líria porto
um azul cheio de noite
o cheiro bom da aurora
começam a encantar os galos
a despertar os cachorros
assanhar os passarinhos
ouve-se algum motor
postes apagam-se aos poucos
eu dou um pulo
da cama
*
segunda-feira, 3 de março de 2008
benfeitor
líria porto
igual água estagnada
imprópria para consumo
estava a lua sem alma
sem alegria e sem lume
um vento soprou a nuvem
vestiu-a com roupa rendada
linda guirlanda de flores
espalhou sua claridade
pelos campos
e colinas
*
igual água estagnada
imprópria para consumo
estava a lua sem alma
sem alegria e sem lume
um vento soprou a nuvem
vestiu-a com roupa rendada
linda guirlanda de flores
espalhou sua claridade
pelos campos
e colinas
*
horizontes
líria porto
a roupa no cabide
espera um corpo
um convite
a roupa na mala
tem outra expectativa
:
seguir viagem
a roupa no cesto está dentro
ou fora do contexto?
*
a roupa no cabide
espera um corpo
um convite
a roupa na mala
tem outra expectativa
:
seguir viagem
a roupa no cesto está dentro
ou fora do contexto?
*
roda
líria porto
tais como passos de dança
vem um verso outro e outro
e quando nos damos conta
eis a ciranda
*
tais como passos de dança
vem um verso outro e outro
e quando nos damos conta
eis a ciranda
*
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
cooper
líria porto
seguia eu sempre alerta
como manda o figurino
minh'alma qual peregrino
caminhava atrás de mim
pensei em ti passarinho
a bicares-me o umbigo
num dia frio
finquei o pé insisti
prosseguia peito aberto
na largueza da avenida
pensava na nossa vida
eu aqui tu por aí
e a saudade sem-vergonha
emparelhou-se comigo
deu vontade de chorar
perdida na turbulência
fiquei triste cabisbaixa
a matutar vida besta
eu te quero tu me queres
podia ir te buscar
não dou o braço a torcer
briga tola aquela nossa
ciúme de folha morta
coisa pouca corriqueira
e foi nesta brincadeira
que tropecei
e caí
*
seguia eu sempre alerta
como manda o figurino
minh'alma qual peregrino
caminhava atrás de mim
pensei em ti passarinho
a bicares-me o umbigo
num dia frio
finquei o pé insisti
prosseguia peito aberto
na largueza da avenida
pensava na nossa vida
eu aqui tu por aí
e a saudade sem-vergonha
emparelhou-se comigo
deu vontade de chorar
perdida na turbulência
fiquei triste cabisbaixa
a matutar vida besta
eu te quero tu me queres
podia ir te buscar
não dou o braço a torcer
briga tola aquela nossa
ciúme de folha morta
coisa pouca corriqueira
e foi nesta brincadeira
que tropecei
e caí
*
sábado, 16 de fevereiro de 2008
festejo
líria porto
no velório
estavam presentes
a viúva uma uva
alguns parentes
e mil pretendentes
muitas coroas
muita conversa
muitas saudades
muita bebida
muita paquera
*
no velório
estavam presentes
a viúva uma uva
alguns parentes
e mil pretendentes
muitas coroas
muita conversa
muitas saudades
muita bebida
muita paquera
*
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
quebra-mar
líria porto
postou-se alguém entre nós
eu percebo sua sombra
e tu não me olhas
nos olhos
*
postou-se alguém entre nós
eu percebo sua sombra
e tu não me olhas
nos olhos
*
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
no jardim dos homens
líria porto
nasce uma flor
pequena
estranha o dia o calor
chora ao primeiro contato
que mundo é esse?
aqui é o útero da terra
contaminado violento
vieste ajudar-nos
a torná-lo belo
*
nasce uma flor
pequena
estranha o dia o calor
chora ao primeiro contato
que mundo é esse?
