segunda-feira, 31 de maio de 2010

incompletude

líria porto

no fundo no fundo
todo furo sonha
ser preenchido

*

resta_bele_cimento

líria porto

sarou sem remédio
levou algum tempo
porém ficou bem

não usou ninguém
e nem machucou
inocentes

*

domingo, 30 de maio de 2010

pudores

líria porto

se um dia eu te chegar ao coração
conseguires entender meus sentimentos
perceberes que em meu engatinhar
as pedras também sangram-me os joelhos
se tocares levemente os meus versos
e eles te aquecerem mãos e pés
se meus olhos te inundarem
pode ser que tenhamos outra chance
que consigas abrandar
minha nudez

*

cicuta-me

líria porto

dá-me umas gotas de veneno
para eu beber no tempo
de te perder

*

vinagre

líria porto

amassou-me o coração co'os pés
pisou-o e repisou-o sucessivas vezes
coou-lhe o sumo mas não mo bebeu

envelheço num tonel

*

sábado, 29 de maio de 2010

neblina

líria porto

jamais vira tal árvore
as galhas as folhas as flores
:
fica a pensar houve tempo
em que só olhava
as sombras

*

bis_tu_ris

líria porto

não sei se veio primeiro
o desamor ou a dúvida

fosse o que fosse
doeu pra burro

fez-se preciso intervir
:
procedimento
cirúrgico

*

sexta-feira, 28 de maio de 2010

sol_teira

líria porto

todo mês a lua míngua
aborta brilho

mesmo quando cresce
faz de tudo e não consegue
parir estrelas

*

quinta-feira, 27 de maio de 2010

incógnito

líria porto

caminho dias a fio
sem ninguém saber quem sou

uma vez canto assobio
outra vez finjo de doido

voo como um passarinho
coisa boa é ser anônimo

ninguém vem bulir comigo
isso sim – sou o meu dono

*

bom pra cachorro

líria porto

amigo não liga pra rima
e até um osso os aproxima

*




momentos

líria porto

na infância olhos d'água
na velhice cataratas

*

quarta-feira, 26 de maio de 2010

na realidade

líria porto

abracadabra
bracadabra
racadabra
acadabra
cadabra
adabra
dabra
abra
bra
ra
a

abracadabra
abracadabr
abracadab
abracada
abracad
abraca
abrac
abra
abr
ab
a

(não tem mágica)

*

aguda

líria porto

espinhos em lugar de pétalas
rosa dos ventos

*

em vão

líria porto

o moço boca de beijo
pele morena
bigodes
aposto que nem se lembra
do quanto gosto que venha
ao portãozinho da frente
para um dedinho de prosa

adeus flor de miosótis
flor de açucena de abóbora
chegaram a noite
o vento
a chuva fina a tristeza
a moita virou touceira
ficou escuro

e agora?

*

na calada da noite

líria porto

adoro quando ele rouba
palavras da minha boca

*

pua

líria porto

queres saber não perguntes
respostas podem machucar
revelar minúcias

verdade é ponta de lança

*

segundo stevenson

líria porto

um homem é dois
ou mais

médico e monstro
anjo e demônio

bombom
sal

gado

*

ilações

líria porto

noite
é açoite

morte
é corte

é rima
pobre

*

terça-feira, 25 de maio de 2010

marginal

líria porto

meu senhor eu não sou digna
de frequentar vosso paço

ponho-me nas cercanias
a espreitar vossos pares

os que registram em papiro
a vossa escrita impensável

meus versos trazem o estigma
a nódoa das concubinas

e vossa casta – tão fina
não pode ser conspurcada

(não mais do que já está)

*

tramas

líria porto

deslizar pelos teus pelos
afagar teu dorso nu
pousar em teu aconchego
descansar em ti da minha fadiga
ser a mais amiga das amigas
a mais enamorada
a amada

pelos teus dedos
pelos meus apelos
o fio o laço
a teia

*

depois

líria porto

é chegada a minha hora
nunca mais vou me sentir
um estranho no vinho

agora bebo vodka

*

segunda-feira, 24 de maio de 2010

pistas

líria porto

cada saudade um buraco
um oco
      um vazio
            um furo

emmenthal meu caro watson
:
coração é isso
                  um queijo suíço

*

de fazer dó e ré

líria porto

sem violão nem guitarra
cigarra cantadeira e seus maços
de cigarro

*

reflexão

líria porto

o espelho
in_verso de mim
mostra um ancião
com olhos
de passarim

*

segundo seu geraldo

líria porto

o mundo é dois
três é santíssima trindade

sem pecado não tem salvação

*

desen/canto

líria porto

passarinho tão quieto
troca as penas fica mudo

no inverno neste frio
o inferno é ficar nu(lo)

