terça-feira, 7 de maio de 2013

bola de névoa

líria porto

a vida é um novelo
que a gente enrola enrola enrola
o tempo passa entre os dedos

súbito
o fim
do fio

*

segunda-feira, 6 de maio de 2013

preencher os lábios – só com beijos

desvaidade

líria porto

pés de galinha em torno dos meus olhos
e eu não sei o que é botox

*

domingo, 5 de maio de 2013

fruta

líria porto

nasci flor –– fazer o quê
era macia cheirosa
mas depois quando encorpei
e minha polpa rachou
despertou fome
desejo

uns homens
os mais gulosos
sujaram a boca
os bigodes

*

epílogo

líria porto

então abraço seu vulto
com ele danço uma valsa

o meu amor – esse último
sinto seus braços gelados

eu deito sobre seu túmulo
dormimos juntos

mais nada

*

conforme

líria porto

uns versos são pétalas
outros caule folhas raízes
mas também há os espinhos
na roseira da poesia

*

sábado, 4 de maio de 2013

fases

líria porto

toda hora ela mudava
ora imensa branca cheia
ora um risco um fino traço

o rei sol que se proteja
pode sofrer atentado
toda lua é bipolar

*

sexta-feira, 3 de maio de 2013

tórrido

líria porto

sol a pino – qual broca
o raio atravessa a pele
chega a furar
o osso

*

quinta-feira, 2 de maio de 2013

gato e rato

líria porto

abro a cortina a luz entra
salta pra dentro do quarto
a escuridão se assusta
esconde-se no fundo 
do armário

*

quarta-feira, 1 de maio de 2013

grandeza

líria porto

impressiona-me a generosidade das árvores
sombra flores frutos e o que elas pedem
senão um pouco de água

*

belíssima

líria porto

minha musa - a natureza
a mais incrível artista
nada escapa a seus pincéis
sua tela é o infinito

fauna flora oceanos
o relevo a cor o brilho
tudo assim com tanto esmero
que me deixa comovido

*

terça-feira, 30 de abril de 2013

retalhos

líria porto

rosas vermelhas – tão belas
(não vou colhê-las)

vou deixar que o vento as leve
(suavemente)

que elas pousem na relva
(quais borboletas)

e teçam um lindo tapete
(o mais efêmero)

onde o meu amor se deite

*

segunda-feira, 29 de abril de 2013

lugarejo

líria porto

a rodovia como espinha dorsal
a igreja no local mais alto
e de um lado e doutro
ruas sem calçamento
o boteco a venda a butique
o posto de saúde o grupo escolar
a casa lotérica a agência da caixa econômica
o ferro-velho os cavalos amarrados nos postes
os homens de chapéus a poeira
a camionete
o fusca
eu

*

sábado, 27 de abril de 2013

gasta

líria porto

faca amolada na pedra da pia
cortava bifes cebola alho
couve tomates

a lâmina
foi-se

*

quinta-feira, 25 de abril de 2013

mais que o peso das palavras os silêncios nos reprovam

jardineiro

líria porto

levei flores pelos quatro cantos
e elas eram leves

hoje as flores me carregam
e eu não quero ser
um fardo

*

a luz

líria porto

encontra uma fresta e penetra
na escuridão

*

quarta-feira, 24 de abril de 2013

pichação

líria porto

escrevi meu recado
no muro – a polícia me procura
sou uma ameaça

*

terça-feira, 23 de abril de 2013

aftas

líria porto

como meteoros
reabrem-se as crateras
sobre minha língua
:
versos de rapina
comem-me os miolos

*

na pele

líria porto

a tendência que eu tenho
de andar com as minorias
é u'a marca de nascença

*

rumo

líria porto

ninguém traça meus caminhos
só eu mesma

diante da encruzilhada
pego a estrada da esquerda

*

segunda-feira, 22 de abril de 2013

fera

líria porto

a bisavó tinha um código – de ovo virado
penteava os cabelos num coque
:
o coronel nem triscava

*

martírio

líria porto

depois que tu foste embora
martela dentro do ninho
o tique-taque das horas

*

blefe

líria porto

nem me pergunto quem sou
para não cair na tentação
de mentir e me enganar
como os outros

*

orador

líria porto

no canto do olho nenhuma nota musical
em compensação no céu da boca
palavras sonoras

*

domingo, 21 de abril de 2013

in_verso

líria porto

o sono sumiu e agora
quase hora de ir pro trabalho
a memória me falha e meus olhos
não aguentam o peso
das pálpebras