aqui é o útero da terra
contaminado violento
vieste ajudar-nos
a torná-lo belo
*
igualdade
líria porto
dispensamos dias especiais
agradecemos e recusamos homenagens
não nos contentamos com migalhas
*
dispensamos dias especiais
agradecemos e recusamos homenagens
não nos contentamos com migalhas
*
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
drible
líria porto
aquele perrengue
foi só arrelia
ela não o queria
estava carente
então insistiu
ele a recusou
tomou como ofensa
pediu implorou
e quando ele veio
jogou-o a escanteio
não o quis
feliz de quem foge
de miss
*
aquele perrengue
foi só arrelia
ela não o queria
estava carente
então insistiu
ele a recusou
tomou como ofensa
pediu implorou
e quando ele veio
jogou-o a escanteio
não o quis
feliz de quem foge
de miss
*
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
de aluar
líria porto
a pupila do céu
a esbugalhada madrugada
a noite sem breu
:
podemos morrer
a qualquer momento
*
a pupila do céu
a esbugalhada madrugada
a noite sem breu
:
podemos morrer
a qualquer momento
*
entrelinhas
líria porto
cada fibra do corpo retesada
como a corda de um violino
iria a marte aos anéis de saturno
vestido em gás neon
um estampido um naufrágio
o arrepio que a morte traz
o vírus do amor
*
cada fibra do corpo retesada
como a corda de um violino
iria a marte aos anéis de saturno
vestido em gás neon
um estampido um naufrágio
o arrepio que a morte traz
o vírus do amor
*
cascata
liria porto
na garganta da pedra um grito
cuidado não corras tu vais tropeçar
cair desse alto sujar toda a água
*
na garganta da pedra um grito
cuidado não corras tu vais tropeçar
cair desse alto sujar toda a água
*
inferno
líria porto
acontece que a mãe
de tão ocupada
sem tempo pra nada
dez filhos pequenos
deixou a esperança
queimar na fornalha
*
acontece que a mãe
de tão ocupada
sem tempo pra nada
dez filhos pequenos
deixou a esperança
queimar na fornalha
*
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
de camisola ou pijama
líria porto
derrama o corpo na cama
igual mato se esparrama
em terra úmida
( dorme com as galinhas)
*
derrama o corpo na cama
igual mato se esparrama
em terra úmida
( dorme com as galinhas)
*
surreal
líria porto
amei palito
e o amor atrito
ruiu-me
depois foi um rei
havia uma lei
que mo proibiu
então amei peixe
ele me pediu
me deixes
e afogou o rio
amei azeitona
ele tinha dona
cantava tão bonito
ia e vinha à tona
tão verde
minha vida é isso
um feixe de lenha
*
amei palito
e o amor atrito
ruiu-me
depois foi um rei
havia uma lei
que mo proibiu
então amei peixe
ele me pediu
me deixes
e afogou o rio
amei azeitona
ele tinha dona
cantava tão bonito
ia e vinha à tona
tão verde
minha vida é isso
um feixe de lenha
*
sábado, 26 de janeiro de 2008
maridão
líria porto
meu amor nada me nega
e faz tudo que lhe peço
ontem fomos às compras
reclamou do peso
mas trouxe todas as sacolas
e pagou as contas
*
meu amor nada me nega
e faz tudo que lhe peço
ontem fomos às compras
reclamou do peso
mas trouxe todas as sacolas
e pagou as contas
*
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
sinal de fumaça
líria porto
algumas gotas e a sede se abranda
quebra-se a secura das ausências
não precisa ser carta ou telegrama
envia-me uma letra e saberei
se ainda me amas
*
algumas gotas e a sede se abranda
quebra-se a secura das ausências
não precisa ser carta ou telegrama
envia-me uma letra e saberei
se ainda me amas
*
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
descalça
líria porto
dias meses anos
subi e desci a calçada
cresci por ali
depois fui embora
re_voltei pela rima
pobre de mim
*
dias meses anos
subi e desci a calçada
cresci por ali
depois fui embora
re_voltei pela rima
pobre de mim
*
domingo, 13 de janeiro de 2008
silêncios
líria porto
fugiu-me a poesia
(calaram-se as palavras
letras rimas
versos poemas
sons batidas
ruídos)
secou-me a tinta na ponta dos dedos
(restaram-me vãos
fossos talhos buracos
abismos)
procuro na palma da mão
a linha da vida –– quanto tempo duraria?
