líria porto
domingo, 18 de outubro de 2020
escudos
extinto
líria porto
(peguei o sol no pulo) temporal
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
mormaço
líria porto
boas vindas
líria porto
aqui e ali
impactos
líria porto
rebelião
terça-feira, 29 de setembro de 2020
demência
líria porto
domingo, 27 de setembro de 2020
dona mocinha
líria porto
sábado, 26 de setembro de 2020
(peguei o sol no pulo) violão
tereza dentro da saia
quase rompia as costuras
tereza dentro da blusa
*
sexta-feira, 18 de setembro de 2020
chilique
líria porto
quinta-feira, 17 de setembro de 2020
a matriarca
líria porto
quase
líria porto
domingo, 13 de setembro de 2020
níveis
líria porto
margarida
líria porto
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
furtacor
líria porto
domingo, 6 de setembro de 2020
(peguei o sol no pulo) lui
líria porto
terça-feira, 1 de setembro de 2020
segunda-feira, 31 de agosto de 2020
carência
líria porto
isolados
líria porto
quinta-feira, 27 de agosto de 2020
lombada
líria porto
terça-feira, 25 de agosto de 2020
blefe
sexta-feira, 21 de agosto de 2020
ameaçador
líria porto
quarta-feira, 19 de agosto de 2020
cambalhota
porém se oblíquo da vida
ponho-me na horizontal
espero o âmago animar-se
dou novo salto (i)mortal
e confesso piamente
odeio rima
e abacate
terça-feira, 18 de agosto de 2020
domingo, 16 de agosto de 2020
periculosidade
líria porto
seu orlando
o terrível comunista
perseguido pelos militares
preso durante a ditadura
esculpia anjos e rosas de madeira
contava histórias para crianças
e deixava torneiras mal fechadas
para dar de beber aos marimbondos
*
sábado, 15 de agosto de 2020
recanto
líria porto
chegava meio fugido e saía de soslaio
quando eu o devolvia para o recinto do lar
:
eu era só seu oásis
*
quinta-feira, 13 de agosto de 2020
turbulência
líria porto
o mundo de ponta cabeça
a gente de pernas pro ar
se desistir me enfraqueço
se resistir quebro a cara
eu vou do quarto pra sala
eu volto da sala pro quarto
o corredor me espiona
parado no meio da casa
preciso ter paciência
fazer desfazer remendar
já sei – a vida tem preço
e a hora do verso
é no caos
*
quarta-feira, 12 de agosto de 2020
incompleta
líria porto
cristalinos e amígdalas
vesícula apêndice um rim
útero ovários memória
equilíbrio juízo paciência
alguns dos dentes
:
faltam-me uns pedaços
nem por isso sou vazia
*
monotonia
desgosto
líria porto
profundidade
líria porto
uns passam ao largo
não prestam atenção
olham e não veem
outros atêm-se aos detalhes
percebem as linhas
as nervuras
perguntam interessam-se
querem saber mais
*
segunda-feira, 10 de agosto de 2020
extermínio
líria porto
se eu fosse autoridade
mandasse em alguma coisa
fazia plantar quaresmeiras
ou talvez pés de ipê roxo
onde houvesse covas rasas
(ou pelo menos no entorno)
pra que ninguém se esquecesse
que num tempo em minha pátria
(2020 - ano da pandemia)
existiu um desgoverno
(da cloroquina ao ozônio)
que não assistiu seu povo
permitiu e incentivou
que houvesse morte
em massa
*
sábado, 8 de agosto de 2020
bumerangue
líria porto
eu que amei doidos e putas
brumas e tempestades
confesso que nesta vida
também eu fui bem amada
*
fura-buxo
líria porto
a morte antecipada
de uma das suas flores
revelou-lhe o que sabia
não tinha nenhum preparo
para perdas prematuras
pras ciladas do destino
metido a inverter a ordem
:
esperasse a sua vez
*
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
tom conselheiro
líria porto
segundo meu alter ego
poetas são tristes
(ou mal-humorados)
clamam da vida
do sofrimento
não riem de si
falam o menos possível
(e de preferência
mantêm silêncio)
mandei-o à merda
e agora na dúvida
(sou libriana)
:
fiz mal
ou fiz bem?
