o esmeril come o ferro
o ferro –– macho –– resiste
chega a soltar faísca
e geme
:
fica afiado o espeto
perfeito para o churrasco
a queima da carna
a brasa
a pressa do rio
vontade de (a)mar
seguir aos tropeços
livrar-se das margens
vagar noutras plagas
de sal lambuzar-se
sumir de si mesmo
deixar-se beber
naufragar
minha cabana de taipa
não tem tranca não ter cerca
tão somente a vira-lata
(ótima companhia)
e eu
a mansão do magnata
tem muralha tem guarita
câmeras de segurança
quatro pitbuls
dois buldogues
carros blindados
motoristas
guarda armado até os dentes
e gente trêmula
o corpo –– qual gaiola –– trancafia
toda a nossa dor e sofrimento
só o pensamento voa livre
e não há polícia nem juízes
que o condenem ao cárcere
ao exílio
:
nosso pensamento é quem governa
nosso pensamento é quem preside
enfrento o medo olho-o no fundo do olho até lhe faço careta : chego a tremer a sentir as pernas bambas mas fico firme não deixo que me domine que me esmague a cabeça
pois que dona lagartixa
fica da cor do ambiente
é verde quando convém
(por enquanto tece a rede)
porém se alia a golpista
faz discurso oportunista
e tenta enganar as gentes
:
quem cai na teia é mosquito
ou turista na política
não sou cobaia
meu bem
uma e outras vezes
na busca do acerto
cometi muitos erros
virei-me do avesso
e esse jeito arcaico
quase imperdoável
de quebrar a cara
levou-me ao buraco
pra catar os cacos
fazer um mosaico
das experiências
terceira idade
melhor idade
e nem bobagens
desse calibre
:
velhice mesmo
nenhum disfarce
e nem neblina
para o meu tempo
de liberdade
de ir comigo
para a fronteira
e de mãos dadas
com a bengala
da própria vida
já se escreveu sobre tudo
sobre nada
em prosa verso canção
então por que não desisto
insisto em buscar a palavra
que me leve às galáxias
à implosão do infinito
ao auto-extermínio?