quarta-feira, 21 de abril de 2010

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) desperdício

líria porto

prima dirce vê a vida
pela fresta

ela adora futebol
e vai à missa

seu pecado foi cheirar
lança-perfume

prima dirce borda borda
mas não pinta

*

viuvez

líria porto

dois travesseiros e um corpo
sem companheiro

(de um lado o vazio e no criado 
um porta-retrato e a fotografia)

*

terça-feira, 20 de abril de 2010

coragem

líria porto

diante do caos peito aberto
salto (i)mortal

*

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) brasa

líria porto

tal como aqueles que atiçam o fogo
ele se embrenha pelas minhas lenhas
sopra de leve a minha chama tênue
faz crepitar o que eu julgara morno

*


segunda-feira, 19 de abril de 2010

sufoco

líria porto

não sei o que é pior
correr atrás de um verso
e numa rede de caçar borboletas
pegá-las uma por uma
cada letrinha
ou tê-lo ao calcanhar
como um cão faminto
a abocanhar-nos as palavras
as rimas

a respiração

*

civilização

líria porto

entre o chão e os pés
sapatos que nos tratam
com calo e tudo

*

brinco

líria porto

o sol andava entre as árvores
achei um brilhante maior que a estrela

não é meu não é teu
de quem seria?

*

alameda

líria porto

dum lado e doutro árvores perfiladas
e tudo emaranhado sobre as cabeças

*

maçarico

líria porto

vulcão
dragão
paixão
ferrão
ereção
penetração
ejaculação
aflição
conspiração
convicção
palavrão
agitação
decisão
ebulição
pressão
invasão
prisão
explosão
ser_tão
cão
:
até coração
tem rima aguda

*

domingo, 18 de abril de 2010

despudo(u)rada

líria porto

a lua perambula
rola pelo céu de qualquer jeito
sem compostura

(di_lua a vergonha do sol)

*

sábado, 17 de abril de 2010

à la_garta

líria porto

cinzas nunca mais
nem farda uniforme avental –– agora
só asas

*

cerimônia

líria porto

no velório da barata
formigas entram saem
falam baixo
cumprimentam-se
e transportam os seus restos
para o banquete

*

peso

líria porto

quereres vontades desejos
tudo sobre as costas

nós
:
quanto mais frustrados
mais corcundas

*

sexta-feira, 16 de abril de 2010

dirceu usa machado

líria porto

o mundo se aniquilou
foi quando meu namorado
casmurro e cabisbaixo
deu um murro no passado
falou-me – agora parto
não volto mais minha amor
capitu ficou-me grávida
e a filha que não terás
pu-la em barriga dela
(descuidos da meia noite)

adeus adeus minha bela
adeus adeus minha estrela

*

ana c. me supre

líria porto

"abri curiosa o céu"
"uma lâmpada queimada me contempla"

"muda feito uma coisa última"
"demito o verso como quem acena"

"é outra
a dor que dói"

*

(os versos acima são fragmentos de poemas de ana cristina cesar)

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - histeria

líria porto

nuvem suja de fuligem
noite a nos dar vertigem
lua a fingir-se virgem

e eu sem coragem
à margem da vida
a escrever páginas
e páginas

(mugidos de vagina)

*

desembaraço

líria porto

da boca de bebel quero sorrisos
e beijos e palavras e poemas
na boca de bebel ponham alegria
dos olhos de bebel tirem
o cisco

*

nana

líria porto

menina tu não me enganas
teu corpo de passarinho tem o espírito
das montanhas

*

luz

líria porto

ofuscas a lua
o sol as estrelas
e se rodopias
o mundo tonteia
eu fico encantada
o bispo o padre
o moço o velho
o gato o cachorro
o céu o inferno
o zangão
as abelhas
o azul
o amarelo
o verde
o vermelho
o rei
a rainha
o espelho
o planeta
o universo

*

mal-estar

líria porto

expansão digestiva
: um ovo de ema
dentro da barriga

*

quinta-feira, 15 de abril de 2010

coisa de poeta

líria porto

nada é mais concreto
que a abstração de niemeyer

(curvas tão corretas
retas ondulantes)

