sábado, 27 de dezembro de 2014

envolvimentos

líria porto

tem quem durma com estranhos
sempre pensei outra coisa
quem conhece a nossa alma
pode bem dormir
                              conosco

*

quase

líria porto

noites seguidas
tu em meus sonhos
e se pudesse
não acordava
nunca mais

*

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

mormaço

líria porto

ah – a borboleta
vou fazer com suas asas
um leque de abano

*

aurora

líria porto

galo céu sol azul
flor passarada criança
tudo acorda e canta

*

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

a decoração

líria porto

violenta o morador
mas impressiona
a visita

*

decoração

líria porto

a classe média
traveste-se de rica

pitacos estéticos
camuflam mentiras

um vasinho aqui
um cristal ali

(ouro de tolo)

*

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

a_penas

líria porto

não corro atrás nem à frente
se a vida quiser que eu tenha
embale para presente

eu abro

*

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

sete vidas

líria porto

eu sempre passo na prova
embora saiba – hora dessas
a morte ganha

*

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

aspectos

líria porto

as coisas são
como estão?

o cão vê o gato
bem diferente do rato
(questão de defesa e ataque)

aurora e crepúsculo
são dia noite ou mestiços?
(depende do ponto de vista)

o sol é para todos
e a chuva?

*

domingo, 21 de dezembro de 2014

material

líria porto

anjo coruja urubu ou galinha
preciso de uma pena – tinta não
que rasgo o pulso

*

sábado, 20 de dezembro de 2014

relembranças

líria porto

melado com farinha
queijo cará ou mandioca
de lamber os beiços
de voltar a ser
menino

(a vida igual rapadura
doce e dura)

*

sem asas

líria porto

subo escadas com esforço
e – sem fôlego – necessito
boca a boca

*

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

argumentos

argumentos

a chuva chove
vem cá moreno
amarra a mula no poste
comprei cerveja
torresmo farofa
:
se a patroa reclamar
inventa um pretexto
um barro na estrada
um medo de raio
trovão tempestade
mas vem
aqui é melhor
do que lá

*

entonação

líria porto

a voz dos avós
é capaz de amansar
o choro

*

desagravo

líria porto

a mágoa infiltra-se na alma
e mofa os sentimentos

melhor deixar ao relento
o que pareça ofensa

*

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

(para o livro sem pecado não tem salvação) diligência

líria porto

por ti eu faço de um tudo
rezo terço assalto banco
tricoto um manto de nuvem
como jaca abacate
(argh)
falo com o inimigo
rastejo peço desculpas
planto girassol no umbigo
tatuo a madona na bunda
pra ti eu faço de um tudo
só não te faço
comida

*

enfim

líria porto

por um átimo era ótimo
mas preferia ser o último
o íntimo

*

os cunhados do seu joaquim

os cunhados do seu joaquim

o neném da ênia
que homem bonito
que cara perfeita
cantava bem
(um verdadeiro caruso)
nem parecia
pai de família
(não usava aliança)

seu irmão caçula
a barba cerrada
a mesma voz
o mesmo gosto pelas mulheres
ninguém queria
era baixinho
as pernas tortas
(o alicate)

(e nós meninas
de cá do muro)

*

dolores

líria porto

dor aqui dor ali
dor acolá
:
hoje me doem
as asas

*

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

traçado

líria porto

o córrego faz suas curvas
passa rente ao casario
desce por entre as pedras
pega carona no rio
pra depois seguir destino

o mar é cheio de córregos
de águas domésticas

*

carrancas

líria porto

cara dum focinho do outro
agora chegou mais um
pai filho neto – a cópia
xerox

*

a presença

líria porto

a dor na barriga me avisa
tens barriga

talvez para isso me sirva a dor
quando eu me moer toda

*

maria da penha

líria porto

palavra puxa palavra
e de repente o silêncio
depois um grito
uma ofensa
um tapa
uma facada

(era pra ser para sempre)

*

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

muralha

líria porto

maria maria
um nome de tanto peso
para criança franzina

na segunda potência
maria maria é mais forte
que a maioria

*

chuvarada

líria porto

deixar o céu chorar nos nossos ombros
misturar as suas lágrimas às nossas lágrimas
consolar-nos e ao todo poderoso
de toda nossa falha
humanidade

