líria porto
a água treme arrepia-se
é toda ela emoção
a pedra mantém-se firme
bem agarrada à montanha
a água desce desliza
a pedra cuida ampara-a
águas maria luiza
pedras maria eduarda
*
sexta-feira, 11 de abril de 2008
conclusão
líria porto
tal como a corda ruiu
sem que ninguém percebesse
por desamor ou descuido
rompeu-se o elo entre eles
ficaram sem se falar
um no quarto um no sofá
até que à porta da casa
a tabuleta – aluga-se
*
tal como a corda ruiu
sem que ninguém percebesse
por desamor ou descuido
rompeu-se o elo entre eles
ficaram sem se falar
um no quarto um no sofá
até que à porta da casa
a tabuleta – aluga-se
*
debaixo do tapete
líria porto
não gostas quando me queijo
luscofusco-me tu não vês
se agente não vale transporte
então – para quê?
*
não gostas quando me queijo
luscofusco-me tu não vês
se agente não vale transporte
então – para quê?
*
mosqueteira
líria porto
decidi ser feliz
escrevi em toda parte
eu por mim hoje e sempre
quem me quiser então venha
quem não quiser siga em frente
e nem sinta culpa
estou
mais que nunca
sob minha responsabilidade
*
decidi ser feliz
escrevi em toda parte
eu por mim hoje e sempre
quem me quiser então venha
quem não quiser siga em frente
e nem sinta culpa
estou
mais que nunca
sob minha responsabilidade
*
retalhos
líria porto
procuro-te entre as pessoas
encontro-te ora numa ora noutra
(um sorriso um olhar um dar de ombros)
apavora-me perder tuas migalhas
*
procuro-te entre as pessoas
encontro-te ora numa ora noutra
(um sorriso um olhar um dar de ombros)
apavora-me perder tuas migalhas
*
comandante
líria porto
não crês em deus e nem eu
no entanto –– fidel –– protejam-te o céu
e as estrelas
*
não crês em deus e nem eu
no entanto –– fidel –– protejam-te o céu
e as estrelas
*
vovô
líria porto
bigodes cabelos brancos
mãos postas cara inocente
posava na fotografia
como um deus brincalhão
*
bigodes cabelos brancos
mãos postas cara inocente
posava na fotografia
como um deus brincalhão
*
adolescente
líria porto
aquele amor panfletário
bem-humorado gozoso
foi perdendo a alegria
ficando desanimado
não quero não podes não vais
fez muxoxo cena birra
e por coisas pequeninas
transformou-se em sacrifício
eu desisti desististe
arranjei um namorado
partiste não mais te vi
nunca mais tive notícia
*
aquele amor panfletário
bem-humorado gozoso
foi perdendo a alegria
ficando desanimado
não quero não podes não vais
fez muxoxo cena birra
e por coisas pequeninas
transformou-se em sacrifício
eu desisti desististe
arranjei um namorado
partiste não mais te vi
nunca mais tive notícia
*
papelão
líria porto
manobra suas carências
tal como deus poderoso
ela ali – em seu regaço
entrega-se de alma e corpo
toma posse toma conta
suga-lhe o caldo o sabor
e ela vira bagaço
e ele some no mundo
*
tal como deus poderoso
ela ali – em seu regaço
entrega-se de alma e corpo
toma posse toma conta
suga-lhe o caldo o sabor
e ela vira bagaço
e ele some no mundo
*
quinta-feira, 10 de abril de 2008
folie
líria porto
o sol dormia
sonhava com as estrelas
a lua cheia e grávida
chamou o sol às falas
*
o sol dormia
sonhava com as estrelas
a lua cheia e grávida
chamou o sol às falas
*
passarinhando
líria porto
ando vôo
no pensamento
nas asas do vento
sonho
do beiral da alma
ao colo do moço
coração à boca
cúmplices
*
ando vôo
no pensamento
nas asas do vento
sonho
do beiral da alma
ao colo do moço
coração à boca
cúmplices
*
quarta-feira, 9 de abril de 2008
desnorteio
líria porto
cabeça transtornada
ideias obtusas
falo descalabros
rabisco garatujas
qual um marujo
em primeira
viagem
*
cabeça transtornada
ideias obtusas
falo descalabros
rabisco garatujas
qual um marujo
em primeira
viagem
*
maria bonita
líria porto
acendia lampião
sabia da sua força