*

ponto

líria porto

planta-se um poste
o cão se encosta
a puta espera
o mendigo esmola
o sábado explode
a lua aparece
o bar prospera
o bêbado vomita
a amor some dos olhos
:
esquina é dobra_dura

*

chá de cadeira

líria porto

para quem espera as horas são pedras
para quem se atrasa são poeira

*

instinto

líria porto

tinha o brilho e o tino
das mães
:
é feinho vovó
mas é meu

*

quarta-feira, 14 de abril de 2010

na serra do rola-moça

líria porto

as curvas a indescritível beleza
transformaram seus caminhos
em perdição

*

clarão

líria porto

(di)lapidar o poema
deixá-lo nu e sem som

a poesia
é tão somente
um relâmpago

*

oito e oitenta

líria porto

quisera ter já não tem
destreza vivacidade
a idade impõe limites
o tempo é inexorável
então meu bem paciência
vovó demora mas chega
leva consigo seus
(s)ais

*

segunda-feira, 12 de abril de 2010

gata escaldada

líria porto

não cria bichos
não quer saber de bebês
aos seus amores avisa
quer mesmo é ser a outra
a dos momentos felizes
sem crises chateações
e sem prestação
de contas

*

domingo, 11 de abril de 2010

extrema

líria porto

a dor do mundo
a dor que dói e faz doer
não é a dor do amor
é a dor do ódio

*

sábado, 10 de abril de 2010

(para o livro sem pecado não tem salvação) entre cético e sádico

líria porto

talvez o céu dos cachorros
seja o inferno dos gatos

e o céu lá dos bichanos
o inferno dos passarinhos

e o céu dos passarinhos
o inferno dos insetos

e o céu dos mosquitinhos
talvez dos vermes também

seja o corpo putrefato
que acredita no céu

e purga céu e inferno
no mesmo fato

*

sexta-feira, 9 de abril de 2010

saudade

líria porto

queria chorar
num ombro qualquer
de homem ou mulher
um mar de águas roxas
e quando ficasse alegre
iria a seu casebre
trocar de cor(po)

*

escassez

líria porto

o verso definha
o poema some

como se o universo
conspirasse contra

e o mar secasse
virasse deserto

e a vida fosse
esse faz de conta

*

quarta-feira

líria porto

apelou a são longuinho os pulinhos foram três
precisava achar de novo a alegria  perdida –– sumida assim
de uma vez

encontrou-a na avenida
                                     grávida de tristeza

*

quinta-feira, 8 de abril de 2010

(peguei o sol no pulo) definitivo

líria porto

foi triste
quando partiste
levaste a estrada

*

lamentação

líria porto

corpos barrentos transbordam-se durante as enchentes
transformam em charcos olhos cansados
de sofrimento

*

direto

líria porto

santo - eu sinto
por retornar ao assunto
:
o cinto aperta
a miséria assenta
e a fome abunda

dá um jeito

*

quarta-feira, 7 de abril de 2010

cadente

líria porto

paro
espero horas e horas
pelo meteoro

ora oro
ora pisco

*

procura-se

líria porto

uma pedra que me queira
que tenha olho de gato
que me vele me proteja
que às vezes e sem rodeio
beije-me apaixonada
mas que seja pedra mesmo
pois não passo de uma
estátua

*

terça-feira, 6 de abril de 2010

cafuçu do brejo

líria porto

nem todo ouro do mundo
me tira desse buraco
nasci aqui sou no fundo
ouriço bicho do mato

o silêncio a quietude
protegem-me e me resguardam
passarinhos sapos grilos
orquestram a minha calma

*

segunda-feira, 5 de abril de 2010

quae sera tamen

líria porto

as pedras –– mesmo pedras –– rolam
não prendê-las nem casá-las com cimento

as pedras –– mesmo pedras –– voam
eu já fiz voar algumas e acertei cabeças

as pedras –– mesmo pedras –– pedro
precisamos ser livres

*

fiu fiu

líria porto

depois da chuva dos cinzas 
de chorar paixão de cristo
o céu se pinta de azul 
pendura o sol na lapela
reabre abril e caminha
rumo a maio - mês de maria
ritinha jandira luiza 
mulheres que assobiam

