líria porto
o grilo quieto no teto
parece grilado com algum pensamento
parado no meio do pulo
não vou estragar-lhe a sesta
só mato em legítima defesa
*
segunda-feira, 21 de abril de 2008
fantástico
líria porto
leio deitada e o sono
leva-me ao inimaginável
sonho com mundos mágicos
seres alados
príncipes cascatas delícias
e nas ondas do absurdo
ultrapasso tudo
cubro-me com lençóis d'água
*
leio deitada e o sono
leva-me ao inimaginável
sonho com mundos mágicos
seres alados
príncipes cascatas delícias
e nas ondas do absurdo
ultrapasso tudo
cubro-me com lençóis d'água
*
a implacável
líria porto
mais ágeis que os pássaros ou o vento
pensamentos transportam-nos
fabricam deuses demônios asas
só não conseguem driblar
a indigitada dos tempos
*
mais ágeis que os pássaros ou o vento
pensamentos transportam-nos
fabricam deuses demônios asas
só não conseguem driblar
a indigitada dos tempos
*
revisão
líria porto
seguro com firmeza as rédeas do coração
retiro-lhe as reticências – imponho um ponto final
ao amor que agoniza
*
seguro com firmeza as rédeas do coração
retiro-lhe as reticências – imponho um ponto final
ao amor que agoniza
*
domingo, 20 de abril de 2008
minhas rimas
líria porto
não têm rumo
não se arrimam
não se arrumam
não se arredam
não se arriscam
não se arranjam
não se arrulham
não se arrepiam
mas se arrastam
arruinam-me
*
não têm rumo
não se arrimam
não se arrumam
não se arredam
não se arriscam
não se arranjam
não se arrulham
não se arrepiam
mas se arrastam
arruinam-me
*
vergonha
líria porto
escondo a timidez barulho
arrulho embrulho entulho
encalho falho empalho
atrapalho-me
e tenho um filho azul
*
escondo a timidez barulho
arrulho embrulho entulho
encalho falho empalho
atrapalho-me
e tenho um filho azul
*
(publicado no livro olho nu - ed. patuá) líder
líria porto
peito pra frente
bunda pra trás
e o batalhão
peito pra frente
bunda pra trás
e o batalhão
atrás
*
*
plenitude
líria porto
gosto de um tanto muito tão demais tão sem cabimento
tal como um gatilho a disparar intenso extenso imenso
completamente
*
gosto de um tanto muito tão demais tão sem cabimento
tal como um gatilho a disparar intenso extenso imenso
completamente
*
lazuli
líria porto
não olhou não viu
o anil do céu abril
parece o criador
fez amor e o azul
surgiu
*
não olhou não viu
o anil do céu abril
parece o criador
fez amor e o azul
surgiu
*
sábado, 19 de abril de 2008
mirante
líria porto
soltei o corpo no mato
destravei o pensamento
pude voar ver as coisas
a montanha a terra o vento
as nuvens o verde as sementes
as flores as galhas tenras
e a ausência de gente
devolveu-me a paz
agradeci ao bom espírito
à mão invisível que me guiou
além da civilização
*
soltei o corpo no mato
destravei o pensamento
pude voar ver as coisas
a montanha a terra o vento
as nuvens o verde as sementes
as flores as galhas tenras
e a ausência de gente
devolveu-me a paz
agradeci ao bom espírito
à mão invisível que me guiou
além da civilização
*
ultimatum
líria porto
nem mas nem meio mais
menos ainda aliás
sequer desculpas poréns
ou encerramos o caso
não sem tempo
ao acaso
outros virão
nulos somenos
sem rumo
nenhuns
chegarão apesar de ti
*
nem mas nem meio mais
menos ainda aliás
sequer desculpas poréns
ou encerramos o caso
não sem tempo
ao acaso
outros virão
nulos somenos
sem rumo
nenhuns
chegarão apesar de ti
*
coleira apertada
líria porto
plantou vento - colheu nada
nem passatempo
no banco de trás igual vira-lata
sem ração e sem torrão
nem rosnava
*
plantou vento - colheu nada
nem passatempo
no banco de trás igual vira-lata
sem ração e sem torrão
nem rosnava
*
desatenções
líria porto
coloca água no fogo
separa e lava os feijões
os feios deixa-os de lado