*
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
desprezíveis
vergonha
terça-feira, 4 de agosto de 2020
sexta-feira, 31 de julho de 2020
falastrão
líria porto
quem não diz a verdade
rasura tanto as palavras
e depois remenda-as
(mal e porcamente)
*
responsabilidades
pesadas medidas adequadas
funcionam como carimbo
são ferros que marcam o gado
dona dona
líria porto
engoliu a voz
guardou as palavras consigo
e pedia com os olhos
e agradecia com sorrisos
e a partir desse dia
só falou por escrito
*
(peguei o sol no pulo) empatia
quarta-feira, 22 de julho de 2020
legado
minha mãe me deixou de herança
uma asa extirpada de anjo
e uma dor nas costas
e é sem dó que me finca
a espora
terça-feira, 21 de julho de 2020
inferioridade
era um homem pequenino
com intensa preferência
por mulheres grandes
:
nem olhava o caráter
a personalidade
bastava-lhe a altura a largura
os peitos e a bunda
avantajados
(foi esmagado
pelo bico do sapato
da madame)
quinta-feira, 16 de julho de 2020
incompletude
o sonho recorrente
quase um pesadelo
o uniforme impecável
os livros a tiracolo
perceber os pés descalços
e não haver tempo hábil
sexta-feira, 10 de julho de 2020
quinta-feira, 9 de julho de 2020
parceiro
é que aqui o vento urra
e eu que adoro o vento
mais e mais o estimulo
urra vento urra muito
que estou a ficar surda
:
e aí o vento zune
(zune
e uiva)
regressão
o poeta nasce velho
demonstra sabedoria
já maduro ele adolesce
apaixona-se pela lua
passa o tempo
passa o vento
re_conhece a meninice
engatinha até as nuvens
suga as tetas da montanha
olha tudo com espanto
enrola-se no próprio
umbigo
quarta-feira, 8 de julho de 2020
moça-velha
a flor regateira
na beira da estrada
que sobe o barranco
nem pede licença
que nasce ali mesmo
na chuva
na seca
é a flor predileta
dos filhos da terra
e dos andarilhos
segunda-feira, 29 de junho de 2020
a dança
a vida fosse um tango
e mal não haveria que me conduzisses
mas viver é um bailado solo
:
eu me vire
tu te conformes
domingo, 28 de junho de 2020
bagunceiro
o vento
ô moleque malcriado
chuta a porta espalha o cisco
faz de mim gato
e sapato
aterrissagem
o tempo como uma águia
voa rápido vai tão longe
todos nós em suas garras
quando chega a nossa hora
entrega-nos a um paraquedas
que não se abre
sexta-feira, 26 de junho de 2020
carnívoro
o louva-a-deus é voraz
devora sem piedade
moscas baratas passarinhos
serpentes gafanhotos mariposas
borboletas joaninhas grilos
lagartixas
e prefere comê-los
vivos
(em nome de deus
o diabo)
registro
no fatídico ano de 2020
um tal corona vírus
–– pelo conluio e/ou omissão das autoridades constituídas ––
contaminou e matou milhões de homens e mulheres
e sepultou em covas comuns
–– sem a presença da família e dos amigos ––
suas pobres carnes
quinta-feira, 25 de junho de 2020
apartamento 903
estou numa bolha
e dentro dela
a orquídea a cebola
o fogão a panela
os livros os papéis
as notícias da morte
a cama as cobertas
a saudade dos netos
e o tempo que passa
inexorável
:
no espelho
uma velha
*
afazeres
se penso que sou minha escrava
estou muito enganada
faço o que quero
quando quero
como quero
e se não ficar do meu agrado
eu me dane
*
domingo, 21 de junho de 2020
peleja
ao nascer sobrevivi
pra viver –– muitos tropeços
e morrer ninguém garante
possa haver algum
sossego
sábado, 20 de junho de 2020
crateras
o dedo podre do chefe