*

sábado, 3 de abril de 2010

a cor azul escura do cobalto

líria porto

pode ser bomba
pode ser míssil
pode ser íngua
(ou algo maligno)
debaixo da língua

se houver tempo
registre-se o fato
se não o houver
faça-se o possível
no verso na rima
no estribilho

pode ser bomba
pode ser míssil
pode ser íngua
(ou algo maligno)
debaixo da língua

engula-se a saliva
e o desatino

*

(publicado no livro garimpo - editora lê) - de cor e salteado

líria porto

teu nome escrevo no ar
na mão no muro no espelho
teu nome reviro do avesso
rabisco no travesseiro
teu nome recorto as vogais
misturo com outras letras
soletro de frente para trás
teu nome tatuo no peito
carimbo na pele nas pernas
teu nome eu grito cochicho
balbucio remedo repito
teu nome é meu
                     be-a-básico

*

azul azul

líria porto

manhã tão bonita
o manto dourado
a brisa o céu
o canto do pássaro

no chão no quintal
o mato o capim
a rosa o cravo
abril bem-te-vi

a chuva se foi
deixou muita coisa
a terra está linda
vestida de noiva

(em maio eu me caso)

*

sexta-feira, 2 de abril de 2010

banho dágua fria

líria porto

quem espero
não me alcança

*

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - vida boa

líria porto

bem cedo ao canto do galo
saltar da cama e no ato
pisar o chão sem sapatos
ouvir os bichos os pássaros
rever o sol

quando noite luar
sem recato e sem freio
igual água do regato
molhar-te a boca

*

mortiça

líria porto

os cabelos perderam a leveza
e noturnos macambúzios causam
pesadelos

os cílios
banhados em tristeza e visgo
atraem morcegos
e urubus

*

quinta-feira, 1 de abril de 2010

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - coleção

líria porto

quero – espero – flagrar o amanhecer
e num gesto súbito guardar o lusco-fusco
no bolso

(quem precisar de lilases de azuis prematuros
tenho infinidades)

*

bambo é que é bom

líria porto

as horas borbulham como a água
para o café

antecipo o aroma o sabor
a bebida estimulante

pensamentos se tornam roliços
como pães de queijo

domingo é dia

*

quarta-feira, 31 de março de 2010

deserto

líria porto

inveja é mar seco
(tem dentro cobras
e escorpiões)

*

terça-feira, 30 de março de 2010

malha

líria porto

olho a lua renda branca
meia lua transparente
adolescente

é de manhã

sol suave em sua nave
lambe as beiras da cidade
o horizonte

é de manhã

bem-te-vi canta bonito
saúda o azul o infinito
o céu esplêndido

é de manhã

andorinha rasga o espaço
leva a nuvem no regaço
por um instante

é de manhã

*

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) lacuna

líria porto

no vão entre o colchão e o cobertor
                         espaço da tua ausência
a saudade dos arrulhos dos sussurros
do amor que existiu e voltará
numa noite assim
                      de muita chuva

*

o fotógrafo

líria porto

percebeu a magia do gesto
e num clic tocou as asas
da poesia

*

f.i.s.c.a.l

líria porto

quem confere o ferro
com ferro será conferido

tintim por tintim

*

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) diva

líria porto

algo de bette davis
talvez aquele olhar de mulher capaz de tudo
de matar de morrer
                            de esmagar baratas

*

sem sono

líria porto

dorme pouco
às vezes cochila
recosta na nuvem
num colo de estrela
porém nesta noite
tão cheia de ru(s)gas
a insônia da lua
foi filha da puta

*

segunda-feira, 29 de março de 2010

atrelados

líria porto

fui ao porto ao cais
de bar em bar
perguntei ao mar à areia
a todas as ondas
precisava reencontrar-te
destrocar as nossas sombras
ao partires a minha te seguiu
e teu vulto insistente
ainda me ronda

(não consigo des_lindar-me
das lembranças)