*

minha sombra

líria porto

escapa-me dos pés
não me obedece o ritmo
gira à volta de mim
:
puxa-me o tapete

*

granizo

líria porto

choveu estrela
pedrada de santo
e um galo cantou
na minha testa
:
estilhaço di_verso
furos na cabeça
cosidos com fio
de aço

enlouqueço
quando esqueço
o que se passa

*

medonhas

líria porto

as noites do inverno tão frias tão longas
e mais se prolongam se não chega o sono

sucedem-se as sombras as cismas os sustos
amontoam-se medos pavores pesadelos

tremores perpassam-nos há os calafrios
no escuro aparecem os olhos
dos monstros

*

sábado, 20 de abril de 2013

afoito

líria porto

de sonhar o que não deve
de dever o que não pode
de poder o que não vai
de ir e se arrepender
amarrou pedra no pé
e pulou no rio

*

ambiguidades

líria porto

estrelas dormiram
debaixo da nuvem
a lua cochila
eu espero o sono

a noite é comprida
mas a vida é curta
quem sabe eu decifro
o enigma

amanhã
será ontem

*

desastre

líria porto

eletrocutados
:
um raio cai sobre o lago
e extermina os peixes

*

sexta-feira, 19 de abril de 2013

castelo

líria porto

não vai durar para sempre
tudo se perde na espuma
a vida é feita de areia

*

quinta-feira, 18 de abril de 2013

iml

líria porto

antes inalcançável –– agora ali
nu sobre a pedra nem parecia
deus

pousei meu rosto em sua barba
colei meu corpo no seu
tudo se desfez

o vento espalhou o pó de nós dois
(éramos um só)

*

fumante

líria porto

temo te pertencer
ser tragada pela tua boca
e virar fumaça
guimba

*

quarta-feira, 17 de abril de 2013

engodo

líria porto

arriscou as fichas
na micha proposta
de felicidade

*

quase inverno

líria porto

o sol do lado de lá
(sua luz é fugidia)
parece querer falar
dos segredos do poente
como se nos dissesse
vivam intensos outonos
antes que se apaguem
as labaredas

*

terça-feira, 16 de abril de 2013

canais obstruídos

líria porto

em estado líquido
vez por outra evaporo
mas choro pouco

*

desperta_dor

líria porto

antes do sol nascer
já o ronco dos motores
invade ruas estradas

ônibus trens caminhões
transportam trabalhadores
as suas tralhas a carga

já tem pão na padaria
o gado pasta o galo canta
bom dia

*

segunda-feira, 15 de abril de 2013

não mais

líria porto

durar o tempo de amolecer o olhar as palavras
e morrer com a textura – a profundeza
de um lago

*

mamaluca

líria porto

aquela avó índia caçada no laço
no bucho um moleque de olhos azuis
igual o maldito que a deflorou
exilou-se da tribo
da terra
da vida
parou de sorrir
mas cuidou bem da cria
pra que nós – sangue roxo
existíssemos

*

pássara

líria porto

outono –– abril
o azul e o céu
sem limite

*

domingo, 14 de abril de 2013

com_bustão

líria porto

cambada cambeta
cambitos com botas
combinam com o quê?

*

sábado, 13 de abril de 2013

gana

líria porto

diria na lata
a voz não sai

entala na goela
que nem espinho

*

regressão

líria porto

de manhã de tarde à noite
todo dia a toda hora
sinto a falta de um tesouro
que eu tinha dentro / fora

a infância a inocência
duram pouco duram nada
ser adulto tem um peso
o da água estagnada

*

quinta-feira, 11 de abril de 2013

traste

líria porto

um gato ronrona em meu peito
detona-me o pulmão
e eu deixo que o gato me consuma
como quem fuma um charuto
cubano

*

reviravolta

líria porto

de pernas para o ar
ponho as pernas para o ar
e espero que me ames

*

tarefas

líria porto

pratos acumulam-se na pia
(não penso em lavar vasilhas)
desvio os olhos

há muita poeira sobre os móveis
(não vou usar aspirador nem pano de limpeza)
fecho os olhos

roupas despencam-se dos cabides
(não penso em pendurar roupa nenhuma)
quero é dormir

e a cama está sem lençol

*

incondicional

líria porto

sem começo meio fim
amamo-nos desde sempre
e quando não existíamos
já havia o sentimento
que as grandes mãos invisíveis
entregam às mães e aos filhos
pra durar eternamente