os murchos os carunchados
bate os bifes amassa o alho
corta a cebola em rodelas
frita o torresmo as batatas
refoga arroz faz farofa
enquanto espera trabalha
prepara a mesa pra todos
:
não te demores seu moço
se se cansar faz tua mala
*
coloca água no fogo
separa e lava os feijões
os feios deixa-os de lado
os murchos os carunchados
bate os bifes amassa o alho
corta a cebola em rodelas
frita o torresmo as batatas
refoga arroz faz farofa
enquanto espera trabalha
prepara a mesa pra todos
:
não te demores seu moço
se se cansar faz tua mala
*
apagão
líria porto
não lhe deixou lembrança
fiapo cisco poeira sombra traço
risco nada
era o que havia a ser feito
pelos beijos que lhe negara
pelas grosserias proferidas
pelas noites mal dormidas
pela intensidade do bocejo
*
não lhe deixou lembrança
fiapo cisco poeira sombra traço
risco nada
era o que havia a ser feito
pelos beijos que lhe negara
pelas grosserias proferidas
pelas noites mal dormidas
pela intensidade do bocejo
*
segunda-feira, 14 de abril de 2008
sábado, 12 de abril de 2008
perfídia
líria porto
olhos de vidro
chocalho no rabo
língua bipartida
chega-nos de través
com muito veneno
igual cascavel
(o couro - cuidado
precisa ser grosso
imune às víboras)
*
olhos de vidro
chocalho no rabo
língua bipartida
chega-nos de través
com muito veneno
igual cascavel
(o couro - cuidado
precisa ser grosso
imune às víboras)
*
sexta-feira, 11 de abril de 2008
os amores de lúcio
líria porto
a água treme arrepia-se
é toda ela emoção
a pedra mantém-se firme
bem agarrada à montanha
a água desce desliza
a pedra cuida ampara-a
águas maria luiza
pedras maria eduarda
*
a água treme arrepia-se
é toda ela emoção
a pedra mantém-se firme
bem agarrada à montanha
a água desce desliza
a pedra cuida ampara-a
águas maria luiza
pedras maria eduarda
*
conclusão
líria porto
tal como a corda ruiu
sem que ninguém percebesse
por desamor ou descuido
rompeu-se o elo entre eles
ficaram sem se falar
um no quarto um no sofá
até que à porta da casa
a tabuleta – aluga-se
*
tal como a corda ruiu
sem que ninguém percebesse
por desamor ou descuido
rompeu-se o elo entre eles
ficaram sem se falar
um no quarto um no sofá
até que à porta da casa
a tabuleta – aluga-se
*
debaixo do tapete
líria porto
não gostas quando me queijo
luscofusco-me tu não vês
se agente não vale transporte
então – para quê?
*
não gostas quando me queijo
luscofusco-me tu não vês
se agente não vale transporte
então – para quê?
*
mosqueteira
líria porto
decidi ser feliz
escrevi em toda parte
eu por mim hoje e sempre
quem me quiser então venha
quem não quiser siga em frente
e nem sinta culpa
estou
mais que nunca
sob minha responsabilidade
*
decidi ser feliz
escrevi em toda parte
eu por mim hoje e sempre
quem me quiser então venha
quem não quiser siga em frente
e nem sinta culpa
estou
mais que nunca
sob minha responsabilidade
*
retalhos
líria porto
procuro-te entre as pessoas
encontro-te ora numa ora noutra
(um sorriso um olhar um dar de ombros)
apavora-me perder tuas migalhas
*
procuro-te entre as pessoas
encontro-te ora numa ora noutra
(um sorriso um olhar um dar de ombros)
apavora-me perder tuas migalhas
*
comandante
líria porto
não crês em deus e nem eu
no entanto –– fidel –– protejam-te o céu
e as estrelas
*
não crês em deus e nem eu
no entanto –– fidel –– protejam-te o céu
e as estrelas
*
vovô
líria porto
bigodes cabelos brancos
mãos postas cara inocente
posava na fotografia
como um deus brincalhão
*
bigodes cabelos brancos
mãos postas cara inocente
posava na fotografia
como um deus brincalhão
*
adolescente
líria porto
aquele amor panfletário
bem-humorado gozoso
foi perdendo a alegria
ficando desanimado
não quero não podes não vais
fez muxoxo cena birra