*

não faço planos

líria porto

passo o ano
como quem lê um livro
365 páginas –– capa dura
um dia por dia

*

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

o mergulho

líria porto

bati a cabeça no fundo
ouvi o estalo

as pedras continuam íntegras
o estrago foi em mim

penso uns coágulos
e ouço vozes

*

mestre

líria porto

aprender até que é fácil
difícil é quem ensina
quem o faça com critério
com respeito ao aprendiz

*

enfim sólidos

líria porto

um amigo tudo pode
(até frequentar nossa cama)
as amizades resistem

essa história de romance
oscilante possessiva
rói-nos dentro
e fora

*

domingo, 14 de dezembro de 2014

frustrações

líria porto

acalmar o vento
enxugar a chuva
conter redemunhos
educar-nos

tanto trabalho inútil

(continuamos os mesmos
a mesma gente sem nenhum traquejo
e sem escrúpulo)

*

amore

líria porto

só o sonho vence o tempo
vence a morte
e foi tudo tão real tão verdadeiro
que o teu cheiro continua
nos lençóis

*

postal

líria porto

perdemos o hábito de esperar o carteiro
e para te surpreender escrevo-te –– aqui tudo nos conformes
menos a saudade que extrapola

vem quando puderes
voo assim que der
:
até breve

*

sábado, 13 de dezembro de 2014

antiguidade

líria porto

a pele do mar não é lisa
tão velho é o mar
e tão belo

a velhice não carece máscara

*

irremediável

líria porto

viemos
temos que voltar – e essa peleja
pra adiar a hora

(a morte é pontual)

*

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

o carregador

líria porto

descarregar o caminhão
carregar o carrinho
puxar o peso
retirar do carrinho
empilhar as caixas
tantas vezes
quantas necessárias
desde a madrugada

(à noite
salmoura nos ombros
nos calos)

*

na mira

líria porto

na corda bamba
no fio da navalha
na ponta do punhal
na beira do abismo
no alvo
:
jamais em cima do muro
ou ao lado dos golpistas

*

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

poderosa

líria porto

às vésperas do sorriso
de repente a gargalhada
aquela risada de bruxa
a espalhar-se nas curvas
nas derrapagens
da audácia

*

oferecida

líria porto

dois palmos de saia
blusa de oncinha
as botas de salto
sem roupa de baixo
e sem agasalho
à espera de quem
nem sabia

(com beijo na boca
é o dobro)

*

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

labuta

líria porto

à pé
de pé
bicicleta
ônibus
trem
metrô
:
fábrica
casa de família
portaria
loja
supermercado
construção
:
salário?
o mínimo
do mínimo

*

abandono

líria porto

a menina
(desprotegida)
faz a viagem
sozinha

putaquepariu
onde o (ir)responsável?

*

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

o roqueiro

líria porto

requeiro o que quero
um rock pauleira
um som tão pesado
que me leve
(love me)
às alturas

*

vidinha

líria porto

à manhã abre a janela
à noite fecha a cortina
à tarde fica na dela

(faz a sesta
vê um filme)

*

sem modos

líria porto

o vento é moleque
e faz cada uma
convulsiona as nuvens
esparrama o cisco
alvoroça as árvores
sacode a mangueira
dá chutes na porta
bagunça a cortina
e espalha a poeira
na casa

(vovó fica fula)

*

ao deus dará

líria porto

o corpo na cama
e a alma no mundo
dos sonhos

dormir é olhar
para dentro

*

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

nua

líria porto

dançava na rua
rodopiava
e era tão bonito
e era tão poético
mais que uma flor
ou um pássaro
:
atentado ao pudor
senhor guarda?

*

lembrança

líria porto

quando parti
cochichou em meu ouvido
não me olvides


ainda sonho com ele

*

definição

líria porto

metáfora
é quando a palavra
não está ao pé
da letra

*

domingo, 7 de dezembro de 2014

historia de un amor

líria porto

a paralisia infantil
o aparelho na perna
tuc toc tuc toc
o disco do lucho gatica
(la barca el reloj
bessame mucho
contigo en la distancia)
a paixão por helenice
a mocinha pobre
que morava na ponta da rua
e foi pra são paulo
ser puta

*

sábado, 6 de dezembro de 2014

o elevador

líria porto

nesse sobe e desce
e se pararmos no meio do andar
se nos faltar energia?

