segunda-feira, 21 de abril de 2008

flagrante (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto

o grilo quieto no teto
parece grilado com algum pensamento
parado no meio do pulo

não vou estragar-lhe a sesta
só mato em legítima defesa

*

fantástico

líria porto

leio deitada e o sono
leva-me ao inimaginável
sonho com mundos mágicos
seres alados
príncipes cascatas delícias
e nas ondas do absurdo
ultrapasso tudo

cubro-me com lençóis d'água

*

a implacável

líria porto

mais ágeis que os pássaros ou o vento
pensamentos transportam-nos
fabricam deuses demônios asas
só não conseguem driblar
a indigitada dos tempos

*

revisão

líria porto

seguro com firmeza as rédeas do coração
retiro-lhe as reticências – imponho um ponto final
ao amor que agoniza

*

oblíquo

líria porto

deitado na transversal
a cama fica melhor

t u d o cabe

e dos lados
triângulos

*

domingo, 20 de abril de 2008

minhas rimas

líria porto

não têm rumo
não se arrimam
não se arrumam
não se arredam
não se arriscam
não se arranjam
não se arrulham
não se arrepiam
mas se arrastam

arruinam-me

*

vergonha

líria porto

escondo a timidez barulho
arrulho embrulho entulho
encalho falho empalho
atrapalho-me

e tenho um filho azul

*
lar é uma casa
com jeito de útero
*

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) líder

líria porto

peito pra frente
bunda pra trás
e o batalhão
atrás

*

conquista

líria porto

a pele da piscina arrepia-se
com as tuas braçadas

*

a caneta

líria porto

deu o sangue
por estes versos
descartáveis

*

borralheira

líria porto

na memória o abraço
o beijo e até a carruagem
que virou abóbora

*

plenitude

líria porto

gosto de um tanto muito tão demais tão sem cabimento
tal como um gatilho a disparar intenso extenso imenso
completamente

*

cãs

líria porto

no esdrúxulo o deplorável
:
debaixo dessas madeixas
um corpo flácido

*

lazuli

líria porto

não olhou não viu
o anil do céu abril
parece o criador
fez amor e o azul
surgiu

*

anoitecer

líria porto

a noite se expande
o dia míngua

aproxima-se a viagem
ao desconhecido

*

sábado, 19 de abril de 2008

mirante

líria porto

soltei o corpo no mato
destravei o pensamento
pude voar ver as coisas
a montanha a terra o vento
as nuvens o verde as sementes
as flores as galhas tenras
e a ausência de gente
devolveu-me a paz

agradeci ao bom espírito
à mão invisível que me guiou
além da civilização

*

ultimatum

líria porto

nem mas nem meio mais
menos ainda aliás
sequer desculpas poréns
ou encerramos o caso
não sem tempo
ao acaso

outros virão
nulos somenos
sem rumo
nenhuns

chegarão apesar de ti

*

coleira apertada

líria porto

plantou vento - colheu nada
nem passatempo

no banco de trás igual vira-lata
sem ração e sem torrão
nem rosnava

*

clímax

líria porto

o amor
escorre da redoma

morte
ectoplasma

*

desatenções

líria porto

coloca água no fogo
separa e lava os feijões
os feios deixa-os de lado
os murchos os carunchados

bate os bifes amassa o alho
corta a cebola em rodelas
frita o torresmo as batatas
refoga arroz faz farofa

enquanto espera trabalha
prepara a mesa pra todos
:
não te demores seu moço
se se cansar faz tua mala

*




apagão

líria porto

não lhe deixou lembrança
fiapo cisco poeira sombra traço
risco nada

era o que havia a ser feito
pelos beijos que lhe negara
pelas grosserias proferidas
pelas noites mal dormidas
pela intensidade do bocejo

*

segunda-feira, 14 de abril de 2008

in_ver_nada

líria porto

a lua míngua neblina 
e a virgem ferve

*

demora

líria porto

olhos distraídos
fingem ler o livro
porém miram o portão
à espera da visita

*

sábado, 12 de abril de 2008

perfídia

líria porto

olhos de vidro
chocalho no rabo
língua bipartida
chega-nos de través
com muito veneno
igual cascavel

