domingo, 7 de setembro de 2014

cirurgia

líria porto

afunda emerge afunda
a agulha conduz a linha
encarregada de juntar
todas as partes
e fixar
os detalhes

(o bisturi corta a carne)

*

desbandeirado

líria porto

deitar-nos em berço esplêndido
sem ordens e sem progresso
que liberdade é pastar
capim verdinho e macio
e poder fazer a sesta

*

olhar

líria porto

a pessoa da pessoa
ri com os olhos
tal e qual um passarinho
a cantar pra nossa alma
sem solfejo pio
nada

*

economia

líria porto

ninguém tem toque de midas
nem varinha de condão

para mudar o que existe
é necessário preparo
apoio políticas públicas
pés no chão
e mãos à massa

(o mais é demagogia
blá blá blá –– papo furado)

*

sábado, 6 de setembro de 2014

na antártida

líria porto

a foca e o leão-marinho
resolveram se casar
:
a noiva toda de branco
(enfeitada com conchinhas)
o noivo – terno e gravata
(bigodes bem aparados)

pinguins foram a caráter
as tartarugas os ursos
os parentes dela e dele
(todos muito chiques)

o sol foi testemunha

*

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

duma figa

líria porto

perdi a mão para o verso
o pé não perdi –– ainda caminho
melhor que o saci

*

bobinho

líria porto

o amor – ah o amor
pula de galho em galho
qual mico tolo feliz
sem se importar com o ridículo

*

costume

líria porto

sem um amor sem o outro
a vida murcha
urge-lhe arranjar mais um
(seja o último)
um que lhe banhe o corpo
leve-o ao sepulcro
por ele se vista de luto
jogue-lhe a última flor
herde os seus acúmulos

(sempre quis
viúva rica)

*

azedume

líria porto

meu amor não sobrevive
a inseguranças e provas
:
amores imaturos
esgotam-me

dão-me nos nervos

*

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

pós-parto

líria porto

coité de leite
tigela de coalhada
a meia lua parece
peito de mulher

*

fim

líria porto

no ponto onde o tempo vira
e outro dia começa
esse suspiro

o último

*

inundação

líria porto

se as lágrimas das mulheres não secassem
não haveria planícies planaltos caatingas
só mares e oceanos – de tanta água
com sal

*

rolagem

líria porto

as semanas caminham
com passos lentos ou rápidos

lembramo-nos dos dias dos meses
da datas

não da semana passada

*

magia

líria porto

tão pequenino o ipê
tão carregado de sonhos
de responsabilidade
que levar flores ao colo
cuidar do tom da beleza
com tempo seco
é milagre

*

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

descuido

liria porto

sem atenção aos detalhes
perdemos a noção
das arapucas

tem diabo em couro de vítima

*

terça-feira, 2 de setembro de 2014

quem o viu?

líria porto

o meu versinho sumiu
não aparece faz dias
em tempo de ostracismo
não me canta
a cotovia

*

porta da frente

líria porto

eu gosto da claridade
de saber por onde piso
de ver quem anda do lado
de ajudar quem precisa
de também ser ajudada
de sentir que nesta vida
podemos ir de mãos dadas
sem temer

sem canalhices

*

palanque

líria porto

não errou
quem nunca fez

quem tem as mãos calejadas
sabe das dificuldades
que é preparar a terra
escolher boas sementes
plantá-las regá-las
exterminar toda a praga
retirar os parasitas
esperar a chuva o sol
o tempo da colheita

deitado na rede é fácil
torcer o nariz apontar
dizer - sou o novo
o milagre
fechem os olhos
confiem
eu sou o iluminado

*

barbaridade

líria porto

a poesia vai bem
o sol a lua as estrelas
o céu então nem se fala
o que me aflige é terreno
há tanto inseto veneno
e a gente sendo
                      cobaia

*

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

estomacal

líria porto

amarga não nem azeda
eu sou assim agridoce
pois que rio da desgraça
do peso que me amassa
como um dia atrás
das ostras

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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