terça-feira, 13 de dezembro de 2016

alívio

líria porto

o tempo
se não cura
põe unguento

*

solidão

líria porto

o silêncio responde ao silêncio
e cada qual virado pra seu lado
dialoga co'as paredes

*

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

festas

líria porto

periquita
toma essa taça comigo
sem ti eu não sei se consigo
sentir a acidez o tanino
e depois parar

(sou capaz de beber no gargalo
e dormir na sarjeta)

*

haicai

líria porto

de lá da janela
a espreitar a escuridão
a lua amarela

*

sábado, 10 de dezembro de 2016

fiat lux

líria porto

a poesia
expande-se pelo espaço
engloba todos os astros
(luminosos e iluminados)
flutua no infinito

poeta do universo
deus nem existe

*

ateísta

líria porto

diante do infinito
vai de ateu a agnóstico
porque deus insiste

*

fuxico

líria porto

a aranha –– cheia de dedos
faz rodeio pra tecer a teia

*

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

sereia

líria porto

iara mora na ilha
tem cobertor de orelhas
e dorme em kama sutra

para que o sol a aqueça
e o boto a veja no banho
iara não tem cortinas

(não morram de inveja
não percam o juízo
a casa de mãe d'água
é o paraíso)

*

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

.capitu

líria porto

quando chegavas tarde
sabe-se lá de onde
(eu nunca perguntei)
o compadre vinha
fazer-me as honrarias

*

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

golpistas

líria porto

depois de perder nas urnas
de nos puxar o tapete
cutucam com vara curta
atiçam povo e poderes

*

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

autoconhecimento

líria porto

sei que não sei
na verdade eu nunca soube

por mais que tenha tentado
eu mergulhava no raso

e todo eu é profundo

*

ferroadas

líria porto

os poemas sempre chegam
nem sempre bons ou ruins
apenas algo capengas
necessitados de abelhas
que pólen e mel
eles têm

*

sem atrasos

líria porto

ao chegar a minha hora
não me prolonguem a vida
não me adiem a morte
:
eu sempre fui pontual

*

porvir

líria porto

o golpe no golpe
tucanos de toga
tucanos no pódio

onde?
no cu da mãe

*

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

excesso

líria porto

a balança aponta nossas bundas
esfrega-nos às fuças açúcares
e carboidratos

*

panelas na varanda

líria porto

meu povo tem outra cara
os que foram pra avenida
brancos ricos bem nutridos
(os privilegiados)
querem manter as mamatas
as férias em miami –– as contas
na suíça
:
eles pediram o impeachment
e tacam fogo no circo

*

domingo, 4 de dezembro de 2016

declive

líria porto

golpes retrocessos perdas irreparáveis
o mundo gira ao contrário
intensa a velocidade

no final dos tempos - o que seremos 
nossos corpanzis sem cérebros
já fomos dinossauros

*

centenária

líria porto

guardei a dor na gaveta
dobrada passada a ferro

outra dor apareceu
eu fiz o mesmo com ela

e tantas dores vieram
abarrotaram o armário

com as dores bem cuidadas
mas com desgaste nas peças

eu morrerei
é de velha

*

sábado, 3 de dezembro de 2016

inábil

líria porto

tu te perderias pelas minhas veias
sem jamais tocar-me
o coração

*

da poesia

líria porto

por onde os versos caminham
por onde tropeçam os poetas

há palavras que são rios
há palavras que são pedras

*

infância

líria porto

amoras pitangas gabirobas
essas frutinhas miúdas
que as crianças adoram
povoam nossas lembranças

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

natalidade

líria porto

no tempo das ceroulas
casais se reproduziam
como coelhos

*

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

bola de cristão

líria porto

férias de um ano
(reapresentação em 2018)
toga de juiz e bico
de tucano

(xô satanás)

*

chama

líria porto

a vida –– um flash
um relâmpago

antes e depois
a escuridão

*

cilada

líria porto

no caminho da sucessão
rampa escorregadia beira
o precipício

*

terça-feira, 29 de novembro de 2016

perplexidade

líria porto

água doce lá no rio
e no mar água salgada
o mundo –– o seu traçado
ser assim sem autoria
teria havido algum guia
o teu deus
seria mágico?