e mesmo que tropeçasse
não levava tombos
caminhava
a soprar feridas a sonhar
seus sonhos
*
acendia lampião
sabia da sua força
e mesmo que tropeçasse
não levava tombos
caminhava
a soprar feridas a sonhar
seus sonhos
*
flor da pele
líria porto
a palma da minha mão parece seda da china
azar o teu não tocá-la deixá-la roçar o teu corpo
nas noites findas
*
a palma da minha mão parece seda da china
azar o teu não tocá-la deixá-la roçar o teu corpo
nas noites findas
*
terça-feira, 8 de abril de 2008
nostalgia
líria porto
ao me haver triste
sem razão determinada
fico a pensar em minh'alma
tão cheia de cicatrizes
em quantas foram as feridas
lá de longe doutras vidas
quem as fez
como sangraram
dá-me então um tal vazio
igual se as águas de um rio
em plena enchente
secassem
*
ao me haver triste
sem razão determinada
fico a pensar em minh'alma
tão cheia de cicatrizes
em quantas foram as feridas
lá de longe doutras vidas
quem as fez
como sangraram
dá-me então um tal vazio
igual se as águas de um rio
em plena enchente
secassem
*
mau-tempo
líria porto
madrugada carrancuda
não quis acender o sol
manchou o arrebol de cinza
fez cara brava ranzinza
mandou-o dormir de volta
*
madrugada carrancuda
não quis acender o sol
manchou o arrebol de cinza
fez cara brava ranzinza
mandou-o dormir de volta
*
lusco-fusco
líria porto
as madrugadas os crepúsculos
a beleza entranhada na penumbra
os filhos mestiços da noite e do dia
são lindos
*
as madrugadas os crepúsculos
a beleza entranhada na penumbra
os filhos mestiços da noite e do dia
são lindos
*
a prole
líria porto
empurradoa de mau jeito
uns brutamontes machões
grudada à nossa saia
dependentes e frágeis
:
os nossos filhos e filhas
melhor deixá-los crescer
respeitar-lhes as tendências
as vontades os talentos
(e amá-los)
*
empurradoa de mau jeito
uns brutamontes machões
grudada à nossa saia
dependentes e frágeis
:
os nossos filhos e filhas
melhor deixá-los crescer
respeitar-lhes as tendências
as vontades os talentos
(e amá-los)
*
sexta-feira, 4 de abril de 2008
quinta-feira, 3 de abril de 2008
ofensa
líria porto
jamais diga a verdade aos vaidosos
mesmo que insistam – eles preferem bajulação e lisonja
à sinceridade dos amigos
*
jamais diga a verdade aos vaidosos
mesmo que insistam – eles preferem bajulação e lisonja
à sinceridade dos amigos
*
terça-feira, 1 de abril de 2008
quarta-feira, 26 de março de 2008
sexta-feira, 21 de março de 2008
sem rumo
líria porto
lá no lugar onde vive
os seres entram em conflito
por qualquer coisa-me-dá
deixou de ler os jornais
não vê o noticiário
em busca de alguma paz
parece bicho-do-mato
acuado sem saída
em meio às balas perdidas
o corpo barco à deriva
enquanto a morte não chega
fica assim - ao deus-dará
*
lá no lugar onde vive
os seres entram em conflito
por qualquer coisa-me-dá
deixou de ler os jornais
não vê o noticiário
em busca de alguma paz
parece bicho-do-mato
acuado sem saída
em meio às balas perdidas
o corpo barco à deriva
enquanto a morte não chega
fica assim - ao deus-dará
*
carne de pescoço
líria porto
megera era bela nariz empinado
o rei na barriga
quisera vê-la velha a levar no dorso
fardos de remorso
como peso morto
*
megera era bela nariz empinado
o rei na barriga
quisera vê-la velha a levar no dorso
fardos de remorso
como peso morto
*
quinta-feira, 20 de março de 2008
madalena
líria porto
tal e qual mulher da vida
das que trocam os seus corpos por vinténs
auscultou as almas loucas desvalidas
fez-se roupa maltrapilha de ninguéns
mitigou a fome a sede dos mendigos
afogou-se em tristeza sofrimento
muitos bêbados vomitaram em seu colo
foi abrigo de leprosos de bandidos
copulou com viciados assassinos
mas não pode nem consegue
ser feliz
*
tal e qual mulher da vida
