líria porto
prima dirce vê a vida
pela fresta
ela adora futebol
e vai à missa
seu pecado foi cheirar
lança-perfume
prima dirce borda borda
mas não pinta
*
quarta-feira, 21 de abril de 2010
viuvez
líria porto
dois travesseiros e um corpo
sem companheiro
(de um lado o vazio e no criado
dois travesseiros e um corpo
sem companheiro
(de um lado o vazio e no criado
um porta-retrato e a fotografia)
*
terça-feira, 20 de abril de 2010
(publicado no livro olho nu - ed. patuá) brasa
líria porto
tal como aqueles que atiçam o fogo
ele se embrenha pelas minhas lenhas
sopra de leve a minha chama tênue
faz crepitar o que eu julgara morno
*
tal como aqueles que atiçam o fogo
ele se embrenha pelas minhas lenhas
sopra de leve a minha chama tênue
faz crepitar o que eu julgara morno
*
segunda-feira, 19 de abril de 2010
sufoco
líria porto
não sei o que é pior
correr atrás de um verso
e numa rede de caçar borboletas
pegá-las uma por uma
cada letrinha
ou tê-lo ao calcanhar
como um cão faminto
a abocanhar-nos as palavras
as rimas
a respiração
*
não sei o que é pior
correr atrás de um verso
e numa rede de caçar borboletas
pegá-las uma por uma
cada letrinha
ou tê-lo ao calcanhar
como um cão faminto
a abocanhar-nos as palavras
as rimas
a respiração
*
brinco
líria porto
o sol andava entre as árvores
achei um brilhante maior que a estrela
não é meu não é teu
de quem seria?
*
o sol andava entre as árvores
achei um brilhante maior que a estrela
não é meu não é teu
de quem seria?
*
maçarico
líria porto
vulcão
dragão
paixão
ferrão
ereção
penetração
ejaculação
aflição
conspiração
convicção
palavrão
agitação
decisão
ebulição
pressão
invasão
prisão
explosão
ser_tão
cão
:
até coração
tem rima aguda
*
vulcão
dragão
paixão
ferrão
ereção
penetração
ejaculação
aflição
conspiração
convicção
palavrão
agitação
decisão
ebulição
pressão
invasão
prisão
explosão
ser_tão
cão
:
até coração
tem rima aguda
*
domingo, 18 de abril de 2010
despudo(u)rada
líria porto
a lua perambula
rola pelo céu de qualquer jeito
sem compostura
(di_lua a vergonha do sol)
*
a lua perambula
rola pelo céu de qualquer jeito
sem compostura
(di_lua a vergonha do sol)
*
sábado, 17 de abril de 2010
cerimônia
líria porto
no velório da barata
formigas entram saem
falam baixo
cumprimentam-se
e transportam os seus restos
para o banquete
*
no velório da barata
formigas entram saem
falam baixo
cumprimentam-se
e transportam os seus restos
para o banquete
*
peso
líria porto
quereres vontades desejos
tudo sobre as costas
nós
:
quanto mais frustrados
mais corcundas
*
quereres vontades desejos
tudo sobre as costas
nós
:
quanto mais frustrados
mais corcundas
*
sexta-feira, 16 de abril de 2010
dirceu usa machado
líria porto
o mundo se aniquilou
foi quando meu namorado
casmurro e cabisbaixo
deu um murro no passado
falou-me – agora parto
não volto mais minha amor
capitu ficou-me grávida
e a filha que não terás
pu-la em barriga dela
(descuidos da meia noite)
adeus adeus minha bela
adeus adeus minha estrela
*
o mundo se aniquilou
foi quando meu namorado
casmurro e cabisbaixo
deu um murro no passado
falou-me – agora parto
não volto mais minha amor
capitu ficou-me grávida
e a filha que não terás
pu-la em barriga dela
(descuidos da meia noite)
adeus adeus minha bela
adeus adeus minha estrela
*
ana c. me supre
líria porto
"abri curiosa o céu"
"uma lâmpada queimada me contempla"
"muda feito uma coisa última"
"demito o verso como quem acena"
"é outra
a dor que dói"
*
(os versos acima são fragmentos de poemas de ana cristina cesar)
"abri curiosa o céu"
"uma lâmpada queimada me contempla"
"muda feito uma coisa última"