(o meu
é malabarista)

*

matiz

líria porto

cambiante
meu sangue furta-cor
mestiço

*

doutrinação

líria porto

abduzida por um ET
sua tromba penetrou-me o ouvido
seu zumbido me engravidou
então eu fiz o aborto

*

processo

líria porto

o corpo –– vela que queima
cera que se derrete
entorna e muda o contorno
enquanto encurta o pavio
até apagar-se o fogo

*

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

é o cu

líria porto

nasci de chocadeira
mamãe não fazia bobagem
e filho pela vagina
jamais

(mamadeira de três em três horas
e babá eletrônica)

*

sábado, 26 de novembro de 2016

luto

líria porto

qual murro no peito
hoje –– a meio pau –– minha bandeira
vermelha

fidel eternamente

*

redemunho

líria porto

o diabo me carregue
leve-me às grimpas da árvore
ou à crista de uma nuvem

*

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

tara

líria porto

na casa de tolerância
velhos insuportáveis
passavam as mãos nas meninas
e consumiam viagras

*

trabalheira

líria porto

para fazer a montanha
o vento empurrou –– uma a uma
as partículas de pó

*

naja

líria porto

bato de frente comigo
contesto meu pensamento
tenho tendência suicida
porém não acho propício
morrer do próprio veneno

*

regressão

líria porto

o cheiro denso da chuva
penetra minhas narinas
volto a ser a menininha
a soluçar todo o choro
sem consolo sem alento
que só cessa quando dorme
nos braços de sua mãe

*

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

a poesia é o jardim suspenso da palavra

pontos colaterais

líria porto

virou a bunda pro leste
olhava fixo o crepúsculo
fincou um dedo no norte
o outro enfiou no sul

*

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

elípticas

líria porto

a gente é concebida
e tem data presumida
para apear no planeta

(mães –– naves
especiais)

*

o feto

líria porto

espectro de extra-terrestre
que se reveste de gente

*

terça-feira, 22 de novembro de 2016

ser_tão

líria porto

na sede do rio o verde
desesperança

*

portugueses

líria porto

beijos de freira
de lamber os beiços
sujar os bigodes

*

vestígios

líria porto

cada poeta que lemos
deixa traços indeléveis
em nossos poemas

*

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

indícios

líria porto

valia-se da força
para dominar mulheres
submetê-las a sevícias
espancá-las humilhá-las
por isso creio –– o crime
dessa mulher sem peia
foi legítima defesa

*

domingo, 20 de novembro de 2016

atemporal

líria porto

d'agora em diante
(e agora nunca acaba
ou pelo menos durante)
não me preocupam as horas
pois que agora foi ontem
e continua agora
desde quando fui criança
até a hora da morte

*

extremos

líria porto

embora tão diferentes
um é macio o outro crespo
são eles meus preferidos
o abacaxi e o pêssego

*

sábado, 19 de novembro de 2016

hibernação

líria porto

para livrar-me de um verso
preciso deixá-lo escrito
mesmo que depois o enfie
no fundo de uma gaveta
para não lhe ouvir o grito

*

incêndio

líria porto

qualquer paixão me adverte
acende uma luz vermelha
depois dispara a sirene

*

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

cortantes

líria porto

estraçalhar dilacerar
verbos que são lâminas
cacos de vidro –– estilhaços
de metal

*

maternal

líria porto

a língua é áspera
inspirados são seus olhos
e pela vida ela pasta
a doar seu corpo inteiro
(o couro o leite a carne)
a homens degenerados
que não percebem nem sentem
a humanidade
da vaca