(o couro - cuidado
precisa ser grosso
imune às víboras)

*

sexta-feira, 11 de abril de 2008

os amores de lúcio

líria porto

a água treme arrepia-se
é toda ela emoção

a pedra mantém-se firme
bem agarrada à montanha

a água desce desliza
a pedra cuida ampara-a

águas maria luiza
pedras maria eduarda

*

conclusão

líria porto

tal como a corda ruiu
sem que ninguém percebesse
por desamor ou descuido
rompeu-se o elo entre eles

ficaram sem se falar
um no quarto um no sofá
até que à porta da casa
a tabuleta – aluga-se

*

o frio

líria porto

enfia agulha no poro
e quando chega no nervo
torce-o

*

debaixo do tapete

líria porto

não gostas quando me queijo
luscofusco-me tu não vês

se agente não vale transporte
então – para quê?

*

mosqueteira

líria porto

decidi ser feliz
escrevi em toda parte
eu por mim hoje e sempre

quem me quiser então venha
quem não quiser siga em frente
e nem sinta culpa

estou
mais que nunca
sob minha responsabilidade

*

retalhos

líria porto

procuro-te entre as pessoas
encontro-te ora numa ora noutra
(um sorriso um olhar um dar de ombros)
apavora-me perder tuas migalhas

*

comandante

líria porto

não crês em deus e nem eu
no entanto –– fidel –– protejam-te o céu
e as estrelas

*

utopia

líria porto

de lá e de cá
ipês jorram flores
forram a terra a serra
o tapete dos sonhos

*

vovô

líria porto

bigodes cabelos brancos
mãos postas cara inocente
posava na fotografia
como um deus brincalhão

*

adolescente

líria porto

aquele amor panfletário
bem-humorado gozoso
foi perdendo a alegria
ficando desanimado

não quero não podes não vais
fez muxoxo cena birra
e por coisas pequeninas
transformou-se em sacrifício

eu desisti desististe
arranjei um namorado
partiste não mais te vi
nunca mais tive notícia

*

papelão

líria porto

manobra suas carências
tal como deus poderoso

ela ali – em seu regaço
entrega-se de alma e corpo

toma posse toma conta
suga-lhe o caldo o sabor

e ela vira bagaço
e ele some no mundo

*

quinta-feira, 10 de abril de 2008

reprovação

líria porto

roubava o pai
perdão pai – roubo mais não
eu só quis o teu olhar
e tive

*

folie

líria porto

o sol dormia
sonhava com as estrelas

a lua cheia e grávida
chamou o sol às falas

*

compaixão

líria porto

só confio em anjos
de asas tortas

*

balanço

líria porto

quem tem rede boa
como a tua a minha
quer ir para o quarto
não para a cozinha

*

passarinhando

líria porto

ando vôo
no pensamento
nas asas do vento
sonho

do beiral da alma
ao colo do moço
coração à boca
cúmplices

*

quarta-feira, 9 de abril de 2008

desnorteio

líria porto

cabeça transtornada
ideias obtusas
falo descalabros
rabisco garatujas
qual um marujo
em primeira
viagem

*

maria bonita

líria porto

acendia lampião
sabia da sua força
e mesmo que tropeçasse
não levava tombos

caminhava
a soprar feridas a sonhar
seus sonhos

*

flor da pele

líria porto

a palma da minha mão parece seda da china
azar o teu não tocá-la deixá-la roçar o teu corpo
nas noites findas

*

travesseiro

líria porto

durmo acordo
é caso de amor antigo
de confessionário

*

terça-feira, 8 de abril de 2008

nostalgia

líria porto

ao me haver triste
sem razão determinada
fico a pensar em minh'alma
tão cheia de cicatrizes
em quantas foram as feridas
lá de longe doutras vidas
quem as fez
como sangraram

dá-me então um tal vazio
igual se as águas de um rio
em plena enchente
secassem

*

mau-tempo

líria porto

madrugada carrancuda
não quis acender o sol
manchou o arrebol de cinza
fez cara brava ranzinza
mandou-o dormir de volta