"demito o verso como quem acena"
"é outra
a dor que dói"
*
(os versos acima são fragmentos de poemas de ana cristina cesar)
(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - histeria
líria porto
nuvem suja de fuligem
noite a nos dar vertigem
lua a fingir-se virgem
e eu sem coragem
à margem da vida
a escrever páginas
e páginas
(mugidos de vagina)
*
nuvem suja de fuligem
noite a nos dar vertigem
lua a fingir-se virgem
e eu sem coragem
à margem da vida
a escrever páginas
e páginas
(mugidos de vagina)
*
desembaraço
líria porto
da boca de bebel quero sorrisos
e beijos e palavras e poemas
na boca de bebel ponham alegria
dos olhos de bebel tirem
o cisco
*
da boca de bebel quero sorrisos
e beijos e palavras e poemas
na boca de bebel ponham alegria
dos olhos de bebel tirem
o cisco
*
luz
líria porto
ofuscas a lua
o sol as estrelas
e se rodopias
o mundo tonteia
eu fico encantada
o bispo o padre
o moço o velho
o gato o cachorro
o céu o inferno
o zangão
as abelhas
o azul
o amarelo
o verde
o vermelho
o rei
a rainha
o espelho
o planeta
o universo
*
ofuscas a lua
o sol as estrelas
e se rodopias
o mundo tonteia
eu fico encantada
o bispo o padre
o moço o velho
o gato o cachorro
o céu o inferno
o zangão
as abelhas
o azul
o amarelo
o verde
o vermelho
o rei
a rainha
o espelho
o planeta
o universo
*
quinta-feira, 15 de abril de 2010
coisa de poeta
líria porto
nada é mais concreto
que a abstração de niemeyer
(curvas tão corretas
retas ondulantes)
*
nada é mais concreto
que a abstração de niemeyer
(curvas tão corretas
retas ondulantes)
*
ponto
líria porto
planta-se um poste
o cão se encosta
a puta espera
o mendigo esmola
o sábado explode
a lua aparece
o bar prospera
o bêbado vomita
a amor some dos olhos
:
esquina é dobra_dura
*
planta-se um poste
o cão se encosta
a puta espera
o mendigo esmola
o sábado explode
a lua aparece
o bar prospera
o bêbado vomita
a amor some dos olhos
:
esquina é dobra_dura
*
quarta-feira, 14 de abril de 2010
na serra do rola-moça
líria porto
as curvas a indescritível beleza
transformaram seus caminhos
em perdição
*
as curvas a indescritível beleza
transformaram seus caminhos
em perdição
*
oito e oitenta
líria porto
quisera ter já não tem
destreza vivacidade
a idade impõe limites
o tempo é inexorável
então meu bem paciência
vovó demora mas chega
leva consigo seus
(s)ais
*
quisera ter já não tem
destreza vivacidade
a idade impõe limites
o tempo é inexorável
então meu bem paciência
vovó demora mas chega
leva consigo seus
(s)ais
*
segunda-feira, 12 de abril de 2010
gata escaldada
líria porto
não cria bichos
não quer saber de bebês
aos seus amores avisa
quer mesmo é ser a outra
a dos momentos felizes
sem crises chateações
e sem prestação
de contas
*
não cria bichos
não quer saber de bebês
aos seus amores avisa
quer mesmo é ser a outra
a dos momentos felizes
sem crises chateações
e sem prestação
de contas
*
domingo, 11 de abril de 2010
sábado, 10 de abril de 2010
(para o livro sem pecado não tem salvação) entre cético e sádico
líria porto
talvez o céu dos cachorros
seja o inferno dos gatos
e o céu lá dos bichanos
o inferno dos passarinhos
e o céu dos passarinhos
o inferno dos insetos
e o céu dos mosquitinhos
talvez dos vermes também
seja o corpo putrefato
que acredita no céu
e purga céu e inferno
no mesmo fato
*
talvez o céu dos cachorros
seja o inferno dos gatos
e o céu lá dos bichanos
o inferno dos passarinhos
e o céu dos passarinhos
o inferno dos insetos
e o céu dos mosquitinhos
talvez dos vermes também
seja o corpo putrefato
que acredita no céu
e purga céu e inferno
no mesmo fato
*
sexta-feira, 9 de abril de 2010
