terça-feira, 24 de maio de 2011

recém-nascido

líria porto

eu nunca vou me esquecer
do menininho em meus braços
um passarinho no ninho
um bezerrinho no estábulo

*

dos monstros

líria porto

causa-me espécie
uma espécie de gente
que nem gente se parece
que espalha sua tara
entre pernas inocentes

*

valores

líria porto

colada em meu olho me cega
a um metro de mim é só uma moeda
(além da esquina nem vejo)
:
quem quiser que a_pegue
eu não

*

segunda-feira, 23 de maio de 2011

marilyn

líria porto

lua escandalosa
levanta a saia de roda
bem no meio do céu

*

domingo, 22 de maio de 2011

estigma

líria porto

sem olhos para a leitura
deixava de aprender com letras e palavras
a sentença do mundo

*

pós-guerra

líria porto

evitas meus olhos
depois –– barco à deriva
cais em contradição
atracas-te ao meu corpo
e navegas

*

quinta-feira, 19 de maio de 2011

ploft

líria porto

bolhas de sabão
bonitas e pereciveis
como as paixões

*

quarta-feira, 18 de maio de 2011

ao vento

líria porto

dão cambalhotas
e dançam e flutuam
as folhas mortas

*

pneumo

líria porto

habitam-me uns bichos
que miam ganem e piam
enquanto chio

*

segunda-feira, 16 de maio de 2011

folha seca

líria porto

dei de voar
lembro-me que nem tenho asas
e estou no espaço

o vento me pega
o vento se encarrega

*

(publicado no livro asa de passarinho - ed. lê) - rinoceronte

líria porto

um besouro cresceu desmedidamente
e trocou sua carcaça dura como um osso
pelo couro grosso

*

fera

líria porto

fui lá fora ver a lua
a rua estava deserta
levei francisco comigo
ia apresentá-lo à bela
uma nuvem fez fuxico
fiquei fula

*

jogo de cintura

líria porto

um tremendo pé na bunda
de romper os ligamentos

para relações futuras
pedra cimento e ferro
pra reforçar
o alicerce

*

domingo, 15 de maio de 2011

dívida atroz

líria porto

posso
devo?
:
perfurar um poço cavar uma fossa
preencher os ocos de absoluto
rasgar esse luto vestir-me
de púrpura

*

sexta-feira, 13 de maio de 2011

grises

líria porto

para os pelos
(pelos pálidos)
branqueados
desde cedo
eu concedo
muitas tardes
de sossego
muitas noites
de (a)luares

*

quarta-feira, 11 de maio de 2011

experiências

líria porto

puxei o mar pela borda
joguei-o dentro de mim
com espuma peixes
ondas

agora busco outra fórmula
vou desviar os riachos
do rumo dos olhos

(não sei se dou conta)

*

*

entre achados e perdidos

líria porto


já fui criança
meus olhos maiores que o mundo
nunca viram bem

de lá para cá 
tateio e uso 
       ósculos

*

superego

líria porto

a sociedade impõe
(na verdade ela o exige)
sede assim
sede assado
e a vocação para o cru
para o nu o natural
vai pelo ralo

e viramos massa amorfa
ficamos todos na moda
iguais
:
sem tirar
             nem pôr

*

terça-feira, 10 de maio de 2011

perfumoso

líria porto

se ele passar por mim
fecho os olhos bem fechados
e respiro fundo

*

ai mamãe

líria porto

não me belisques
eu acho isso covarde
quando me apertas arde
eu não posso revidar
e sinto raiva de ti
a pessoa amada
:
contar com quem
se me agrides?

*

segunda-feira, 9 de maio de 2011

no lago

líria porto

pulo de cabeça
e tenho fraturas

a temperatura?

trinta graus abaixo
de zero

*

se não queres tem quem queira

líria porto

não vou lavar o teu prato
não vou guardar teus talheres
nem tua cueca

cuido dos meus objetos
tenho o meu trabalho
contribuo com a metade
das despesas

ah
quem acordar por último
arruma o quarto

*

velho

líria porto

tem vexame não
é só ir devagarinho
que vinga faísca

*

à malagueta

líria porto

com um ela faz sexo
com o outro faz amor
assim cozinha e come
o seu baião de dois

(dona flor é fogo)