e por coisas pequeninas
transformou-se em sacrifício
eu desisti desististe
arranjei um namorado
partiste não mais te vi
nunca mais tive notícia
*
aquele amor panfletário
bem-humorado gozoso
foi perdendo a alegria
ficando desanimado
não quero não podes não vais
fez muxoxo cena birra
e por coisas pequeninas
transformou-se em sacrifício
eu desisti desististe
arranjei um namorado
partiste não mais te vi
nunca mais tive notícia
*
papelão
líria porto
manobra suas carências
tal como deus poderoso
ela ali – em seu regaço
entrega-se de alma e corpo
toma posse toma conta
suga-lhe o caldo o sabor
e ela vira bagaço
e ele some no mundo
*
tal como deus poderoso
ela ali – em seu regaço
entrega-se de alma e corpo
toma posse toma conta
suga-lhe o caldo o sabor
e ela vira bagaço
e ele some no mundo
*
quinta-feira, 10 de abril de 2008
folie
líria porto
o sol dormia
sonhava com as estrelas
a lua cheia e grávida
chamou o sol às falas
*
o sol dormia
sonhava com as estrelas
a lua cheia e grávida
chamou o sol às falas
*
passarinhando
líria porto
ando vôo
no pensamento
nas asas do vento
sonho
do beiral da alma
ao colo do moço
coração à boca
cúmplices
*
ando vôo
no pensamento
nas asas do vento
sonho
do beiral da alma
ao colo do moço
coração à boca
cúmplices
*
quarta-feira, 9 de abril de 2008
desnorteio
líria porto
cabeça transtornada
ideias obtusas
falo descalabros
rabisco garatujas
qual um marujo
em primeira
viagem
*
cabeça transtornada
ideias obtusas
falo descalabros
rabisco garatujas
qual um marujo
em primeira
viagem
*
maria bonita
líria porto
acendia lampião
sabia da sua força
e mesmo que tropeçasse
não levava tombos
caminhava
a soprar feridas a sonhar
seus sonhos
*
acendia lampião
sabia da sua força
e mesmo que tropeçasse
não levava tombos
caminhava
a soprar feridas a sonhar
seus sonhos
*
flor da pele
líria porto
a palma da minha mão parece seda da china
azar o teu não tocá-la deixá-la roçar o teu corpo
nas noites findas
*
a palma da minha mão parece seda da china
azar o teu não tocá-la deixá-la roçar o teu corpo
nas noites findas
*
terça-feira, 8 de abril de 2008
nostalgia
líria porto
ao me haver triste
sem razão determinada
fico a pensar em minh'alma
tão cheia de cicatrizes
em quantas foram as feridas
lá de longe doutras vidas
quem as fez
como sangraram
dá-me então um tal vazio
igual se as águas de um rio
em plena enchente
secassem
*
ao me haver triste
sem razão determinada
fico a pensar em minh'alma
tão cheia de cicatrizes
em quantas foram as feridas
lá de longe doutras vidas
quem as fez
como sangraram
dá-me então um tal vazio
igual se as águas de um rio
em plena enchente
secassem
*
mau-tempo
líria porto
madrugada carrancuda
não quis acender o sol
manchou o arrebol de cinza
fez cara brava ranzinza
mandou-o dormir de volta
*
madrugada carrancuda
não quis acender o sol
manchou o arrebol de cinza
fez cara brava ranzinza
mandou-o dormir de volta
*
lusco-fusco
líria porto
as madrugadas os crepúsculos
a beleza entranhada na penumbra
os filhos mestiços da noite e do dia
são lindos
*
as madrugadas os crepúsculos
a beleza entranhada na penumbra
os filhos mestiços da noite e do dia
são lindos
*
a prole
líria porto
empurradoa de mau jeito
uns brutamontes machões
grudada à nossa saia
dependentes e frágeis
:
os nossos filhos e filhas
melhor deixá-los crescer
respeitar-lhes as tendências
as vontades os talentos
(e amá-los)
*
empurradoa de mau jeito
uns brutamontes machões
grudada à nossa saia
dependentes e frágeis
:
os nossos filhos e filhas
melhor deixá-los crescer
respeitar-lhes as tendências
as vontades os talentos
(e amá-los)
*
sexta-feira, 4 de abril de 2008
quinta-feira, 3 de abril de 2008
ofensa
líria porto
