domingo, 9 de junho de 2013

feitiço

líria porto

sonho e realidade se misturam
e viver nesses dois mundos
é uma grande aventura

*

mágica

líria porto

minha mão é uma aranha
a tecer a sua trama de tinta
ou grafite

as letrinhas como moscas
assim presas uma às outras
formam fileiras

(e o poema fica pronto)

*

sexta-feira, 7 de junho de 2013

funeral

líria porto

dentro do caixão o morto
ponto final de uma história
não manda mais não decide
pra onde vai não lhe importa

*

quinta-feira, 6 de junho de 2013

pêndulo

líria porto

estes anos que nos restam
serão dias serão horas
tão somente uns minutos
uns segundos?

quem saberá?

*

cúmulo

líria porto

o céu é pródigo
pinga chuva no meu olho
como se fora colírio

*

terça-feira, 4 de junho de 2013

protelação

líria porto

e nesse chove não molha
a vida pinga se esgota

finges que ainda me queres
digo que somos afins

adiamos por alguns dias
a pá de cal

*

cópula

líria porto

mulher sobre o corpo do homem
a nuvem cobre a pica
do itacolomi

*


hipnose

líria porto

confiscas olhares 
nem pisco

(eu me lasco) 

não tenho olhos
para mais ninguém

*

pé d'água

líria porto

as nuvens se estranham trombam-se umas nas outras
trovões retumbam soltam faíscas e a chuva espalha
raios e relâmpagos

*

segunda-feira, 3 de junho de 2013

duração

líria porto

a musa descobre o poeta
e faz frio – ele treme arrepia-se
ela arranha-lhe a pele e tatua-a
:
por agora sou tua
                      não para sempre

*

escafandro

líria porto

isso de superfície
quero mesmo é um mergulho
poesia mo permite
mas porém não tenho
fôlego

*

maldição

líria porto

além da rima pobre
assaz sina a dor
do amor

*

miragem

líria porto

a freira grávida
parece que foi castigo
parir assim tão difícil
trazer à luz uma pedra
desconfio aquela mesma
no caminho do poeta

*

cama boa

líria porto

tem fama de sem-vergonha
fronhas macias cobertas de lã
lençóis com pelo de homem

*

domingo, 2 de junho de 2013

absoluto

líria porto

eu te dei meus quartos as minhas metades
a totalidade de tudo que pude

*

do silêncio

líria porto

um grito calado fala mais
que palavras rudes

*

sábado, 1 de junho de 2013

libertas quae sera tamen

líria porto

o mineiro das minas
tem que cavoucar co'as unhas
encontrar brilho em cascalho
batear sentimentos

o mineiro das gerais
precisa esticar os braços
desdobrar campos e pastos
desbaratar a neblina

(ainda que à tardinha)

*

ajustes

líria porto

a corda rebenta
quando se é obrigado
a suportar o indizível
:
achei o amigo tenso
queria tê-lo à vontade
a dizer-me o que sente

*

sexta-feira, 31 de maio de 2013

depois

líria porto

quis arrancar teus olhos
(ciúmes de outras mulheres)
e quando tudo acabou
disseste-me – foste a única

palavras não me consolam

*

quinta-feira, 30 de maio de 2013

motor

líria porto

tu morres ele morre eu morro
e a terra prossegue
tal como

*

(peguei o sol no pulo) saio da história para cair na vida

 l

rasto de onça

líria porto

toda vez que vi a morte
rodei sobre os calcanhares
temi olhá-la nos olhos

(um dia ela me alcança)

*

quarta-feira, 29 de maio de 2013

urbano

líria porto

na cabeça chapéu
sobre os ombros obrigações culpa medo
segredos nos bolsos e entre as pernas
o pau
:
nos pés sapatos
e meias

*

terça-feira, 28 de maio de 2013

cortante

líria porto

tesoura
faca
navalha
língua
palavra
olhar
ou coisa
que valha

*

segunda-feira, 27 de maio de 2013

impertinência

líria porto

a lua penetra pela persiana
entra no meu quarto deita no meu canto
lambe minha pele bole no meu sexo
eu gosto é de homem
                                  mas a lua é lésbica