das que trocam os seus corpos por vinténs
auscultou as almas loucas desvalidas
fez-se roupa maltrapilha de ninguéns
mitigou a fome a sede dos mendigos
afogou-se em tristeza sofrimento
muitos bêbados vomitaram em seu colo
foi abrigo de leprosos de bandidos
copulou com viciados assassinos
mas não pode nem consegue
ser feliz
*
terça-feira, 18 de março de 2008
partida
líria porto
meia-noite
meia-lua
meia-idade
meia calça
meia taça
meia boca
meia sola
meia hora
meia entrada
:
metades
de noz
*
meia-noite
meia-lua
meia-idade
meia calça
meia taça
meia boca
meia sola
meia hora
meia entrada
:
metades
de noz
*
completude
líria porto
vulcões em erupção
a lava incandescente
as chamas as encostas
as grutas
depois o sono
o amor saciado
as águas serenas
a quietude
*
vulcões em erupção
a lava incandescente
as chamas as encostas
as grutas
depois o sono
o amor saciado
as águas serenas
a quietude
*
perdição
líria porto
se eu for a tua amiga
vou te dar mais do que beijo
vou te entregar a montanha
de minas terás o queijo
vou te segurar a mão
engomar tua camisa
refrescar a tua água
fazer o teu doce diet
vou te dar meu travesseiro
o meu colchão a coberta
deixar contigo meu lenço
cantar para a tua festa
mas se eu for a namorada
vais ter tanto prejuízo
perderás o teu juízo
no teu colo eu vou sentar
vou querer da tua boca
beijos beijos e mais beijos
vou deitar na tua cama
roubar o teu coração
vasculhar tuas gavetas
usar teu pente o perfume
provocar o teu ciúme
deixar-te desesperado
*
se eu for a tua amiga
vou te dar mais do que beijo
vou te entregar a montanha
de minas terás o queijo
vou te segurar a mão
engomar tua camisa
refrescar a tua água
fazer o teu doce diet
vou te dar meu travesseiro
o meu colchão a coberta
deixar contigo meu lenço
cantar para a tua festa
mas se eu for a namorada
vais ter tanto prejuízo
perderás o teu juízo
no teu colo eu vou sentar
vou querer da tua boca
beijos beijos e mais beijos
vou deitar na tua cama
roubar o teu coração
vasculhar tuas gavetas
usar teu pente o perfume
provocar o teu ciúme
deixar-te desesperado
*
contradições
líria porto
não há correntes que me prendam
muros que me cerquem
homens que me oprimam
não tenho fronteiras –– sou liberta
no entanto
enraízo-me na montanha que me soterra
um rio me inunda deixa-me submersa
e da poesia sou escrava
prisioneira
*
não há correntes que me prendam
muros que me cerquem
homens que me oprimam
não tenho fronteiras –– sou liberta
no entanto
enraízo-me na montanha que me soterra
um rio me inunda deixa-me submersa
e da poesia sou escrava
prisioneira
*
terça-feira, 11 de março de 2008
viciados
líria porto
os mesmos passos caminhos gestos atitudes
e permanecem o sarro o borrão o tremor
de sempre
e ficamos cegos
e continuamos escravos
*
os mesmos passos caminhos gestos atitudes
e permanecem o sarro o borrão o tremor
de sempre
e ficamos cegos
e continuamos escravos
*
segunda-feira, 10 de março de 2008
livre-arbítrio
líria porto
não pedi tua partida
não pedirei teu regresso
cada qual sabe de si
todos seus erros e esses
*
não pedi tua partida
não pedirei teu regresso
cada qual sabe de si
todos seus erros e esses
*
quinta-feira, 6 de março de 2008
identificação
líria porto
entre amigos não há constrangimentos
sempre se retoma o momento anterior
é uma alegria receber e enviar notícias
e nada se iguala ao prazer à felicidade
do reencontro
*
entre amigos não há constrangimentos
sempre se retoma o momento anterior
é uma alegria receber e enviar notícias
e nada se iguala ao prazer à felicidade
do reencontro
*
tiro de letra
líria porto
não quer não quer
se vier será bem-vindo
se faltar tem o direito
não nasceu grudado em mim
corpo caminha
sem lamento sem rancor
coração é porta-joias
