segunda-feira, 14 de abril de 2008

in_ver_nada

líria porto

a lua míngua neblina 
e a virgem ferve

*

demora

líria porto

olhos distraídos
fingem ler o livro
porém miram o portão
à espera da visita

*

sábado, 12 de abril de 2008

perfídia

líria porto

olhos de vidro
chocalho no rabo
língua bipartida
chega-nos de través
com muito veneno
igual cascavel

(o couro - cuidado
precisa ser grosso
imune às víboras)

*

sexta-feira, 11 de abril de 2008

os amores de lúcio

líria porto

a água treme arrepia-se
é toda ela emoção

a pedra mantém-se firme
bem agarrada à montanha

a água desce desliza
a pedra cuida ampara-a

águas maria luiza
pedras maria eduarda

*

conclusão

líria porto

tal como a corda ruiu
sem que ninguém percebesse
por desamor ou descuido
rompeu-se o elo entre eles

ficaram sem se falar
um no quarto um no sofá
até que à porta da casa
a tabuleta – aluga-se

*

o frio

líria porto

enfia agulha no poro
e quando chega no nervo
torce-o

*

debaixo do tapete

líria porto

não gostas quando me queijo
luscofusco-me tu não vês

se agente não vale transporte
então – para quê?

*

mosqueteira

líria porto

decidi ser feliz
escrevi em toda parte
eu por mim hoje e sempre

quem me quiser então venha
quem não quiser siga em frente
e nem sinta culpa

estou
mais que nunca
sob minha responsabilidade

*

retalhos

líria porto

procuro-te entre as pessoas
encontro-te ora numa ora noutra
(um sorriso um olhar um dar de ombros)
apavora-me perder tuas migalhas

*

comandante

líria porto

não crês em deus e nem eu
no entanto –– fidel –– protejam-te o céu
e as estrelas

*

utopia

líria porto

de lá e de cá
ipês jorram flores
forram a terra a serra
o tapete dos sonhos

*

vovô

líria porto

bigodes cabelos brancos
mãos postas cara inocente
posava na fotografia
como um deus brincalhão

*

adolescente

líria porto

aquele amor panfletário
bem-humorado gozoso
foi perdendo a alegria
ficando desanimado

não quero não podes não vais
fez muxoxo cena birra
e por coisas pequeninas
transformou-se em sacrifício

eu desisti desististe
arranjei um namorado
partiste não mais te vi
nunca mais tive notícia

*

papelão

líria porto

manobra suas carências
tal como deus poderoso

ela ali – em seu regaço
entrega-se de alma e corpo

toma posse toma conta
suga-lhe o caldo o sabor

e ela vira bagaço
e ele some no mundo

*

quinta-feira, 10 de abril de 2008

reprovação

líria porto

roubava o pai
perdão pai – roubo mais não
eu só quis o teu olhar
e tive

*

folie

líria porto

o sol dormia
sonhava com as estrelas

a lua cheia e grávida
chamou o sol às falas

*

compaixão

líria porto

só confio em anjos
de asas tortas

*

balanço

líria porto

quem tem rede boa
como a tua a minha
quer ir para o quarto
não para a cozinha

*

passarinhando

líria porto

ando vôo
no pensamento
nas asas do vento
sonho

do beiral da alma
ao colo do moço
coração à boca
cúmplices

*

quarta-feira, 9 de abril de 2008

desnorteio

líria porto

cabeça transtornada
ideias obtusas
falo descalabros
rabisco garatujas
qual um marujo
em primeira
viagem

*

maria bonita

líria porto

acendia lampião
sabia da sua força
e mesmo que tropeçasse
não levava tombos

caminhava
a soprar feridas a sonhar
seus sonhos

*

flor da pele

líria porto

a palma da minha mão parece seda da china
azar o teu não tocá-la deixá-la roçar o teu corpo
nas noites findas

*

travesseiro

líria porto

durmo acordo
é caso de amor antigo
de confessionário

*

terça-feira, 8 de abril de 2008

nostalgia

líria porto

ao me haver triste
sem razão determinada
fico a pensar em minh'alma
tão cheia de cicatrizes
em quantas foram as feridas
lá de longe doutras vidas
quem as fez
como sangraram

dá-me então um tal vazio
igual se as águas de um rio
em plena enchente
secassem

*

mau-tempo

líria porto

madrugada carrancuda
não quis acender o sol
manchou o arrebol de cinza
fez cara brava ranzinza
mandou-o dormir de volta