(não há registro)
estou morto
vivo?
*
fugiu-me a poesia
(calaram-se as palavras
letras rimas
versos poemas
sons batidas
ruídos)
secou-me a tinta na ponta dos dedos
(restaram-me vãos
fossos talhos buracos
abismos)
procuro na palma da mão
a linha da vida –– quanto tempo duraria?
(não há registro)
estou morto
vivo?
*
sábado, 12 de janeiro de 2008
riscos
líria porto
tão quanto nós desmedidos
extrapolamos extremos
expusemos nossas vidas
às tempestades aos ventos
e sem preparo sem tino
tal como malabaristas
bordeamos os perigos
os abismos as contendas
*
tão quanto nós desmedidos
extrapolamos extremos
expusemos nossas vidas
às tempestades aos ventos
e sem preparo sem tino
tal como malabaristas
bordeamos os perigos
os abismos as contendas
*
por um tris_te
líria porto
meu coração meteoro
abraço beijo eu te adoro
és tão querido eu te imploro
cuida de ser feliz
não te preocupes - prossigo
acho abrigo por aqui
*
meu coração meteoro
abraço beijo eu te adoro
és tão querido eu te imploro
cuida de ser feliz
não te preocupes - prossigo
acho abrigo por aqui
*
furto
líria porto
o que foi que houve
quem comeu meu pé de couve?
crisálida abaixa os olhos
quisera ser borboleta
*
o que foi que houve
quem comeu meu pé de couve?
crisálida abaixa os olhos
quisera ser borboleta
*
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
esnobe
líria porto
vi a lua de perfil
narizinho arrebitado
a se fingir de difícil
a desdenhar os olhares
do planeta vermelho
noite dessas
marte perde a paciência
acaba com sua pose
morde-lhe a ponta da orelha
faz-lhe proposta indecente
*
vi a lua de perfil
narizinho arrebitado
a se fingir de difícil
a desdenhar os olhares
do planeta vermelho
noite dessas
marte perde a paciência
acaba com sua pose
morde-lhe a ponta da orelha
faz-lhe proposta indecente
*
bandeamento
líria porto
precisou penar padecer
prestar contas das ausências
das vezes que não se amou
partiu sem nada
sem palavras sem cortejo
desertou-se - fugiu
de si
*
precisou penar padecer
prestar contas das ausências
das vezes que não se amou
partiu sem nada
sem palavras sem cortejo
desertou-se - fugiu
de si
*
rejeição
líria porto
ingeri as reticências
as vírgulas todos pontos
difícil foi engolir
*
ingeri as reticências
as vírgulas todos pontos
difícil foi engolir
a palavra abandono
que sequer estava escrita
porém havia
um silêncio
*
flâmulas
líria porto
no alto do mastro tremulam os fracassos
o medo da solidão os rastros do desamor
a insônia
*
no alto do mastro tremulam os fracassos
o medo da solidão os rastros do desamor
a insônia
*
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
vão
líria porto
pelas montanhas de minas
pelos vales e valas de minas
pelas minas de minas
à cata do ouro de minas
da prata de minas
dos diamantes de minas
do ferro de minas
do minério esgotado de minas
voava o (g)avião
*
pelas montanhas de minas
pelos vales e valas de minas
pelas minas de minas
à cata do ouro de minas
da prata de minas
dos diamantes de minas
do ferro de minas
do minério esgotado de minas
voava o (g)avião
*
teimosia
líria porto
noves-fora não me interessam
não estou à prova
não tenho rabo preso
não tenho pressa
não sou exata
atalhos incomodam-me
se a morte bater-me à porta
sente-se e espere-me
ou volte outra hora
forçada
nem morta
*
noves-fora não me interessam
não estou à prova
não tenho rabo preso
não tenho pressa
não sou exata
atalhos incomodam-me
se a morte bater-me à porta
sente-se e espere-me
ou volte outra hora
forçada
nem morta
*
bodum
líria porto