*

longevos

líria porto

toda manhã o corpo a abraça
: bom dia minh'alma - sem ti eu não vivo

toda noite a alma beija-o
e sai para um passeio

toda tarde de mãos dadas
sempre muito unidos

sem solidão

*

domingo, 28 de março de 2010

poeminha

líria porto

as meninas dos olhos
pequeninas buliçosas
saltam do ramo de rosas
para o azul da manhã

como não temem nada
ficam dependuradas
nos raios de sol

*

de aluir o luar

líria porto

sol sono_lento
(des)acorda passarinho
brisa cheiro de lavanda

eu vou morrer
à_manhã

*

sábado, 27 de março de 2010

dom juan

líria porto

amar esse homem
é aceitar ser um pingo
num dia de chuva

o mar quando entorna
derrama n’areia
as franjas da espuma

*

feras

líria porto

pedi à princesa
um bocado de pão
deu-me saias de brocado
eu tinha fome

pedi ao rei
feijão com arroz
enxotou-me sem piedade
perdi a honra

pedi à rainha
precisava de trabalho
apontou-me o olho da rua
fiquei à margem

*

o ingênuo

líria porto

acredita nas verdades nas mentiras
sofre e não choraminga

: ora

*

outono

líria porto

as folhas caem
há no entanto um consolo

o vento ergue-as um pouco
e antes que toquem o chão

são borboletas

*


sexta-feira, 26 de março de 2010

medula (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto

rio sobre a ponte
rio sobe a ponte
rio sob a ponte
rio só

a ponte –– um ponto
sem nós

*

perdi os ponteiros

líria porto

bom dia tarde
boa tarde noite

já libertei os minutos
desta mania de horas

meu relógio é o sol

(em tempo - dilua-o)

*

quinta-feira, 25 de março de 2010

álibi (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto

andei atrás da minha sombra
e se alguém deixou pegadas não fui eu

eu era a sombra da sombra

não fazia nem sentia nada
caminhava contra o sol

*

a_versão

líria porto

nasce e renasce nos versos
nos reversos - mata-se

(nus versículos)

: in_versos versejares
m'incriminam

*

quando lúcifer queimou-me as asas

líria porto

despencou um pedaço do céu

ficou-me um rastro um vestígio
um cheirume de enxofre

uma puta cic_atriz

*

quarta-feira, 24 de março de 2010

pequenina

líria porto

acorda espreguiça-se
solta as pétalas uma a uma
como flor que desabrocha
como rosa que perfuma

*

terça-feira, 23 de março de 2010

ins_piração

líria porto

quero um verso uma luz ou uma pétala
e o que tenho é a voz rouca do escuro
o berro do silêncio
                         

*

bazófia

líria porto

pessoas muito vaidosas
são competentes para façanhas
que - convenhamos 
são ninharia e vanglória

*

ressentimentos

líria porto

coração moto-contínuo
movido a sangue emoção
bate/apanha acovarda-se
obriga-se a funcionar
nestas poças
             nestes charcos

*

tu_tu

líria porto

farinha sou feijão
nascemos um pro outro

*

segunda-feira, 22 de março de 2010

perfumosa

líria porto

farejo a aurora
sinto o cheiro azul
da manhã que se aproxima

*

sábado, 20 de março de 2010

solenes

líria porto

formigas carregam a barata
reverenciam o banquete
de domingo

*

robot

líria porto

entrega-se à máquina de viver
ajusta-se à engrenagem encaixa-se
ao contexto

emoção às favas coração às traças
sem dor mágoa desespero
tal como um bloco
de gelo

*

sexta-feira, 19 de março de 2010

mosaico

líria porto

sequestraram-me um poema
exigiram-me resgate
: matem-no se o quiserem
não tenho palavras
nem recurso

restam-me a_penas
f
r
a
g
m
e
n
t
o
s

*

quinta-feira, 18 de março de 2010

(para o livro sem pecado não tem salvação) pecadora

líria porto

nos meandros dos quadris daquela dona
homens pousam e encontram ancoradouro
dão-lhe ouro diamantes pedrarias
:
o pastor a abençoa e cobra
o dízimo

*

pingente

líria porto

a palavra é pedra
a ser lapidada

a luz a penetra
a fresta se abre

da pedra tão dura
extrai-se a alma

é nova a textura
igual a da lágrima

*

quarta-feira, 17 de março de 2010

mano a mano

líria porto

achei-o cheio de si
achou-me um show de retórica
é só um ponto de vista – opinião
provisória

*

diante do espelho

líria porto

olhava-se
olho no olho
ficava sem entender
a cara a pele a boca
cabelos brancos eriçados
deus meu será que essa doida
sou eu?