*

lusco-fusco

líria porto

as madrugadas os crepúsculos
a beleza entranhada na penumbra

os filhos mestiços da noite e do dia
são lindos

*

a prole

líria porto

empurradoa de mau jeito
uns brutamontes machões
grudada à nossa saia
dependentes e frágeis
:
os nossos filhos e filhas
melhor deixá-los crescer
respeitar-lhes as tendências
as vontades os talentos

(e amá-los)

*

sexta-feira, 4 de abril de 2008

sinuca

líria porto

quanto mais te explicas
tanto mais fico na dúvida

*

quinta-feira, 3 de abril de 2008

ofensa

líria porto

jamais diga a verdade aos vaidosos
mesmo que insistam – eles preferem bajulação e lisonja
à sinceridade dos amigos

*

terça-feira, 1 de abril de 2008

assédio

líria porto

tira a mão do meu quadril
não vou permitir que te imponhas

*

quarta-feira, 26 de março de 2008

tesouros

líria porto

seu cachorro fiel
seus homens infiéis
seu hímen complacente

*

sexta-feira, 21 de março de 2008

sem rumo

líria porto

lá no lugar onde vive
os seres entram em conflito
por qualquer coisa-me-dá

deixou de ler os jornais
não vê o noticiário
em busca de alguma paz

parece bicho-do-mato
acuado sem saída
em meio às balas perdidas

o corpo barco à deriva
enquanto a morte não chega
fica assim - ao deus-dará

*

carne de pescoço

líria porto

megera era bela nariz empinado
o rei na barriga

quisera vê-la velha a levar no dorso
fardos de remorso

como peso morto

*

quinta-feira, 20 de março de 2008

madalena

líria porto

tal e qual mulher da vida
das que trocam os seus corpos por vinténs
auscultou as almas loucas desvalidas
fez-se roupa maltrapilha de ninguéns
mitigou a fome a sede dos mendigos
afogou-se em tristeza sofrimento
muitos bêbados vomitaram em seu colo
foi abrigo de leprosos de bandidos
copulou com viciados assassinos
mas não pode nem consegue
ser feliz

*

terça-feira, 18 de março de 2008

partida

líria porto

meia-noite
meia-lua
meia-idade
meia calça
meia taça
meia boca
meia sola
meia hora
meia entrada
:
metades
de noz

*

completude

líria porto

vulcões em erupção
a lava incandescente
as chamas as encostas
as grutas

depois o sono
o amor saciado
as águas serenas

a quietude

*

perdição

líria porto

se eu for a tua amiga
vou te dar mais do que beijo
vou te entregar a montanha
de minas terás o queijo
vou te segurar a mão
engomar tua camisa
refrescar a tua água
fazer o teu doce diet
vou te dar meu travesseiro
o meu colchão a coberta
deixar contigo meu lenço
cantar para a tua festa

mas se eu for a namorada
vais ter tanto prejuízo
perderás o teu juízo
no teu colo eu vou sentar
vou querer da tua boca
beijos beijos e mais beijos
vou deitar na tua cama
roubar o teu coração
vasculhar tuas gavetas
usar teu pente o perfume
provocar o teu ciúme
deixar-te desesperado

*

contradições

líria porto

não há correntes que me prendam
muros que me cerquem
homens que me oprimam
não tenho fronteiras –– sou liberta

no entanto
enraízo-me na montanha que me soterra
um rio me inunda deixa-me submersa
e da poesia sou escrava
prisioneira

*

terça-feira, 11 de março de 2008

viciados

líria porto

os mesmos passos caminhos gestos atitudes
e permanecem o sarro o borrão o tremor
de sempre

e ficamos cegos
e continuamos escravos

*

segunda-feira, 10 de março de 2008

livre-arbítrio

líria porto

não pedi tua partida
não pedirei teu regresso

cada qual sabe de si
todos seus erros e esses

*

quinta-feira, 6 de março de 2008

cinzento

líria porto

o amor é morto
o céu poluído

perdeu-se o tom
do azul

*

identificação

líria porto

entre amigos não há constrangimentos
sempre se retoma o momento anterior
é uma alegria receber e enviar notícias
e nada se iguala ao prazer à felicidade
do reencontro