bugiganga é noutro pouso
(a vida sem trambolho)
*
não quer não quer
se vier será bem-vindo
se faltar tem o direito
não nasceu grudado em mim
corpo caminha
sem lamento sem rancor
coração é porta-joias
bugiganga é noutro pouso
(a vida sem trambolho)
*
quarta-feira, 5 de março de 2008
é simples
líria porto
batatinha quando nasce
espalha ramas no chão
meu amor não vás embora
estou cheio de vazio
não me peças um soneto
não sei pintar aquarelas
a minha alma devaneia
andarilha pela terra
as palavras me embaraçam
eu tropeço aos pés da letra
quisera escrever bonito
dar-te o verso mais perfeito
fica
*
batatinha quando nasce
espalha ramas no chão
meu amor não vás embora
estou cheio de vazio
não me peças um soneto
não sei pintar aquarelas
a minha alma devaneia
andarilha pela terra
as palavras me embaraçam
eu tropeço aos pés da letra
quisera escrever bonito
dar-te o verso mais perfeito
fica
*
compreensão
líria porto
passa o tempo
passa a idade
nosso corpo se acomoda
o espírito no entanto
aprimora-se cria luz
rompe as barras da matéria
entende a miséria
dos homens
*
passa o tempo
passa a idade
nosso corpo se acomoda
o espírito no entanto
aprimora-se cria luz
rompe as barras da matéria
entende a miséria
dos homens
*
à moda antiga
líria porto
se eu pudesse ah se eu pudesse
como aquela ave ter um par de asas
ia para as grimpas do ipê amarelo
e jogava as flores
sobre o teu telhado
se eu soubesse ah se eu soubesse
cantar tão bonito quanto o sabiá
afiava o bico na tua janela
gorjeava alto
para te encantar
se tu quisesses ah se tu quisesses
eu faria um ninho bem no teu jardim
rezava uma prece para o azul celeste
que felicidade
viver junto a ti
*
se eu pudesse ah se eu pudesse
como aquela ave ter um par de asas
ia para as grimpas do ipê amarelo
e jogava as flores
sobre o teu telhado
se eu soubesse ah se eu soubesse
cantar tão bonito quanto o sabiá
afiava o bico na tua janela
gorjeava alto
para te encantar
se tu quisesses ah se tu quisesses
eu faria um ninho bem no teu jardim
rezava uma prece para o azul celeste
que felicidade
viver junto a ti
*
sórdidos
líria porto
como se fora um escarro um cuspe
arrastaram o corpo do pequeno anjo
deixaram rastros de sangue e martírio
na alma de pedra da metrópole
diante da barbárie da maldade explícita
diz-me eu te peço o que fazer agora
a terra tão bonita rica maravilhas
é palco de torturas
homens-feras rosnam
*
como se fora um escarro um cuspe
arrastaram o corpo do pequeno anjo
deixaram rastros de sangue e martírio
na alma de pedra da metrópole
diante da barbárie da maldade explícita
diz-me eu te peço o que fazer agora
a terra tão bonita rica maravilhas
é palco de torturas
homens-feras rosnam
*
passarinho
líria porto
no azul a liberdade
de voar como se queira
mudar de forma lugar
recortar bordas e beiras
trovejar soltar faísca
permitir-se o arco-íris
o sol as nuvens as pipas
os aviões pára-quedas
asas-deltas devaneios
mergulhos sonhos
delícias
no azul a liberdade
de voar como se queira
mudar de forma lugar
recortar bordas e beiras
trovejar soltar faísca
permitir-se o arco-íris
o sol as nuvens as pipas
os aviões pára-quedas
asas-deltas devaneios
mergulhos sonhos
delícias
(minhas penas são gaiolas)
*
*
desbandeirada
líria porto
não quero nada
nem ir para pasárgada
passei da idade
de seguir viagem
aqui – sozinha
sou rainha
*
não quero nada
nem ir para pasárgada
passei da idade
de seguir viagem
aqui – sozinha
sou rainha
*
humanização
líria porto
aquecer as pedras
colocá-las ao sol
abraçar os velhos
são eles o sol
quarar nossos versos
deixá-los ao sol
enluarar
*
aquecer as pedras
colocá-las ao sol
abraçar os velhos
são eles o sol
quarar nossos versos
deixá-los ao sol
enluarar
*
faróis
líria porto
não deixem que a luz se apague
