domingo, 19 de agosto de 2012

marca

líria porto

tão linda a palavra cicatriz
pena que para obtê-la
precisemos nos ferir

*

espantos

líria porto

muitas caras
uma da infância algumas da juventude
inúmeras caras maduras e agora
a da velhice
:
todo dia a cara muda

(e cega
e surda)

*

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

trêmula

líria porto

um frio tão gelado - acendo o fogo
ele me cobre com seu corpo e me beija
com sua boca de vulcão

*

a questão

líria porto

há quem se apresente igual anjo
e não passe de filho da puta

*

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

orvalho

líria porto

diante desse mar
debaixo dessa chuva
dentro dos teus braços
sou um pingo d'água

*

monumento

líria porto

no ombro o cântaro –– na cabeça
cocô de pombo

*

abandono

líria porto

vi minha sombra
pronta para partir
puxei-a pela ponta
pedi-lhe que ficasse
ela deu de ombros
a desalmada

*

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

fogão de rabo quente

líria porto

dois paus de lenha gravetos
um pedaço de jornal ou papelão
um fósforo aceso três sopros
e fumaça e esforço

*

terça-feira, 14 de agosto de 2012

morbidez

líria porto

é que o suicida tem ideia fixa
vê o edifício surge logo um pulo
de alguma faca escorre seu sangue
pensa em gilete olha para os pulsos
nunca se esquece dos pontiagudos
daqueles objetos perfurocortantes
das armas de fogo do cianureto
dos medicamentos
de tarja preta

é que o poeta tem ideia fixa

*

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

distantes

líria porto

hoje
especialmente hoje
uma segunda-feira
sinto a tua falta

no começo
quando o amor era farto
às segundas me dizias
aqui é meu oásis

quando precisei partir
já não eras tão assíduo
e as segundas igualavam-se
aos outros dias

hoje
especialmente hoje
uma segunda-feira
sinto a vida áspera

*

condicionais

líria porto

se o estoque é escasso
se nem se faz para o gasto
se não convém ficar sem

se o orgulho o egoísmo
cavou valas e abismos
se só se pensou em si

esperar o quê
e de quem?

*

domingo, 12 de agosto de 2012

velhos tempos

líria porto

o disco de bolero
ele me abraçava
eu fechava os olhos
quando despertava
no leito desfeito
havia silêncio

e só

*

sábado, 11 de agosto de 2012

a caçula

líria porto

borboletinha amarela
voava rente na grama
tão singela simplesinha
parecia flor do campo
colhida pela manhã

*

vida moderna

líria porto

toda manhã
um comprimido para baixar a pressão
das vinte e quatro horas
que virão

*

lixo hospitalar

líria porto

o rim que me dói é o rim que não tenho
que foi decepado pela foice do erro
que não teve enterro nem reza
ou velório
:
o rim que me chora é o rim que não tenho
e eu nem sei dele

*

terça-feira, 7 de agosto de 2012

ativos e passivos

líria porto

falo seco
de arranco
coisa assim de capiau
ele é sedoso nas palavras
tem cetim na garganta
gestos de moça
:
damo-nos bem
ele faz papel de dama
eu viro macho

*

despeito

líria porto

mulherzinha sensabor
(na minha opinião)
levou ele de mim
e depois quis
devolvê-lo
:
quem ela pensa que é –– modelo
artista de telenovela?

(ninguém devolve meu homem)

*

dis_sabor

líria porto

o doce de leite na tacha de cobre
o açúcar era pouco o esforço era enorme
e o fogo queimava por dentro
                                              e por fora

desculpa seu moço –– estou tão amarga
tão triste e pequena com essa vida de pobre
que tudo o que faço tem gosto de fome
e cabo de guarda-chuva

*

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

miragem

líria porto

sumiste tu de mim e de um tal jeito
procuro-te no leito não há vestígio
parece que sonhei que existias
e eras tão somente invenção minha
desejo reprimido

*

epitáfio

líria porto

enfim de mim eu me livro
é meu último capítulo
a pá de cal

*

filmagem


líria porto

a gota trêmula no raminho do alecrim
era a chuva se mostrando e se negando
a cair

precisei paciência e mão firme

*

cristal

líria porto

gargalhada de criança – mais bonita
que o marulho a ventania ou o farfalhar
da árvore

