terça-feira, 23 de junho de 2009

alienação

líria porto

sonhou que era uma diva
vestia paco rabanne

o mundo ia à deriva
terrível a guerra no iraque

o sofrimento na mira
na moda homens de araque

um desperdício de vida
e as mortes –– desnecessárias

*

niña

líria porto

é tudo tão novo
até o meu choro
eu deito no berço

depois o embalo
finjo que o esqueço

*

naquele tempo

líria porto

usávamos purpurina
e tudo era bonito

hoje nem o ouro
vale as penas

*

intramuros

líria porto

um de deveres
um de direitos

o diabo da cruz
a cruz do diabo

um tanto faz
um quanto fez

(vítima e herói
fujo deles)

*

segunda-feira, 22 de junho de 2009

dor

líria porto 

escrevo num soco 
única palavra 
tem ela três letras
depois da pancada 

esse gemido 
não faz um poema 
é ele o grunhido 
da minha pena 

*

pesadelo

líria porto

ao volante de um bólido preto
atropelo a criança que empurra
um carrinho de supermercado

cebolas queijo tomates
misturam-se à massa que é minha
a menina que virou lasanha

*

pontuado e sem respostas (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto

ouve-se o canto da cigarra
aonde vai levá-la esta canção?

o sol arde implacável
o que é para o sol uma cigarra?

a folha cai é só uma folha
o que é uma folha?

quem somos nós
cara-pálida?

*

em prosa e verso

líria porto

chorar posso
não devo

lágrimas (en)cantadas
mais que tristezas
serenam

*

bruxinha

líria porto

deixo-te o caldeirão
o corvo o gato a vassoura
as receitas de poção
(usufruto meu)
e a palavra
abracadabra

nada mais há de valor
que a vovó te possa dar

(pobre como joia)

*

domingo, 21 de junho de 2009

(publicado no livro garimpo - editora lê) - casta

líria porto

flor amarela não tem opção
não tem sangue nas pétalas

e ser branca não é cor
é condição

*

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) elas

líria porto

a vida é a puta
que em mim se esfrega
e espera que eu resista
às suas curvas

a vida é a santa
que me recusa
e assim me arrasta
para suas pernas

a morte é mulher
sem intenções escusas

*

insuportável

líria porto

quando fico triste
faço sopa de cebolas
(esse é um bom disfarce)

derramo fartos soluços
e as cebolas (a)batidas
cozidas em tanto pranto
(quer dizer em fogo brando)
deveras ficam amuadas

(acho sopa de cebolas
um sofrimento intragável)

*

manha (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto

nas brenhas da montanha
existe um canto para ouvir-se os cantos
da manhã

*

sábado, 20 de junho de 2009

prognóstico

líria porto

um cataclismo
uma hecatombe

aquele trombo
dentro da veia
é uma bomba

pavio aceso
ninguém se importa

a displicência
num caso desses
é a causa mortis

*

(publicado no livro asa de passarinho - ed. lê) - vento em popa

líria porto

o mar se encrespa
desbalanceia
todas as ondas

mesmo acordada
relembro as águas
do mar dos sonhos

vem numa concha
molha meu olho
depois se esconde

pudesse iria
viver no mar
sereia ou ilha

e levaria
a minha serra
no tombadilho

*

sexta-feira, 19 de junho de 2009

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - complexo

líria porto

rente inadequado a pisar em ovos
sem saber ao certo as motivações
a buscar nas sombras o anonimato
a querer no mato um esconderijo
um poço um buraco um lugar escuro
sem sol e sem lua
para inexistir

*

sem eira nem beira

líria porto

eu taquei fogo no mar
pus ferver a aguaceira
pra fazer nuvem suar
trovejar na pirambeira

*

quebra-ossos

líria porto

o corredor quem faz conta
de quase todos os passos
remonta nosso inventário

(ano após ano)

já nos viu de todo jeito
sonhadores esperançosos
tristonhos ou solitários

(ida e volta)

*

descanso

líria porto

se tu tristeza levasses um tiro
sangravas teu choro ou gemias
num riso?