saudade
líria porto
queria chorar
num ombro qualquer
de homem ou mulher
um mar de águas roxas
e quando ficasse alegre
iria a seu casebre
trocar de cor(po)
*
queria chorar
num ombro qualquer
de homem ou mulher
um mar de águas roxas
e quando ficasse alegre
iria a seu casebre
trocar de cor(po)
*
escassez
líria porto
o verso definha
o poema some
como se o universo
conspirasse contra
e o mar secasse
virasse deserto
e a vida fosse
esse faz de conta
*
o verso definha
o poema some
como se o universo
conspirasse contra
e o mar secasse
virasse deserto
e a vida fosse
esse faz de conta
*
quarta-feira
líria porto
apelou a são longuinho os pulinhos foram três
precisava achar de novo a alegria perdida –– sumida assim
de uma vez
encontrou-a na avenida
grávida de tristeza
*
apelou a são longuinho os pulinhos foram três
precisava achar de novo a alegria perdida –– sumida assim
de uma vez
encontrou-a na avenida
grávida de tristeza
*
quinta-feira, 8 de abril de 2010
lamentação
líria porto
corpos barrentos transbordam-se durante as enchentes
transformam em charcos olhos cansados
de sofrimento
*
corpos barrentos transbordam-se durante as enchentes
transformam em charcos olhos cansados
de sofrimento
*
direto
líria porto
santo - eu sinto
por retornar ao assunto
:
o cinto aperta
a miséria assenta
e a fome abunda
dá um jeito
*
santo - eu sinto
por retornar ao assunto
:
o cinto aperta
a miséria assenta
e a fome abunda
dá um jeito
*
quarta-feira, 7 de abril de 2010
procura-se
líria porto
uma pedra que me queira
que tenha olho de gato
que me vele me proteja
que às vezes e sem rodeio
beije-me apaixonada
mas que seja pedra mesmo
pois não passo de uma
estátua
*
uma pedra que me queira
que tenha olho de gato
que me vele me proteja
que às vezes e sem rodeio
beije-me apaixonada
mas que seja pedra mesmo
pois não passo de uma
estátua
*
terça-feira, 6 de abril de 2010
cafuçu do brejo
líria porto
nem todo ouro do mundo
me tira desse buraco
nasci aqui sou no fundo
ouriço bicho do mato
o silêncio a quietude
protegem-me e me resguardam
passarinhos sapos grilos
orquestram a minha calma
*
nem todo ouro do mundo
me tira desse buraco
nasci aqui sou no fundo
ouriço bicho do mato
o silêncio a quietude
protegem-me e me resguardam
passarinhos sapos grilos
orquestram a minha calma
*
segunda-feira, 5 de abril de 2010
quae sera tamen
líria porto
as pedras –– mesmo pedras –– rolam
não prendê-las nem casá-las com cimento
as pedras –– mesmo pedras –– voam
eu já fiz voar algumas e acertei cabeças
as pedras –– mesmo pedras –– pedro
precisamos ser livres
*
as pedras –– mesmo pedras –– rolam
não prendê-las nem casá-las com cimento
as pedras –– mesmo pedras –– voam
eu já fiz voar algumas e acertei cabeças
as pedras –– mesmo pedras –– pedro
precisamos ser livres
*
fiu fiu
líria porto
depois da chuva dos cinzas
*
depois da chuva dos cinzas
de chorar paixão de cristo
o céu se pinta de azul
o céu se pinta de azul
pendura o sol na lapela
reabre abril e caminha
reabre abril e caminha
rumo a maio - mês de maria
ritinha jandira luiza
mulheres que assobiam
*
sábado, 3 de abril de 2010
a cor azul escura do cobalto
líria porto
pode ser bomba
pode ser míssil
pode ser íngua
(ou algo maligno)
debaixo da língua
se houver tempo
registre-se o fato
se não o houver
faça-se o possível
no verso na rima
no estribilho
pode ser bomba
pode ser míssil
pode ser íngua
(ou algo maligno)
debaixo da língua
engula-se a saliva
e o desatino
*
pode ser bomba
pode ser míssil
pode ser íngua
(ou algo maligno)
debaixo da língua
se houver tempo
registre-se o fato
se não o houver
faça-se o possível
no verso na rima