*

haicai

líria porto

cortina de tule
nas entranhas da neblina
minha própria rua

*

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

(para o livro sem pecado não tem salvação) bolo de rolo

líria porto

espero-te para um café
café com beijo é ótimo
sem beijo também é bom
(se bem que fica incompleto)
e com sexo então
ah –– com sexo
nem precisava o café

*

miudeza

líria porto

só quem se sente pequeno
precisa de pedestal

*

epitáfio

líria porto

aqui jaz meu corpo
meu arquivo morto

*

putanas

líria porto

nós –– mulheres públicas
não nos deixaremos privatizar

*

perdigueiro

líria porto

tenho bom faro
vasculho o escuro e acho
o que procuro

*

perecíveis

líria porto

nosso tempo de validade
impresso no avesso da pele
ninguém lê ninguém percebe

*

caí na tua sopa

líria porto

talvez devesses saber
a quantas anda a política
enquanto dormes e sonhas
os ratos rondam e roem
tua aposentadoria

*

literalmente

líria porto

foi um banho de água fria
a minha ducha queimou
em pleno dia de chuva

disseram-me -–– é a resistência
estou cada vez mais frágil

*

antisséptico

líria porto

tomei banho de caneca
-–– perereca pés axilas -––
o resto limpei com álcool
estou mais morta que viva
:
porém não fedo

*

esconderijo

líria porto

o cu –– feioso e fedido
condenado a viver onde o sol
não bate

*

regras

líria porto

o rio passou dos limites
depois retomou o traçado
amarrado à corrente

*

nababos

líria porto

prometem o céu e tomam
o dízimo

*

lascas

líria porto

primeiro a mesa de mármore
agora a de vidro –– tão quebrável
quanto a dona da casa

*

sábado, 12 de novembro de 2016

legado

líria porto

pendurar as chuteiras
as luvas de box 

entregar o bastão
às mãos preparadas

quem foi rei
passa o trono

não a majestade

*

ativos e passivos

líria porto

o ar que me asfixia
que fecha os meus pulmões
obstrui-me as veias
é o mesmo ar que respiras
:
cigarro entre os teus dedos
fumaça nas minhas narinas

*

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

dificuldades

líria porto

dentre o que me comove
o que se move com esforço
um besouro que capota
um pássaro de asa quebrada
um ancião com bengala
uma barata nas últimas

*

autoflagelação

líria porto

a provar que sou minha dona
castigo-me ou me abandono
depois volto arrependida
e não me perdoo

eu tenho um carma comigo
u'a mágoa –– alguma espécie
de enjoo

*

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

rasteiras

líria porto

foram muitos pesadelos
e a cada vez que acordava
mais um assalto
outro susto
:
os bandidos variavam
só eu era o mesmo pato
com mesma cara de espasmo
e dor de barriga

*

lambança

líria porto

o mordomo –– mil talheres
e à mesa anciões
algumas mulheres
todas jovens recatadas
e de touca

(patos são aves cagonas)

*

terça-feira, 8 de novembro de 2016

avaliação

líria porto

eu sou eu – não tanto quanto quero
nem tão pouco quanto pensam

*

blefe

líria porto

trambiqueiro salafrário
mas porém depois de morto
atribuem-lhe qualidades

*

caminho de mesa

líria porto

a agulha leva o fio pelo risco do bordado
como a mãe conduz o filho
:
de mãos dadas

*

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

avant-première

líria porto

no fundo do nosso sono
colorida ou branca e preta
uma fita de cinema
estrelada por nós mesmos

(não perco uma sessão
de sonho ou pesadelo)

*

haicai

líria porto

a lua embaçada
um acúmulo de nuvens
nas poças de chuva

*

domingo, 6 de novembro de 2016

destemor

líria porto

guardou os sapatos de salto
as saias mantilhas leques castanholas
e empunha a bandeira de luta
:
vermelha

*

solitário

líria porto

sua vida não daria um romance
porém houve versos – oásis em meio
ao deserto de palavras