*

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) intocável

líria porto

fiz da pele uma couraça
um escudo uma armadura
um casco de tartaruga

agora ninguém me pega
se pegar não me belisca
se beliscar eu nem sinto

*

quinta-feira, 18 de junho de 2009

artesanal

líria porto

fazer o barro arear a forma
moldar a massa retirar o excesso
levar os tijolos ao forno

a alma do oleiro
fixá-la com reboco

*

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) les misérables

líria porto

em noites turvas ou frias
pobres corpos se procuram
sob viadutos e marquises

nos redutos dos ratos e das aranhas
os filhos do infortúnio

*

candidato

líria porto

vai passando seu gerúndio
atrás uns gatos pingados
imitando-o aplaudindo-o
ele se achando lindo
segue rindo acenando
prometendo mundo
e fungo
:
vou lular no infinitivo

*

fritura

líria porto

a moçada
na discoteca da moda
rebola mais que minhoca
em cima da pedra

(((((( inveja
: tudo que não mata
engorda ))))))

*

quarta-feira, 17 de junho de 2009

raça

líria porto

nu meu canto tem batuque
tem batida atabaque

nu meu canto tem tambor
tem chicote dor ferida

nu meu canto tem saudade
tem suor senzala

raça

*

assembleia

líria porto

maior burburinho
será estão onde
só ouço os trinados
futricas apartes
parece discutem
à porta dos ninhos
assunto de asas
de casa
de condomínio

*

terça-feira, 16 de junho de 2009

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) clandestino

líria porto

nosso amor é grupal
e quem triscar um só dedo
em qualquer um dos pentelhos
terá de se haver com o resto

*

patética

líria porto

entre versos e conversas
pressas inconvenientes
passo a passo sem certezas
atravesso meus avessos
a desfazer-me das rédeas
dos freios que eu mesma teço

*

filha única

líria porto

é aquela ilha
cercada pela família

*

torquês

líria porto

maldito cujo
maldigo o sujo
aquele traste
desfaçatez

tomara caia
tomara encalhe
tomara encolha
o tal freguês

atrás da porta
existe um sapo
a boca torta
fel palidez

ninguém mais fode
a minha pátria
nenhum diabo
nenhum burguês

sou azinhavre
peste sarnenta
solto os cachorros
é a minha vez

*

boca de forno

líria porto

quem disser que beijo é doce
desminto

tem pimenta e tem volúpia

*

copacabana

líria porto

um requebro um meneio
um balanço de quadris

esta calçada morena
tem curvaturas de miss

*

delicadeza

líria porto

a nuvem rosada
que aurora me trouxe
(pela madrugada)
era algodão doce

*

segunda-feira, 15 de junho de 2009

marilua

líria porto

narizinho de batata
boquinha de coração
olhinhos de vira-lata
cabecinha de pardal
menininha mais bonita
cheirosa fenomenal
não tem em luar nenhum

(nem aí
nem na china)

*

tpm

líria porto

disse a ele –– sou de lua
dilua sua tristeza
em minha fase crescente
na minguante eu menstruo
faço da menores coisas
um estuário de queixas

*

domingo, 14 de junho de 2009

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) para embalar tristezas

líria porto

os olhos daquela moura
parecem jabuticabas
vontade sentir seu gosto
vontade beber suas lágrimas

o macio dos meus braços
sabe o balouço das ondas
se a moura quiser dormir
até que o faça
                      balanço-a

*

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - insônia

líria porto

a boca escancarada da noite
os urros do silêncio
as teclas mudas

não tilintam os cristais
não estilhaçam a vidraça
amantes não sussurram
não há sinos de igreja
o mundo acabou
o relógio dorme
o tempo não passa

onde estão os latidos
os galos os gritos
os olhos do sol?

na cama
o corpo exausto
o vazio da tua ausência
e os mil anos dessa noite
que nos engole
que nos vomita

*

parceria

líria porto

sapatos carregam
penas e dores
e até dissabores
mas andam em par

vontade eu tinha
de ser um sapato
velhinho que fosse
serias o outro
a partilhar-me os passos
os saltos percalços
a entender-me as carências
armadilhas
temores

*

titikus

líria porto

o gato da odete foi para o céu
ontem vi aqueles olhos verdes
diziam-me – aqui é bom
estou bem
a lua é cheia de leite
avisa para odete

