segunda-feira, 3 de março de 2008

a idade encolhe o son(h)o

líria porto

um azul cheio de noite
o cheiro bom da aurora

começam a encantar os galos
a despertar os cachorros

assanhar os passarinhos
ouve-se algum motor

postes apagam-se aos poucos
eu dou um pulo
da cama

*

benfeitor

líria porto

igual água estagnada
imprópria para consumo
estava a lua sem alma
sem alegria e sem lume

um vento soprou a nuvem
vestiu-a com roupa rendada
linda guirlanda de flores
espalhou sua claridade
pelos campos
e colinas

*

horizontes

líria porto

a roupa no cabide
espera um corpo
um convite

a roupa na mala
tem outra expectativa
:
seguir viagem

a roupa no cesto está dentro
ou fora do contexto?

*

roda

líria porto

tais como passos de dança
vem um verso outro e outro
e quando nos damos conta
eis a ciranda

*

revoada

líria porto

do topo ao sopé
e de novo
ao topo

quem tem asa
não precisa
de escada

*

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

cooper

líria porto

seguia eu sempre alerta
como manda o figurino
minh'alma qual peregrino
caminhava atrás de mim
pensei em ti passarinho
a bicares-me o umbigo
num dia frio

finquei o pé insisti
prosseguia peito aberto
na largueza da avenida
pensava na nossa vida
eu aqui tu por aí
e a saudade sem-vergonha
emparelhou-se comigo

deu vontade de chorar
perdida na turbulência
fiquei triste cabisbaixa
a matutar vida besta
eu te quero tu me queres
podia ir te buscar
não dou o braço a torcer

briga tola aquela nossa
ciúme de folha morta
coisa pouca corriqueira
e foi nesta brincadeira
que tropecei
e caí

*

sábado, 16 de fevereiro de 2008

festejo

líria porto

no velório
estavam presentes
a viúva uma uva
alguns parentes
e mil pretendentes

muitas coroas
muita conversa
muitas saudades
muita bebida
muita paquera

*

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

quebra-mar

líria porto

postou-se alguém entre nós
eu percebo sua sombra
e tu não me olhas
nos olhos

*

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

no jardim dos homens

líria porto

nasce uma flor
pequena
estranha o dia o calor
chora ao primeiro contato

que mundo é esse?

aqui é o útero da terra
contaminado violento
vieste ajudar-nos
a torná-lo belo

*

igualdade

líria porto

dispensamos dias especiais
agradecemos e recusamos homenagens
não nos contentamos com migalhas

*

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

drible

líria porto

aquele perrengue
foi só arrelia
ela não o queria
estava carente
então insistiu
ele a recusou
tomou como ofensa
pediu implorou
e quando ele veio
jogou-o a escanteio
não o quis

feliz de quem foge
de miss

*

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

de aluar

líria porto

a pupila do céu
a esbugalhada madrugada
a noite sem breu
:
podemos morrer
a qualquer momento

*

entrelinhas

líria porto

cada fibra do corpo retesada
como a corda de um violino

iria a marte aos anéis de saturno
vestido em gás neon

um estampido um naufrágio
o arrepio que a morte traz

o vírus do amor

*

cascata

liria porto

na garganta da pedra um grito
cuidado não corras tu vais tropeçar
cair desse alto sujar toda a água

*

inferno

líria porto

acontece que a mãe
de tão ocupada
sem tempo pra nada
dez filhos pequenos
deixou a esperança
queimar na fornalha

*

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

de camisola ou pijama

líria porto

derrama o corpo na cama
igual mato se esparrama
em terra úmida

( dorme com as galinhas)

*

surreal

líria porto

amei palito
e o amor atrito
ruiu-me

depois foi um rei
havia uma lei
que mo proibiu

então amei peixe
ele me pediu
me deixes
e afogou o rio

amei azeitona
ele tinha dona
cantava tão bonito
ia e vinha à tona
tão verde

minha vida é isso
um feixe de lenha

*

sábado, 26 de janeiro de 2008

maridão

líria porto

meu amor nada me nega
e faz tudo que lhe peço

ontem fomos às compras

reclamou do peso
mas trouxe todas as sacolas
e pagou as contas

*

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

sinal de fumaça

líria porto

algumas gotas e a sede se abranda
quebra-se a secura das ausências
não precisa ser carta ou telegrama
envia-me uma letra e saberei
se ainda me amas