jamais diga a verdade aos vaidosos
mesmo que insistam – eles preferem bajulação e lisonja
à sinceridade dos amigos
*
jamais diga a verdade aos vaidosos
mesmo que insistam – eles preferem bajulação e lisonja
à sinceridade dos amigos
*
terça-feira, 1 de abril de 2008
quarta-feira, 26 de março de 2008
sexta-feira, 21 de março de 2008
sem rumo
líria porto
lá no lugar onde vive
os seres entram em conflito
por qualquer coisa-me-dá
deixou de ler os jornais
não vê o noticiário
em busca de alguma paz
parece bicho-do-mato
acuado sem saída
em meio às balas perdidas
o corpo barco à deriva
enquanto a morte não chega
fica assim - ao deus-dará
*
lá no lugar onde vive
os seres entram em conflito
por qualquer coisa-me-dá
deixou de ler os jornais
não vê o noticiário
em busca de alguma paz
parece bicho-do-mato
acuado sem saída
em meio às balas perdidas
o corpo barco à deriva
enquanto a morte não chega
fica assim - ao deus-dará
*
carne de pescoço
líria porto
megera era bela nariz empinado
o rei na barriga
quisera vê-la velha a levar no dorso
fardos de remorso
como peso morto
*
megera era bela nariz empinado
o rei na barriga
quisera vê-la velha a levar no dorso
fardos de remorso
como peso morto
*
quinta-feira, 20 de março de 2008
madalena
líria porto
tal e qual mulher da vida
das que trocam os seus corpos por vinténs
auscultou as almas loucas desvalidas
fez-se roupa maltrapilha de ninguéns
mitigou a fome a sede dos mendigos
afogou-se em tristeza sofrimento
muitos bêbados vomitaram em seu colo
foi abrigo de leprosos de bandidos
copulou com viciados assassinos
mas não pode nem consegue
ser feliz
*
tal e qual mulher da vida
das que trocam os seus corpos por vinténs
auscultou as almas loucas desvalidas
fez-se roupa maltrapilha de ninguéns
mitigou a fome a sede dos mendigos
afogou-se em tristeza sofrimento
muitos bêbados vomitaram em seu colo
foi abrigo de leprosos de bandidos
copulou com viciados assassinos
mas não pode nem consegue
ser feliz
*
terça-feira, 18 de março de 2008
partida
líria porto
meia-noite
meia-lua
meia-idade
meia calça
meia taça
meia boca
meia sola
meia hora
meia entrada
:
metades
de noz
*
meia-noite
meia-lua
meia-idade
meia calça
meia taça
meia boca
meia sola
meia hora
meia entrada
:
metades
de noz
*
completude
líria porto
vulcões em erupção
a lava incandescente
as chamas as encostas
as grutas
depois o sono
o amor saciado
as águas serenas
a quietude
*
vulcões em erupção
a lava incandescente
as chamas as encostas
as grutas
depois o sono
o amor saciado
as águas serenas
a quietude
*
perdição
líria porto
se eu for a tua amiga
vou te dar mais do que beijo
vou te entregar a montanha
de minas terás o queijo
vou te segurar a mão
engomar tua camisa
refrescar a tua água
fazer o teu doce diet
vou te dar meu travesseiro
o meu colchão a coberta
deixar contigo meu lenço
cantar para a tua festa
mas se eu for a namorada
vais ter tanto prejuízo
perderás o teu juízo
no teu colo eu vou sentar
vou querer da tua boca
beijos beijos e mais beijos
vou deitar na tua cama
roubar o teu coração
vasculhar tuas gavetas
usar teu pente o perfume
provocar o teu ciúme
deixar-te desesperado
*
se eu for a tua amiga
vou te dar mais do que beijo
vou te entregar a montanha
de minas terás o queijo
vou te segurar a mão
engomar tua camisa
refrescar a tua água
fazer o teu doce diet
vou te dar meu travesseiro
o meu colchão a coberta
deixar contigo meu lenço
cantar para a tua festa
mas se eu for a namorada
vais ter tanto prejuízo
perderás o teu juízo
no teu colo eu vou sentar
vou querer da tua boca
beijos beijos e mais beijos
vou deitar na tua cama
roubar o teu coração
vasculhar tuas gavetas
usar teu pente o perfume
provocar o teu ciúme
deixar-te desesperado
*
