quarta-feira, 30 de setembro de 2009

passageiro

líria porto

à frente a estrada atrás a estrada
no centro - eu - parado dentro
do carro em movimento

*

terça-feira, 29 de setembro de 2009

tanto (a)mar

líria porto

os pezinhos de malu
voam sobre as ondas

o (a)mar faz cócegas

*

coerência

líria porto

é preciso saber
estar só(brio)
aquecer a sopa
lavar a louça
esticar o lençol
gostar da própria
sombra

*

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

semaninha

líria porto

segunda é dia de sono e atrapalho
terça é dia de recomeçar
quarta é dia de trabalho e futebol
quinta é dia de trabalho e telefonemas
sexta é dia de atabalhoar
sábado é dia de mercado e boldo
domingo é dia

*

domingo, 27 de setembro de 2009

galardão

líria porto

o poleiro despencou
pulei para o andar de cima
estou nas nuvens

perto da lua
estrela na testa
bico aberto

*

teia

líria porto

eu me atrevo e uma aranha
espia o que escrevo
:
ela mata mosquito em silêncio
eu mato no grito

*

sábado, 26 de setembro de 2009

(ao fantasma da biblioteca)

líria porto

uma folha uma página uma pétala
minh'alma na terceira prateleira

vez por outra
leia-a

*

sustos

líria porto

tu e eu – corpos colados
um parque de diversão
montanha russa teus braços
o coração bate bate
se eu morrer de infarto
terá sido a salvação

*

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

(peguei o sol no pulo) esqueleto

líria porto

escrevo
depois faço a poda
:
soçobram
os ossos descarnados
do poema

*

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) prazo

líria porto

preciso de um tempo
é quase o final do jogo
o show está pelo fim
eu já te posso esquecer
só preciso de um tempo

não me peças além disso
pode ser que eu não consiga
não demora quase nada
apenas um pouco mais
que o resto da minha vida

*

(publicado no livro garimpo - editora lê) - rupestres

líria porto

entre a história dos dois
a montanha a separá-los
de um lado a pouca força
do outro palavras parcas
e as rochas tão caladas

de cá vivia uma louca
de lá morava um poeta
o homem sangrava versos
as unhas dela rasgavam
feriam a pele da pedra

e a fina chuva regava
os gestos do amor eterno

*

(publicado no livro garimpo - editora lê) - rimas caninas

líria porto

corações perdigueiros
farejam e caçam
amores verdadeiros

o meu vira-lata
também vai à cata

*

haicai

líria porto

tesouros tesoura
bando de andorinhas
e o céu picotado

*

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

negociação

líria porto

nem sempre foi assim
eu não tinha areia nos olhos
nem neblina

o rouge o batom borrados
não são culpa minha
nunca fui desleixada

está bem
pagas só quinze

*

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) gris

líria porto

verde não te quero verde
quero-te bem maduro
no ponto certo do apuro
dos teus cabelos cinzentos
das tuas marcas e rugas
que o tempo faz quando cura
as desilusões

*

medo de defunto

líria porto

vestia um pretinho básico
e não perdia um velório

(enviuvara de um traste
e não resistia à tentação
de reenterrá-lo)

chorava de alívio

*

primavera de praga

líria porto

ser lida
esse lado é o lodo
da notícia

grotesco é gravar
agressões e grosserias

meu cavalo é puro sangue

*

fiel

líria porto

ela se dedica a ele
ele se dedica a ela

nessa tabela
não cabe cadela
nem cachorro

captou bentinho?

*

terça-feira, 22 de setembro de 2009

compensação

líria porto

a chuva que me suja os pés
lava minha alma

*

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

platônicos (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto

o mar não para
vai e vem  irrequieto
chega à praia passo à frente
depois acho se arrepende
arreda o pé

a serra por sua vez
permanece embasbacada
a olhar o mar de longe
tem desejos de tocá-lo
o corpo não lhe obedece

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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