*

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - desencontro

líria porto

entra sem bater a casa é tua
deita em minha cama e dorme
esquece das agruras

não demoro fui secar os olhos
vez em quando choro
somos sol e lua

*

andar_ilha

líria porto

nas ondas dos seus cabelos
surfavam tantos piolhos
tínhamos nojo – não dela
daqueles insetos sujos
pedíamos para tirá-los
ela dizia jamais
eu sou sozinha demais
e gosto da companhia

*

publicado

líria porto

livro de poesia
: borboleta desfolhada
pétala por pétala

*

sábado, 13 de junho de 2009

conjugados

líria porto

já nos confundimos um no outro
não sei onde começo onde terminas
só vislumbro um ponto

eu fui
nós somos

*

monoico (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto

deus é menina
tem cachos eu acho
talvez seja negra
não a vi de frente
senti pelo cheiro
de flores queimadas
incenso e fumaça
que veio com o vento

foi tal o deleite
na manhã de sol
que pensei
tão bonita
e assim
perfumada
só deus

*

(paguei o sol no pulo) conflitos

líria porto

ouço a menina de dentro dizer à velha senhora
azar se dói o teu corpo –– comigo trago mil sonhos
de ti não me vou embora

*

(publicado no livro asa de passarinho - ed. lê) - andarilhos

liria porto

parecem estrelas
são pingos de chuva
em folhas d'inhame

chuviscos de lua
no verde veludo
de tantras

andanças

*

fome

líria porto

ao redor da mesa
uma dúzia de olhos enormes
e as barrigas que roncam

*

hoje tem goiabada

líria porto

eu nasci palhaço
em pobre palhoça
sou gente da roça
distante do mar

*

sexta-feira, 12 de junho de 2009

escape

líria porto

prosa fiada tecida
tramada entre amigos
ao som dos risos e das piadas
de desopilar o fígado

*

incisivo

líria porto

quem sei de mim
nem eu dentro
desse salário mirrado
como se fora um retalho
rasgado todos os meses
desde o furo do sapato
até a falha do dente

*

descansa no (a)mar

líria porto

a vida não para
procura caminhos
da nascente
à foz

encurva transborda
escorre em planaltos
planícies lajedos
d
e
s
p
e
n
h
a
d
e
i
r
o
s

: d e s á g u a

*

quinta-feira, 11 de junho de 2009

acareação

líria porto

como fosse uma pincelada curva
a cicatriz aponta o meu lado túrbido

não é feia nem assusta mas avisa
és de carne e osso

*

embolada

líria porto

senhorio tem madame
mas de vez em quando
dorme co'a mucama

adverte-a
não te prendas minha prenda
ela dá de ombros

divertem-se

*

perplexidade

líria porto

o mundo
é uma bola quadrada
que gira parada
fincada no espanto

*

do oiapoque ao chuí

líria porto

eu te quis desde o começo
o jeito o cheiro as promessas

depois eu te quis o meio
o amor o peito entre as pernas

por fim eu te quero inteiro
e sem reservas

*

(para o livro sem pecado não tem salvação) temos asas viradas pra dentro

líria porto

ninguém é só bom ou ruim
pensem o que pensem assim somos
mistos de anjo e demônio

*

devagarinho

líria porto

senhorinha quase um século
vai de salto bolsa sombrinha
debaixo da chuva fina

parece que adivinha
tem um anjo a esperá-la
na outra banda da esquina

*

(peguei o sol no pulo) poema

líria porto

em hora extrema
qual teorema
sem solução

*

em plena seca

líria porto

nos olhos da princesa
dois rios caudalosos

queria-lhe um peito
que jorrasse mel

*

contrarregras

líria porto

tremo viver sem trema
comer linguiça já não tem o mesmo gostinho
vou demorar a urdir ideias
a dormir tranquila

(arrepiam-se-me os pelos
pelo de medo)

sem tirar nem pôr
acho uma feiura
voo sem acento
sinto enjoo

(morderam-nos a língua
e cuspiram em cima)

*

nada além

líria porto

quando eu morrer
enterrem comigo
o retrato das filhas
um punhado de terra
o mapa de minas
e o apito do trem