contradições
líria porto
não há correntes que me prendam
muros que me cerquem
homens que me oprimam
não tenho fronteiras –– sou liberta
no entanto
enraízo-me na montanha que me soterra
um rio me inunda deixa-me submersa
e da poesia sou escrava
prisioneira
*
não há correntes que me prendam
muros que me cerquem
homens que me oprimam
não tenho fronteiras –– sou liberta
no entanto
enraízo-me na montanha que me soterra
um rio me inunda deixa-me submersa
e da poesia sou escrava
prisioneira
*
terça-feira, 11 de março de 2008
viciados
líria porto
os mesmos passos caminhos gestos atitudes
e permanecem o sarro o borrão o tremor
de sempre
e ficamos cegos
e continuamos escravos
*
os mesmos passos caminhos gestos atitudes
e permanecem o sarro o borrão o tremor
de sempre
e ficamos cegos
e continuamos escravos
*
segunda-feira, 10 de março de 2008
livre-arbítrio
líria porto
não pedi tua partida
não pedirei teu regresso
cada qual sabe de si
todos seus erros e esses
*
não pedi tua partida
não pedirei teu regresso
cada qual sabe de si
todos seus erros e esses
*
quinta-feira, 6 de março de 2008
identificação
líria porto
entre amigos não há constrangimentos
sempre se retoma o momento anterior
é uma alegria receber e enviar notícias
e nada se iguala ao prazer à felicidade
do reencontro
*
entre amigos não há constrangimentos
sempre se retoma o momento anterior
é uma alegria receber e enviar notícias
e nada se iguala ao prazer à felicidade
do reencontro
*
tiro de letra
líria porto
não quer não quer
se vier será bem-vindo
se faltar tem o direito
não nasceu grudado em mim
corpo caminha
sem lamento sem rancor
coração é porta-joias
bugiganga é noutro pouso
(a vida sem trambolho)
*
não quer não quer
se vier será bem-vindo
se faltar tem o direito
não nasceu grudado em mim
corpo caminha
sem lamento sem rancor
coração é porta-joias
bugiganga é noutro pouso
(a vida sem trambolho)
*
quarta-feira, 5 de março de 2008
é simples
líria porto
batatinha quando nasce
espalha ramas no chão
meu amor não vás embora
estou cheio de vazio
não me peças um soneto
não sei pintar aquarelas
a minha alma devaneia
andarilha pela terra
as palavras me embaraçam
eu tropeço aos pés da letra
quisera escrever bonito
dar-te o verso mais perfeito
fica
*
batatinha quando nasce
espalha ramas no chão
meu amor não vás embora
estou cheio de vazio
não me peças um soneto
não sei pintar aquarelas
a minha alma devaneia
andarilha pela terra
as palavras me embaraçam
eu tropeço aos pés da letra
quisera escrever bonito
dar-te o verso mais perfeito
fica
*
compreensão
líria porto
passa o tempo
passa a idade
nosso corpo se acomoda
o espírito no entanto
aprimora-se cria luz
rompe as barras da matéria
entende a miséria
dos homens
*
passa o tempo
passa a idade
nosso corpo se acomoda
o espírito no entanto
aprimora-se cria luz
rompe as barras da matéria
entende a miséria
dos homens
*
à moda antiga
líria porto
se eu pudesse ah se eu pudesse
como aquela ave ter um par de asas
ia para as grimpas do ipê amarelo
e jogava as flores
sobre o teu telhado
se eu soubesse ah se eu soubesse
cantar tão bonito quanto o sabiá
afiava o bico na tua janela
gorjeava alto
para te encantar
se tu quisesses ah se tu quisesses
eu faria um ninho bem no teu jardim
rezava uma prece para o azul celeste
que felicidade
viver junto a ti
*
se eu pudesse ah se eu pudesse
como aquela ave ter um par de asas
ia para as grimpas do ipê amarelo
e jogava as flores
sobre o teu telhado
se eu soubesse ah se eu soubesse
cantar tão bonito quanto o sabiá
afiava o bico na tua janela
gorjeava alto
para te encantar
se tu quisesses ah se tu quisesses
eu faria um ninho bem no teu jardim
rezava uma prece para o azul celeste
que felicidade