seleciona auxiliares
entre os piores canalhas
com eles promove estragos
e transforma nossa pátria
num terrível cemitério
quinta-feira, 18 de junho de 2020
sonetinho pandêmico coletivo
deitar ao relento
cobertos por terra
sob o olhar da estrela
nosso sono eterno
última aventura
sequer algum plano
e na companhia
dessa gente estranha
(tal qual fosse guerra
todos condenados
à morte sumária
uma pá de cal
a terra por cima
a gente debalde)
quarta-feira, 17 de junho de 2020
dona de casa
nunca foi uma brastemp
não almejava ser máquina
nem modelo para nada
tinha medo de robôs
e desprezo por maridos
esses ladrões de energia
segunda-feira, 15 de junho de 2020
dos pesos e desmedidas
rica
bonita
talentosa
e a outra
dio santo
desamada
desprovida
) vário
é o desígnio
do adeus (
*
pedido
plantem um ipê amarelo
sobre minha cova rasa
ou deitem-me as cinzas
aos pés da sibipiruna
baixo clero
em nome de deus
a mando do diabo
a política veste farda
(brasil
velório coletivo
sepultamento em massa)
sábado, 13 de junho de 2020
sexta-feira, 12 de junho de 2020
con_finados
o acampamento
bom por uns tempos
quebra a rotina
expande nosso espírito
mas a volta aos trilhos
por mais necessária
ela acaba sendo
o teu caminhar
sobre uma navalha
:
estás por um f(r)io
quinta-feira, 11 de junho de 2020
muralhas
em nome do progresso
os homens plantam prédios
caixotes de concreto
empilham as janelas
estendem as paredes
impedem nossos olhos
de irem além
do nariz
(de pouco em pouco
um rato come
meu horizonte)
*
sexta-feira, 5 de junho de 2020
(peguei o sol no pulo) homilia
a pomba gorducha
da dona beata
armava a garrucha
do senhor vigário
que todo domingo
lá na sacristia
comia-a e louvava
a virgem maria
quarta-feira, 3 de junho de 2020
seirabeira
a flor que outra flor me trouxe
tão rubra quão seus cabelos
aquela veio em buquês - a outra
é a mãe do pedro
contraponto
sou maria vai co'as ostras
sempre à procura das pérolas
as legítimas –– tão difíceis
não as outras
feitas em laboratório
como os falsos democratas
(oportunistas golpistas)
que ora formam manadas
travestem-se de patriotas
e assinam manifestos
depois de terem apostado
no que há de pior
mais nefasto
ao futuro e ao país
(nós os conhecemos
e não é de hoje
:
golpeiam os trabalhadores
retiram-lhes os direitos
não hesitam em usá-los
- desempregá-los -
ou apertar-lhes o cinto
em nome da economia
e do mercado)
terça-feira, 2 de junho de 2020
calma
jacarés no alagado
dormem - parecem pedras
a água se move ao lado
as asas da borboleta
nuvens passam
lavam o azul
desfile
do alto da sua pose
a girafa me desdenha
não sou como aquela moça
que brilha na passarela
que passa como se fosse
a mais bonita gazela
a rainha do universo
displicência
empurra co'a barriga
depois perde a cabeça
e paga alto preço
pela preguiça
:
está sempre
em dívida
*
tanto mar
- affonso romano de santanna
- alice ruiz
- balaio porreta - moacy cirne
- cosmunicando
- doce de lira
- escritoras suicídas
- flávio corrêa de mello
- germina literatura
- josé saramago
- jura em cy bemol
- metamorfraseando
- namibiano - angola
- nina rizzi
- notas capitais
- olivrão - aroeira
- per tempus / mara faturi
- putas resolutas
- ragi moana
- rômulo romério
- saciedade dos poetas vivos - líria porto
- sede em frente ao mar
- toca da serpente - líria porto
dedicatória
fiamos o plenilúnio
(líria porto)
*