*

dar de ombros

líria porto

pensem o que pensem
não importa
nem eu sei quem sou
porque vim ou voo

todos
ao pé da letra
temos calo frieira
unha encravada

o que nos consola
são meias verdades
e sapatos largos

*

terça-feira, 16 de março de 2010

a menina

líria porto

de vestidinho amarelo
com alcinhas e bolero
mais parecia uma espiga

pobre como estas rimas
estufava o peito e ria
ao ouvir o pai dizer
:
tenho uma filharada
eu sou mais rico
que o rei

(talvez fosse uma princesa)

*

(peguei o sol no pulo) no leito de morte

líria porto

olha os filhos os netos e murmura
não chorem não fiquem tristes – a mãe precisa ir
é deus que insiste

*

escoadouro

líria porto

o tempo que o tempo tem
andamos mais de três quartos
a idade disparou
eu não tinha tanta pressa
e o prazo que me resta
eu sei é pouco
então vem
antes que acabe a festa
e deixemos de viver
o que seria
e não foi

*

segunda-feira, 15 de março de 2010

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) ponto de vista

líria porto

uma partícula
um cisco
não teria importância
e nada mudaria
não tivesse
caído
em meu olho

*

domingo, 14 de março de 2010

ora pílulas

líria porto

uma flor contrária
uma dor de ovário
pétala uterina

sua cor vermelha
é como a centelha
dessa fêmea cíclica

muita vez transborda
atravessa as bordas
do próprio apetite

quando se retém
sustos vão além
duram nove meses

(o ventre crescido)

*

sábado, 13 de março de 2010

protesto

líria porto

o lucro ultrapassa os limites
cortaram a paineira as flores a beleza
vão erguer o e_difícil

*

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) devoção

líria porto

olho minhas mãos as manchas a pele ressecada
lembro-me daquele menino –– o zezé

passava os dedos pelo meu corpo e ficava admirado
és tão lisa pareces capa de revista
santa de reza

*

sexta-feira, 12 de março de 2010

como antes no quarto de a(b)rantes

líria porto

tudo para te esquecer e não consigo
:
acumulo teu cheiro no umbigo
e na pérola tua língua

(roupas
no chão
:
nós
en_laçados)

*

secretária

líria porto

depois que faz a ata
o patrão desata-a

*

quinta-feira, 11 de março de 2010

avareza

líria porto

vive-se a se pensar no ontem
a esperar-se o amanhã

quando o futuro for hoje e hoje passado
ter-se-á esgotado o tempo de viver

*

éden

líria porto

água bebida na concha das mãos
verde ao redor - vida simples
e nós

*

azul azul

líria porto

onde canta o azulão eu azulinho
teço meu ninho nos cabelos de são joão

e sonho sonhos de meninos e meninas
e faço versos com varinha de condão

*

quarta-feira, 10 de março de 2010

autonomia

líria porto

realizo se puder e do meu jeito
quem não o quiser ponha mãos à massa
:
faça

*

tudo pássara

líria porto

borboletas abanam o pátio
nem se lembram dos casulos

iguais pontas de cabelo
cortadas jogadas no lixo
assim são os sofrimentos
depois de livrar-nos deles
nunca mais pedir notícias

felicidade depende
da nossa capacidade
de mesmo sem entendê-lo
esquecer o temporal

*

ruínas

líria porto

janela virada pra lua
a tapera da velha
tem entre as pedras
uma aranha rubra

rarrarrarrarráaaaaaaaaaaaaaa

*

terça-feira, 9 de março de 2010

tédio

líria porto

sobre as listras do lençol
branca azul branca azul
dormiu sonhou mas agora
nesta monotonia
manhã vazia chuvosa
reconta-as uma
por uma
:
três trinta trezentas
e as entrelinhas

*

brinde

líria porto

quando as uvas estiverem maduras
irei ver-te e até o final da colheita
beber-te gota a gota

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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