acendam velas e velas
permitam que elas propaguem
o fogo que agora é delas
de lá de onde estiverem
perceberão o clarão
daqueles homens mulheres
que levam tochas nas mãos
*
não deixem que a luz se apague
acendam velas e velas
permitam que elas propaguem
o fogo que agora é delas
de lá de onde estiverem
perceberão o clarão
daqueles homens mulheres
que levam tochas nas mãos
*
pesquisa_dor
líria porto
pássaro no meio do mato
assim esse homem no seu habitat
deseja abarcar desvendar
entender tudo
sons letras palavras
metáforas significados
*
pássaro no meio do mato
assim esse homem no seu habitat
deseja abarcar desvendar
entender tudo
sons letras palavras
metáforas significados
*
grafite
líria porto
letras palavras versos
podem causar o avesso
daquilo que pretendíamos
(risco)
é preciso estar atento
treinar bastante a contento
conferir fim e começo
(rabisco)
acaso não dominemos
as rachaduras as frinchas
cobri-las com tinta fresca
(borrão)
*
letras palavras versos
podem causar o avesso
daquilo que pretendíamos
(risco)
é preciso estar atento
treinar bastante a contento
conferir fim e começo
(rabisco)
acaso não dominemos
as rachaduras as frinchas
cobri-las com tinta fresca
(borrão)
*
segunda-feira, 3 de março de 2008
retrato de família
líria porto
a mulher vestida de preto
com bordados de strass
o marido de terno azul claro
e sol na lapela
são pais das crianças mestiças
aurora e crepúsculo
*
a mulher vestida de preto
com bordados de strass
o marido de terno azul claro
e sol na lapela
são pais das crianças mestiças
aurora e crepúsculo
*
impassível
líria porto
viu-me grávida
com filhos ao colo
gorda
magra
nua
vestida
descalça
de saltos
chinelos
sandálias
triste
alegre
doente
saudável
apressada
(in)feliz
risonha
chorosa
exausta
grisalha
o que espera
um corredor
viu-me grávida
com filhos ao colo
gorda
magra
nua
vestida
descalça
de saltos
chinelos
sandálias
triste
alegre
doente
saudável
apressada
(in)feliz
risonha
chorosa
exausta
grisalha
o que espera
um corredor
:
ver-nos mortos?
*
ver-nos mortos?
*
sabedoria
líria porto
toda palavra
precisa ser lapidada
esmerilada polida
lavada com muita água
pra depois ser engolida
*
toda palavra
precisa ser lapidada
esmerilada polida
lavada com muita água
pra depois ser engolida
*
autômato
líria porto
sem calor nem frio
sem amar ou odiar ninguém
sem se importar com nada
ou procurar saída
está morto
vivo
*
sem calor nem frio
sem amar ou odiar ninguém
sem se importar com nada
ou procurar saída
está morto
vivo
*
a idade encolhe o son(h)o
líria porto
um azul cheio de noite
o cheiro bom da aurora
começam a encantar os galos
a despertar os cachorros
assanhar os passarinhos
ouve-se algum motor
postes apagam-se aos poucos
eu dou um pulo
da cama
*
um azul cheio de noite
o cheiro bom da aurora
começam a encantar os galos
a despertar os cachorros
assanhar os passarinhos
ouve-se algum motor
postes apagam-se aos poucos
eu dou um pulo
da cama
*
benfeitor
líria porto
igual água estagnada
imprópria para consumo
estava a lua sem alma
sem alegria e sem lume
um vento soprou a nuvem
vestiu-a com roupa rendada
linda guirlanda de flores
espalhou sua claridade
pelos campos
e colinas
*
igual água estagnada
imprópria para consumo
estava a lua sem alma
sem alegria e sem lume
um vento soprou a nuvem
vestiu-a com roupa rendada
linda guirlanda de flores
espalhou sua claridade
pelos campos
e colinas
*
horizontes
líria porto
a roupa no cabide
espera um corpo
um convite
a roupa na mala
tem outra expectativa
:
seguir viagem
a roupa no cesto está dentro
ou fora do contexto?
*
a roupa no cabide
espera um corpo
um convite
a roupa na mala
tem outra expectativa
:
seguir viagem
a roupa no cesto está dentro
ou fora do contexto?