ranço no sovaco
arrogante
ofendia os fracos
bajulava os grandes
alma rastejante
jeito puxa-saco
catinga de inhaca
dava nojo
*
ranço no sovaco
arrogante
ofendia os fracos
bajulava os grandes
alma rastejante
jeito puxa-saco
catinga de inhaca
dava nojo
*
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
bom-humor
líria porto
os tios da minha amiga
salgado (c)amargo aze(ve)do
demarcaram minha vida
deixaram-na com algum tempero
ensinaram-me que a palavra
pode ter graça requebro
mesmo em conversa séria
assunto de parentesco
*
os tios da minha amiga
salgado (c)amargo aze(ve)do
demarcaram minha vida
deixaram-na com algum tempero
ensinaram-me que a palavra
pode ter graça requebro
mesmo em conversa séria
assunto de parentesco
*
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
para afofar a terra
líria porto
minha casa era um canteiro
e as quatro flores formosas
perfumavam o ar
o tempo passou cresceram
quiseram ser borboletas
bateram asas
sou jardineiro fiquei
se antes plantava filhos
agora semeio versos
(e cá entre nós - cultivo netos)
*
minha casa era um canteiro
e as quatro flores formosas
perfumavam o ar
o tempo passou cresceram
quiseram ser borboletas
bateram asas
sou jardineiro fiquei
se antes plantava filhos
agora semeio versos
(e cá entre nós - cultivo netos)
*
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
(peguei o sol no pulo) id
líria porto
há dias que sou assim
a sombra da minha sombra
e meus pés pisam repisam
as minhas próprias pegadas
sei curvas sei obstáculos
não sei porém desviar-me
passeio sobre meus passos
caminho nos descaminhos
erro sempre os mesmos erros
repito as mesmas palavras
sou sombra da minha sombra
a soçobrar no passado
*
há dias que sou assim
a sombra da minha sombra
e meus pés pisam repisam
as minhas próprias pegadas
sei curvas sei obstáculos
não sei porém desviar-me
passeio sobre meus passos
caminho nos descaminhos
erro sempre os mesmos erros
repito as mesmas palavras
sou sombra da minha sombra
a soçobrar no passado
*
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
evidências
líria porto
ao peito ouviu-se um estalo
o amor quebrara as asas
confundira o nome as chaves
errara casa endereço
necessita o amor de tempo
de respirar novos ares
porque amor não é hábito
é qual um bulbo de flor
ao secar o cerne o caule
carece ser replantado
parte amor vai logo embora
e realiza teus sonhos
pois de cinzas não se vive
muito menos de migalhas
um amor precisa saltos
sem culpas chagas
remorso
*
ao peito ouviu-se um estalo
o amor quebrara as asas
confundira o nome as chaves
errara casa endereço
necessita o amor de tempo
de respirar novos ares
porque amor não é hábito
é qual um bulbo de flor
ao secar o cerne o caule
carece ser replantado
parte amor vai logo embora
e realiza teus sonhos
pois de cinzas não se vive
muito menos de migalhas
um amor precisa saltos
sem culpas chagas
remorso
*
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
possibilidades
líria porto
se o coração batucar
rondar melhor o amor
ficarem juntos bem juntos
jogarão todas as fichas
e farão muitas loucuras
*
se o coração batucar
rondar melhor o amor
ficarem juntos bem juntos
jogarão todas as fichas
e farão muitas loucuras
*
terça-feira, 27 de novembro de 2007
miolo
líria porto
antes do sol e vistas do alto
as luzes da cidade são flores sem pétalas
fincadas no asfalto
*
antes do sol e vistas do alto
as luzes da cidade são flores sem pétalas
fincadas no asfalto
*
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
a amante