*

osama nas alturas

líria porto

a atirar estrelas com estilingue
a acertar carnes trêmulas
e calças borradas

*

domingo, 8 de maio de 2011

desenlace

líria porto

deixa-me dormir deste cansaço
não me fales de abandono ou despedida

quando eu retornar da morte em vida
desatamos nós – ficamos livres

*

sábado, 7 de maio de 2011

rumores

líria porto

nada peço à palavra
mas ela se entrega
então faço verso

com ruído
           ou silêncio

*

nós entre estas paredes

líria porto

o mundo inteiro lá fora
e o que mais te assombra
é eu querer estar sóbria

*

das necessidades

líria porto

passarim papo amarelo
quer farelo quer alpiste
ele sabe o quanto é triste
passar fome passar frio
e não ter sequer um ninho
pra pousar

*

quinta-feira, 5 de maio de 2011

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) peixe

líria porto

a amante do vovô
uma sereia linda
de olhos verdes
que a vovó chamava
de piranha

*

quarta-feira, 4 de maio de 2011

per_verso

líria porto

o que esperas que eu faça
que eu traia mate morra
por instantes na gangorra
dos teus braços?

(não sou quebra-galho)

*

terça-feira, 3 de maio de 2011

aperto

líria porto

prisões de ventre
alças intestinais
algemas anais
façam o general
arriar as calças

*

domingo, 1 de maio de 2011

dodói

líria porto

entre lírico e irônico
um versinho afônico
chora tosse espirra
às vezes embirra
em minha garganta
mas não adianta
ele sobrevive
mesmo que eu morra
de amigdalite

*

aquarela

líria porto

um lenço verde
a blusa amarela

saia azul celeste
bordada de estrelas

uma faixa branca
para o grande laço

(libertas quae sera tamen)

todas as bandeiras
de todas as raças

*

sábado, 30 de abril de 2011

karma

líria porto

a gente não procura e acha
dá de frente com a criatura
e o fato dura toda
                      a eternidade

*

quinta-feira, 28 de abril de 2011

é sempre assim

líria porto

acorda-se com um dia a menos
e uma longa vida cada vez
mais curta

*

para uma dona doida

líria porto

chorei quando vi adélia
ela disse - não carece

perguntei-lhe como não
a emoção obedece-nos?

*

fundão

líria porto

dentro da noite
onde moram os pesadelos
quisera bem entendê-los
livrar-me de qualquer sombra
dos medos que habitam 
                                o son(h)o

(careço fazer análise)

*

quarta-feira, 27 de abril de 2011

lisa

líria porto
nova na família
esguia esbelta
parece maneguim
na passarela

*

terça-feira, 26 de abril de 2011

gemido

líria porto

passarinho fica mudo
durante a troca das penas

as nossas penas não mudam
ficam a_penas doloridas

*

sorrateiro

líria porto

igual o envelope
que o carteiro coloca
debaixo da porta

*

noites de luana

líria porto

fios por todo o corpo
nas pernas peito virilha
axilas braços pescoço
e no rosto –– barba cerrada
bigodes
sobrancelhas grossas
:
amava-a
nu em pelo

*

para durar para sempre

líria porto

tudo é igual no começo
os beijos as juras o carinho
então meu bem eu me vou
antes do início do fim

*

abano (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto

a moça o leque o movimento
a imensa borboleta que inventou 
de aventar o vento

*

domingo, 24 de abril de 2011

cúmplices

líria porto

fosse quem fosse
viesse nu peito aberto
despido de preconceitos
pisasse leve nas pétalas

eu
       retirava
                     os
                           espinhos

*

relíquias

líria porto

objetos novos recém-adquiridos
não fico à vontade

prefiro sapatos surrados
roupas puídas móveis antigos
homens velhos

*

perfis

líria porto

lilica tem gatos
as irmãs têm cães
precisam de afagos
abanos de rabos
lambidas nas mãos

lilica é arisca
gosta de bichos
             à distância

*

o diabo da cruz

líria porto

nasci co'as mãos velhas
marcas de vassoura sabão enxada
d'outras encarnações
:
eu já escrevi com pena

*

sábado, 23 de abril de 2011

de_vagar

líria porto

álcool e cigarro
suicídio clássico
em câmara lenta

*

repartição

líria porto

mesas abarrotadas
papéis de um lado e doutro
e a fofoca solta
na boca dos funcionários

*

terça-feira, 19 de abril de 2011

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - a_manhã vem depois

líria porto

a lua flutua entre o céu
e a boca de fumo

um cão uiva
uma ruiva me acena
e a cena esbanja-se
de bela

fico doido
e é doído pensar
que a ilusão
é uma bolha

(cresce e
míngua)

*

segunda-feira, 18 de abril de 2011

chá de cadeira

líria porto

tempo de quem espera
tempo de quem virá

para alguns o tempo é eterno
um estalo para outros

um piscar de olhos
um raio

*

pestana

líria porto

tarde molenga
de ócio e preguiça
nada me atiça
e eu vaga_bunda
cochilo no colo
do mundo

*

domingo, 17 de abril de 2011

em minas

líria porto

quem não mordeu vai morder
a isca é um pão de quê?