*

amor

líria porto

há de ser muito
quanto mais melhor
nunca é demais
ao menos

*

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

descalça

líria porto

dias meses anos
subi e desci a calçada
cresci por ali

depois fui embora
re_voltei pela rima
pobre de mim

*

domingo, 13 de janeiro de 2008

silêncios

líria porto

fugiu-me a poesia

(calaram-se as palavras
letras rimas
versos poemas
sons batidas
ruídos)

secou-me a tinta na ponta dos dedos

(restaram-me vãos
fossos talhos buracos
abismos)

procuro na palma da mão
a linha da vida  quanto tempo duraria?

(não há registro)

estou morto
vivo?

*

sábado, 12 de janeiro de 2008

riscos

líria porto

tão quanto nós desmedidos
extrapolamos extremos

expusemos nossas vidas
às tempestades aos ventos

e sem preparo sem tino
tal como malabaristas

bordeamos os perigos
os abismos as contendas

*

das relações

líria porto

exclamações interrogações reticências
que tal um ponto final?

*
esquecermo-nos de nós mesmos
é crime de lesa-pátria
*

por um tris_te

líria porto

meu coração meteoro
abraço beijo eu te adoro
és tão querido eu te imploro
cuida de ser feliz

não te preocupes - prossigo
acho abrigo por aqui

*

furto

líria porto

o que foi que houve
quem comeu meu pé de couve?

crisálida abaixa os olhos
quisera ser borboleta

*

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

esnobe

líria porto

vi a lua de perfil
narizinho arrebitado
a se fingir de difícil
a desdenhar os olhares
do planeta vermelho

noite dessas
marte perde a paciência
acaba com sua pose
morde-lhe a ponta da orelha
faz-lhe proposta indecente

*

bandeamento

líria porto

precisou penar padecer
prestar contas das ausências
das vezes que não se amou

partiu sem nada
sem palavras sem cortejo

desertou-se - fugiu
de si

*

rejeição

líria porto

ingeri as reticências
as vírgulas todos pontos
difícil foi engolir 
a palavra abandono
que sequer estava escrita
porém havia 
           um silêncio

*

flâmulas

líria porto

no alto do mastro tremulam os fracassos
o medo da solidão os rastros do desamor
a insônia

*

ecologia

líria porto

atrair o peixe
         sem trair o mar

*

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

vão

líria porto

pelas montanhas de minas
pelos vales e valas de minas
pelas minas de minas
à cata do ouro de minas
da prata de minas
dos diamantes de minas
do ferro de minas
do minério esgotado de minas
voava o (g)avião

*

teimosia

líria porto

noves-fora não me interessam
não estou à prova

não tenho rabo preso
não tenho pressa
não sou exata
atalhos incomodam-me

se a morte bater-me à porta
sente-se e espere-me
ou volte outra hora

forçada
nem morta

*

natureza

líria porto

quando o ipê floriu
só pude dizer
puta que o pariu
filho da mãe

*

bodum

líria porto

ranço no sovaco
arrogante
ofendia os fracos
bajulava os grandes

alma rastejante
jeito puxa-saco
catinga de inhaca
dava nojo

*

blecaute

líria porto

a solidão da lua
perdida entre vidrilhos

*

cacos

líria porto

as asas
cedilhas
pendurei-as
no cabide

foi-se sonho
martelo-me

(tudo ali belo)

*

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

bom-humor

líria porto

os tios da minha amiga
salgado (c)amargo aze(ve)do
demarcaram minha vida
deixaram-na com algum tempero
ensinaram-me que a palavra
pode ter graça requebro
mesmo em conversa séria
assunto de parentesco

*

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

para afofar a terra

líria porto

minha casa era um canteiro
e as quatro flores formosas
perfumavam o ar

o tempo passou cresceram
quiseram ser borboletas
bateram asas

sou jardineiro fiquei
se antes plantava filhos
agora semeio versos

(e cá entre nós - cultivo netos)