líria porto
tem o dom de dissipar-lhe as cinzas
atiçar-lhe as brasas
tem o dom de dissipar-lhe as cinzas
atiçar-lhe as brasas
avivar seu fogo
(depois fá-lo dormir)
*
*
terça-feira, 20 de novembro de 2007
sábado, 17 de novembro de 2007
tudo é festa
líria porto
clarita rouba doces
clarita rouba doces
não pra si para o titio
e seu passinho macio
e seu passinho macio
é delicioso
(um suspiro
(um suspiro
um brigadeiro
pode levar
pode levar
ninguém liga)
os olhinhos da menina
os olhinhos da menina
são tão lindos
mais bonitos que a manhã
mais bonitos que a manhã
de outubro
*
*
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
ssssssssssssssssssssss
líria porto
se eu soubesse sibilar esses esses estridentes
eu seria simplesmente a serpente
*
se eu soubesse sibilar esses esses estridentes
eu seria simplesmente a serpente
*
passarim
líria porto
acordei pitanga
levava amora
acordei pitanga
e tão madurinha
não o bastante
não o bastante
um minuto antes
ele foi embora
ele foi embora
levava amora
no bico
*
*
o semáforo
líria porto
num de repente o destino
metido a guarda de trânsito
(verde amarelo vermelho)
assim caminho
prossigo
velocidade tranquila
sem ilusão e sem pressa
a licença é provisória
obrigatória
num de repente o destino
metido a guarda de trânsito
(verde amarelo vermelho)
assim caminho
prossigo
velocidade tranquila
sem ilusão e sem pressa
a licença é provisória
obrigatória
a parada
:
e a terra me seja leve
:
e a terra me seja leve
*
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
terça-feira, 13 de novembro de 2007
miscelânia
líria porto
a bela dormiu com a fera
teve uma filha
que usava presilha no cabelo
e queria ser estrela
de caso em caso
e não por acaso
saiu do casulo
cresceram-lhe asas
virou borboleta
(poeta é bicho besta)
*
a bela dormiu com a fera
teve uma filha
que usava presilha no cabelo
e queria ser estrela
de caso em caso
e não por acaso
saiu do casulo
cresceram-lhe asas
virou borboleta
(poeta é bicho besta)
*
domingo, 11 de novembro de 2007
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
impenitentes
líria porto
pelos pecadinhos alvos
ou pelo breu dos pecados
poderás ser condenado
porém os pecados rubros
encarnados de sem lei
de lascívia de desejo
elevam-te aos céus
que eu sei que eu sinto
que eu vejo
*
pelos pecadinhos alvos
ou pelo breu dos pecados
poderás ser condenado
porém os pecados rubros
encarnados de sem lei
de lascívia de desejo
elevam-te aos céus
que eu sei que eu sinto
que eu vejo
*
seleção
líria porto
acostumei-me aos sabores delicados
finos temperos boas essências
recuso vida insossa palavras azedas
e atitudes ásperas
*
acostumei-me aos sabores delicados
finos temperos boas essências
recuso vida insossa palavras azedas
e atitudes ásperas
*
achados e perdidos
líria porto
um verso azul
suas rimas celestes
daquelas inundadas
quando o mar se encrespa
um verso vermelho
ponta de punhal
caldo borbulhante
notícia de jornal
um verso verde
jogado no deserto
a morrer de sede
entre galhos secos
um verso amarelo
pena de canário
largado na gaiola
por um gato incauto
um verso branco
caído de uma asa
em tempos distantes
éramos crianças
um verso preto
belo deslumbrante
sem qualquer resquício
de intolerância
*
sem qualquer resquício
de intolerância
*
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
precoce
líria porto
aprendeu sozinha
costurava letras sílabas sentenças
aprendeu sozinha
costurava letras sílabas sentenças
parágrafos inteiros
:
teria parte com o demo?
*
:
teria parte com o demo?
