria porto

poema do amor perdido
poema do amor achado
não perdi amor nem achei
então escrevo um poema
de pé quebrado

*

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

passarinhos

líria porto

peixes criaram asas fizeram ninhos
e viraram o mar de pernas pro ar

*

falta de jeito

líria porto

o vento com seus gestos bruscos
derruba as mangas verdes e assusta
os passarinhos

*

extermínio

líria porto

um canto sem corpo
a alma de um pássaro
um ninho vazio a chocar
solidão

*

poeminha

líria porto

dona terra espera
a visita da comadre chuva
que se esmera em tecer para ela
mantas e lençóis d'água

*

domingo, 11 de novembro de 2012

crítica

líria porto

escreveu um crivo
e cravaste uma cruz nas crostas
do escriba

*

sábado, 10 de novembro de 2012

empate

líria porto

só te traí uma vez e porque era verdade
ela fala  também eu só te traí uma vez

foram duas as garotas ele retruca
eu não  foi um teu amigo
mas em dose dupla

*

abdução

líria porto

fez amor com o verde
e tudo que há e ouve
engravida-a
:
a couve

*

gravidade

líria porto

a pedra atrai o mar
com olhar grávido/agudo
e o mar invade a gruta
:
entra e sai
entra e sai

*

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

pesadelo

líria porto

caiu da cama e sem rede
espatifou-se no escuro
então escreveu no muro
fechado para embalanço

*

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

valorização

líria porto

ultrapassar-se
saltar à frente de si mesmo
tornar-se objeto de desejo
e de amor-próprio

*

ser_tão

líria porto

a nuvem atravessa o azul
e quando apeia é chuva
verdura no chão do mundo
milho feijão jerimum

*

português

líria porto

mandou-a plantar batatas
ela o fez –– ao pé da letra
e a colheita foi tão boa
que a mulher enriqueceu
viajou para lisboa
e arranjou outro amor

*

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ausente

líria porto

nem todo poema é prolixo
tem dia que é um suspiro
um olhar fixo no nada

*

o quê?

líria porto

o tom pode distorcer-se – zum zum zum
pôr abelha em nosso ouvido

um zunido

*

(peguei o sol no pulo) mundana

líria porto

a mulher da minha vida
sem a qual sequer respiro
a que caminha comigo
e me apoia até nos erros
essa dos meus pecados
que me conhece os segredos
e gosta dos meus amigos
e ama os meus amores
essa mulher meio louca
da qual também desconfio
poderá roer-me as unhas
e até morrer por mim
essa mulher sem cabresto
essa tal de líria porto
tem meu corpo
tem meu nome
tem meu endereço

*

terça-feira, 6 de novembro de 2012

carranca

líria porto

a língua míngua o silêncio espalha-se
a culpa é tua que não falas  engoles seco
e te mostras tão amargo

*

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

(para o livro sem pecado não tem salvação) resgate

líria porto

mas porém houve um sujeito
ele me tomou de mim
transformou-me em borralheira
até me quis princesinha
trapo-bucha-amélia-gueixa
qualquer coisa

eu fiquei tão transtornada
já não pensava em mais nada
a não ser no grão-vizir
em servir sua majestade
deixar que ela ultrajasse
minha alegria meu riso

olhei-me então no espelho
e não me reconheci
levantei as sobrancelhas
rodei sobre os calcanhares
exclamei –– vou me buscar
:
eu me achei
voltei pra mim

*

dedicação

líria porto

chegou mesmo a ver estrelas em plena noite chuvosa
e seu amor se esmerava realizava milagres
retirava-lhe a tristeza enxugava-lhe a lágrima
transformava espinho em pétala

*

domingo, 4 de novembro de 2012

a felicidade

líria porto

dá-nos esperá-la sentados
que de pé o cansaço monta

*

nos nervos

líria porto

além de maiúsculas pontuação gerúndio
birra por adjetivos
(sempre tão explicativos)
e por advérbios
(estes fofoqueiros com suas informações
de quando como
e onde)

*

bairrista

líria porto

colher rastelar abanar o café
deixá-lo espalhado ao sol até que seque
triturar a casca limpar torrar moer coar e servir
com queijo de minas

*

vantagem

líria porto

tinha um lugar à mesa
mas depois que ficou velha
e com tantas cadeiras disponíveis
muda de posição
:
vê a vida
por muitos ângulos

(uns agudos outros obtusos)

*

en_carregados

líria porto

a existência tem duas portas  uma de entrada uma de saída
uma entregue à vida outra entregue à morte e a sorte é que as duas
são pontuais

*

sábado, 3 de novembro de 2012

luxenta

líria porto

adoro morar comigo
fazer-me toda vontade
mimar-me ao infinito
ser minha mãe avó tia
por um ano um mês
um dia

depois fico insuportável

*

benta

líria porto

atiça o fogo do padre
fá-lo sentir-se bonito
o corpo inteiro se excita
o padre beija-a abraça-a
morde-lhe o lábio o mamilo
faz crepitar a basílica

*

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

sobressalto

líria porto

um estampido
pulei da cama
pensei num tiro
numa tragédia
:
por que não
num balão
de festa?

*

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

deslembrar

líria porto

o verso me abandona – isso não se faz
nós passamos juntos quase a vida toda
eu o socorri nos dias de modorra
foi-se da memória sem olhar pra trás

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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