sábado, 10 de abril de 2010

(para o livro sem pecado não tem salvação) entre cético e sádico

líria porto

talvez o céu dos cachorros
seja o inferno dos gatos

e o céu lá dos bichanos
o inferno dos passarinhos

e o céu dos passarinhos
o inferno dos insetos

e o céu dos mosquitinhos
talvez dos vermes também

seja o corpo putrefato
que acredita no céu

e purga céu e inferno
no mesmo fato

*

sexta-feira, 9 de abril de 2010

saudade

líria porto

queria chorar
num ombro qualquer
de homem ou mulher
um mar de águas roxas
e quando ficasse alegre
iria a seu casebre
trocar de cor(po)

*

escassez

líria porto

o verso definha
o poema some

como se o universo
conspirasse contra

e o mar secasse
virasse deserto

e a vida fosse
esse faz de conta

*

quarta-feira

líria porto

apelou a são longuinho os pulinhos foram três
precisava achar de novo a alegria  perdida –– sumida assim
de uma vez

encontrou-a na avenida
                                     grávida de tristeza

*

quinta-feira, 8 de abril de 2010

(peguei o sol no pulo) definitivo

líria porto

foi triste
quando partiste
levaste a estrada

*

lamentação

líria porto

corpos barrentos transbordam-se durante as enchentes
transformam em charcos olhos cansados
de sofrimento

*

direto

líria porto

santo - eu sinto
por retornar ao assunto
:
o cinto aperta
a miséria assenta
e a fome abunda

dá um jeito

*

quarta-feira, 7 de abril de 2010

cadente

líria porto

paro
espero horas e horas
pelo meteoro

ora oro
ora pisco

*

procura-se

líria porto

uma pedra que me queira
que tenha olho de gato
que me vele me proteja
que às vezes e sem rodeio
beije-me apaixonada
mas que seja pedra mesmo
pois não passo de uma
estátua

*

terça-feira, 6 de abril de 2010

cafuçu do brejo

líria porto

nem todo ouro do mundo
me tira desse buraco
nasci aqui sou no fundo
ouriço bicho do mato

o silêncio a quietude
protegem-me e me resguardam
passarinhos sapos grilos
orquestram a minha calma

*

segunda-feira, 5 de abril de 2010

quae sera tamen

líria porto

as pedras –– mesmo pedras –– rolam
não prendê-las nem casá-las com cimento

as pedras –– mesmo pedras –– voam
eu já fiz voar algumas e acertei cabeças

as pedras –– mesmo pedras –– pedro
precisamos ser livres

*

fiu fiu

líria porto

depois da chuva dos cinzas 
de chorar paixão de cristo
o céu se pinta de azul 
pendura o sol na lapela
reabre abril e caminha
rumo a maio - mês de maria
ritinha jandira luiza 
mulheres que assobiam

*

sábado, 3 de abril de 2010

a cor azul escura do cobalto

líria porto

pode ser bomba
pode ser míssil
pode ser íngua
(ou algo maligno)
debaixo da língua

se houver tempo
registre-se o fato
se não o houver
faça-se o possível
no verso na rima
no estribilho

pode ser bomba
pode ser míssil
pode ser íngua
(ou algo maligno)
debaixo da língua

engula-se a saliva
e o desatino

*

(publicado no livro garimpo - editora lê) - de cor e salteado

líria porto

teu nome escrevo no ar
na mão no muro no espelho
teu nome reviro do avesso
rabisco no travesseiro
teu nome recorto as vogais
misturo com outras letras
soletro de frente para trás
teu nome tatuo no peito
carimbo na pele nas pernas
teu nome eu grito cochicho
balbucio remedo repito
teu nome é meu
                     be-a-básico

*

azul azul

líria porto

manhã tão bonita
o manto dourado
a brisa o céu
o canto do pássaro

no chão no quintal
o mato o capim
a rosa o cravo
abril bem-te-vi

a chuva se foi
deixou muita coisa
a terra está linda
vestida de noiva

(em maio eu me caso)

*

sexta-feira, 2 de abril de 2010

banho dágua fria

líria porto

quem espero
não me alcança

*

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - vida boa

líria porto

bem cedo ao canto do galo
saltar da cama e no ato
pisar o chão sem sapatos
ouvir os bichos os pássaros
rever o sol

quando noite luar
sem recato e sem freio
igual água do regato
molhar-te a boca

*

mortiça

líria porto

os cabelos perderam a leveza
e noturnos macambúzios causam
pesadelos

os cílios
banhados em tristeza e visgo
atraem morcegos
e urubus

*

quinta-feira, 1 de abril de 2010

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - coleção

líria porto

quero – espero – flagrar o amanhecer
e num gesto súbito guardar o lusco-fusco
no bolso

(quem precisar de lilases de azuis prematuros
tenho infinidades)

*

bambo é que é bom

líria porto

as horas borbulham como a água
para o café

antecipo o aroma o sabor
a bebida estimulante

pensamentos se tornam roliços
como pães de queijo

domingo é dia

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

Arquivo do blog