no estribilho
pode ser bomba
pode ser míssil
pode ser íngua
(ou algo maligno)
debaixo da língua
engula-se a saliva
e o desatino
*
(publicado no livro garimpo - editora lê) - de cor e salteado
líria porto
teu nome escrevo no ar
na mão no muro no espelho
teu nome reviro do avesso
rabisco no travesseiro
teu nome recorto as vogais
misturo com outras letras
soletro de frente para trás
teu nome tatuo no peito
carimbo na pele nas pernas
teu nome eu grito cochicho
balbucio remedo repito
teu nome é meu
be-a-básico
*
teu nome escrevo no ar
na mão no muro no espelho
teu nome reviro do avesso
rabisco no travesseiro
teu nome recorto as vogais
misturo com outras letras
soletro de frente para trás
teu nome tatuo no peito
carimbo na pele nas pernas
teu nome eu grito cochicho
balbucio remedo repito
teu nome é meu
be-a-básico
*
azul azul
líria porto
manhã tão bonita
o manto dourado
a brisa o céu
o canto do pássaro
no chão no quintal
o mato o capim
a rosa o cravo
abril bem-te-vi
a chuva se foi
deixou muita coisa
a terra está linda
vestida de noiva
(em maio eu me caso)
*
manhã tão bonita
o manto dourado
a brisa o céu
o canto do pássaro
no chão no quintal
o mato o capim
a rosa o cravo
abril bem-te-vi
a chuva se foi
deixou muita coisa
a terra está linda
vestida de noiva
(em maio eu me caso)
*
sexta-feira, 2 de abril de 2010
(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - vida boa
líria porto
bem cedo ao canto do galo
saltar da cama e no ato
pisar o chão sem sapatos
ouvir os bichos os pássaros
rever o sol
quando noite luar
sem recato e sem freio
igual água do regato
molhar-te a boca
*
bem cedo ao canto do galo
saltar da cama e no ato
pisar o chão sem sapatos
ouvir os bichos os pássaros
rever o sol
quando noite luar
sem recato e sem freio
igual água do regato
molhar-te a boca
*
mortiça
líria porto
os cabelos perderam a leveza
e noturnos macambúzios causam
pesadelos
os cílios
banhados em tristeza e visgo
atraem morcegos
e urubus
*
os cabelos perderam a leveza
e noturnos macambúzios causam
pesadelos
os cílios
banhados em tristeza e visgo
atraem morcegos
e urubus
*
quinta-feira, 1 de abril de 2010
(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - coleção
líria porto
quero – espero – flagrar o amanhecer
e num gesto súbito guardar o lusco-fusco
no bolso
(quem precisar de lilases de azuis prematuros
tenho infinidades)
*
quero – espero – flagrar o amanhecer
e num gesto súbito guardar o lusco-fusco
no bolso
(quem precisar de lilases de azuis prematuros
tenho infinidades)
*
bambo é que é bom
líria porto
as horas borbulham como a água
para o café
antecipo o aroma o sabor
a bebida estimulante
pensamentos se tornam roliços
como pães de queijo
domingo é dia
*
as horas borbulham como a água
para o café
antecipo o aroma o sabor
a bebida estimulante
pensamentos se tornam roliços
como pães de queijo
domingo é dia
*
quarta-feira, 31 de março de 2010
terça-feira, 30 de março de 2010
malha
líria porto
olho a lua renda branca
meia lua transparente
adolescente
é de manhã
sol suave em sua nave
lambe as beiras da cidade
o horizonte
é de manhã
bem-te-vi canta bonito
saúda o azul o infinito
o céu esplêndido
é de manhã
andorinha rasga o espaço
leva a nuvem no regaço
por um instante
é de manhã
*
olho a lua renda branca
meia lua transparente
adolescente
é de manhã
sol suave em sua nave
lambe as beiras da cidade
o horizonte
é de manhã
bem-te-vi canta bonito
saúda o azul o infinito
o céu esplêndido
é de manhã
andorinha rasga o espaço
leva a nuvem no regaço
por um instante
é de manhã
*
(publicado no livro olho nu - ed. patuá) lacuna
líria porto