*
sábado, 3 de novembro de 2007
apresentação
líria porto
constrange-me falar de mim
avaliar-me não vale
outros é que o farão
autoanálise é um perigo
somos sempre complacentes
vemo-nos tão diferentes
do que nos vê um amigo
ele sim já nos conhece
e às vezes haja prece
pela nossa salvação
não sou boa não sou má
insegura muitas vezes
um ser pra lá de mutante
porém leal sei que sou
por um amigo eu vou
ao inferno e aos abismos
mesmo que ao fim de tudo
diga a ele um palavrão
porque amigo
é amigo
sou delicada e não sou
sou debochada e não sou
sou complicada e não sou
sou pra frente e sou careta
às vezes brava outras não
há quem me goste não goste
mas se não julgo ninguém
ninguém será meu juiz
para o público uma senhora
aos íntimos não predetermino
e também vai depender
de quem estiver comigo
:
achas-me doida gosto disso
sou doida muito assumida
sou doidinha pela vida
*
constrange-me falar de mim
avaliar-me não vale
outros é que o farão
autoanálise é um perigo
somos sempre complacentes
vemo-nos tão diferentes
do que nos vê um amigo
ele sim já nos conhece
e às vezes haja prece
pela nossa salvação
não sou boa não sou má
insegura muitas vezes
um ser pra lá de mutante
porém leal sei que sou
por um amigo eu vou
ao inferno e aos abismos
mesmo que ao fim de tudo
diga a ele um palavrão
porque amigo
é amigo
sou delicada e não sou
sou debochada e não sou
sou complicada e não sou
sou pra frente e sou careta
às vezes brava outras não
há quem me goste não goste
mas se não julgo ninguém
ninguém será meu juiz
para o público uma senhora
aos íntimos não predetermino
e também vai depender
de quem estiver comigo
:
achas-me doida gosto disso
sou doida muito assumida
sou doidinha pela vida
*
parientes
líria porto
o corpo por quem choram e recebem pêsames
não necessita lágrimas e nem companhia
chegaram tarde
*
o corpo por quem choram e recebem pêsames
não necessita lágrimas e nem companhia
chegaram tarde
*
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
terça-feira, 30 de outubro de 2007
ipê
líria porto
do alto da serra ele berra
amarelo amarelo amarelo
meus olhos não piscam
são milhares de pétalas
de ouro de entrega
de prece
*
do alto da serra ele berra
amarelo amarelo amarelo
meus olhos não piscam
são milhares de pétalas
de ouro de entrega
de prece
*
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
vocação
líria porto
meninos jogavam futebol
meninos jogavam futebol
meninas brincávamos com panelas
:
eu fazia a sopa de letrinhas
eu fazia a sopa de letrinhas
*
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
febre
líria porto
deliriar
manuelar bandeiras barros quintanas
drummondiar adélias hildas coralinas
leminskiar vinícius
catular bilacs augustos casimiros
clariciar marinas affonsos
cecílias
:
deliriar
manuelar bandeiras barros quintanas
drummondiar adélias hildas coralinas
leminskiar vinícius
catular bilacs augustos casimiros
clariciar marinas affonsos
cecílias
:
mas não consigo
*
*
retratos
líria porto
pedro
este jeito teu
de parecer comigo
entra-me pelos poros
olho a tua foto
tenho nove anos
sou um bom menino
e sou tão bonito
voador o tempo
pousa nos meus ombros
fala em meu ouvido
isso não existe
fico quase triste
mas aguento o tranco
*
pedro
este jeito teu
de parecer comigo
entra-me pelos poros
olho a tua foto
tenho nove anos
sou um bom menino
e sou tão bonito
voador o tempo
pousa nos meus ombros
fala em meu ouvido
isso não existe
fico quase triste
mas aguento o tranco
*
domingo, 21 de outubro de 2007
imprudência
líria porto
ao me conhecer trouxeste flores
esse gesto teu nunca esqueci
impressionar mulher sensível
não temias?
(quem não quer laços
carece ser rude)
*
ao me conhecer trouxeste flores
esse gesto teu nunca esqueci
impressionar mulher sensível
não temias?