*

lusco-fusco

líria porto

as madrugadas os crepúsculos
a beleza entranhada na penumbra

os filhos mestiços da noite e do dia
são lindos

*

a prole

líria porto

empurradoa de mau jeito
uns brutamontes machões
grudada à nossa saia
dependentes e frágeis
:
os nossos filhos e filhas
melhor deixá-los crescer
respeitar-lhes as tendências
as vontades os talentos

(e amá-los)

*

sexta-feira, 4 de abril de 2008

sinuca

líria porto

quanto mais te explicas
tanto mais fico na dúvida

*

quinta-feira, 3 de abril de 2008

ofensa

líria porto

jamais diga a verdade aos vaidosos
mesmo que insistam – eles preferem bajulação e lisonja
à sinceridade dos amigos

*

terça-feira, 1 de abril de 2008

assédio

líria porto

tira a mão do meu quadril
não vou permitir que te imponhas

*

quarta-feira, 26 de março de 2008

tesouros

líria porto

seu cachorro fiel
seus homens infiéis
seu hímen complacente

*

sexta-feira, 21 de março de 2008

sem rumo

líria porto

lá no lugar onde vive
os seres entram em conflito
por qualquer coisa-me-dá

deixou de ler os jornais
não vê o noticiário
em busca de alguma paz

parece bicho-do-mato
acuado sem saída
em meio às balas perdidas

o corpo barco à deriva
enquanto a morte não chega
fica assim - ao deus-dará

*

carne de pescoço

líria porto

megera era bela nariz empinado
o rei na barriga

quisera vê-la velha a levar no dorso
fardos de remorso

como peso morto

*

quinta-feira, 20 de março de 2008

madalena

líria porto

tal e qual mulher da vida
das que trocam os seus corpos por vinténs
auscultou as almas loucas desvalidas
fez-se roupa maltrapilha de ninguéns
mitigou a fome a sede dos mendigos
afogou-se em tristeza sofrimento
muitos bêbados vomitaram em seu colo
foi abrigo de leprosos de bandidos
copulou com viciados assassinos
mas não pode nem consegue
ser feliz

*

terça-feira, 18 de março de 2008

partida

líria porto

meia-noite
meia-lua
meia-idade
meia calça
meia taça
meia boca
meia sola
meia hora
meia entrada
:
metades
de noz

*

completude

líria porto

vulcões em erupção
a lava incandescente
as chamas as encostas
as grutas

depois o sono
o amor saciado
as águas serenas

a quietude

*

perdição

líria porto

se eu for a tua amiga
vou te dar mais do que beijo
vou te entregar a montanha
de minas terás o queijo
vou te segurar a mão
engomar tua camisa
refrescar a tua água
fazer o teu doce diet
vou te dar meu travesseiro
o meu colchão a coberta
deixar contigo meu lenço
cantar para a tua festa

mas se eu for a namorada
vais ter tanto prejuízo
perderás o teu juízo
no teu colo eu vou sentar
vou querer da tua boca
beijos beijos e mais beijos
vou deitar na tua cama
roubar o teu coração
vasculhar tuas gavetas
usar teu pente o perfume
provocar o teu ciúme
deixar-te desesperado

*

contradições

líria porto

não há correntes que me prendam
muros que me cerquem
homens que me oprimam
não tenho fronteiras –– sou liberta

no entanto
enraízo-me na montanha que me soterra
um rio me inunda deixa-me submersa
e da poesia sou escrava
prisioneira

*

terça-feira, 11 de março de 2008

viciados

líria porto

os mesmos passos caminhos gestos atitudes
e permanecem o sarro o borrão o tremor
de sempre

e ficamos cegos
e continuamos escravos

*

segunda-feira, 10 de março de 2008

livre-arbítrio

líria porto

não pedi tua partida
não pedirei teu regresso

cada qual sabe de si
todos seus erros e esses

*

quinta-feira, 6 de março de 2008

cinzento

líria porto

o amor é morto
o céu poluído

perdeu-se o tom
do azul

*

identificação

líria porto

entre amigos não há constrangimentos
sempre se retoma o momento anterior
é uma alegria receber e enviar notícias
e nada se iguala ao prazer à felicidade
do reencontro