*

domingo, 5 de agosto de 2012

formosura

líria porto

rosa desabrocha
abre as pernas para os homens

sua pele é como a pétala
tem maciez tem aroma

rosa encanta rosa trama
rosa espeta

rosa vermelha

*

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

patrimônio

líria porto

entre os morros e o casario
o vento assobia e dá voltas

faz frio – isso faz – mas a história de minas
dá lustres no brio e revela-se nas curvas
sob o som dos sinos

*

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

metáfora

líria porto

matar o mito é mutilar o motor
que move o imaginário

*

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

inevitável

líria porto

por mais que fechemos os olhos tapemos nossos ouvidos
fujamos das evidências a morte se faz presente
mais dia menos dia

*

sutileza

líria porto

não sê tão direto
põe sobre a mesa o cheque
(se possível em branco)
jamais o dinheiro
:
e não reclames

*

senões

líria porto

não sei o que fez o que fiz
só sei que abalou-me a raiz e fiquei
triste 

por um traste um alpiste
senti-me infeliz

*

terça-feira, 31 de julho de 2012

demo_lição

líria porto

as mãos
tão mais velhas que eu
os cabelos ficaram brancos
pesam-me os pés
curvam-se os meus ombros
as bordas do corpo sumiram
os olhos perderam o alcance
:
o que mais faltará
para eu me esmerar
no desmanche?

*

(peguei o sol no pulo) serventia

líria porto

bordei os monogramas dos lenços de meu pai
com os quais enxuguei as lágrimas de minha mãe
quando o velho se foi para sempre e nada levou
a não ser o seu corpo de oitenta anos

*

retorno

líria porto

voltei ao pó de onde vim
foi bom para mim - aprendi
a terra é leve

(perdi o medo)

*

só se flor

líria porto

uma estrada que me leve ao nada
uma ponte onde eu brinque de mocinha e de bandido
a bacia das almas um punhal uma navalha
um furo na barriga –– uma jangada
que naufrague nas montanhas
de minas

*

aviso

líria porto

ninguém me pise 
ninguém me prense
ninguém me acue 
ninguém me amargue
perco a alegria
seco a saliva
arrumo as malas 
não volto mais

*

segunda-feira, 30 de julho de 2012

desprevenida

líria porto

qual um fio furta-cor
vem o frio o calor
ponho roupa tiro roupa
qualquer dia a morte chega
e me veste com uma folha
de parreira

*

in_sensatez

líria porto

aurora está por aqui
o sol já chega e lá fora
a passarada barulha
dá cambalhotas com a voz
saúda a vida e a luz

nós - seres ingratos
cuspimos no prato

*

do cão

líria porto

o gato fugiu pra dentro do mato
eu mato esse gato de tanto correr
tal como ele faz com o pobre rato
um bicho menor e mais fraco

*

bandeira

líria porto

sob o azul o tapete verde
e a passarada a rabiscar no céu
versos mestiços

ordem e progresso? 
:
liberdade
ainda que à tardinha

*

ausculta

líria porto

eu ouvi a voz do vento dentro do canavial
o lamento do boia-fria

*

domínio

líria porto

passarinho lá no alto sua sombra aqui no chão
isso sim é liberdade – distanciar-se da sombra
ultrapassar a montanha

*

tropeços

líria porto

eu até erro – mas acerto tanto
da última vez foi o martelo
no dedo

*

reprodução

líria porto

ante o viço e a beleza das bezerras
os bois babam e as vacas
pastam

*

sexta-feira, 27 de julho de 2012

enxoval

líria porto

nas tramas do lençol
duzentos fios de algodão
e nós

sem hora para ir embora
a sede saciada

*

quinta-feira, 26 de julho de 2012

cândida

líria porto

quieta num canto
tímida discreta
até sua sombra
era branca
*

cadentes

líria porto

de apontar estrelas
dedos têm verrugas
e rugas são regos
a céu aberto

*

madrinhas

líria porto

fui cercada por mulheres fabulosas
na pia batismal

*

chiquê

líria porto

meu vestido de bolero lero
saia de roda alças fininhas
e laço na cintura
era mais bonito
que a roupa de domingo
das meninas ricas

*

quarta-feira, 25 de julho de 2012

conquistador

líria porto

ficou de cabeça branca
o barba-azul

mulher dá trabalho

*

chá de cadeira

líria porto

aprontei-me como devia
(água de cheiro batom roupa florida)
vesti-me de primavera e a poesia
não dançou comigo