viver junto a ti
*
sórdidos
líria porto
como se fora um escarro um cuspe
arrastaram o corpo do pequeno anjo
deixaram rastros de sangue e martírio
na alma de pedra da metrópole
diante da barbárie da maldade explícita
diz-me eu te peço o que fazer agora
a terra tão bonita rica maravilhas
é palco de torturas
homens-feras rosnam
*
como se fora um escarro um cuspe
arrastaram o corpo do pequeno anjo
deixaram rastros de sangue e martírio
na alma de pedra da metrópole
diante da barbárie da maldade explícita
diz-me eu te peço o que fazer agora
a terra tão bonita rica maravilhas
é palco de torturas
homens-feras rosnam
*
passarinho
líria porto
no azul a liberdade
de voar como se queira
mudar de forma lugar
recortar bordas e beiras
trovejar soltar faísca
permitir-se o arco-íris
o sol as nuvens as pipas
os aviões pára-quedas
asas-deltas devaneios
mergulhos sonhos
delícias
no azul a liberdade
de voar como se queira
mudar de forma lugar
recortar bordas e beiras
trovejar soltar faísca
permitir-se o arco-íris
o sol as nuvens as pipas
os aviões pára-quedas
asas-deltas devaneios
mergulhos sonhos
delícias
(minhas penas são gaiolas)
*
*
desbandeirada
líria porto
não quero nada
nem ir para pasárgada
passei da idade
de seguir viagem
aqui – sozinha
sou rainha
*
não quero nada
nem ir para pasárgada
passei da idade
de seguir viagem
aqui – sozinha
sou rainha
*
humanização
líria porto
aquecer as pedras
colocá-las ao sol
abraçar os velhos
são eles o sol
quarar nossos versos
deixá-los ao sol
enluarar
*
aquecer as pedras
colocá-las ao sol
abraçar os velhos
são eles o sol
quarar nossos versos
deixá-los ao sol
enluarar
*
faróis
líria porto
não deixem que a luz se apague
acendam velas e velas
permitam que elas propaguem
o fogo que agora é delas
de lá de onde estiverem
perceberão o clarão
daqueles homens mulheres
que levam tochas nas mãos
*
não deixem que a luz se apague
acendam velas e velas
permitam que elas propaguem
o fogo que agora é delas
de lá de onde estiverem
perceberão o clarão
daqueles homens mulheres
que levam tochas nas mãos
*
pesquisa_dor
líria porto
pássaro no meio do mato
assim esse homem no seu habitat
deseja abarcar desvendar
entender tudo
sons letras palavras
metáforas significados
*
pássaro no meio do mato
assim esse homem no seu habitat
deseja abarcar desvendar
entender tudo
sons letras palavras
metáforas significados
*
grafite
líria porto
letras palavras versos
podem causar o avesso
daquilo que pretendíamos
(risco)
é preciso estar atento
treinar bastante a contento
conferir fim e começo
(rabisco)
acaso não dominemos
as rachaduras as frinchas
cobri-las com tinta fresca
(borrão)
*
letras palavras versos
podem causar o avesso
daquilo que pretendíamos
(risco)
é preciso estar atento
treinar bastante a contento
conferir fim e começo
(rabisco)
acaso não dominemos
as rachaduras as frinchas
cobri-las com tinta fresca
(borrão)
*
segunda-feira, 3 de março de 2008
retrato de família
líria porto
a mulher vestida de preto
com bordados de strass
o marido de terno azul claro
e sol na lapela
são pais das crianças mestiças
aurora e crepúsculo
*
a mulher vestida de preto
com bordados de strass
o marido de terno azul claro
e sol na lapela
são pais das crianças mestiças
aurora e crepúsculo
*
impassível
líria porto
viu-me grávida
com filhos ao colo
gorda
magra
nua
vestida
descalça
de saltos
chinelos
sandálias
triste
alegre
doente
saudável
apressada
(in)feliz
risonha
chorosa
exausta
grisalha
o que espera
um corredor
viu-me grávida
com filhos ao colo
gorda
magra
nua
vestida
descalça
de saltos
chinelos
sandálias
triste
alegre
doente
saudável
apressada
(in)feliz
risonha
chorosa
exausta
grisalha
o que espera
um corredor
:
ver-nos mortos?