no vão entre o colchão e o cobertor
espaço da tua ausência
a saudade dos arrulhos dos sussurros
do amor que existiu e voltará
numa noite assim
de muita chuva
*
no vão entre o colchão e o cobertor
espaço da tua ausência
a saudade dos arrulhos dos sussurros
do amor que existiu e voltará
numa noite assim
de muita chuva
*
(publicado no livro olho nu - ed. patuá) diva
líria porto
algo de bette davis
talvez aquele olhar de mulher capaz de tudo
de matar de morrer
de esmagar baratas
*
algo de bette davis
talvez aquele olhar de mulher capaz de tudo
de matar de morrer
de esmagar baratas
*
sem sono
líria porto
dorme pouco
às vezes cochila
recosta na nuvem
num colo de estrela
porém nesta noite
tão cheia de ru(s)gas
a insônia da lua
foi filha da puta
*
dorme pouco
às vezes cochila
recosta na nuvem
num colo de estrela
porém nesta noite
tão cheia de ru(s)gas
a insônia da lua
foi filha da puta
*
segunda-feira, 29 de março de 2010
atrelados
líria porto
fui ao porto ao cais
de bar em bar
perguntei ao mar à areia
a todas as ondas
precisava reencontrar-te
destrocar as nossas sombras
ao partires a minha te seguiu
e teu vulto insistente
ainda me ronda
(não consigo des_lindar-me
das lembranças)
*
fui ao porto ao cais
de bar em bar
perguntei ao mar à areia
a todas as ondas
precisava reencontrar-te
destrocar as nossas sombras
ao partires a minha te seguiu
e teu vulto insistente
ainda me ronda
(não consigo des_lindar-me
das lembranças)
*
longevos
líria porto
toda manhã o corpo a abraça
: bom dia minh'alma - sem ti eu não vivo
toda noite a alma beija-o
e sai para um passeio
toda tarde de mãos dadas
sempre muito unidos
sem solidão
*
toda manhã o corpo a abraça
: bom dia minh'alma - sem ti eu não vivo
toda noite a alma beija-o
e sai para um passeio
toda tarde de mãos dadas
sempre muito unidos
sem solidão
*
domingo, 28 de março de 2010
poeminha
líria porto
as meninas dos olhos
pequeninas buliçosas
saltam do ramo de rosas
para o azul da manhã
como não temem nada
ficam dependuradas
nos raios de sol
*
as meninas dos olhos
pequeninas buliçosas
saltam do ramo de rosas
para o azul da manhã
como não temem nada
ficam dependuradas
nos raios de sol
*
de aluir o luar
líria porto
sol sono_lento
(des)acorda passarinho
brisa cheiro de lavanda
eu vou morrer
à_manhã
*
sol sono_lento
(des)acorda passarinho
brisa cheiro de lavanda
eu vou morrer
à_manhã
*
sábado, 27 de março de 2010
dom juan
líria porto
amar esse homem
é aceitar ser um pingo
num dia de chuva
o mar quando entorna
derrama n’areia
as franjas da espuma
*
amar esse homem
é aceitar ser um pingo
num dia de chuva
o mar quando entorna
derrama n’areia
as franjas da espuma
*
feras
líria porto
pedi à princesa
um bocado de pão
deu-me saias de brocado
eu tinha fome
pedi ao rei
feijão com arroz
enxotou-me sem piedade
perdi a honra
pedi à rainha
precisava de trabalho
apontou-me o olho da rua
fiquei à margem
*
um bocado de pão
deu-me saias de brocado
eu tinha fome
pedi ao rei
feijão com arroz
enxotou-me sem piedade
perdi a honra
pedi à rainha
precisava de trabalho
apontou-me o olho da rua
fiquei à margem
*
outono
líria porto
as folhas caem
há no entanto um consolo
o vento ergue-as um pouco
e antes que toquem o chão
são borboletas
*
as folhas caem
há no entanto um consolo
o vento ergue-as um pouco
e antes que toquem o chão
são borboletas
*
sexta-feira, 26 de março de 2010
medula (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)
líria porto
rio sobre a ponte
rio sobe a ponte
rio sob a ponte
rio só
a ponte –– um ponto
sem nós
*
rio sobre a ponte
rio sobe a ponte
rio sob a ponte
rio só
a ponte –– um ponto
sem nós
*
perdi os ponteiros