*

sábado, 5 de novembro de 2016

mescla

líria porto

infância e velhice no mesmo aposento
vovó tem sonhos inocentes e o menino
sabedoria

*

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

utilidade

líria porto

um velho
qual prato lascado
ninguém leva à mesa
(dá dó jogar fora)
empilha-o num canto
usa-o como tampa

*

desértico

líria porto

na alma uma tenda
e a vida montada
em camelo

na cabeça
sol na moleira

*

admiração

líria porto

janela boquiaberta
deslumbrada ante o crepúsculo
come mosca

leio clarice lispector
de queixo caído

*

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

plugue

líria porto

entre mãe e filho
aquela intimidade de placenta
de cordão d'umbigo

*

haicai

líria porto

o sol pegou fogo
e as labaredas queimaram
o chão do cerrado

*

machão

líria porto

a voz é grave
agudos são seus impropérios

*

domingo, 30 de outubro de 2016

equívocos

líria porto

a poesia pode ser óbvia
o poema não
se a mão do poeta pesa
a poesia se encolhe
e enquanto empalidece
palavras tropeçam
em si próprias

*

uno

líria porto

eu não sou eu sou nosotros
formamos um coletivo
lutamos todos por todos
por semelhantes motivos

tua fome é minha fome
teus medos meus calafrios
somos gente somos bichos
nasceu de ti é meu filho

(couro pele pena escama
precisamos proteger-nos
dos terríveis predadores
de todo e qualquer perigo)

*

escravidão

líria porto

limpo tudo
(um esforço desgraçado)
o cupim disfarça-se de aleluia
chega manso desveste as asas
entra no armário enche a pança
e caga

*

sábado, 29 de outubro de 2016

poeminha doméstico

líria porto

consigo lavar dois banheiros
com meio balde d'água
ficam tão limpinhos
perfumados
na próxima encarnação
posso ser arrumadeira
:
nesta não – de mim afasto
esse carma

*

pianíssimo

líria porto

com a vassourinha
movida a bateria
limpo o assoalho 
e leio quintana
:
só assim
a jornada dupla

*

donana

líria porto

ontem ria com todos os dentes
hoje sorri com um leve movimento dos lábios
nem disfarça a tristeza

*

projétil

líria porto

bala de chumbo
penetrou seu peito
alojou-se fundo
e embora não sangre
padece de amor
sem saída

*

o oportunista

líria porto

escorrega para a zona de conforto
como a merda do intestino
para o esgoto
:
semelhanças não são meras
coincidências

*

argumentos

líria porto

fosse qual fosse
alface couve espinafre
não gostava de verde
:
também não queria tomate
preferia marrom ao vermelho
(chocolate)

serve cocô perguntaram-lhe
nem respondeu – devorou a salada
e gostou

*

tumulto

líria porto

tenho a bandeira vermelha
o touro quer sangue

fustigo-o até que se canse
também fico exausto

a luta é de grandes

*

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

caça

líria porto

a poesia é um pássaro
o poeta um menino com bodoque
ou espingarda de chumbinho

(o poeta
um aprendiz
de assassino)

*

terça-feira, 25 de outubro de 2016

corpos

líria porto

encaixe perfeito
as asas da borboleta
pegadas na areia

*

borderline

líria porto

entre a lucidez e a loucura
lugares por onde trafegam
poetas sonhadores
libélulas

*

disperso

líria porto

norte sul leste oeste
vagou por tudo quanto
perdeu-se

precisou retornar
o vento era contra - a chuva
a favor

*

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

tragicomédia

líria porto

a vida –– essa peleja
uma batalha sem trégua
a gente faz o diabo
rói as unhas
arranca os cabelos
mata um leão por hora
nada contra a correnteza
(usa todos os chavões)
até que a morte apareça
e passe a régua

*

domingo, 23 de outubro de 2016

reticente

líria porto

aqui ali onde seja
que as certezas se instalem
duvido da consistência
nada é incontestável

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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