*

o fotógrafo

líria porto

congela o fogo
as labaredas já não lambem
a quentura não me queima
nem aquece água do banho

*

pois é

líria porto

fosse fada
tivesse varinha de condão
dava um jeito na pia
varria a casa
arrumava a cama

acontece que não

*

escambo

líria porto

o hábito de freira
um par de lágrimas retidas
o banco de espera
o baú de desmemórias
por algo ou alguém
sem cobiça

*

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

amnésia

líria porto

quando te acho eu me perco
não sei mais nada de mim
então me levas me trazes
e muitas horas mais tarde
é que recordo meu nome
volto a ter identidade

*

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

embaraço

líria porto

ameaço puxar
o fio da meada

em meados do mês
o salário acaba
faço uns bicos
:
o suficiente
para a cachaça

*

pau-de-sebo

líria porto

o oblíquo da rampa 
abranda a subida
a descida

escaladas verticais encurtam caminho
demandam esforços sobre-humanos e a queda
pode ser fatal

(não há que se pisar em companheiros)

*

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

trivial

líria porto

o meu bife preferido
não é de filé mignon
eu amo bife de fígado
cortado um pouco mais fino
acebolado e no ponto

e se houver arroz branco
um tantinho de jiló
um golinho de cachaça
isso sim é o paraíso
a cozinha lá de casa

(é só comer
e domir)

*

a defunta

líria porto

banhei felícia
vi-a de corpo inteiro
tufos de espuma do mar
nos cabelos
nos pentelhos

perfumei-a
enrolei-a em lençol branco
coloquei-a no caixão
outros fizeram o enterro

(fechou-se o chão para sempre
e ninguém chorou)

*

clones

líria porto

espelhos olham-se fixos
das paredes paralelas
refletem-se e se desdobram

passo entre eles e me vejo
duas dez trezentas vezes
qual das velhas sou eu
:
todas elas?

*

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

náusea

líria porto

fruta da minha estação
tão enjoada de mim
todo dia a mesma líria
todo dia a mesma líria
só que agora dói

*

desidratação

líria porto

torci-os
pendurei-os no varal
e agora que secaram
(olhos amarrotados)
recoloquei-os na cara
e jurei para mim
nunca mais uma lágrima
qualquer ensaio de choro
nada que me deságue

*

domingo, 30 de novembro de 2014

árabe

líria porto

meu avô grandalhão
imenso em tudo – imerso
em bondade e riso
nas lembranças do líbano
no amor aos filhos e netos
na birra pelos gringos
pelos ricos
pelo capitalismo

meu avô grandalhão
incapaz de ralhar com menino
ele próprio um menino gigante

*

noturno

líria porto

pôr dormir o sol
arredar a nuvem
e com pau de fósforo
acender a lua
e as estrelinhas

*

sábado, 29 de novembro de 2014

penhasco

líria porto

eu te abismo
tu me abismas
e a queda
é livre

*

lindo céu de beagá

líria porto

não vou morrer por aí talvez morra em araxá
enterrem-me em araguari – foi de lá que eu saí
é tempo de retornar

parto com a ventania

*


cainçalha

líria porto

cachorros cadelas
os vira-latas sem nome
que habitam as ruas

*

seja como flor

líria porto

em tempos chuvosos
replantar-se numa cova
irromper do chão

*

ermos

líria porto

nesse banho de amar que é a vida
só molhamos as solas dos pés
e sentimos o mar refluir
baixar nossa maré

*

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

tim-tim por tim tim

líria porto

viver assim
entre vírgulas
aposto que é o aposto
o gosto por explicar-se
tão diferente de mim

*

prego

líria porto

o padre pregava
e as batidas
e as beatas
a metralhadora das bocas

(na janta
picadinho com molho
no campo
galo e raposa)

*

bronco

líria porto

trocou cago por defeco mijo por urino
e não avançou nenhum passo
rumo à humanização

(coisas de doutor)

*

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

passagem

líria porto

ouvia o vento ventar
zunia
levava em sua corcova
a nuvem cheia de chuva
sua bagagem de lágrima
maria

*

pedaços

líria porto

desabo
despenco sobre os degraus
e alquebrado
curvado sobre os escombros
recolho uns cacos de mim
os mais frágeis
para montar um mosaico

*

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

desmorrer

líria porto

brinco com tirana
tiro sarro
troco suas penas de gralha
pelas vestes da andorinha
:
ela encolhe de tamanho

*

autoconhecimento

líria porto

de fora para dentro
esbarro em cada costela
perfuro o coração –– ele esguicha
faço o mesmo com o pulmão
fúuuuuuuuuuuuuuuuu
:
e eu de pé
(mais morta que viva)

*

munição

líria porto

o que te falta –– coragem
o resto tu tens de sobra
motivo necessidade

(mas também te falta
pólvora)