*

terça-feira, 24 de julho de 2012

bigorna

líria porto

o tempo passa repassa-nos
e amarrota-nos

*

jamanta

líria porto

não só a pele a carne os ossos
o tempo é de chumbo e carrega-se no corpo
a tonelada das décadas

*

segunda-feira, 23 de julho de 2012

tresnoitados

líria porto

estes olhos cor de jambo
mais pesados do que chumbo
já me deixaram no limbo
passaram-me tantos tombos
:
(muitos - nem me lembro
quantos)

*

ressaca

líria porto

toda vez que bebo desse vinho varo a madrugada
fico de pileque e o tal moleque me derruba na sarjeta
da poesia

hoje eu sou ninguém

*

come come

líria porto

o tempo é a fera que engole os dias os meses os anos
as horas os minutos - cada segundo
arrota na cara dos homens 
depois os devora

um a um

*

domingo, 22 de julho de 2012

papiros

líria porto

na pele encarquilhada
que cobre o corpo dos velhos
as manchas formam arquipélagos
a vida desenha os mapas

*

sábado, 21 de julho de 2012

(peguei o sol no pulo) assinatura

líria porto

não faço poesia – faço plágio
copio da vida mínimos detalhes

*

(peguei o sol no pulo) da poesia

líria porto

qualquer vento acende a chispa
(muita alma nessa hora)

*

papada

líria porto

quando se emagrece as ancas diminuem
e as pelancas descem

*

sexta-feira, 20 de julho de 2012

estrelas

líria porto

palavras que o vento en_leva
e prega no azul do mundo
entregam-me na noite escura
di_versos versos de luz

*

fartura

líria porto

está em período fértil
achou de ajeitar-se à força
pratica pequenos furtos
:
afirma ser honesta

*

desgaste

desgaste

a vida me testa - põe-me à prova
estraga o que pode eu conserto

neste acerto de contas
leva a melhor quem tiver
paciência

*

quinta-feira, 19 de julho de 2012

meia tigela

líria porto

nem alegres nem tristes
viviam por viver

*

artesão

líria porto

panelas bonecas e flores de barro
quase como deus – falta-lhes
o sopro

*

somenos

líria porto

no corre_dor
dolorosas doloridas
as nossas dores paradas
as nossas dores de pé
as dores que caminhavam
contorciam-se aflitas
à espera do doutor
que ria e contava piadas
aos colegas do hospital

*

quarta-feira, 18 de julho de 2012

passarela

líria porto

atravessa a avenida 
o atalho de cimento e ferro
apinhado de operários 
que madrugam e trabalham
por um salário de merda

*

des_preparo

líria porto

fazer a mortalha com sacos de aniagem
(pobre diabo)

bordar nela alguns versos
(os mais ricos)

deitar num caixão de vidro
(de gelo?)

morrer de frisson
(de frio?)

*

sentimento

líria porto

o vapor embaça o espelho
escrevo versos sem me olhar nos olhos
sei que estão vermelhos
o que vejo e sinto vem
das veias

*

transparências

líria porto

há versos que escrevo no avesso da pele
a pele descama – o in_verso aparece

*

terça-feira, 17 de julho de 2012

arapuca

líria porto

nem épico nem opaco
um poema qualquer
que não me escape

*

autonomia

líria porto

ninguém manda no coração
independente de nós ele bate
ou apanha

*

aventura

líria porto

solta no ar
as asas fechadas

tomara que se abra
o paraquedas

*

conforto

líria porto

eu não vou correr da morte vou esperá-la sentada
bater um papo com ela tentar adiar a data

a morte se tiver pressa que me carregue no colo
ou venha de carruagem –– não vou cansar
minhas pernas

*

segunda-feira, 16 de julho de 2012

mamãe

líria porto

noite de sobressaltos
de bruxas de assombrações

meu travesseiro foi palco
de pesadelos e sustos

quando vieres abraça-me
permite que eu durma e sonhe

só em teu corpo eu me acalmo
só teu amor me aveluda

*

friagem

líria porto

pálpebras se fecham  
as da janela as dela
a luz da vela
a lua míngua
e a língua definha
:
trêmulas