*

domingo, 26 de maio de 2013

inevitável

líria porto

de costas para o sol
todo girassol tem
torcicolo

*

o soldado e a bailarina

líria porto

então nós
tu e eu
somos um
a pulsar
num único
coração 
de chumbo

*

família

líria porto

folhas da mesma árvore
gotas da mesma chuva
dedos da mesma mão
uvas do mesmo cacho
farinha do mesmo saco
vinho da mesma safra
pétalas da mesma flor
espinhos da mesma rosa
letras da mesma palavra
penas da mesma asa
frutos do mesmo amor
tu ele eu
nós

(da mesma máfia)

*

herança

líria porto

dentre as tralhas cobertas de pó
o entulho
as teias de aranha
o ranço dos avós dos pais e de nós
(agora na linha de frente)
a pesarem sobre os ombros
dos descendentes

*

mistura

líria porto

temos dois lados
a luz e o br’eu
:
um de grandeza
um de egoísmo

*

sábado, 25 de maio de 2013

acordo

líria porto

ele santo ela perdida
um encontro memorável
que de tanto desacerto
acertaram-se e a vida
aparou os exageros
e os filhos que nasceram
foram todos razoáveis

*

imã

líria porto

o homem
que me amansa a alma
atrai-me à cama
como a mosca
e o mel

*

júbilo

líria porto

viver é um risco um traço
um desenho uma pintura
uma partitura

viver é o máximo
criatura

*

quinta-feira, 23 de maio de 2013

saúde

líria porto

a nossa casa maciça
resistiu às intempéries
manteve as paredes íntegras
não estalou as vidraças
só a tinta se desfez
tal como a pele que trinca
quando passamos a vida
debaixo de sol e enxada

*

quarta-feira, 22 de maio de 2013

gato e sapato

líria porto

nuvem inchada de chuva
cutuquei-a com o dedo e um jato
me derrubou

mamãe ficou uma fúria  bem podia ser
como a vovó

*

ocaso

líria porto

entardeço
entardeces
entardece
:
e é belo
e é assustador

*

terça-feira, 21 de maio de 2013

compensação

líria porto

na cabeça vão uns grilos
no ombro esquerdo um canário
no direito eu levo a dor
porisso ando arqueado
mas não infeliz

*

des_graça

líria porto

a cicatriz rente ao nervo
a lesão só por um triz
é  beatriz teve sorte
tristeza não tem limite

*

navalhada

líria porto

no corredor da morte
sorte ou azar - permaneço
incólume

*

segunda-feira, 20 de maio de 2013

pedras sobre pedras

líria porto

demoliram a casa os muros
onde por cinquenta anos
mamãe morou

temo olhar aquela esquina
encontrar a mocidade
prisioneira dos entulhos

*

aventureiro

líria porto

de respirar outros ares
de frequentar outros bares
de vislumbrar outros mares
procurar outros lugares
distanciou-se de min(as)

*

draga

líria porto

tímido ou espião
espreita tudo e todos

olhos baixos ou arregalados
apreende-nos cada detalhe

bebe-nos a (c)alma

*

sábado, 18 de maio de 2013

dieta

líria porto

toda vez que almoço pétalas
janto espinhos

*

sexta-feira, 17 de maio de 2013

inconstitucionalissimamente

líria porto

a menina que falava palavrão
destroncava o mundo –– torcia a língua
e nossos ouvidos

(usava polissílabas)

*

buracos

líria porto

lugares cheios de vazio
bocas sem língua sem dentes sem saliva
famintas de tudo que se aproxima

*

quinta-feira, 16 de maio de 2013

paixões

líria porto

o fogo que nos consome
faz-nos sentir-nos vivos

*

terça-feira, 14 de maio de 2013

entraves

líria porto

o cansaço é de ferro – o desânimo
de ferrugem

*

segunda-feira, 13 de maio de 2013

proteção

líria porto

não vou me mudar da beira do abismo
nem fincar estacas e amarrar corda
à cintura

vou é tomar emprestadas as asas dos anjos
sem contudo virar santa

*

fogacho

líria porto

o amor não tem jeito esfrega-se em mim
e eu  velho para sexo – adio outra vez
a aposentadoria

*

sexta-feira, 10 de maio de 2013

defesa

líria porto

os caninos tão agudos
na boquinha do menino
deus nos livre da mordida

num repente fica puto
crava os dentes e no susto
chora muito

chora junto

*

quarta-feira, 8 de maio de 2013

mania de grandeza

líria porto

meu teto é o infinito
minha piscina é o mar
os meus cabelos são nuvens
uso fitas de arco-íris
o meu chuveiro é a chuva
o horizonte é onde durmo
e o abajour  a lua 