*

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

(peguei o sol no pulo) id

líria porto

há dias que sou assim
a sombra da minha sombra
e meus pés pisam repisam
as minhas próprias pegadas
sei curvas sei obstáculos
não sei porém desviar-me

passeio sobre meus passos
caminho nos descaminhos
erro sempre os mesmos erros
repito as mesmas palavras
sou sombra da minha sombra
a soçobrar no passado

*

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

evidências

líria porto

ao peito ouviu-se um estalo
o amor quebrara as asas
confundira o nome as chaves
errara casa endereço

necessita o amor de tempo
de respirar novos ares
porque amor não é hábito
é qual um bulbo de flor
ao secar o cerne o caule
carece ser replantado

parte amor vai logo embora
e realiza teus sonhos
pois de cinzas não se vive
muito menos de migalhas
um amor precisa saltos
sem culpas chagas
remorso

*

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

possibilidades

líria porto

se o coração batucar
rondar melhor o amor
ficarem juntos bem juntos
jogarão todas as fichas
e farão muitas loucuras

*

terça-feira, 27 de novembro de 2007

miolo

líria porto

antes do sol e vistas do alto
as luzes da cidade são flores sem pétalas
fincadas no asfalto

*

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

a amante

líria porto

tem o dom de dissipar-lhe as cinzas
atiçar-lhe as brasas 
                                    avivar seu fogo

(depois fá-lo dormir)

*

terça-feira, 20 de novembro de 2007

haicai

líria porto

entre o céu e o mar
algodão doce ou espuma
as nuvens flutuam

*

sábado, 17 de novembro de 2007

tudo é festa

líria porto

clarita rouba doces 
não pra si para o titio
e seu passinho macio 
é delicioso

(um suspiro 
um brigadeiro
pode levar 
ninguém liga)

os olhinhos da menina 
são tão lindos
mais bonitos que a manhã 
de outubro

*

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

ssssssssssssssssssssss

líria porto

se eu soubesse sibilar esses esses estridentes
eu seria simplesmente a serpente

*

passarim

líria porto

acordei pitanga 
e tão madurinha
não o bastante 
um minuto antes
ele foi embora

levava amora 
             no bico

*

o semáforo

líria porto

num de repente o destino
metido a guarda de trânsito
(verde amarelo vermelho)

assim caminho
prossigo
velocidade tranquila
sem ilusão e sem pressa
a licença é provisória
obrigatória 
                      a parada
:
e a terra me seja leve

*

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

o cara e a coroa

líria porto

não me calarei
ao calaboca do rei

sou o outro lado
da moenda

*

terça-feira, 13 de novembro de 2007

miscelânia

líria porto

a bela dormiu com a fera
teve uma filha
que usava presilha no cabelo
e queria ser estrela

de caso em caso
e não por acaso
saiu do casulo
cresceram-lhe asas
virou borboleta

(poeta é bicho besta)

*

domingo, 11 de novembro de 2007

separação

líria porto

ergueram muralhas cavaram abismos
e as flores que havia dos dois lados
tornaram-se invisíveis

*

nesgas

líria porto

aos sete de idade
morava no paraíso
paissandu quarenta e quatro
araguari  interior
de minas

*

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

impenitentes

líria porto

pelos pecadinhos alvos
ou pelo breu dos pecados
poderás ser condenado
porém os pecados rubros
encarnados de sem lei
de lascívia de desejo
elevam-te aos céus
que eu sei que eu sinto
que eu vejo

*

trôpegas

líria porto

bêbado de vinho e vida
estas pernas nem parecem minhas

*

seleção

líria porto

acostumei-me aos sabores delicados
finos temperos boas essências

recuso vida insossa palavras azedas
e atitudes ásperas

*

achados e perdidos

líria porto

um verso azul
suas rimas celestes
daquelas inundadas
quando o mar se encrespa

um verso vermelho
ponta de punhal
caldo borbulhante
notícia de jornal

um verso verde
jogado no deserto
a morrer de sede
entre galhos secos

um verso amarelo
pena de canário
largado na gaiola
por um gato incauto

um verso branco
caído de uma asa
em tempos distantes
éramos crianças

um verso preto
belo deslumbrante
sem qualquer resquício
de intolerância

*

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

precoce

líria porto

aprendeu sozinha
costurava letras sílabas sentenças 
parágrafos inteiros
:
teria parte com o demo?