*

coragem

líria porto

deixar o sol para trás
atravessar o portal
e enfrentar a treva

*

tiro de letra

líria porto

não quer não quer
se vier será bem-vindo
se faltar tem o direito
não nasceu grudado em mim

corpo caminha
sem lamento sem rancor
coração é porta-joias
bugiganga é noutro pouso

(a vida sem trambolho)

*

quarta-feira, 5 de março de 2008

é simples

líria porto

batatinha quando nasce
espalha ramas no chão
meu amor não vás embora
estou cheio de vazio

não me peças um soneto
não sei pintar aquarelas
a minha alma devaneia
andarilha pela terra

as palavras me embaraçam
eu tropeço aos pés da letra
quisera escrever bonito
dar-te o verso mais perfeito

fica

*

compreensão

líria porto

passa o tempo
passa a idade
nosso corpo se acomoda
o espírito no entanto
aprimora-se cria luz
rompe as barras da matéria
entende a miséria
dos homens

*

à moda antiga

líria porto

se eu pudesse ah se eu pudesse
como aquela ave ter um par de asas
ia para as grimpas do ipê amarelo
e jogava as flores
                       sobre o teu telhado

se eu soubesse ah se eu soubesse
cantar tão bonito quanto o sabiá
afiava o bico na tua janela
gorjeava alto
                       para te encantar

se tu quisesses ah se tu quisesses
eu faria um ninho bem no teu jardim
rezava uma prece para o azul celeste
que felicidade
                       viver junto a ti

*

sórdidos

líria porto

como se fora um escarro um cuspe
arrastaram o corpo do pequeno anjo
deixaram rastros de sangue e martírio
na alma de pedra da metrópole

diante da barbárie da maldade explícita
diz-me eu te peço o que fazer agora
a terra tão bonita rica maravilhas
é palco de torturas

homens-feras rosnam

*

sem cabimento

líria porto

sussurra varre esbarra corre
empurra derrama derruba
urra
:
o vento

*

um e um

líria porto

apesar das rusgas
rugas peso e pesares
somos parceiros

*

passarinho

líria porto

no azul a liberdade
de voar como se queira
mudar de forma lugar
recortar bordas e beiras
trovejar soltar faísca
permitir-se o arco-íris
o sol as nuvens as pipas
os aviões pára-quedas
asas-deltas devaneios
mergulhos sonhos
delícias

(minhas penas são gaiolas)

*

desbandeirada

líria porto

não quero nada
nem ir para pasárgada

passei da idade
de seguir viagem

aqui – sozinha
sou rainha

*

humanização

líria porto

aquecer as pedras
colocá-las ao sol

abraçar os velhos
são eles o sol

quarar nossos versos
deixá-los ao sol

enluarar

*

faróis

líria porto

não deixem que a luz se apague
acendam velas e velas
permitam que elas propaguem
o fogo que agora é delas

de lá de onde estiverem
perceberão o clarão
daqueles homens mulheres
que levam tochas nas mãos

*

pesquisa_dor

líria porto

pássaro no meio do mato
assim esse homem no seu habitat

deseja abarcar desvendar
entender tudo

sons letras palavras
metáforas significados

*

grafite

líria porto

letras palavras versos
podem causar o avesso
daquilo que pretendíamos
(risco)

é preciso estar atento
treinar bastante a contento
conferir fim e começo
(rabisco)

acaso não dominemos
as rachaduras as frinchas
cobri-las com tinta fresca
(borrão)

*

segunda-feira, 3 de março de 2008

retrato de família

líria porto

a mulher vestida de preto
com bordados de strass
o marido de terno azul claro
e sol na lapela
são pais das crianças mestiças
aurora e crepúsculo

*

impassível

líria porto

viu-me grávida
com filhos ao colo
gorda
magra
nua
vestida
descalça
de saltos
chinelos
sandálias
triste
alegre
doente
saudável
apressada
(in)feliz
risonha
chorosa
exausta
grisalha

o que espera
um corredor 
:
ver-nos mortos?