*

coragem

líria porto

deixar o sol para trás
atravessar o portal
e enfrentar a treva

*

tiro de letra

líria porto

não quer não quer
se vier será bem-vindo
se faltar tem o direito
não nasceu grudado em mim

corpo caminha
sem lamento sem rancor
coração é porta-joias
bugiganga é noutro pouso

(a vida sem trambolho)

*

quarta-feira, 5 de março de 2008

é simples

líria porto

batatinha quando nasce
espalha ramas no chão
meu amor não vás embora
estou cheio de vazio

não me peças um soneto
não sei pintar aquarelas
a minha alma devaneia
andarilha pela terra

as palavras me embaraçam
eu tropeço aos pés da letra
quisera escrever bonito
dar-te o verso mais perfeito

fica

*

compreensão

líria porto

passa o tempo
passa a idade
nosso corpo se acomoda
o espírito no entanto
aprimora-se cria luz
rompe as barras da matéria
entende a miséria
dos homens

*

à moda antiga

líria porto

se eu pudesse ah se eu pudesse
como aquela ave ter um par de asas
ia para as grimpas do ipê amarelo
e jogava as flores
                       sobre o teu telhado

se eu soubesse ah se eu soubesse
cantar tão bonito quanto o sabiá
afiava o bico na tua janela
gorjeava alto
                       para te encantar

se tu quisesses ah se tu quisesses
eu faria um ninho bem no teu jardim
rezava uma prece para o azul celeste
que felicidade
                       viver junto a ti

*

sórdidos

líria porto

como se fora um escarro um cuspe
arrastaram o corpo do pequeno anjo
deixaram rastros de sangue e martírio
na alma de pedra da metrópole

diante da barbárie da maldade explícita
diz-me eu te peço o que fazer agora
a terra tão bonita rica maravilhas
é palco de torturas

homens-feras rosnam

*

sem cabimento

líria porto

sussurra varre esbarra corre
empurra derrama derruba
urra
:
o vento

*

um e um

líria porto

apesar das rusgas
rugas peso e pesares
somos parceiros

*

passarinho

líria porto

no azul a liberdade
de voar como se queira
mudar de forma lugar
recortar bordas e beiras
trovejar soltar faísca
permitir-se o arco-íris
o sol as nuvens as pipas
os aviões pára-quedas
asas-deltas devaneios
mergulhos sonhos
delícias

(minhas penas são gaiolas)

*

desbandeirada

líria porto

não quero nada
nem ir para pasárgada

passei da idade
de seguir viagem

aqui – sozinha
sou rainha

*

humanização

líria porto

aquecer as pedras
colocá-las ao sol

abraçar os velhos
são eles o sol

quarar nossos versos
deixá-los ao sol

enluarar

*

faróis

líria porto

não deixem que a luz se apague
acendam velas e velas
permitam que elas propaguem
o fogo que agora é delas

de lá de onde estiverem
perceberão o clarão
daqueles homens mulheres
que levam tochas nas mãos

*

pesquisa_dor

líria porto

pássaro no meio do mato
assim esse homem no seu habitat

deseja abarcar desvendar
entender tudo

sons letras palavras
metáforas significados

*

grafite

líria porto

letras palavras versos
podem causar o avesso
daquilo que pretendíamos

(risco)

é preciso estar atento
treinar bastante a contento
conferir fim e começo

(rabisco)

acaso não dominemos
as rachaduras as frinchas
cobri-las com tinta fresca

(borrão)

*

segunda-feira, 3 de março de 2008

retrato de família

líria porto

a mulher vestida de preto
com bordados de strass
o marido de terno azul claro
e sol na lapela
são pais das crianças mestiças
aurora e crepúsculo

*

impassível

líria porto

viu-me grávida
com filhos ao colo
gorda
magra
nua
vestida
descalça
de saltos
chinelos
sandálias
triste
alegre
doente
saudável
apressada
(in)feliz
risonha
chorosa
exausta
grisalha

o que espera
um corredor 
ver-nos
mortos?