(quem não quer laços
carece ser rude)
*
que (i)mundo é esse?
líria porto
não joga fora a galinha o porco o novilho
mas põe o filho no lixo - o bichumano
*
não joga fora a galinha o porco o novilho
mas põe o filho no lixo - o bichumano
*
sábado, 20 de outubro de 2007
morada
líria porto
gaiolas abertas
com água fresca e alimento
gaiolas abertas
com água fresca e alimento
e os pássaros poderão ficar partir
retornar - ter paz abrigo
lugar para descansar
:
amor não é cárcere
amor não é cárcere
*
lili cata ventos
líria porto
quintaninha feiticeiro
passarinho em tuas asas
passarão outros poetas
sem bicar a minha alma
*
quintaninha feiticeiro
passarinho em tuas asas
passarão outros poetas
sem bicar a minha alma
*
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
os girassóis de van gogh
líria porto
insolúveis em lágrimas
as flores de vincent
:
olhos amargos
pálpebras desfolhadas
cílios de dor
*
insolúveis em lágrimas
as flores de vincent
:
olhos amargos
pálpebras desfolhadas
cílios de dor
*
dilúvio
líria porto
quis ver a chuva chover
lavar a alma do mundo
daqui levar toda lama
pecados culpas infâmias
e brotar um novo
homem
*
quis ver a chuva chover
lavar a alma do mundo
daqui levar toda lama
pecados culpas infâmias
e brotar um novo
homem
*
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
terça-feira, 16 de outubro de 2007
segunda chance
líria porto
gozo regozijo euforia
gozo regozijo euforia
emoção
um corpo noutro corpo
a reviver prazeres
um corpo noutro corpo
a reviver prazeres
que julgara
extintos
*
*
terça-feira, 9 de outubro de 2007
pensando alto
líria porto
o amor não é vendido no mercado
em feiras-livres nem é distribuído
como amostra grátis
não se acha amor em qualquer parte
*
o amor não é vendido no mercado
em feiras-livres nem é distribuído
como amostra grátis
não se acha amor em qualquer parte
*
nojentas
líria porto
baratas resistem ao tempo aos inseticidas
mas o velho chinelo não lhes dá trégua
:
plaaaft!
*
baratas resistem ao tempo aos inseticidas
mas o velho chinelo não lhes dá trégua
:
plaaaft!
*
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
alma penada
líria porto
desfaz-se
nem a reconheço
tal qual jornal molhado
sem letras e sem
notícias
*
desfaz-se
nem a reconheço
tal qual jornal molhado
sem letras e sem
notícias
*
reencontro
líria porto
quisera te rever
olhar-te nos olhos
quieta demoradamente
depois te abraçar
sem uma palavra
deixar que soubesses
o quanto te prezo
e nada espero
além deste momento
*
quisera te rever
olhar-te nos olhos
quieta demoradamente
depois te abraçar
sem uma palavra
deixar que soubesses
o quanto te prezo
e nada espero
além deste momento
*
domingo, 7 de outubro de 2007
indigesto
líria porto
o homem de cara azeda
garanto que destempera
a moça dos gestos doces
que um dia será amarga
a pisar terra salgada
a engolir dissabores
*
o homem de cara azeda
garanto que destempera
a moça dos gestos doces
que um dia será amarga
a pisar terra salgada
a engolir dissabores
*
claudel
líria porto
disseram-lhe – pedras não amam
as pedras são insensíveis
o fato é que um dia
uma artista amou a pedra
e não foi correspondida
injetou amor à pedra
imprimiu-lhe o seu espírito
a pedra transfigurou-se
transmudou-se e suplicante
submeteu-se à agonia
(camille enlouqueceu)
*
disseram-lhe – pedras não amam
as pedras são insensíveis
o fato é que um dia
uma artista amou a pedra
e não foi correspondida
injetou amor à pedra
imprimiu-lhe o seu espírito
a pedra transfigurou-se
transmudou-se e suplicante
submeteu-se à agonia
(camille enlouqueceu)
*
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
phoenix
líria porto
ácida cáustica caótica
ácida cáustica caótica
corrosiva
descamo-me descarno-me
desagrego-me para me redimir
e ressurgir das cinzas
*
descamo-me descarno-me
desagrego-me para me redimir
e ressurgir das cinzas
*
purificação
líria porto
há dias de não ir
de não voltar
de se estar no limbo
reconhecer as falhas
consertar os erros
dormir na salmoura
*
há dias de não ir
de não voltar
de se estar no limbo
reconhecer as falhas
consertar os erros
dormir na salmoura
*
receios
líria porto
passarinho não espies
para as bandas do meu leito
acostumei-me sozinha
e se demonstras desejo
pões bico doce em meu ninho
teu corpo quente juntinho
desperta minhas querências
depois te arribas
como fico?