*

quarta-feira, 10 de abril de 2013

esvaziamento

líria porto

verteu lágrimas a madrugada toda
a manhã a tarde e à noite percebeu
era ele próprio a sua última
gota

*

terça-feira, 9 de abril de 2013

benefício

líria porto

atravessa o rio das piranhas
e chega à margem mais morto
do que vítima

*

segunda-feira, 8 de abril de 2013

aflição

líria porto

especulo sobre mim – eu quero saber
e as respostas que me dou me afligem
eu sou assim e não sei bem o quê
e não tenho ideia do que fazer comigo

*

atrevimento

líria porto

essa onda de banda
rescaldo de redemunho
assim mal domada
cria um baita
topete

*

domingo, 7 de abril de 2013

providência

líria porto

vejo no céu uma estrela
só uma ali bem no escuro
e para que a luz não me fuja
eu tampo o furo com o dedo

*

desdesejo

líria porto

gato ingrato – passar a vida
sem unhar a minha pele
sem roçar minha virilha
sem me engatar num
bem-bom 

*

sábado, 6 de abril de 2013

desprezo

líria porto

tu me negaste três vezes
passei depois muitos meses
sem me enxergar

e tanto puxei o fio
acabei puxando um rio
o mar o oceano a praia

os lençóis
d'água

*

de olho

líria porto

quanto mais penso estar certa
mais permaneço alerta
pode ser engano

*

derrapagem

líria porto

a vida acampa nas curvas
onde morrem os maridos
nascem as viúvas

*

ignorância

líria porto

entre o céu e a terra
se alguma coisa me emperra
esta coisa sou eu mesma

*

a carga

líria porto

jiboia de ferro
barriga nos trilhos
apito na curva

abra a porteira cambada
a boiada chegou

*

sexta-feira, 5 de abril de 2013

inconsciente

líria porto

nós temos segredos
dos quais ninguém sabe
nem nós mesmos

*

detalhes

líria porto

quando o olhar oscila
deixa bambas as certezas
e a beleza firma-se

*

feiura

líria porto

olhos e sobrancelhas
pés e pernas e pele e boca
sem falar também que a alma
nunca encantou as pessoas
talvez daí toda sua birra
com a perfeição das flores
:
para se justificar

*



quarta-feira, 3 de abril de 2013

estranhos

líria porto

molhou-se em minha chuva
pisei no seu barro
brincamos nas mesmas esquinas
bebemos da mesma água
e jamais nos falamos
:
conterrâneos?

*

audácia

líria porto

passava no chão uma risca
pisa aqui se fores homem
os que pisaram ela os quis

(não é fácil peitar uma doida)

*

enrascada

líria porto

eu lhe disse nunca mais –– não deveria
não se envolve em poesia impunemente
ela entra pelos poros pelas veias
e comanda nossa alma
nossos nervos
:
todo poeta é refém

*

terça-feira, 2 de abril de 2013

estrela

líria porto

ela tem ponta tem brilho
é presunçosa atrevida
mesmo assim eu a prefiro
à que se faz de santinha

*

quinta-feira, 28 de março de 2013

raiva

líria porto

vou semear umas nuvens
colher algum temporal
um vento forte uma chuva
um raio que te estilhace
que te parta
:
já vais tarde

*

fedamãe

líria porto

maricota não me beija
peço / imploro e ela nada
e também não me abraça
maricota desalmada
sabe o muito que lhe quero
só por isso me despreza
pelo tanto que rastejo
porque tenho
                     olhos d'água

*

quarta-feira, 27 de março de 2013

infinitamente

líria porto

um homem dentro do espelho
um espelho dentro do homem
um espelho dentro do espelho
um homem dentro

*

desconfiômetro

líria porto

se não ajudas se atrapalhas
tirar o time de campo e bater
em retirada

*

náusea

líria porto

tudo embrulha tudo enrola
o mundo gira ao contrário
o povo vira uma trouxa
de roupa velha
e rasgada

*

aluada

líria porto

três arbustos na janela
só penso em viver nas nuvens
em me deixar levar

*

apagão

líria porto

não sonhei
nem amassei o lençol
despertar sem nenhum verso
é quase beirar
a morte

*

terça-feira, 26 de março de 2013

im_poluto

líria porto

ora vário ora uno
os ovários da puta tão iguais
ao da madre

*

michê

líria porto

lambeu-a de ponta a ponta
fez de conta que ela era sua mulher
e quando lhe apresentou a conta
surpreendeu-se com a resposta
:
pago – pago sim
com o maior prazer