líria porto
bom dia tarde
boa tarde noite
já libertei os minutos
desta mania de horas
meu relógio é o sol
(em tempo - dilua-o)
*
bom dia tarde
boa tarde noite
já libertei os minutos
desta mania de horas
meu relógio é o sol
(em tempo - dilua-o)
*
quinta-feira, 25 de março de 2010
álibi (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)
líria porto
andei atrás da minha sombra
e se alguém deixou pegadas não fui eu
eu era a sombra da sombra
não fazia nem sentia nada
caminhava contra o sol
*
andei atrás da minha sombra
e se alguém deixou pegadas não fui eu
eu era a sombra da sombra
não fazia nem sentia nada
caminhava contra o sol
*
a_versão
líria porto
nasce e renasce nos versos
nos reversos - mata-se
(nus versículos)
: in_versos versejares
m'incriminam
*
nasce e renasce nos versos
nos reversos - mata-se
(nus versículos)
: in_versos versejares
m'incriminam
*
quando lúcifer queimou-me as asas
líria porto
despencou um pedaço do céu
ficou-me um rastro um vestígio
um cheirume de enxofre
uma puta cic_atriz
*
despencou um pedaço do céu
ficou-me um rastro um vestígio
um cheirume de enxofre
uma puta cic_atriz
*
quarta-feira, 24 de março de 2010
pequenina
líria porto
acorda espreguiça-se
solta as pétalas uma a uma
como flor que desabrocha
como rosa que perfuma
*
acorda espreguiça-se
solta as pétalas uma a uma
como flor que desabrocha
como rosa que perfuma
*
terça-feira, 23 de março de 2010
ins_piração
líria porto
quero um verso uma luz ou uma pétala
e o que tenho é a voz rouca do escuro
o berro do silêncio
*
quero um verso uma luz ou uma pétala
e o que tenho é a voz rouca do escuro
o berro do silêncio
*
bazófia
líria porto
pessoas muito vaidosas
são competentes para façanhas
que - convenhamos
pessoas muito vaidosas
são competentes para façanhas
que - convenhamos
são ninharia e vanglória
*
*
ressentimentos
líria porto
coração moto-contínuo
movido a sangue emoção
bate/apanha acovarda-se
obriga-se a funcionar
nestas poças
nestes charcos
*
coração moto-contínuo
movido a sangue emoção
bate/apanha acovarda-se
obriga-se a funcionar
nestas poças
nestes charcos
*
segunda-feira, 22 de março de 2010
sábado, 20 de março de 2010
sexta-feira, 19 de março de 2010
mosaico
líria porto
sequestraram-me um poema
exigiram-me resgate
: matem-no se o quiserem
não tenho palavras
nem recurso
restam-me a_penas
f
r
a
g
m
e
n
t
o
s
*
sequestraram-me um poema
exigiram-me resgate
: matem-no se o quiserem
não tenho palavras
nem recurso
restam-me a_penas
f
r
a
g
m
e
n
t
o
s
*
quinta-feira, 18 de março de 2010
(para o livro sem pecado não tem salvação) pecadora
líria porto
nos meandros dos quadris daquela dona
homens pousam e encontram ancoradouro
dão-lhe ouro diamantes pedrarias
:
o pastor a abençoa e cobra
o dízimo
*
nos meandros dos quadris daquela dona
homens pousam e encontram ancoradouro
dão-lhe ouro diamantes pedrarias
:
o pastor a abençoa e cobra
o dízimo
*
pingente
líria porto
a palavra é pedra
a ser lapidada
a luz a penetra
a fresta se abre
da pedra tão dura
extrai-se a alma
é nova a textura
igual a da lágrima
*
a palavra é pedra
a ser lapidada
a luz a penetra
a fresta se abre
da pedra tão dura
extrai-se a alma
é nova a textura
igual a da lágrima
*
quarta-feira, 17 de março de 2010
mano a mano
líria porto
achei-o cheio de si
achou-me um show de retórica
é só um ponto de vista – opinião
provisória
*
achei-o cheio de si
achou-me um show de retórica
é só um ponto de vista – opinião
provisória
*
diante do espelho
líria porto
olhava-se
olho no olho
ficava sem entender
a cara a pele a boca
cabelos brancos eriçados
deus meu será que essa doida
sou eu?