*

o homem

líria porto

esse bicho é diferente – ele pensa
e o tal do pensamento é agente do bem
e do mal

*

terça-feira, 7 de maio de 2013

virtual

líria porto

ser só pensamento
ir e voltar sem ninguém pressentir

de vagar devagar
divagar

*

elefante

líria porto

grande e desengonçado
quando move as quatro patas e levanta a tromba
as crianças se enternecem e batem palmas

*

jacaré

líria porto

de barriga rastejante e pernas curtas
quando ele abre a boca todo mundo
assusta

*

galinha

líria porto

come milho cacareja bota ovo
mas cai em desgraça e vira
canja

*

ronc ronc

líria porto

todo porco tem rabinho retorcido
e tomada no focinho

*

miudinho

líria porto

a joaninha
é um besourinho
sardento
*

confronto

líria porto

para se obter o máximo
com o mínimo possível
melhor é nem dizer
:
silêncios podem tudo

*

bola de névoa

líria porto

a vida é um novelo
que a gente enrola enrola enrola
o tempo passa entre os dedos

súbito
o fim
do fio

*

segunda-feira, 6 de maio de 2013

preencher os lábios – só com beijos

desvaidade

líria porto

pés de galinha em torno dos meus olhos
e eu não sei o que é botox

*

domingo, 5 de maio de 2013

fruta

líria porto

nasci flor –– fazer o quê
era macia cheirosa
mas depois quando encorpei
e minha polpa rachou
despertou fome
desejo

uns homens
os mais gulosos
sujaram a boca
os bigodes

*

epílogo

líria porto

então abraço seu vulto
com ele danço uma valsa

o meu amor – esse último
sinto seus braços gelados

eu deito sobre seu túmulo
dormimos juntos

mais nada

*

conforme

líria porto

uns versos são pétalas
outros caule folhas raízes
mas também há os espinhos
na roseira da poesia

*

sábado, 4 de maio de 2013

fases

líria porto

toda hora ela mudava
ora imensa branca cheia
ora um risco um fino traço

o rei sol que se proteja
pode sofrer atentado
toda lua é bipolar

*

sexta-feira, 3 de maio de 2013

tórrido

líria porto

sol a pino – qual broca
o raio atravessa a pele
chega a furar
o osso

*

quinta-feira, 2 de maio de 2013

gato e rato

líria porto

abro a cortina a luz entra
salta pra dentro do quarto
a escuridão se assusta
esconde-se no fundo 
do armário

*

quarta-feira, 1 de maio de 2013

grandeza

líria porto

impressiona-me a generosidade das árvores
sombra flores frutos e o que elas pedem
senão um pouco de água

*

belíssima

líria porto

minha musa - a natureza
a mais incrível artista
nada escapa a seus pincéis
sua tela é o infinito

fauna flora oceanos
o relevo a cor o brilho
tudo assim com tanto esmero
que me deixa comovido

*

terça-feira, 30 de abril de 2013

retalhos

líria porto

rosas vermelhas – tão belas
(não vou colhê-las)

vou deixar que o vento as leve
(suavemente)

que elas pousem na relva
(quais borboletas)

e teçam um lindo tapete
(o mais efêmero)

onde o meu amor se deite

*

segunda-feira, 29 de abril de 2013

lugarejo

líria porto

a rodovia como espinha dorsal
a igreja no local mais alto
e de um lado e doutro
ruas sem calçamento
o boteco a venda a butique
o posto de saúde o grupo escolar
a casa lotérica a agência da caixa econômica
o ferro-velho os cavalos amarrados nos postes
os homens de chapéus a poeira
a camionete
o fusca
eu

*

sábado, 27 de abril de 2013

gasta

líria porto

faca amolada na pedra da pia
cortava bifes cebola alho
couve tomates

a lâmina
foi-se

*

quinta-feira, 25 de abril de 2013

mais que o peso das palavras os silêncios nos reprovam

jardineiro

líria porto

levei flores pelos quatro cantos
e elas eram leves

hoje as flores me carregam
e eu não quero ser
um fardo

*

a luz

líria porto

encontra uma fresta e penetra
na escuridão

*

quarta-feira, 24 de abril de 2013

pichação

líria porto

escrevi meu recado
no muro – a polícia me procura
sou uma ameaça

*

terça-feira, 23 de abril de 2013

aftas

líria porto

como meteoros
reabrem-se as crateras
sobre minha língua
:
versos de rapina
comem-me os miolos