*
roda
líria porto
tais como passos de dança
vem um verso outro e outro
e quando nos damos conta
eis a ciranda
*
tais como passos de dança
vem um verso outro e outro
e quando nos damos conta
eis a ciranda
*
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
cooper
líria porto
seguia eu sempre alerta
como manda o figurino
minh'alma qual peregrino
caminhava atrás de mim
pensei em ti passarinho
a bicares-me o umbigo
num dia frio
finquei o pé insisti
prosseguia peito aberto
na largueza da avenida
pensava na nossa vida
eu aqui tu por aí
e a saudade sem-vergonha
emparelhou-se comigo
deu vontade de chorar
perdida na turbulência
fiquei triste cabisbaixa
a matutar vida besta
eu te quero tu me queres
podia ir te buscar
não dou o braço a torcer
briga tola aquela nossa
ciúme de folha morta
coisa pouca corriqueira
e foi nesta brincadeira
que tropecei
e caí
*
seguia eu sempre alerta
como manda o figurino
minh'alma qual peregrino
caminhava atrás de mim
pensei em ti passarinho
a bicares-me o umbigo
num dia frio
finquei o pé insisti
prosseguia peito aberto
na largueza da avenida
pensava na nossa vida
eu aqui tu por aí
e a saudade sem-vergonha
emparelhou-se comigo
deu vontade de chorar
perdida na turbulência
fiquei triste cabisbaixa
a matutar vida besta
eu te quero tu me queres
podia ir te buscar
não dou o braço a torcer
briga tola aquela nossa
ciúme de folha morta
coisa pouca corriqueira
e foi nesta brincadeira
que tropecei
e caí
*
sábado, 16 de fevereiro de 2008
festejo
líria porto
no velório
estavam presentes
a viúva uma uva
alguns parentes
e mil pretendentes
muitas coroas
muita conversa
muitas saudades
muita bebida
muita paquera
*
no velório
estavam presentes
a viúva uma uva
alguns parentes
e mil pretendentes
muitas coroas
muita conversa
muitas saudades
muita bebida
muita paquera
*
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
quebra-mar
líria porto
postou-se alguém entre nós
eu percebo sua sombra
e tu não me olhas
nos olhos
*
postou-se alguém entre nós
eu percebo sua sombra
e tu não me olhas
nos olhos
*
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
no jardim dos homens
líria porto
nasce uma flor
pequena
estranha o dia o calor
chora ao primeiro contato
que mundo é esse?
aqui é o útero da terra
contaminado violento
vieste ajudar-nos
a torná-lo belo
*
nasce uma flor
pequena
estranha o dia o calor
chora ao primeiro contato
que mundo é esse?
aqui é o útero da terra
contaminado violento
vieste ajudar-nos
a torná-lo belo
*
igualdade
líria porto
dispensamos dias especiais
agradecemos e recusamos homenagens
não nos contentamos com migalhas
*
dispensamos dias especiais
agradecemos e recusamos homenagens
não nos contentamos com migalhas
*
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
drible
líria porto
aquele perrengue
foi só arrelia
ela não o queria
estava carente
então insistiu
ele a recusou
tomou como ofensa
pediu implorou
e quando ele veio
jogou-o a escanteio
não o quis
feliz de quem foge
de miss
*
aquele perrengue
foi só arrelia
ela não o queria
estava carente
então insistiu
ele a recusou
tomou como ofensa
pediu implorou
e quando ele veio
jogou-o a escanteio
não o quis
feliz de quem foge
de miss
*
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
de aluar
líria porto
a pupila do céu
a esbugalhada madrugada
a noite sem breu
:
podemos morrer
a qualquer momento
*
a pupila do céu
a esbugalhada madrugada
a noite sem breu
:
podemos morrer
a qualquer momento
*
entrelinhas
líria porto
cada fibra do corpo retesada
como a corda de um violino
iria a marte aos anéis de saturno
vestido em gás neon
um estampido um naufrágio
o arrepio que a morte traz
o vírus do amor
*
cada fibra do corpo retesada
como a corda de um violino
iria a marte aos anéis de saturno
vestido em gás neon
um estampido um naufrágio
o arrepio que a morte traz