*

porto

líria porto

a saüdade tem trema
como as lüas tatuadas
as sardas
:
o arrepio

*

juízo final

líria porto

quis que a vida te matasse
a morte não –– esta corriqueira
mata tudo e todos

quis que a morte te ressuscitasse
ela não faz isso –– não te dá a mim
de mão beijada

*

intensidade

líria porto

a dor que te dói
o fogo que te queima
a solidão que te faz uma ilha
na multidão

(rodar sobre a sola dos pés
tomar o caminho de volta
retroceder)

tudo mata
a tristeza
a alegria

*

terça-feira, 25 de novembro de 2014

bafejo

líria porto

a vida é uma libélula –– um sopro
a aragem que mantém o corpo
de pé

*

as palavras

líria porto

quando eu ficar calada
louvem-nas
levem-nas à sua causa
espalhem-nas pelos canteiros
ruas praças e jardins
semeiem-nas
:
não deixem que as palavras
morram

*

devassidão

líria porto

encontros vocálicos
proparoxítonas polissílabas
prefixos sufixos tônicas
hiatos
:
tenho uma tara
até mesmo pelos vícios
de linguagem

*

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

impopular

líria porto

só falo aquilo que penso
não sei mentir bajular
vivo enfiado em meu canto
não vou ao bar à igreja
e quando alguém se aproxima
fico encolhido –– sou tímido
eu gosto mesmo é de livro
e conto amigos
nos dedos

*

cifrões

líria porto

séculos de floresta e as madeireiras
seus dentes de tubarão e gula
de motosserra

*

o menino

líria porto

sono pesado
ou sono leve

às vezes pedra
às vezes pena

alterno noites
de paquiderme

com belos sonhos
de borboleta

*

domingo, 23 de novembro de 2014

dúbia

líria porto

do bem do mal
de tudo de todos
treva ou farol
leva-nos aos píncaros
atira-nos no abismo
sem dó e sem choro
porém joga flores
depois pá
                de cal

(a vida – essa doida
morde e sopra)

*

condenada

líria porto

de braços com a morte
jamais se vestiu de preto

a vida ia cor-de-rosa
apesar do câncer

(vivia além do tempo)

*

equilibrista

líria porto

a mil metros do chão
a sombrinha de frevo
ou a vara comprida
que nos facilite
caminhar pelos dias
sem nenhuma certeza
de que haja uma rede
de proteção

*

pesadelo

líria porto

um sobressalto
as pernas trêmulas
coração disparado
a boca seca

(os sonhos são calmos)

*

sábado, 22 de novembro de 2014

vendilhões

líria porto

lucro lucro
lucro
adeus azul adeus verde
adeus água oxigênio
roubaram tudo da terra
e vão assaltar
mercúrio

(adeus vermelho)

*

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

tão moço

líria porto

recusou-se a envelhecer
a cumprir tal o traçado

qual um rio intermitente
interrompe a correnteza

desiste de desaguar

*

envelheço

líria porto

amarroto o corpo
ao passar do tempo

*

o pessimista

líria porto

o deserto caiu em seu olho
a areia o impede de ver o oásis
e até mesmo o camelo
e o beduíno

*

indagação

líria porto

a morte aguda a vida crônica
e eu nessa dúvida

*

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

bicão

líria porto

no teto
um olho
na parede
o ouvido
no chão
a formiga
e não nos livramos
nem do enxerido
nem do fantasma

*

aviãozinho

líria porto

curvas no ar
os desvios
em minha rota
essas nuvens
:
temo ferir
anjos tortos
ou deuses
perdidos
no azul

*

morbidez

líria porto

morreu e não disse a ninguém
nem voai dizer
o silêncio é a fala mais óbvia
se alguém perceber que sumiu
já será ondefunto do dia
o assunto da hora

*

regras

líria porto

o rio passou dos limites
depois retomou o traçado
amarrado à corrente

*

(peguei o sol no pulo) desmilagre

líria porto

do pão que a diaba amassou
comi somente uma lasca
o resto dei pras santinhas
e elas viraram
                  a casaca

*

o escritor

líria porto

o livro da sua lavra
tanta beleza incontida
já me levaram às lágrimas
de tristeza de alegria
a poesia nas páginas
a magia das palavras
tudo me toca
o espírito

*

terça-feira, 18 de novembro de 2014

à festa

líria porto

ruge à sombra do batom
uma pintura

(e a minha cara lavada)

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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