*

sabedoria

líria porto

toda palavra
precisa ser lapidada
esmerilada polida
lavada com muita água
pra depois ser engolida

*

vicioso

líria porto

acordava triste sem motivo
ou sem motivo acordava
e ficava triste

*

autômato

líria porto

sem calor nem frio
sem amar ou odiar ninguém
sem se importar com nada
ou procurar saída
está morto

vivo

*

a idade encolhe o son(h)o

líria porto

um azul cheio de noite
o cheiro bom da aurora

começam a encantar os galos
a despertar os cachorros

assanhar os passarinhos
ouve-se algum motor

postes apagam-se aos poucos
eu dou um pulo
da cama

*

benfeitor

líria porto

igual água estagnada
imprópria para consumo
estava a lua sem alma
sem alegria e sem lume

um vento soprou a nuvem
vestiu-a com roupa rendada
linda guirlanda de flores
espalhou sua claridade
pelos campos
e colinas

*

horizontes

líria porto

a roupa no cabide
espera um corpo
um convite

a roupa na mala
tem outra expectativa
:
seguir viagem

a roupa no cesto está dentro
ou fora do contexto?

*

roda

líria porto

tais como passos de dança
vem um verso outro e outro
e quando nos damos conta
eis a ciranda

*

revoada

líria porto

do topo ao sopé
e de novo
ao topo

quem tem asa
não precisa
de escada

*

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

cooper

líria porto

seguia eu sempre alerta
como manda o figurino
minh'alma qual peregrino
caminhava atrás de mim
pensei em ti passarinho
a bicares-me o umbigo
num dia frio

finquei o pé insisti
prosseguia peito aberto
na largueza da avenida
pensava na nossa vida
eu aqui tu por aí
e a saudade sem-vergonha
emparelhou-se comigo

deu vontade de chorar
perdida na turbulência
fiquei triste cabisbaixa
a matutar vida besta
eu te quero tu me queres
podia ir te buscar
não dou o braço a torcer

briga tola aquela nossa
ciúme de folha morta
coisa pouca corriqueira
e foi nesta brincadeira
que tropecei
e caí

*

sábado, 16 de fevereiro de 2008

festejo

líria porto

no velório
estavam presentes
a viúva uma uva
alguns parentes
e mil pretendentes

muitas coroas
muita conversa
muitas saudades
muita bebida
muita paquera

*

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

quebra-mar

líria porto

postou-se alguém entre nós
eu percebo sua sombra
e tu não me olhas
nos olhos

*

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

no jardim dos homens

líria porto

nasce uma flor
pequena
estranha o dia o calor
chora ao primeiro contato

que mundo é esse?

aqui é o útero da terra
contaminado violento
vieste ajudar-nos
a torná-lo belo

*

igualdade

líria porto

dispensamos dias especiais
agradecemos e recusamos homenagens
não nos contentamos com migalhas

*

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

drible

líria porto

aquele perrengue
foi só arrelia
ela não o queria
estava carente
então insistiu
ele a recusou
tomou como ofensa
pediu implorou
e quando ele veio
jogou-o a escanteio
não o quis

feliz de quem foge
de miss

*

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

de aluar

líria porto

a pupila do céu
a esbugalhada madrugada
a noite sem breu
:
podemos morrer
a qualquer momento

*

entrelinhas

líria porto

cada fibra do corpo retesada
como a corda de um violino

iria a marte aos anéis de saturno
vestido em gás neon

um estampido um naufrágio
o arrepio que a morte traz

o vírus do amor

*

cascata

liria porto

na garganta da pedra um grito
cuidado não corras tu vais tropeçar
cair desse alto sujar toda a água

*

inferno

líria porto

acontece que a mãe
de tão ocupada
sem tempo pra nada
dez filhos pequenos
deixou a esperança
queimar na fornalha

*

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

de camisola ou pijama

líria porto

derrama o corpo na cama
igual mato se esparrama
em terra úmida

( dorme com as galinhas)