o vírus do amor
*
cascata
liria porto
na garganta da pedra um grito
cuidado não corras tu vais tropeçar
cair desse alto sujar toda a água
*
na garganta da pedra um grito
cuidado não corras tu vais tropeçar
cair desse alto sujar toda a água
*
inferno
líria porto
acontece que a mãe
de tão ocupada
sem tempo pra nada
dez filhos pequenos
deixou a esperança
queimar na fornalha
*
acontece que a mãe
de tão ocupada
sem tempo pra nada
dez filhos pequenos
deixou a esperança
queimar na fornalha
*
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
de camisola ou pijama
líria porto
derrama o corpo na cama
igual mato se esparrama
em terra úmida
( dorme com as galinhas)
*
derrama o corpo na cama
igual mato se esparrama
em terra úmida
( dorme com as galinhas)
*
surreal
líria porto
amei palito
e o amor atrito
ruiu-me
depois foi um rei
havia uma lei
que mo proibiu
então amei peixe
ele me pediu
me deixes
e afogou o rio
amei azeitona
ele tinha dona
cantava tão bonito
ia e vinha à tona
tão verde
minha vida é isso
um feixe de lenha
*
amei palito
e o amor atrito
ruiu-me
depois foi um rei
havia uma lei
que mo proibiu
então amei peixe
ele me pediu
me deixes
e afogou o rio
amei azeitona
ele tinha dona
cantava tão bonito
ia e vinha à tona
tão verde
minha vida é isso
um feixe de lenha
*
sábado, 26 de janeiro de 2008
maridão
líria porto
meu amor nada me nega
e faz tudo que lhe peço
ontem fomos às compras
reclamou do peso
mas trouxe todas as sacolas
e pagou as contas
*
meu amor nada me nega
e faz tudo que lhe peço
ontem fomos às compras
reclamou do peso
mas trouxe todas as sacolas
e pagou as contas
*
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
sinal de fumaça
líria porto
algumas gotas e a sede se abranda
quebra-se a secura das ausências
não precisa ser carta ou telegrama
envia-me uma letra e saberei
se ainda me amas
*
algumas gotas e a sede se abranda
quebra-se a secura das ausências
não precisa ser carta ou telegrama
envia-me uma letra e saberei
se ainda me amas
*
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
descalça
líria porto
dias meses anos
subi e desci a calçada
cresci por ali
depois fui embora
re_voltei pela rima
pobre de mim
*
dias meses anos
subi e desci a calçada
cresci por ali
depois fui embora
re_voltei pela rima
pobre de mim
*
domingo, 13 de janeiro de 2008
silêncios
líria porto
fugiu-me a poesia
(calaram-se as palavras
letras rimas
versos poemas
sons batidas
ruídos)
secou-me a tinta na ponta dos dedos
(restaram-me vãos
fossos talhos buracos
abismos)
procuro na palma da mão
a linha da vida –– quanto tempo duraria?
(não há registro)
estou morto
vivo?
*
fugiu-me a poesia
(calaram-se as palavras
letras rimas
versos poemas
sons batidas
ruídos)
secou-me a tinta na ponta dos dedos
(restaram-me vãos
fossos talhos buracos
abismos)
procuro na palma da mão
a linha da vida –– quanto tempo duraria?
(não há registro)
estou morto
vivo?
*
sábado, 12 de janeiro de 2008
riscos
líria porto
tão quanto nós desmedidos
extrapolamos extremos
expusemos nossas vidas
às tempestades aos ventos
e sem preparo sem tino
tal como malabaristas
bordeamos os perigos
os abismos as contendas
*
tão quanto nós desmedidos
extrapolamos extremos
expusemos nossas vidas
às tempestades aos ventos
e sem preparo sem tino
tal como malabaristas
bordeamos os perigos
os abismos as contendas
*
por um tris_te
líria porto
meu coração meteoro
abraço beijo eu te adoro
és tão querido eu te imploro
cuida de ser feliz
não te preocupes - prossigo
acho abrigo por aqui
*
meu coração meteoro
abraço beijo eu te adoro
és tão querido eu te imploro
cuida de ser feliz
não te preocupes - prossigo
acho abrigo por aqui
*
furto
líria porto
o que foi que houve
quem comeu meu pé de couve?
crisálida abaixa os olhos
quisera ser borboleta
*
o que foi que houve
quem comeu meu pé de couve?