*

leitura

líria porto

crianças (in)quietas em fila na estante
os livros quando abertos tornam-nos radiantes
exalam prosa / verso cantam universos
tragédias romances

transformam-nos - os viajantes
em seres alados etéreos
eternos

*

quarta-feira, 10 de junho de 2009

fraqueza

líria porto

vestiu-se de triste
bebeu outro uísque
chorou um momento
abriu a ferida
molhou sua pena
e com letra anêmica
rabiscou um poema
raquítico

*

árvore do cerrado

líria porto

araguari –– ventania –– nasci já faz tempo
o vento ainda e hoje me segue
conversa comigo espalha meus medos
alerta os perigos espanta meus versos

lá tudo é tão plano a gente se aterra
e quando mudamos o vento se apega
agarra-se à alma impregna-se à pele
até de repente levar-nos à febre

então retornamos
e ali nos enterram

*

águas passadas removem moinhos

líria porto

nus domingos –– cine rex
a poltrona do meu lado
eu deixava reservada
para o príncipe encantado

(foram tantos e todos eles
caíram do cavalo)

*

tal e qual um pirilampo

líria porto

só um pouco quase nada
muito de vez em quando
luz acendo luz apago
fico alegre fico triste

tenho bico tenho asas
é jeito meu de quebranto
voar raso das beiradas
até o canto do espanto

(meus amores foram embora
lá é que são felizes)

*

terça-feira, 9 de junho de 2009

desespero

líria porto

meu bem minha flor rosinha meu anjo
conheço de longe teu cheiro teu choro
o tempo esse potro ele corre galopa
sonhei como sonhas nos braços de ontem

florinha não chores mamãe volta logo
papai prometeu não demora ele vem
não chores florinha não chores eu te imploro
vovó ficou velha – não tem paciência

*

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - diagnóstico

líria porto

a lua chorosa
deitou numa nuvem
o canto dos olhos

chamei o doutor
ele foi categórico
:
é falta de sol

*

segunda-feira, 8 de junho de 2009

de sabores

líria porto

sol amargo
tocaiado atrás da nuvem
só pra ver como te sais
logo tu - torrão de açúcar

(e eu assim
tão azedo)

*

(peguei o sol no pulo) suicida

líria porto

cimentei bombas nos olhos
pus granadas no umbigo
soquei pólvora em cada poro
bebi chumbo derretido
ateei fogo no invólucro
acorrentado a explosivos
depois convoquei a morte
para dormir comigo

ela me disse –– és um forte
se queres uma consorte
convida a vida

*

ciumenta

líria porto

peço à lua
: segue meu amor vigia-lhe os olhares
espia se as moças lhe são interessantes

peço ao vento
: sopra por favor nuvem ou areia
nos seus olhos banzos

*

domingo, 7 de junho de 2009

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) contraponto

líria porto

nem todo buraco é vão
os do queijo têm gosto
e as covinhas do teu rosto
são uma delícia

(vão é o teu desprezo
a sangrar-me o coração
a enterrar em vala funda
meus sonhos vãos
meus desejos)

*

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - amor ao primeiro eclipse

líria porto

entre mim e o sol
postou-se um óvni
piscou o farol

pensei comigo
não tenho íntimos
no paraíso

desceu um verde
beijou-me a boca
falou julieta

tremi-me inteira
mordi-lhe a orelha
gemi r-o-m-e-u

) e desvesti-me (

*

o sol me disse

líria porto

: a lua é mãe de família
(disse-me - mas eu não cri)

) enquanto o sol dorme
a lua vagabunda (

*

balouço

líria porto

convidei a lua
baluarte do amor e da poesia
para amadrinhar maria luiza

ela aceitou sem restrição
e sugeriu - convidássemos o mar
para padrinho

*

sábado, 6 de junho de 2009

nós

líria porto

amassa a vida na cama
recebe troco de macho

eu dei vendi emprestei
paguei com juros
e correção

eu sou puta
ela é madame

*

sexta-feira, 5 de junho de 2009

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - equívocos

líria porto

eu pensava que a lua fosse queijo
e que era o amor doce deleite

ora a lua não passa de satélite
e ao final triste amor
farelo

*

sem falsa moléstia

líria porto

sou o máximo
e a nota que me dou é dez

perfeita?
não

defeitos?
imensos

aceito-me como estou neste momento
) do melhor jeito que posso (

*

fiapo

líria porto

um amor cheio de nós
esgarçou-se por inteiro
e depois se emaranhou
desfiou embaraçado
era amor só por um fio
desconfio amo(r)finado
sem trilho sem brilho
sem nós
a sós
d
e
s
a
m
o
r