*
passarinho não espies
para as bandas do meu leito
acostumei-me sozinha
e se demonstras desejo
pões bico doce em meu ninho
teu corpo quente juntinho
desperta minhas querências
depois te arribas
como fico?
*
bon-vivant
líria porto
o smoking da festa
a gaudia alegria
com ela o enterrem
ao chegar o dia
são pedro abre a porta
ele entra elegante
esquece no ato
deslizes orgias
pecado não tem
não sabe o que seja
viveu plenamente
em uísque e cerveja
*
o smoking da festa
a gaudia alegria
com ela o enterrem
ao chegar o dia
são pedro abre a porta
ele entra elegante
esquece no ato
deslizes orgias
pecado não tem
não sabe o que seja
viveu plenamente
em uísque e cerveja
*
terça-feira, 2 de outubro de 2007
lagarta
líria porto
ao sair do casulo tortura-se
não se dá conta da cores que carrega
esbarro em palavras na rima na métrica
impõe-se-me a poesia como tatuagem
*
ao sair do casulo tortura-se
não se dá conta da cores que carrega
esbarro em palavras na rima na métrica
impõe-se-me a poesia como tatuagem
*
reconstituição
líria porto
quando passo ida e volta
e penso sobre meus hábitos
teus pensamentos escassos
não compreendem minha sorte
não sabem que reaprendo
pois ao rever velhos atos
amorteço novos erros
*
quando passo ida e volta
e penso sobre meus hábitos
teus pensamentos escassos
não compreendem minha sorte
não sabem que reaprendo
pois ao rever velhos atos
amorteço novos erros
*
término
líria porto
como arrancar da pele
o suor de outro corpo
dentro dos nossos poros
a circular-nos nas veias
a encharcar-nos a alma
a infiltrar-se nos ossos?
:
com água e sabão
não se apagam
lembranças
*
como arrancar da pele
o suor de outro corpo
dentro dos nossos poros
a circular-nos nas veias
a encharcar-nos a alma
a infiltrar-se nos ossos?
:
com água e sabão
não se apagam
lembranças
*
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
passageiro
líria porto
dentro em pouco o vento
leva-e-traz do tempo
vai e volta embola
vem outro momento
nada é eterno
*
dentro em pouco o vento
leva-e-traz do tempo
vai e volta embola
vem outro momento
nada é eterno
*
buracos
líria porto
na cama
a chocar ideias
calculava coisas
do arco-da-velha
pensamentos doidos
emoções homéricas
desrazões desdouros
e cartões de crédito
*
na cama
a chocar ideias
calculava coisas
do arco-da-velha
pensamentos doidos
emoções homéricas
desrazões desdouros
e cartões de crédito
*
dique
líria porto
esse teu jeito de dizer as coisas
esconde um rio de lamentações
esse teu jeito de dizer as coisas
esconde um rio de lamentações
:
e não sobra pedra
sobre pedra
*
e não sobra pedra
sobre pedra
*
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dedicatória
nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio
(líria porto)
*
fiamos o plenilúnio
(líria porto)
*
quem tem pena de passarinho
é passarinho
(líria porto)