crisálida abaixa os olhos
quisera ser borboleta
*
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
esnobe
líria porto
vi a lua de perfil
narizinho arrebitado
a se fingir de difícil
a desdenhar os olhares
do planeta vermelho
noite dessas
marte perde a paciência
acaba com sua pose
morde-lhe a ponta da orelha
faz-lhe proposta indecente
*
vi a lua de perfil
narizinho arrebitado
a se fingir de difícil
a desdenhar os olhares
do planeta vermelho
noite dessas
marte perde a paciência
acaba com sua pose
morde-lhe a ponta da orelha
faz-lhe proposta indecente
*
bandeamento
líria porto
precisou penar padecer
prestar contas das ausências
das vezes que não se amou
partiu sem nada
sem palavras sem cortejo
desertou-se - fugiu
de si
*
precisou penar padecer
prestar contas das ausências
das vezes que não se amou
partiu sem nada
sem palavras sem cortejo
desertou-se - fugiu
de si
*
rejeição
líria porto
ingeri as reticências
as vírgulas todos pontos
difícil foi engolir
*
ingeri as reticências
as vírgulas todos pontos
difícil foi engolir
a palavra abandono
que sequer estava escrita
porém havia
um silêncio
*
flâmulas
líria porto
no alto do mastro tremulam os fracassos
o medo da solidão os rastros do desamor
a insônia
*
no alto do mastro tremulam os fracassos
o medo da solidão os rastros do desamor
a insônia
*
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
vão
líria porto
pelas montanhas de minas
pelos vales e valas de minas
pelas minas de minas
à cata do ouro de minas
da prata de minas
dos diamantes de minas
do ferro de minas
do minério esgotado de minas
voava o (g)avião
*
pelas montanhas de minas
pelos vales e valas de minas
pelas minas de minas
à cata do ouro de minas
da prata de minas
dos diamantes de minas
do ferro de minas
do minério esgotado de minas
voava o (g)avião
*
teimosia
líria porto
noves-fora não me interessam
não estou à prova
não tenho rabo preso
não tenho pressa
não sou exata
atalhos incomodam-me
se a morte bater-me à porta
sente-se e espere-me
ou volte outra hora
forçada
nem morta
*
noves-fora não me interessam
não estou à prova
não tenho rabo preso
não tenho pressa
não sou exata
atalhos incomodam-me
se a morte bater-me à porta
sente-se e espere-me
ou volte outra hora
forçada
nem morta
*
bodum
líria porto
ranço no sovaco
arrogante
ofendia os fracos
bajulava os grandes
alma rastejante
jeito puxa-saco
catinga de inhaca
dava nojo
*
ranço no sovaco
arrogante
ofendia os fracos
bajulava os grandes
alma rastejante
jeito puxa-saco
catinga de inhaca
dava nojo
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quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
bom-humor
líria porto
os tios da minha amiga
salgado (c)amargo aze(ve)do
demarcaram minha vida
deixaram-na com algum tempero
ensinaram-me que a palavra
pode ter graça requebro
mesmo em conversa séria
assunto de parentesco
*
os tios da minha amiga
salgado (c)amargo aze(ve)do
demarcaram minha vida
deixaram-na com algum tempero
ensinaram-me que a palavra
pode ter graça requebro
mesmo em conversa séria
assunto de parentesco
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sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
para afofar a terra
líria porto
minha casa era um canteiro
e as quatro flores formosas
perfumavam o ar
o tempo passou cresceram
quiseram ser borboletas
bateram asas
sou jardineiro fiquei
se antes plantava filhos
agora semeio versos
(e cá entre nós - cultivo netos)
*
minha casa era um canteiro
e as quatro flores formosas
perfumavam o ar
o tempo passou cresceram
quiseram ser borboletas
bateram asas
sou jardineiro fiquei
se antes plantava filhos
agora semeio versos
(e cá entre nós - cultivo netos)
*
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
(peguei o sol no pulo) id
líria porto
há dias que sou assim
a sombra da minha sombra
e meus pés pisam repisam
as minhas próprias pegadas
sei curvas sei obstáculos
não sei porém desviar-me
passeio sobre meus passos
caminho nos descaminhos
erro sempre os mesmos erros
repito as mesmas palavras
sou sombra da minha sombra
a soçobrar no passado
*
há dias que sou assim
a sombra da minha sombra
e meus pés pisam repisam
as minhas próprias pegadas
sei curvas sei obstáculos
não sei porém desviar-me
passeio sobre meus passos
caminho nos descaminhos
erro sempre os mesmos erros
repito as mesmas palavras
sou sombra da minha sombra
a soçobrar no passado
*
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
evidências
líria porto
ao peito ouviu-se um estalo
o amor quebrara as asas
confundira o nome as chaves
errara casa endereço
necessita o amor de tempo
de respirar novos ares
porque amor não é hábito
é qual um bulbo de flor
ao secar o cerne o caule
carece ser replantado
parte amor vai logo embora
e realiza teus sonhos
pois de cinzas não se vive
muito menos de migalhas
um amor precisa saltos
sem culpas chagas
remorso
*
ao peito ouviu-se um estalo
o amor quebrara as asas
confundira o nome as chaves
errara casa endereço
necessita o amor de tempo
de respirar novos ares
porque amor não é hábito
é qual um bulbo de flor
ao secar o cerne o caule
carece ser replantado
parte amor vai logo embora
e realiza teus sonhos
pois de cinzas não se vive
muito menos de migalhas
um amor precisa saltos
sem culpas chagas
remorso
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dedicatória
nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio
(líria porto)
*
fiamos o plenilúnio
(líria porto)
*
quem tem pena de passarinho
é passarinho
(líria porto)