*

desconfiança

líria porto

conquanto aurora venha
ao final da noite

e chegue tão alegre
e cheire como flor

só quer atiçar o fogo
(a demora é pouca)

*

sábado, 14 de julho de 2012

deboche

líria porto

esfrego minha humanidade em teu focinho
minha idade minha impaciência

(rio que transbordo)

*

temperamental

líria porto

fazia rosas de pedra
e se batesse um vento
uma brisa que fosse
despetalava-se - ele
o escultor

*

(peguei o sol no pulo) concreto

líria porto

nada é tão intransponível
quanto um muro imaginário

*

quarta-feira, 11 de julho de 2012

marujo

líria porto

leão marinho e mãe-d'água
vivem à beira da praia e nem pensam em mim

que raiva
*

pra quê macumba?

líria porto

eu ia fazer mandinga para gostares de mim
como afirmas que já gostas aproveito a galinha
incremento a farofa e bebemos juntos
:
a farra é nossa

*

terça-feira, 10 de julho de 2012

desejos

líria porto

roçam-nos os seios
as bordas do umbigo
descem pela nossa pelve
somem pelos pelos
entram entre nossas pernas
e nos engravidam

*

afrodites

líria porto

atrás das burcas as avós
e todas as mulheres do seu tempo
razão pela qual amei as putas
:
tão livres
quanto a minha alma

*

segunda-feira, 9 de julho de 2012

fidelidade

líria porto

se a margarida amasse o girassol
estaria perdida - ele não tem olhos
para mais ninguém

*

salamaleques

líria porto

o cara faz canalhices depois vem
com rapapés

*

domingo, 8 de julho de 2012

endereço

líria porto

aqui pela minha porta
passa uma rua torta
que se encosta numa praça
simplesinha até sem graça
onde moram uns passarinhos
:
lá pelas seis da tarde
fazem tanta algazarra
é só seguir o barulho
perguntar às maricatas
encontrarás minha casa

não tem erro

*

mãe

líria porto

abri o olho tu ali - diante de mim
um elo definitivo

*

essencial

líria porto

auroras e crepúsculos não sabem sobre nós
precisamos sol a pino escuros absolutos
pra que os medos se revelem
:
os ponteiros se juntam
e é tudo ou nada

*

sábado, 7 de julho de 2012

terreiro

líria porto

matuto matuto matuto – concluo
sou fruto do chão

*

mágoa

líria porto

peço água do poço e o moço me diz – eu não posso
esse fosso é da sogra e a cobra me põe na salmoura

*

(publicado no livro garimpo - editora lê) - bagaço

líria porto

a escrita me pega me traga me suga me mastiga
e cospe o refugo

*

sexta-feira, 6 de julho de 2012

tu_barão

líria porto

se tens que matar alguém
mata o sujeito importante
o comandante

guelra é guelra

*

limiar

líria porto

ninguém manda ninguém obedece
e tudo acontece direito
:
é respeito

*

sonho

líria porto

sono profundo – o corpo quieto
e o espírito aí pelo mundo

*

quinta-feira, 5 de julho de 2012

mula

líria porto

a cavalgadura que carrega a mala
quem tem uma jura faz-se fácil amá-la
ela pisa duro às vezes empaca
mas aceita sela seu olhar é dócil
tem o corpo forte trabalha trabalha
ajuda no negócio –– seu dono prospera
e na lua cheia ou na primavera
gosta de viola e de cantoria

*

ter_çol

líria porto

não sei se quero se devo
porém não posso evitá-lo
sou girassol e amarelo
diante de quem me cega 

*

quarta-feira, 4 de julho de 2012

de opinião

líria porto

rios
não
voltam
atrás
nem
sob
pressão

*

evaporação

líria porto

o rubor da pele
o calor do corpo
o auge da febre
o estupor
o assombro
a vida esvai-se
vai-se embora
cada dia um pouco

*

segunda-feira, 2 de julho de 2012

(para o livro sem pecado não tem salvação) criação

líria porto

a poesia se entrega
em horas inesperadas

o último metalinguístico
foi feito nas coxas

*


domingo, 1 de julho de 2012

leitura

líria porto

transtornados diante da palavra
mergulhamos no desconhecido
até perdermos o fôlego

*

queda livre

líria porto

sempre esta atração pelo abismo
pelas beiras da janela do último andar

*

isaura

líria porto

à mão que me amassa o alho
lágrimas de cebola

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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