líria porto
pressente-o mas muda de assunto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
líria porto
seu orlando
o terrível comunista
perseguido pelos militares
preso durante a ditadura
esculpia anjos e rosas de madeira
contava histórias para crianças
e deixava torneiras mal fechadas
para dar de beber aos marimbondos
*
líria porto
chegava meio fugido e saía de soslaio
quando eu o devolvia para o recinto do lar
:
eu era só seu oásis
*
líria porto
o mundo de ponta cabeça
a gente de pernas pro ar
se desistir me enfraqueço
se resistir quebro a cara
eu vou do quarto pra sala
eu volto da sala pro quarto
o corredor me espiona
parado no meio da casa
preciso ter paciência
fazer desfazer remendar
já sei – a vida tem preço
e a hora do verso
é no caos
*
líria porto
cristalinos e amígdalas
vesícula apêndice um rim
útero ovários memória
equilíbrio juízo paciência
alguns dos dentes
:
faltam-me uns pedaços
nem por isso sou vazia
*
líria porto
líria porto
uns passam ao largo
não prestam atenção
olham e não veem
outros atêm-se aos detalhes
percebem as linhas
as nervuras
perguntam interessam-se
querem saber mais
*
líria porto
se eu fosse autoridade
mandasse em alguma coisa
fazia plantar quaresmeiras
ou talvez pés de ipê roxo
onde houvesse covas rasas
(ou pelo menos no entorno)
pra que ninguém se esquecesse
que num tempo em minha pátria
(2020 - ano da pandemia)
existiu um desgoverno
(da cloroquina ao ozônio)
que não assistiu seu povo
permitiu e incentivou
que houvesse morte
em massa
*
líria porto
eu que amei doidos e putas
brumas e tempestades
confesso que nesta vida
também eu fui bem amada
*
líria porto
a morte antecipada
de uma das suas flores
revelou-lhe o que sabia
não tinha nenhum preparo
para perdas prematuras
pras ciladas do destino
metido a inverter a ordem
:
esperasse a sua vez
*
líria porto
segundo meu alter ego
poetas são tristes
(ou mal-humorados)
clamam da vida
do sofrimento
não riem de si
falam o menos possível
(e de preferência
mantêm silêncio)
mandei-o à merda
e agora na dúvida
(sou libriana)
:
fiz mal
ou fiz bem?
*