*

na pele

líria porto

a tendência que eu tenho
de andar com as minorias
é u'a marca de nascença

*

rumo

líria porto

ninguém traça meus caminhos
só eu mesma

diante da encruzilhada
pego a estrada da esquerda

*

segunda-feira, 22 de abril de 2013

fera

líria porto

a bisavó tinha um código – de ovo virado
penteava os cabelos num coque
:
o coronel nem triscava

*

martírio

líria porto

depois que tu foste embora
martela dentro do ninho
o tique-taque das horas

*

blefe

líria porto

nem me pergunto quem sou
para não cair na tentação
de mentir e me enganar
como os outros

*

orador

líria porto

no canto do olho nenhuma nota musical
em compensação no céu da boca
palavras sonoras

*

domingo, 21 de abril de 2013

in_verso

líria porto

o sono sumiu e agora
quase hora de ir pro trabalho
a memória me falha e meus olhos
não aguentam o peso
das pálpebras

*

minha sombra

líria porto

escapa-me dos pés
não me obedece o ritmo
gira à volta de mim
:
puxa-me o tapete

*

granizo

líria porto

choveu estrela
pedrada de santo
e um galo cantou
na minha testa
:
estilhaço di_verso
furos na cabeça
cosidos com fio
de aço

enlouqueço
quando esqueço
o que se passa

*

medonhas

líria porto

as noites do inverno tão frias tão longas
e mais se prolongam se não chega o sono

sucedem-se as sombras as cismas os sustos
amontoam-se medos pavores pesadelos

tremores perpassam-nos há os calafrios
no escuro aparecem os olhos
dos monstros

*

sábado, 20 de abril de 2013

afoito

líria porto

de sonhar o que não deve
de dever o que não pode
de poder o que não vai
de ir e se arrepender
amarrou pedra no pé
e pulou no rio

*

ambiguidades

líria porto

estrelas dormiram
debaixo da nuvem
a lua cochila
eu espero o sono

a noite é comprida
mas a vida é curta
quem sabe eu decifro
o enigma

amanhã
será ontem

*

desastre

líria porto

eletrocutados
:
um raio cai sobre o lago
e extermina os peixes

*

sexta-feira, 19 de abril de 2013

castelo

líria porto

não vai durar para sempre
tudo se perde na espuma
a vida é feita de areia

*

quinta-feira, 18 de abril de 2013

iml

líria porto

antes inalcançável –– agora ali
nu sobre a pedra nem parecia
deus

pousei meu rosto em sua barba
colei meu corpo no seu
tudo se desfez

o vento espalhou o pó de nós dois
(éramos um só)

*

fumante

líria porto

temo te pertencer
ser tragada pela tua boca
e virar fumaça
guimba

*

quarta-feira, 17 de abril de 2013

engodo

líria porto

arriscou as fichas
na micha proposta
de felicidade

*

quase inverno

líria porto

o sol do lado de lá
(sua luz é fugidia)
parece querer falar
dos segredos do poente
como se nos dissesse
vivam intensos outonos
antes que se apaguem
as labaredas

*

terça-feira, 16 de abril de 2013

canais obstruídos

líria porto

em estado líquido
vez por outra evaporo
mas choro pouco

*

desperta_dor

líria porto

antes do sol nascer
já o ronco dos motores
invade ruas estradas

ônibus trens caminhões
transportam trabalhadores
as suas tralhas a carga

já tem pão na padaria
o gado pasta o galo canta
bom dia

*

segunda-feira, 15 de abril de 2013

não mais

líria porto

durar o tempo de amolecer o olhar as palavras
e morrer com a textura – a profundeza
de um lago

*

mamaluca

líria porto

aquela avó índia caçada no laço
no bucho um moleque de olhos azuis
igual o maldito que a deflorou
exilou-se da tribo
da terra
da vida
parou de sorrir
mas cuidou bem da cria
pra que nós – sangue roxo
existíssemos

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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