domingo, 11 de setembro de 2016

descabreado

líria porto

ir por aí
sem norte
tal como fosse
um nenhum
sem documento
sem renda
só à procura
de rima
de algo que
por sensível
não me ferisse
de morte

*

lorota

líria porto

não levem ao pé da letra
toda verdade que dizem
falam pelos cotovelos
e a maior parte
                     é mentira

*

(peguei o sol no pulo) sanguessugas

líria porto

beberam-me à jugular
a poesia que eu tinha
precisei ficar sozinha
pra poesia voltar

(homens
vírus
e vampiros)

*

sábado, 10 de setembro de 2016

piração

líria porto

o girassol ficou louco
a causa todos sabemos
aquela ideia fixa
olhar o sol na pupila
até cozer o miolo

*

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

dissimulados

líria porto

em algum lugar de nós
pensamentos e lembranças
porém em nós há um pântano
onde se afundam em segredo
culpas pecados 
enganos

(esquecemos
por defesa
nossos pedaços
imundos)

*

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

vaivém

líria porto

a vaia voa
viaja
vai à veia
do velhaco
e o vaidoso
o vendilhão
viciado
em vanglória
em vale-tudo
é varrido
pra valeta
onde vivem
as varejeiras

(vê-se
num vapt-vupt
em desvantagem
vertiginosa)

*

mapa

líria porto

da praça sete à casa
subia a avenida afonso pena
virava à esquerda na getúlio vargas
chegava à contorno com rua do ouro
e ali mesmo subia a pouso alto
até a salutares

porém se tinha pressa
pela altura da praça tiradentes
pegava o atalho da aimorés
em direção à serra

(abraçava-a ofegante e um tanto cansado
aquele amante)

*

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

tropa de choque

líria porto

pelo andar da carruagem
ameaças ao futuro
eles voltaram ao poder
o abuso da polícia
continua

*

fogo cruzado

líria porto

quis enquadrar-me
colocar-me na mira
escapei
:
não sou a mãe do seu filho
nem sua refém

*

terça-feira, 6 de setembro de 2016

cartilhas

líria porto

semear letras
ao brotarem as palavras
colhê-las em ramalhetes
e ofertá-los às crianças
:
livros são buquês

*

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

amarelão

líria porto

dei de ficar no quarto
só saio com verso pronto
perco parte da manhã

esse verso miserável
que me rouba o melhor sol
não vale um tostão furado

(carece vitamina d)

*

serragem

líria porto

tem gente que é cara de pau
tem gente que é fogo de palha
tem gente que é duas caras
e mentiroso e covarde

*

domingo, 4 de setembro de 2016

fraudes

líria porto

personagens de nós mesmos
inventamos sobre nós o que queremos
e passamos fielmente a acreditar

*

flash

líria porto

morrer é poema épico
(solene como um soneto)
viver é haicai

*

sal na boca

líria porto

tudo fosse estranheza
chorássemos o gosto – o sacrifico
do porvir

*

acabada

líria porto

pesadelos trituram-me
transformam-me o repouso em aflição
dói-me a carne os ossos
(os pentelhos)
já dei coice no espelho
e nas sombras

*

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

nódoa

líria porto

a cada etapa da vida
viramos a página – algumas naturalmente
outras muito constrangidos

(assaltaram minha pátria)

*

o substituto

líria porto

sempre a tramar o golpe
que em eleições livres sequer seria
o síndico do edifício

*

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

colírio

líria porto

meus olhos
ficam claros quando choro
tenho lágrimas corrosivas
capazes de apagar
as nódoas

*

misógino

líria porto

não sei se consigo
com quem mais viesse
cercar o maldito
fazê-lo sentir-se
frágil acuado
tal como as mulheres
que humilha e coage
com gestos palavras
de forma covarde

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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