*

presente

líria porto

atrás da porta de casa
tem um sininho de bronze
quando entro ou bate o vento
ali por volta das onze
traz meu pai
para o almoço

*

boca seca (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto

se o vento te falar das suas coisas
do quanto nesse mundo ele já viu

saberás que na vida em algum momento
um copo d'água é maior do que um rio

*

quinta-feira, 4 de junho de 2009

dona joaquina

líria porto

penúltima flor do lar inculta e inepta
por uma panela foste ao extermínio
puseste feijão no fogo o gás vazava
tudo subiu pros ares –– tu inclusive

*

dos príncipes e dos mendigos

líria porto

entre dois montes a gruta
: dela sai o fedor o cheiro forte
do que lhes entra pela boca

) salmão ou sardinha (

*

(publicado no livro garimpo - editora lê) - desencanto

líria porto

não sou a rara flor que me disseste
sou flor do campo

não te espetei os dedos
não me pendurei em tua lapela
e secar-me à luz de vela
isso não

florescer é meu destino
vou sobreviver

*

camaleões (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto 

enquanto havia pranto 
os olhos da criança 
pareciam verdes 

 hoje ela não chora 
e os olhos d'agora 
são barro seco 

*

lágrima

líria porto

a tristeza –– chaga aberta
tem sangue transparente

quando a dor extrapola
a alma vaza pelos olhos

*

guerras

líria porto

por todos os caminhos e para sempre
haverá na terra rastros do homem
da sua passagem pelo planeta

) mesmo depois de destruir-lhe as riquezas
e dizimar a (im)própria espécie (

*

quarta-feira, 3 de junho de 2009

maria

líria porto

governar a própria vida
isso sim é o que pretende

nem pai irmão ou marido
sabe dentro o que ela sente

seus anseios fantasias
suas manias de flor

perfumes cheiros
essências

desejos roucos
perfídias

*

terça-feira, 2 de junho de 2009

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) guilhotina

líria porto

rareou os beijos
arredou o corpo

e pé ante pé
sem dizer paulada

foice

*

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) orfandade

líria porto

as lágrimas secaram
chorei sal
perder-te foi um mal irreparável
tal como se o mar se evaporasse
e eu tivesse que remar
tocar o barco

*

palhaço

líria porto

poesia não é tristeza
ela rima com alegria
com a água na bacia
que a mim serve
de espelho

ali alah
olha a lua de molho
no olho do louco

*

reciclagem

líria porto

uma flor se manifesta
reclama protesta geme
é que o vento – esse moleque
arrancou-lhe duas pétalas

ele se justifica
vai mandá-las pra lagarta
ela vai ficar bonita
viajar pra buenos aires

*

pisca-pisca

líria porto

depois da monta
adão se desmanchava
e eva via estrelas

*

segunda-feira, 1 de junho de 2009

deslua

líria porto

a fila não anda
a fome não passa
o pão é dormido
e não tem café

*

caveira

líria porto

osso argila gesso 
pouco importa - é cavernosa 
a máscara da morte 

*

domingo, 31 de maio de 2009

adrenalina

líria porto

não quero andar sobre cismas
a mil metros do chão

prefiro a vida pacata
que ata e desata
a rima

*

miliciano

líria porto

sádico
cético
cínico
sórdido
suburbano
:
e cheio de empáfia

*

saravá

líria porto

dona canoa
ano após ano
vai à casa
de mãe joana

*

a caneca (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto

todo dia sirvo alguém
café com leite bem cedo
à tarde um chá quentinho
chega a noite – a sopa um caldo
mas ninguém me agradece
e fico muito cansada

a_penas tenho uma asa
se fossem duas arriscava
imitava um passarinho
e vez em quando
voava

*

tu_tano

líria porto

se para ganhar a vida
tiveres que fazer o que detestas
morres

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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