*

sábado, 3 de novembro de 2007

apresentação

líria porto

constrange-me falar de mim
avaliar-me não vale
outros é que o farão
autoanálise é um perigo
somos sempre complacentes
vemo-nos tão diferentes
do que nos vê um amigo
ele sim já nos conhece
e às vezes haja prece
pela nossa salvação

não sou boa não sou má
insegura muitas vezes
um ser pra lá de mutante
porém leal sei que sou
por um amigo eu vou
ao inferno e aos abismos
mesmo que ao fim de tudo
diga a ele um palavrão
porque amigo
é amigo

sou delicada e não sou
sou debochada e não sou
sou complicada e não sou
sou pra frente e sou careta
às vezes brava outras não
há quem me goste não goste
mas se não julgo ninguém
ninguém será meu juiz

para o público uma senhora
aos íntimos não predetermino
e também vai depender
de quem estiver comigo
:
achas-me doida gosto disso
sou doida muito assumida
sou doidinha pela vida

*

parientes

líria porto

o corpo por quem choram e recebem pêsames
não necessita lágrimas e nem companhia
chegaram tarde

*

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

terça-feira, 30 de outubro de 2007

ipê

líria porto

do alto da serra ele berra
amarelo amarelo amarelo
meus olhos não piscam
são milhares de pétalas
de ouro de entrega
de prece

*

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

vocação

líria porto

meninos jogavam futebol
meninas brincávamos com panelas
:
eu fazia a sopa de letrinhas

*

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

triângulo

líria porto

ideal é sermos três
o muso o amante e eu

(a felicidade é ímpar)

*

febre

líria porto

deliriar
manuelar bandeiras barros quintanas
drummondiar adélias hildas coralinas
leminskiar vinícius
catular bilacs augustos casimiros
clariciar marinas affonsos
cecílias
:
mas não consigo

*

haicai

líria porto

a lua escondida
atrás da nuvem de tule
a chuva de outubro

*

retratos

líria porto

pedro
este jeito teu
de parecer comigo
entra-me pelos poros

olho a tua foto
tenho nove anos
sou um bom menino
e sou tão bonito

voador o tempo
pousa nos meus ombros
fala em meu ouvido
isso não existe

fico quase triste
mas aguento o tranco

*

domingo, 21 de outubro de 2007

imprudência

líria porto

ao me conhecer trouxeste flores
esse gesto teu nunca esqueci

impressionar mulher sensível
não temias?

(quem não quer laços
carece ser rude)

*

que (i)mundo é esse?

líria porto

não joga fora a galinha o porco o novilho
mas põe o filho no lixo - o bichumano

*

sábado, 20 de outubro de 2007

morada

líria porto

gaiolas abertas
com água fresca e alimento
e os pássaros poderão ficar partir
retornar - ter paz abrigo
lugar para descansar
:
amor não é cárcere

*

lili cata ventos

líria porto

quintaninha feiticeiro
passarinho em tuas asas
passarão outros poetas
sem bicar a minha alma

*

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

os girassóis de van gogh

líria porto

insolúveis em lágrimas
as flores de vincent
:
olhos amargos
pálpebras desfolhadas
cílios de dor

*

dilúvio

líria porto

quis ver a chuva chover
lavar a alma do mundo
daqui levar toda lama
pecados culpas infâmias
e brotar um novo
                           homem

*

pios da coruja

líria porto

a vida 
chama de vela
ao leve sopro
jaz o corpo

*

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

regina

líria porto

não chores meu bem 
não chores
mamãe está aqui 
és linda
vou contar-te uma história
teu nome tão bonito 
quer dizer
rainha
:
não quero ser rainha
só quero ser princesa

*

balelas

líria porto

felicidade
ao alcance dos dedos
ou nas estrelas?