*
ver-nos mortos?
*
sabedoria
líria porto
toda palavra
precisa ser lapidada
esmerilada polida
lavada com muita água
pra depois ser engolida
*
toda palavra
precisa ser lapidada
esmerilada polida
lavada com muita água
pra depois ser engolida
*
autômato
líria porto
sem calor nem frio
sem amar ou odiar ninguém
sem se importar com nada
ou procurar saída
está morto
vivo
*
sem calor nem frio
sem amar ou odiar ninguém
sem se importar com nada
ou procurar saída
está morto
vivo
*
a idade encolhe o son(h)o
líria porto
um azul cheio de noite
o cheiro bom da aurora
começam a encantar os galos
a despertar os cachorros
assanhar os passarinhos
ouve-se algum motor
postes apagam-se aos poucos
eu dou um pulo
da cama
*
um azul cheio de noite
o cheiro bom da aurora
começam a encantar os galos
a despertar os cachorros
assanhar os passarinhos
ouve-se algum motor
postes apagam-se aos poucos
eu dou um pulo
da cama
*
benfeitor
líria porto
igual água estagnada
imprópria para consumo
estava a lua sem alma
sem alegria e sem lume
um vento soprou a nuvem
vestiu-a com roupa rendada
linda guirlanda de flores
espalhou sua claridade
pelos campos
e colinas
*
igual água estagnada
imprópria para consumo
estava a lua sem alma
sem alegria e sem lume
um vento soprou a nuvem
vestiu-a com roupa rendada
linda guirlanda de flores
espalhou sua claridade
pelos campos
e colinas
*
horizontes
líria porto
a roupa no cabide
espera um corpo
um convite
a roupa na mala
tem outra expectativa
:
seguir viagem
a roupa no cesto está dentro
ou fora do contexto?
*
a roupa no cabide
espera um corpo
um convite
a roupa na mala
tem outra expectativa
:
seguir viagem
a roupa no cesto está dentro
ou fora do contexto?
*
roda
líria porto
tais como passos de dança
vem um verso outro e outro
e quando nos damos conta
eis a ciranda
*
tais como passos de dança
vem um verso outro e outro
e quando nos damos conta
eis a ciranda
*
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
cooper
líria porto
seguia eu sempre alerta
como manda o figurino
minh'alma qual peregrino
caminhava atrás de mim
pensei em ti passarinho
a bicares-me o umbigo
num dia frio
finquei o pé insisti
prosseguia peito aberto
na largueza da avenida
pensava na nossa vida
eu aqui tu por aí
e a saudade sem-vergonha
emparelhou-se comigo
deu vontade de chorar
perdida na turbulência
fiquei triste cabisbaixa
a matutar vida besta
eu te quero tu me queres
podia ir te buscar
não dou o braço a torcer
briga tola aquela nossa
ciúme de folha morta
coisa pouca corriqueira
e foi nesta brincadeira
que tropecei
e caí
*
seguia eu sempre alerta
como manda o figurino
minh'alma qual peregrino
caminhava atrás de mim
pensei em ti passarinho
a bicares-me o umbigo
num dia frio
finquei o pé insisti
prosseguia peito aberto
na largueza da avenida
pensava na nossa vida
eu aqui tu por aí
e a saudade sem-vergonha
emparelhou-se comigo
deu vontade de chorar
perdida na turbulência
fiquei triste cabisbaixa
a matutar vida besta
eu te quero tu me queres
podia ir te buscar
não dou o braço a torcer
briga tola aquela nossa
ciúme de folha morta
coisa pouca corriqueira
e foi nesta brincadeira
que tropecei
e caí
*
sábado, 16 de fevereiro de 2008
festejo
líria porto
no velório
estavam presentes
a viúva uma uva
alguns parentes
e mil pretendentes
muitas coroas
muita conversa
muitas saudades
muita bebida
muita paquera
*
no velório
estavam presentes
a viúva uma uva
alguns parentes
e mil pretendentes
muitas coroas
muita conversa
muitas saudades
muita bebida
muita paquera
*
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
quebra-mar
líria porto
postou-se alguém entre nós
eu percebo sua sombra
e tu não me olhas
nos olhos
*
postou-se alguém entre nós
eu percebo sua sombra
e tu não me olhas
nos olhos
*
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
no jardim dos homens
líria porto
nasce uma flor
pequena
estranha o dia o calor
chora ao primeiro contato
que mundo é esse?
