por ti eu faço de um tudo
rezo terço assalto banco
tricoto um manto de nuvem
como jaca abacate
(argh)
falo com o inimigo
rastejo peço desculpas
planto girassol no umbigo
tatuo a madona na bunda
pra ti eu faço de um tudo
só não te faço
comida
o vento é moleque
e faz cada uma
convulsiona as nuvens
esparrama o cisco
alvoroça as árvores
sacode a mangueira
dá chutes na porta
bagunça a cortina
e espalha a poeira
na casa
a paralisia infantil
o aparelho na perna
tuc toc tuc toc
o disco do lucho gatica
(la barca el reloj
bessame mucho
contigo en la distancia)
a paixão por helenice
a mocinha pobre
que morava na ponta da rua
e foi pra são paulo
ser puta
torci-os
pendurei-os no varal
e agora que secaram
(olhos amarrotados)
recoloquei-os na cara
e jurei para mim
nunca mais uma lágrima
qualquer ensaio de choro
nada que me deságue
meu avô grandalhão
imenso em tudo – imerso
em bondade e riso
nas lembranças do líbano
no amor aos filhos e netos
na birra pelos gringos
pelos ricos
pelo capitalismo
meu avô grandalhão
incapaz de ralhar com menino
ele próprio um menino gigante
de fora para dentro
esbarro em cada costela
perfuro o coração –– ele esguicha
faço o mesmo com o pulmão
fúuuuuuuuuuuuuuuuu
:
e eu de pé
(mais morta que viva)
quando eu ficar calada
louvem-nas
levem-nas à sua causa
espalhem-nas pelos canteiros
ruas praças e jardins
semeiem-nas
:
não deixem que as palavras
morram
só falo aquilo que penso
não sei mentir bajular
vivo enfiado em meu canto
não vou ao bar à igreja
e quando alguém se aproxima
fico encolhido –– sou tímido
eu gosto mesmo é de livro
e conto amigos
nos dedos
o livro da sua lavra
tanta beleza incontida
já me levaram às lágrimas
de tristeza de alegria
a poesia nas páginas
a magia das palavras
tudo me toca
o espírito