*

terça-feira, 16 de outubro de 2007

segunda chance

líria porto

gozo regozijo euforia 
emoção
um corpo noutro corpo
a reviver prazeres 
que julgara 
extintos

*

terça-feira, 9 de outubro de 2007

pensando alto

líria porto

o amor não é vendido no mercado
em feiras-livres nem é distribuído
como amostra grátis

não se acha amor em qualquer parte

*

nojentas

líria porto

baratas resistem ao tempo aos inseticidas
mas o velho chinelo não lhes dá trégua
:
plaaaft!

*

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

alma penada

líria porto

desfaz-se
nem a reconheço
tal qual jornal molhado
sem letras e sem
notícias

*

reencontro

líria porto

quisera te rever
olhar-te nos olhos
quieta demoradamente
depois te abraçar
sem uma palavra
deixar que soubesses
o quanto te prezo
e nada espero
além deste momento

*

domingo, 7 de outubro de 2007

indigesto

líria porto

o homem de cara azeda
garanto que destempera
a moça dos gestos doces
que um dia será amarga
a pisar terra salgada
a engolir dissabores

*

claudel

líria porto

disseram-lhe – pedras não amam
as pedras são insensíveis
o fato é que um dia
uma artista amou a pedra
e não foi correspondida

injetou amor à pedra
imprimiu-lhe o seu espírito
a pedra transfigurou-se
transmudou-se e suplicante
submeteu-se à agonia

(camille enlouqueceu)

*

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

phoenix

líria porto

ácida cáustica caótica
corrosiva
descamo-me descarno-me
desagrego-me para me redimir
e ressurgir das cinzas

*

purificação

líria porto

há dias de não ir
de não voltar
de se estar no limbo
reconhecer as falhas
consertar os erros
dormir na salmoura

*

receios

líria porto

passarinho não espies
para as bandas do meu leito
acostumei-me sozinha
e se demonstras desejo
pões bico doce em meu ninho
teu corpo quente juntinho
desperta minhas querências

depois te arribas
como fico?

*

bon-vivant

líria porto

o smoking da festa
a gaudia alegria
com ela o enterrem
ao chegar o dia

são pedro abre a porta
ele entra elegante
esquece no ato
deslizes orgias

pecado não tem
não sabe o que seja
viveu plenamente
em uísque e cerveja

*

terça-feira, 2 de outubro de 2007

lagarta

líria porto

ao sair do casulo tortura-se
não se dá conta da cores que carrega

esbarro em palavras na rima na métrica
impõe-se-me a poesia como tatuagem

*

reconstituição

líria porto

quando passo ida e volta
e penso sobre meus hábitos
teus pensamentos escassos
não compreendem minha sorte
não sabem que reaprendo
pois ao rever velhos atos
amorteço novos erros

*

término

líria porto

como arrancar da pele
o suor de outro corpo
dentro dos nossos poros
a circular-nos nas veias
a encharcar-nos a alma
a infiltrar-se nos ossos?
:
com água e sabão
não se apagam
lembranças

*

haicai

líria porto

o canto dos grilos
nas folhas do limoeiro
gotas de sereno

*

haicai

líria porto

madrugada fria
os caquis amadurecem
nas pontas das galhas

*

haicai

líria porto

grinaldas de pérolas
nas galhas da laranjeira
gotas de sereno

*

haicai

liria porto

cascas na lixeira
em caixas de papelão
caquis e cerejas

*

haicai

líria porto

madrugada fria
gotículas de sereno
no dorso da pétala

*

haicai

líria porto

final de estação
as frutas amadurecem
em pequenas caixas

*

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

passageiro

líria porto

dentro em pouco o vento
leva-e-traz do tempo
vai e volta embola
vem outro momento

nada é eterno

*

buracos

líria porto

na cama
a chocar ideias
calculava coisas
do arco-da-velha

pensamentos doidos
emoções homéricas
desrazões desdouros
e cartões de crédito

*

dique

líria porto

esse teu jeito de dizer as coisas
esconde um rio de lamentações
:
e não sobra pedra
                            sobre pedra

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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