aqui é o útero da terra
contaminado violento
vieste ajudar-nos
a torná-lo belo
*
nasce uma flor
pequena
estranha o dia o calor
chora ao primeiro contato
que mundo é esse?
aqui é o útero da terra
contaminado violento
vieste ajudar-nos
a torná-lo belo
*
igualdade
líria porto
dispensamos dias especiais
agradecemos e recusamos homenagens
não nos contentamos com migalhas
*
dispensamos dias especiais
agradecemos e recusamos homenagens
não nos contentamos com migalhas
*
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
drible
líria porto
aquele perrengue
foi só arrelia
ela não o queria
estava carente
então insistiu
ele a recusou
tomou como ofensa
pediu implorou
e quando ele veio
jogou-o a escanteio
não o quis
feliz de quem foge
de miss
*
aquele perrengue
foi só arrelia
ela não o queria
estava carente
então insistiu
ele a recusou
tomou como ofensa
pediu implorou
e quando ele veio
jogou-o a escanteio
não o quis
feliz de quem foge
de miss
*
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
de aluar
líria porto
a pupila do céu
a esbugalhada madrugada
a noite sem breu
:
podemos morrer
a qualquer momento
*
a pupila do céu
a esbugalhada madrugada
a noite sem breu
:
podemos morrer
a qualquer momento
*
entrelinhas
líria porto
cada fibra do corpo retesada
como a corda de um violino
iria a marte aos anéis de saturno
vestido em gás neon
um estampido um naufrágio
o arrepio que a morte traz
o vírus do amor
*
cada fibra do corpo retesada
como a corda de um violino
iria a marte aos anéis de saturno
vestido em gás neon
um estampido um naufrágio
o arrepio que a morte traz
o vírus do amor
*
cascata
liria porto
na garganta da pedra um grito
cuidado não corras tu vais tropeçar
cair desse alto sujar toda a água
*
na garganta da pedra um grito
cuidado não corras tu vais tropeçar
cair desse alto sujar toda a água
*
inferno
líria porto
acontece que a mãe
de tão ocupada
sem tempo pra nada
dez filhos pequenos
deixou a esperança
queimar na fornalha
*
acontece que a mãe
de tão ocupada
sem tempo pra nada
dez filhos pequenos
deixou a esperança
queimar na fornalha
*
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
de camisola ou pijama
líria porto
derrama o corpo na cama
igual mato se esparrama
em terra úmida
( dorme com as galinhas)
*
derrama o corpo na cama
igual mato se esparrama
em terra úmida
( dorme com as galinhas)
*
surreal
líria porto
amei palito
e o amor atrito
ruiu-me
depois foi um rei
havia uma lei
que mo proibiu
então amei peixe
ele me pediu
me deixes
e afogou o rio
amei azeitona
ele tinha dona
cantava tão bonito
ia e vinha à tona
tão verde
minha vida é isso
um feixe de lenha
*
amei palito
e o amor atrito
ruiu-me
depois foi um rei
havia uma lei
que mo proibiu
então amei peixe
ele me pediu
me deixes
e afogou o rio
amei azeitona
ele tinha dona
cantava tão bonito
ia e vinha à tona
tão verde
minha vida é isso
um feixe de lenha
*
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dedicatória
nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio
(líria porto)
*
fiamos o plenilúnio
(líria porto)
*
quem tem pena de passarinho
é passarinho
(líria porto)