*

sabedoria

líria porto

toda palavra
precisa ser lapidada
esmerilada polida
lavada com muita água
pra depois ser engolida

*

vicioso

líria porto

acordava triste sem motivo
ou sem motivo acordava
e ficava triste

*

autômato

líria porto

sem calor nem frio
sem amar ou odiar ninguém
sem se importar com nada
ou procurar saída
está morto

vivo

*

a idade encolhe o son(h)o

líria porto

um azul cheio de noite
o cheiro bom da aurora

começam a encantar os galos
a despertar os cachorros

assanhar os passarinhos
ouve-se algum motor

postes apagam-se aos poucos
eu dou um pulo
da cama

*

benfeitor

líria porto

igual água estagnada
imprópria para consumo
estava a lua sem alma
sem alegria e sem lume

um vento soprou a nuvem
vestiu-a com roupa rendada
linda guirlanda de flores
espalhou sua claridade
pelos campos
e colinas

*

horizontes

líria porto

a roupa no cabide
espera um corpo
um convite

a roupa na mala
tem outra expectativa
:
seguir viagem

a roupa no cesto está dentro
ou fora do contexto?

*

roda

líria porto

tais como passos de dança
vem um verso outro e outro
e quando nos damos conta
eis a ciranda

*

revoada

líria porto

do topo ao sopé
e de novo
ao topo

quem tem asa
não precisa
de escada

*

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

cooper

líria porto

seguia eu sempre alerta
como manda o figurino
minh'alma qual peregrino
caminhava atrás de mim
pensei em ti passarinho
a bicares-me o umbigo
num dia frio

finquei o pé insisti
prosseguia peito aberto
na largueza da avenida
pensava na nossa vida
eu aqui tu por aí
e a saudade sem-vergonha
emparelhou-se comigo

deu vontade de chorar
perdida na turbulência
fiquei triste cabisbaixa
a matutar vida besta
eu te quero tu me queres
podia ir te buscar
não dou o braço a torcer

briga tola aquela nossa
ciúme de folha morta
coisa pouca corriqueira
e foi nesta brincadeira
que tropecei
e caí

*

sábado, 16 de fevereiro de 2008

festejo

líria porto

no velório
estavam presentes
a viúva uma uva
alguns parentes
e mil pretendentes

muitas coroas
muita conversa
muitas saudades
muita bebida
muita paquera

*

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

quebra-mar

líria porto

postou-se alguém entre nós
eu percebo sua sombra
e tu não me olhas
nos olhos

*

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

no jardim dos homens

líria porto

nasce uma flor
pequena
estranha o dia o calor
chora ao primeiro contato

que mundo é esse?

aqui é o útero da terra
contaminado violento
vieste ajudar-nos
a torná-lo belo

*

igualdade

líria porto

dispensamos dias especiais
agradecemos e recusamos homenagens
não nos contentamos com migalhas

*

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

drible

líria porto

aquele perrengue
foi só arrelia
ela não o queria
estava carente
então insistiu
ele a recusou
tomou como ofensa
pediu implorou
e quando ele veio
jogou-o a escanteio
não o quis

feliz de quem foge
de miss

*

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

de aluar

líria porto

a pupila do céu
a esbugalhada madrugada
a noite sem breu
:
podemos morrer
a qualquer momento

*

entrelinhas

líria porto

cada fibra do corpo retesada
como a corda de um violino

iria a marte aos anéis de saturno
vestido em gás neon

um estampido um naufrágio
o arrepio que a morte traz

o vírus do amor

*

cascata

liria porto

na garganta da pedra um grito
cuidado não corras tu vais tropeçar
cair desse alto sujar toda a água

*

inferno

líria porto

acontece que a mãe
de tão ocupada
sem tempo pra nada
dez filhos pequenos
deixou a esperança
queimar na fornalha

*

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

de camisola ou pijama

líria porto

derrama o corpo na cama
igual mato se esparrama
em terra úmida

( dorme com as galinhas)

*

surreal

líria porto

amei palito
e o amor atrito
ruiu-me

depois foi um rei
havia uma lei
que mo proibiu

então amei peixe
ele me pediu
me deixes
e afogou o rio

amei azeitona
ele tinha dona
cantava tão bonito
ia e vinha à tona
tão verde

minha vida é isso
um feixe de lenha

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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