*
olhava-se
olho no olho
ficava sem entender
a cara a pele a boca
cabelos brancos eriçados
deus meu será que essa doida
sou eu?
*
dar de ombros
líria porto
pensem o que pensem
não importa
nem eu sei quem sou
porque vim ou voo
todos
ao pé da letra
temos calo frieira
unha encravada
o que nos consola
são meias verdades
e sapatos largos
*
pensem o que pensem
não importa
nem eu sei quem sou
porque vim ou voo
todos
ao pé da letra
temos calo frieira
unha encravada
o que nos consola
são meias verdades
e sapatos largos
*
terça-feira, 16 de março de 2010
a menina
líria porto
de vestidinho amarelo
com alcinhas e bolero
mais parecia uma espiga
pobre como estas rimas
estufava o peito e ria
ao ouvir o pai dizer
:
tenho uma filharada
eu sou mais rico
que o rei
(talvez fosse uma princesa)
*
de vestidinho amarelo
com alcinhas e bolero
mais parecia uma espiga
pobre como estas rimas
estufava o peito e ria
ao ouvir o pai dizer
:
tenho uma filharada
eu sou mais rico
que o rei
(talvez fosse uma princesa)
*
(peguei o sol no pulo) no leito de morte
líria porto
olha os filhos os netos e murmura
não chorem não fiquem tristes – a mãe precisa ir
é deus que insiste
*
olha os filhos os netos e murmura
não chorem não fiquem tristes – a mãe precisa ir
é deus que insiste
*
escoadouro
líria porto
o tempo que o tempo tem
andamos mais de três quartos
a idade disparou
eu não tinha tanta pressa
e o prazo que me resta
eu sei é pouco
então vem
antes que acabe a festa
e deixemos de viver
o que seria
e não foi
*
o tempo que o tempo tem
andamos mais de três quartos
a idade disparou
eu não tinha tanta pressa
e o prazo que me resta
eu sei é pouco
então vem
antes que acabe a festa
e deixemos de viver
o que seria
e não foi
*
segunda-feira, 15 de março de 2010
(publicado no livro olho nu - ed. patuá) ponto de vista
líria porto
uma partícula
um cisco
não teria importância
e nada mudaria
não tivesse
caído
em meu olho
*
uma partícula
um cisco
não teria importância
e nada mudaria
não tivesse
caído
em meu olho
*
domingo, 14 de março de 2010
ora pílulas
líria porto
uma flor contrária
uma dor de ovário
pétala uterina
sua cor vermelha
é como a centelha
dessa fêmea cíclica
muita vez transborda
atravessa as bordas
do próprio apetite
quando se retém
sustos vão além
duram nove meses
(o ventre crescido)
uma flor contrária
uma dor de ovário
pétala uterina
sua cor vermelha
é como a centelha
dessa fêmea cíclica
muita vez transborda
atravessa as bordas
do próprio apetite
quando se retém
sustos vão além
duram nove meses
(o ventre crescido)
*
sábado, 13 de março de 2010
protesto
líria porto
o lucro ultrapassa os limites
cortaram a paineira as flores a beleza
vão erguer o e_difícil
*
o lucro ultrapassa os limites
cortaram a paineira as flores a beleza
vão erguer o e_difícil
*
(publicado no livro olho nu - ed. patuá) devoção
líria porto
olho minhas mãos as manchas a pele ressecada
lembro-me daquele menino –– o zezé
passava os dedos pelo meu corpo e ficava admirado
és tão lisa pareces capa de revista
santa de reza
*
olho minhas mãos as manchas a pele ressecada
lembro-me daquele menino –– o zezé