*

d'alentejo

líria porto

quem canta os males espanca
(à florbela sim senhor)
o mal d'amor decantado
tudo em versos decassílabos
duas quadras dois tercetos

(a quem gosta um prato cheio
a quem não gosta
                              um vazio)

*

sábado, 16 de abril de 2011

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) desmerecimento

líria porto

à mulher que se disputa
o céu a terra a florada

à mulher que se diz puta
nada?

*

sexta-feira, 15 de abril de 2011

à luz da vela

líria porto



foto de fabio reis

acordos pra toda a vida
fazemos com nossa sombra
só ela nos acompanha à hora 
do desencontro

*

alarme

líria porto

nas horas em que tudo pesa
em que a carga é excessiva
podemos sair dos trilhos
:
parto ao primeiro apito

*

queda de (a)braço

líria porto

não vou deixar que mantenhas
as coisas como as decides

se aí montanhas são firmes
em minas somos de ferro

(dá-me um abraço)

*

quinta-feira, 14 de abril de 2011

mouro

líria porto

seu agasalho era o sol
com olhos de dromedário

*

quarta-feira, 13 de abril de 2011

maria dá pena

líria porto

olhos inchados
outro hematoma
torção no braço
todos os roxos
dentes quebrados
queimados graves
nova desculpa
caiu na escada
trombou na rua
passava roupa
queimou no forno
todos sabemos
existem monstros
dentro das casas
e nas escolas
e nas cadeias

(não tenhas medo
e nem te cales
não fiquem impunes
babá marido
pais professores
cabos soldados
que violentam
que te agridem
:
não sejas cúmplice
põe a boca no mundo
denuncia-os)

*

terça-feira, 12 de abril de 2011

cri-cris

líria porto

coisas pequeninas
que não incomodam
quaisquer circunstâncias
para os picuinhas
são muito maiores
que as relevantes

*

vigília

líria porto

já faz algum tempo
o sol dos seus olhos
ficou embaçado

não vai à varanda
não abre as cortinas
e nem cantarola

preciso ajudá-la
conversar um pouco
sua dor é tão triste

sinto-me impotente
porém passarinhos
também trocam penas

sofrimentos passam
fecham-se as feridas
ficam as cicatrizes

então calo o bico
e daqui de fora
monto sentinela

*

segunda-feira, 11 de abril de 2011

desumanidades

líria porto

uma vai e nem é bem tratada
a outra – mantida a pão-de-ló
faz cu doce

*

(à sombra da torre eiffel)

líria porto

falamos a mesma língua
lambemos o mesmo doce
cuspimos o mesmo sal
quase igual um casal
mas somos só um caso
                        
e casual

*

urgências

líria porto

a vida ruge batom
minissaia e salto
plataforma

*

domingo, 10 de abril de 2011

gueixa

líria porto

acaso tu queiras
um amor adotivo
manda me chamar
estou disponível

tu deitas no canto
afago-te a pele
enxugo teu pranto
cuido dos teus pés

então tu me falas
das tuas fraquezas
ouço-te em silêncio
resguardo segredos

enquanto precises
eu fico a teu lado
depois venho embora
e caso encerrado

(se é que tu deixas)

*

sábado, 9 de abril de 2011

cobertor

líria porto

sem nuvem urubu avião
um azul nuzinho cobria
meu corpo

*

crudelíssimo

líria porto

o tempo me cega
põe-me espora freio arreio
e berra sem compaixão
sossega sua égua velha
o teu passo mudou
o teu corpo está frouxo
é bom que te lembres
o teu macho é um
                   pangaré
:
(sim - senhor)

*

sexta-feira, 8 de abril de 2011

perfilados

líria porto

eucaliptos – exército de soldados rasos
imposição de fardas
:
verde a qualquer preço

*

quinta-feira, 7 de abril de 2011

sofrimento

líria porto

a dor de uma ausência não cabe no infinito
porisso se aninha na alma da gente
ali faz morada até que nos mata
esmaga sem pena
:
com o salto de um sapato luís xv

*

quarta-feira, 6 de abril de 2011

agonia

líria porto

como estarás a estas horas
o escuro se estira e ainda espero
a aurora

*

terça-feira, 5 de abril de 2011

decibéis

líria porto

sonoras sirenes
serenas senhoras

palavras se encaixam
sentidos se chocam

*

extrassístole

líria porto

coração para dispara
há muito não me obedece
faz hora co'a minha cara
parece samba de breque

