segunda-feira, 13 de junho de 2016

bígama

líria porto

a poesia madruga
a militância anoitece
eu vivo entre elas duas
minhas amantes
mulheres

*

impaciência

líria porto

o tempo não para
as horas expiram
porém o futuro
sequer o vislumbro
:
cansei-me da espera

*

domingo, 12 de junho de 2016

assaz sina

líria porto

a morte é de morte
mata tudo e todos
e isso não é vida

*

(des)aparição

líria porto

de lá da neblina
como fosse um fantasma
o espectro do sol

*

sexta-feira, 10 de junho de 2016

foice

líria porto

a inocência
ceifada antes do tempo
qual pluma – sem rama
sem rima sem rumo
à mercê do vento

*

atitude

líria porto

aí me lembrei de bombril
(axilas – pelos pubianos)
mil e uma utilidades
mulheres na pia
e na cama
:
telefono e peço
pizza

*

quinta-feira, 9 de junho de 2016

das delações premiadas

líria porto

no vai e vem das palavras
nas intenções corrompidas
(manipulação dos fatos)
os delatores se prestam
(com o aval dos juízes
cumplicidade da mídia
e para se safarem)
a rechear as verdades
com fatias de mentiras
e desconfiança
(tudo bem engendrado)
:
entre notórios bandidos
introduzem gente limpa
que pelos seus compromissos
convicções atitudes
contraria interesses
escusos

(volta querida)

*

quarta-feira, 8 de junho de 2016

cãs

líria porto

quando ficarmos velhas
se parecermos uns cacos
nós montaremos mosaicos
encantaremos nos palcos
dos nossos netos

*

fatalidades

líria porto

não acontecem comigo
como não? não tenho estrela na testa
nem sou melhor que ninguém

(eu que tome tento)

*

vai-vem

líria porto

um caixão conduz o cadáver até a cova
e é trazido de volta para servir
outro pobre

*

parceria

líria porto

não era marido
sequer namorado
ou parente 
:
amigos
unidos sempre juntos
mais que misto-quente

arroz / feijão

*

terça-feira, 7 de junho de 2016

projeção

líria porto

o espinho veio com tudo
formou-se a poça de sangue
a dor fincou lá no fundo

fica a pensar num punhal
no brilho da sua lâmina
na palidez do defunto

*

mulher de palavra(s)

líria porto

falo o que sinto e pressinto
cumpro o que prometo
digo a verdade possível
e minto às vezes
(quase sempre
a mim mesma)

*

segunda-feira, 6 de junho de 2016

íngua

líria porto

perfuro-o com faca
o verso não sangra
parece batata
ou nabo
ou banana

na lâmina
a nódoa
e os nódulos
na garganta

a dor?
indizível

*

domingo, 5 de junho de 2016

sadismo

líria porto

as ervilhas
antes de mastigá-las
espetava-as uma a uma
divertia-se

*

coleção

líria porto

artigos poemas cartas
os livros
o que temos nos arquivos
nas estantes nas gavetas
nosso inventário de sonhos
pensamentos
desejos
delírios
frustrações

*

sexta-feira, 3 de junho de 2016

indigesta

líria porto

branca
negra
índia
oriental
gente
bicho
sou fêmea
e sangro
:
sou mulher
para mais de mil
talheres

brocado

líria porto

forraram a noite com um pano escuro
tão velho e tão furadinho que através dele
a luz foge do céu

(estrelas são poás)

*

estilingue

líria porto

a caneta é meu bodoque
e palavras são pedras que atiro
com a pontaria dos sentidos

*

pássaro

líria porto

se me cercarem
impedirem-me de sair pela porta
fujo pela janela e não cantarão vitória

(moro no nono andar)

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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