passava os dedos pelo meu corpo e ficava admirado
és tão lisa pareces capa de revista
santa de reza
*
sexta-feira, 12 de março de 2010
como antes no quarto de a(b)rantes
líria porto
tudo para te esquecer e não consigo
:
acumulo teu cheiro no umbigo
e na pérola tua língua
(roupas
no chão
:
nós
en_laçados)
*
tudo para te esquecer e não consigo
:
acumulo teu cheiro no umbigo
e na pérola tua língua
(roupas
no chão
:
nós
en_laçados)
*
quinta-feira, 11 de março de 2010
avareza
líria porto
vive-se a se pensar no ontem
a esperar-se o amanhã
quando o futuro for hoje e hoje passado
ter-se-á esgotado o tempo de viver
*
vive-se a se pensar no ontem
a esperar-se o amanhã
quando o futuro for hoje e hoje passado
ter-se-á esgotado o tempo de viver
*
azul azul
líria porto
onde canta o azulão eu azulinho
teço meu ninho nos cabelos de são joão
e sonho sonhos de meninos e meninas
e faço versos com varinha de condão
*
onde canta o azulão eu azulinho
teço meu ninho nos cabelos de são joão
e sonho sonhos de meninos e meninas
e faço versos com varinha de condão
*
quarta-feira, 10 de março de 2010
tudo pássara
líria porto
borboletas abanam o pátio
nem se lembram dos casulos
iguais pontas de cabelo
cortadas jogadas no lixo
assim são os sofrimentos
depois de livrar-nos deles
nunca mais pedir notícias
felicidade depende
da nossa capacidade
de mesmo sem entendê-lo
esquecer o temporal
*
borboletas abanam o pátio
nem se lembram dos casulos
iguais pontas de cabelo
cortadas jogadas no lixo
assim são os sofrimentos
depois de livrar-nos deles
nunca mais pedir notícias
felicidade depende
da nossa capacidade
de mesmo sem entendê-lo
esquecer o temporal
*
ruínas
líria porto
janela virada pra lua
a tapera da velha
tem entre as pedras
uma aranha rubra
rarrarrarrarráaaaaaaaaaaaaaa
a tapera da velha
tem entre as pedras
uma aranha rubra
rarrarrarrarráaaaaaaaaaaaaaa
*
terça-feira, 9 de março de 2010
tédio
líria porto
sobre as listras do lençol
branca azul branca azul
dormiu sonhou mas agora
nesta monotonia
manhã vazia chuvosa
reconta-as uma
por uma
:
três trinta trezentas
sobre as listras do lençol
branca azul branca azul
dormiu sonhou mas agora
nesta monotonia
manhã vazia chuvosa
reconta-as uma
por uma
:
três trinta trezentas
e as entrelinhas
*
*
brinde
líria porto
quando as uvas estiverem maduras
irei ver-te e até o final da colheita
beber-te gota a gota
*
quando as uvas estiverem maduras
irei ver-te e até o final da colheita
beber-te gota a gota
*
Assinar:
Postagens (Atom)
tanto mar
- affonso romano de santanna
- alice ruiz
- balaio porreta - moacy cirne
- cosmunicando
- doce de lira
- escritoras suicídas
- flávio corrêa de mello
- germina literatura
- josé saramago
- jura em cy bemol
- metamorfraseando
- namibiano - angola
- nina rizzi
- notas capitais
- olivrão - aroeira
- per tempus / mara faturi
- putas resolutas
- ragi moana
- rômulo romério
- saciedade dos poetas vivos - líria porto
- sede em frente ao mar
- toca da serpente - líria porto
dedicatória
nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio
(líria porto)
*
fiamos o plenilúnio
(líria porto)
*
quem tem pena de passarinho
é passarinho
(líria porto)