*

no reino da dinamarca

líria porto

há algo que sobra
no prato da nora

a sogra

*

ímã

líria porto

passarinho atraído pela cobra cascavel
precipito-me no abismo dos teus olhos
:
voo em queda

*

segunda-feira, 4 de abril de 2011

estêvão

líria porto

não me estendeste uma estaca um esteio
não expressaste um gesto - a mim
gestante de um filho teu

*

a um osso duro de roer

líria porto

na verdade
o que eu preciso
é que tu tenhas siso
para não me amolares
com pedidos incisivos
e caninos

*

pés de moleque

líria porto

o pai pagava as contas
a mãe varria os cantos

(farinha e rapadura)

os filhos
nem sei quantos

*

por amor

líria porto

rasgar-se na carne
depois emendar-se
com ponto paris

*

cale-se

líria porto


em momentos difíceis
a queda acontece
e ninguém contém os estilhaços
do (res)sentimento

*

domingo, 3 de abril de 2011

bem querer

líria porto

leite afeto
cheiro de criança
servir-me-ão de alento
no rigor do inverno
na proximidade
da velhice

*

sexta-feira, 1 de abril de 2011

na beirada do telhado

líria porto

maritaca acorda ataca
faz barulho canta grita
maritaca come coco
quebra a casca
com o bico

*

quinta-feira, 31 de março de 2011

silêncios

líria porto

nada nada nada
diz-me tudo
enquanto tudo tudo tudo
nada diz

*

encruzilhada

líria porto

preciso escolher um caminho
qual?

decidiram por mim tanto tempo
vivo confuso e a bússola
é pior que eu
             
*

quarta-feira, 30 de março de 2011

chove não molha

líria porto


em fogo brando eu aguento
não suporto é fritura

*

terça-feira, 29 de março de 2011

francisco

líria porto

freia na curva
derrapa no coração
acomoda-se em meu peito
um menino com nome
de grande homem

*

segunda-feira, 28 de março de 2011

nos salões

líria porto

madames beijam madames
nas faces – como as formigas
(e nem são amigas)

*

linhagem

líria porto

tataravós bisavós avós
meus pais também já se foram
minha hora se aproxima
:
e ficarão nesse mundo
quatro filhas os meus netos
e uma rima pequenina

*

sábado, 26 de março de 2011

comboio

líria porto

ficamos velhos
iguais idênticos
aos pais e avós

e assim seguimos
com nossa prole
atrás de nós

*

bruma

líria porto

o vento me empurra
de um lado pra outro

seguro num oco
num vácuo num vão

e voo sem bico
sem asa sem pena

igual nevoeiro
(eu me vou)

*

olhares

líria porto

as rosas da vizinhança
ultrapassam em altura
as grades da nossa casa

em nosso jardim pequeno
as margaridas as dálias
parecem desarranjadas

os passarinhos no entanto
voam dum lado e doutro
e não fazem distinção
:
flores são flores
em todo canto

*

quinta-feira, 24 de março de 2011

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) de esguelha

líria porto

a porta range
e sua voz de taquara
denuncia a chegada
de quem por algum motivo
quis passar despercebido

um amante um larápio
um anjo de chifre e rabo
um espírito de porco
um filho desnaturado
um farsante um estrupício

um redemunho?

*

terça-feira, 22 de março de 2011

constrangimento

líria porto

mais que o peso das palavras o silêncio
a reprovação

*

segunda-feira, 21 de março de 2011

evas

líria porto

bisneta de alguma neta
tetravó da própria mãe
(mulheres sobre mulheres)
e a beleza se completa
em muitas encarnações
:
ancestrais
e descendentes

*

domingo, 20 de março de 2011

mire veja

líria porto

caçador di_verso atira e acerta
quem está prestes

*

quarta-feira, 16 de março de 2011

(publicado no livro garimpo - editora lê) - simplório

líria porto

quis versos rebuscados
repletos de filosofia e sapiência
belas metáforas palavras de boa cepa

mas nasci no cafundó sem eira nem beira
quando muito salpico purpurina
no rabo dos cometas

os olhos do poeta têm cílios de arco-íris
os meus são folha seca

*

terça-feira, 15 de março de 2011

tormenta

líria porto

o céu é só chumbo
e não tenho guarda-chuva

há tempo?
nada

*

segunda-feira, 14 de março de 2011

todo dia é dia de poesia - parabéns

líria porto

nas asas da borboleta
no bico do passarinho
na bica dágua

no bolo de aniversário
da roberta silva

*

gostaria

líria porto

de não entender o que está por trás
de não ir atrás do que possa ser
de não ter radar de não ter antena
de viver/morrer na inocência

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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