*

surreal

líria porto

amei palito
e o amor atrito
ruiu-me

depois foi um rei
havia uma lei
que mo proibiu

então amei peixe
ele me pediu
me deixes
e afogou o rio

amei azeitona
ele tinha dona
cantava tão bonito
ia e vinha à tona
tão verde

minha vida é isso
um feixe de lenha

*

sábado, 26 de janeiro de 2008

maridão

líria porto

meu amor nada me nega
e faz tudo que lhe peço

ontem fomos às compras

reclamou do peso
mas trouxe todas as sacolas
e pagou as contas

*

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

sinal de fumaça

líria porto

algumas gotas e a sede se abranda
quebra-se a secura das ausências
não precisa ser carta ou telegrama
envia-me uma letra e saberei
se ainda me amas

*

amor

líria porto

há de ser muito
quanto mais melhor
nunca é demais
ao menos

*

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

descalça

líria porto

dias meses anos
subi e desci a calçada
cresci por ali

depois fui embora
re_voltei pela rima
pobre de mim

*

domingo, 13 de janeiro de 2008

silêncios

líria porto

fugiu-me a poesia

(calaram-se as palavras
letras rimas
versos poemas
sons batidas
ruídos)

secou-me a tinta na ponta dos dedos

(restaram-me vãos
fossos talhos buracos
abismos)

procuro na palma da mão
a linha da vida  quanto tempo duraria?

(não há registro)

estou morto
vivo?

*

sábado, 12 de janeiro de 2008

riscos

líria porto

tão quanto nós desmedidos
extrapolamos extremos

expusemos nossas vidas
às tempestades aos ventos

e sem preparo sem tino
tal como malabaristas

bordeamos os perigos
os abismos as contendas

*

das relações

líria porto

exclamações interrogações reticências
que tal um ponto final?

*
esquecermo-nos de nós mesmos
é crime de lesa-pátria
*

por um tris_te

líria porto

meu coração meteoro
abraço beijo eu te adoro
és tão querido eu te imploro
cuida de ser feliz

não te preocupes - prossigo
acho abrigo por aqui

*

furto

líria porto

o que foi que houve
quem comeu meu pé de couve?

crisálida abaixa os olhos
quisera ser borboleta

*

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

esnobe

líria porto

vi a lua de perfil
narizinho arrebitado
a se fingir de difícil
a desdenhar os olhares
do planeta vermelho

noite dessas
marte perde a paciência
acaba com sua pose
morde-lhe a ponta da orelha
faz-lhe proposta indecente

*

bandeamento

líria porto

precisou penar padecer
prestar contas das ausências
das vezes que não se amou

partiu sem nada
sem palavras sem cortejo

desertou-se - fugiu
de si

*

rejeição

líria porto

ingeri as reticências
as vírgulas todos pontos
difícil foi engolir 
a palavra abandono
que sequer estava escrita
porém havia 
           um silêncio

*

flâmulas

líria porto

no alto do mastro tremulam os fracassos
o medo da solidão os rastros do desamor
a insônia

*

ecologia

líria porto

atrair o peixe
         sem trair o mar

*

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

vão

líria porto

pelas montanhas de minas
pelos vales e valas de minas
pelas minas de minas
à cata do ouro de minas
da prata de minas
dos diamantes de minas
do ferro de minas
do minério esgotado de minas
voava o (g)avião

*

teimosia

líria porto

noves-fora não me interessam
não estou à prova

não tenho rabo preso
não tenho pressa
não sou exata
atalhos incomodam-me

se a morte bater-me à porta
sente-se e espere-me
ou volte outra hora

forçada
nem morta

*

natureza

líria porto

quando o ipê floriu
só pude dizer
puta que o pariu
filho da mãe

*

bodum

líria porto

ranço no sovaco
arrogante
ofendia os fracos
bajulava os grandes

alma rastejante
jeito puxa-saco
catinga de inhaca
dava nojo

*

blecaute

líria porto

a solidão da lua
perdida entre vidrilhos

*

cacos

líria porto

as asas
cedilhas
pendurei-as
no cabide

foi-se sonho
martelo-me

(tudo ali belo)

*

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

bom-humor

líria porto

os tios da minha amiga
salgado (c)amargo aze(ve)do
demarcaram minha vida
deixaram-na com algum tempero
ensinaram-me que a palavra
pode ter graça requebro
mesmo em conversa séria
assunto de parentesco

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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