*

borrasca

líria porto

o tempo empurra a vida
como o vento empurra as nuvens
até que dias e noites se acumulem
e desabe a tempestade

*

segunda-feira, 25 de março de 2013

ilhós

líria porto

alguém me salve de mim e dos meus precipícios
jogue-me uma corda e eu me viro do avesso
ou me enforco

*

no fio da navalha

líria porto

não é teu não é meu
o mar – como o sol a lua os amantes – é de todos
é de ninguém

*

difíceis de guardar


líria porto

a ponte entre os olhos
suporta segredos de cimento
e pedra

*

domingo, 24 de março de 2013

leme

líria porto

anjinho pôs as asas de fora
corteia-as rente

ensinei-o de uma vez por todas
quem comanda nossos voos

*

como um rio

líria porto

trouxe comigo tão somente as cicatrizes
arrasto as rosas que encontro pelas margens
as suas pétalas forram o chão por onde piso

o que deixei para trás
ficou para trás

sigo

*

sábado, 23 de março de 2013

assobio

líria porto

gosto de estar sozinha
e sentir que o vento
faz-me companhia

*

arisca

líria porto

não te arrisques a persegui-la
a poesia foge de quem vai
com sede ao pote

*

sexta-feira, 22 de março de 2013

artesanal


líria porto

a realidade esmaga os sonhos
como os pés que pisoteiam as uvas

a nós nos resta coar o refugo
transformar o sumo em vinho
:
embebedarmo-nos
                                de vida

*

quinta-feira, 21 de março de 2013

quando o bicho pega

líria porto

precário para namoros
suficiente pros netos
vovô nos punha nas costas
para as cavalgavas
:
vovó virava uma arara

*

redenção

líria porto

muita vez nublada
em vésperas de chuva
amua-se num canto
a esperar que as lágrimas
lavem-lhe a tristeza
expurguem-lhe a culpa
por viver num mundo
cruel e injusto
e nada fazer

*

quarta-feira, 20 de março de 2013

nas últimas

líria porto

se eu cortar o pulso
não me estanque o verso
deixe que se esvaia
enquanto poça

*

ceia

líria porto

abres meu livro e me lês
e me comes da cabeça
aos versos

*

terça-feira, 19 de março de 2013

pirraça

líria porto

palavras me chamam
depois me beliscam
insistem insistem
resisto reviro-me
porém sem sossego
as mesmas palavras
me arrancam da cama
:
então lavo a cara
mas elas se escondem
só por vingança

*

segunda-feira, 18 de março de 2013

desamparo

líria porto

um tsunami arrombou meus olhos
e não houve lenço ou lençol
que os enxugasse

*

abertura

líria porto

eu não sou ingrata nem sou egoísta
deste-me tua nata e a mim me importa
que não te exponhas em rio de piranhas
faze o que gostas com quem quer que seja
entre quatro paredes e em segurança

)faço vistas grossas(

*

sábado, 16 de março de 2013

biruta

líria porto

como um barco a velas
o vento me sopra e eu sigo
sem rota

*

do abandono

líria porto

o que dói não é a partida
é a quebrada

*

movimento

líria porto

janelas olham janelas piscam
portas engolem e vomitam

*

sexta-feira, 15 de março de 2013

pé atrás

líria porto

não tens consciência
és 
    cru 
           pulo

*

primordial

líria porto

não conheço o líbano
tenho saudades do líbano
da infância de meu avô
das oliveiras
da alegria que havia
antes da grande guerra

não conheço o líbano
sofro pelo líbano – sempre ali
à beira do conflito

*

quinta-feira, 14 de março de 2013

descuido

líria porto

firo-me com faca pontuda
e me acuso – burra – mais que as outras
esta dor é tua

e não me desculpo

*

familiar

líria porto

cedo ainda
o sol lambe os telhados
passarinhos se espreguiçam
menininho rola no berço 
pede a mamadeira

mamãe leva-lhe o leite
retorna à cama cochila
(papai dorme de bruços)
o menino se aquieta
o sol não

logo logo
clarão na janela
menininho bem desperto
rio que transborda
sai do leito

*

quarta-feira, 13 de março de 2013

rol

líria porto

dentre as palavras mais tristes
órfão abandono desamparo

entre as mais alegres sabiá
gargalhada e cascata

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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