o sol sai detrás da serra
solta um raio outro e outro
depois sobe para o céu
com sua bola de fogo
atravessa o azul as nuvens
vai descer do outro lado
lá é dia aqui é noite
:
a terra –– moça bonita
gira gira em seu entorno
com sua saia de roda
e sua cara redonda
ciumento é bicho bambo – põe-se a vasculhar gavetas
fuçar bolsos bolsas carteiras farejar roupas e lenços
para encontrar vestígios de outras pessoas
:
púrpura insegurança
se a pedra virar pão
a razão da raiva some
a gente come vai pra rua
para a praça para a escola
pro trabalho
:
vai a pé ou vai de ônibus
que a passagem
é grátis
primeiro instante um olhar
segundo instante um sorriso
terceiro instante e os seguintes
desde então até agora
uma alegria uma paz
que aumenta a cada dia
e nos faz muito felizes
agradecidos à vida
por nos ter aproximado
sem que a ela pedíssemos
por esta nem esperávamos
:
a amizade é bem-vinda
folhas da mesma árvore
gotas da mesma chuva
dedos da mesma mão
uvas do mesmo cacho
farinha do mesmo saco
vinho da mesma safra
pétalas da mesma flor
espinhos da mesma rosa
letras da mesma palavra
penas da mesma asa
frutos do mesmo amor
tu ele eu
nós
dentre as tralhas cobertas de pó
o entulho
as teias de aranha
o ranço dos avós dos pais e de nós
(agora na linha de frente)
a pesarem sobre os ombros
dos descendentes
ele santo ela perdida um encontro memorável que de tanto desacerto acertaram-se e a vida aparou os exageros e os filhos que nasceram foram todos razoáveis
a nossa casa maciça
resistiu às intempéries
manteve as paredes íntegras
não estalou as vidraças
só a tinta se desfez
tal como a pele que trinca
quando passamos a vida
debaixo de sol e enxada