*

domingo, 23 de maio de 2010

louca

líria porto

tivesse equilíbrio
comprava uma sombrinha
andava no arame

sequer exibe brilho
não é nenhuma estrela
de roliúde

fosse então poeta
fizesse versos rimas
usasse redondilhas

pouca para tantos
para mim doida
de pérola

*

sábado, 22 de maio de 2010

barroco e velha piá

líria porto

eu sei que era velha - ele moço
e tinha um pauzinho que mal lhe penetrava
entre as coxas

ela ia e vinha em movimento
rodava ia e vinha com os quadris
e os dois ao mesmo tempo
contorciam-se

e foram anjo e velha céu adentro
e entraram ela e ele
em parafuso

*

(poema publicado no putas resolutas)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

dissimulação

líria porto

no tanto da boca
espanto

no quanto do olho
pranto

no canto de tudo
marulho

e no intento
rio

*

ex_tinto

líria porto

um deus ou uma estátua
sem sangue vontade ânimo
erupção

infeliz com o homem
como pedra

: cinza

*

quinta-feira, 20 de maio de 2010

fluidos

líria porto

tornei-me assim liquefeita
quando daquela feita
despi-me de nãos e sins

de mim então me perdi
nessa vontade inconclusa
acumulada no rim

ficou a mágoa comigo
fincada dentro do umbigo
quase criava raiz

minha tristeza de chuva
esta amargura profusa
tem olhos túmidos

sou tal e qual o dilúvio
derramo transbordo enxurro
corto os pulsos

*

vou escrever nas paredes

líria porto

poemas bilhetes recados
no corredor na varanda
na sala banheiro quarto
e dizer todas as mágoas
entaladas reprimidas
com letras bem desenhadas
para que jamais duvides
:
nunca por raiva ou revide
mas pela necessidade

*

pancada

líria porto

levou um murro na boca
chutes ao pé do ouvido

sentiu estalar-lhe um osso
o olho perdeu o brilho

quis chorar não tinha lágrima
quis morrer não tinha vida

*

vaga/bunda

líria porto

a_lua perambula
anda solta atrás da nuvem
quer pular a_cerca

*

quarta-feira, 19 de maio de 2010

definho

líria porto

ao revirar-me no avesso
escrever com mão canhota
de um mal ainda padeço
sinto saudades da outra
da que fui tão corajosa
a enfrentar tudo e todos
sem jamais temer a vida
e muito menos a morte

*

simplesmente

líria porto

di_lapidar o poema
tirar-lhe as letras palavras
deixá-lo nu poesia
e mais nada

*

ladainha

líria porto

faço verso rastejante
igual cobra no papel

faço verso flutuante
passarinho lá no céu

faço verso comprimido
fechado dentro do frasco

faço verso assim ridículo
acostumado ao fiasco

faço verso bem florido
nascido em pleno setembro

faço verso esquecido
o jeito dele nem lembro

faço verso galopante
como visita de amante

faço verso des'tamanho
coração de minha mãe

faço verso
faço verso

faço ver

*

sur_presa

líria porto

fecho os olhos abro a cortina
sinto a claridade sinto o cheiro
escuto o trinar dos passarinhos
e quando a manhã me abraça inteira
permito que imagens se aproximem

um sentido por vez

*

terça-feira, 18 de maio de 2010

abissal

líria porto

entre o vazio e o nada
havia a sua morada
buraco desse tamanho

numa noite mui largada
chorou um mundão de lágrimas
as águas do oceano

*

nuança

líria porto

segurei-me o quanto pude
e depois como o açude
trans_bordei-me

(em ponto cruz)

*

majoritários

líria porto

helvécio tem um palácio
acácio tinha um negócio
e lúcio o precipício

no início não foi fácil
fomos todos para o hospício
mas depois ficamos só_cios

*


amar é fogo

líria porto

recados cartas bilhetes
eu risquei um pau de fósforo
e as palavras viraram
fumaça

*

marés d'alma

líria porto

elevam-se
abaixam-se
vão e voltam
passam

*

sílfide

líria porto

dentro das quatro paredes
inventava ser feliz

escancarava a janela
abria as asas em leque

flutuava
            ia a paris

*

segunda-feira, 17 de maio de 2010

um ano

líria porto



falar não fala
diz com olhos mãos corpo
e busca o que precisa
com passinhos trôpegos



maria luiza cresce
rara e cheirosa como orquídea
:
flor do vovô sebastião



*

sofrimentos

líria porto

dias de dor
o tempo se alonga noite adentro
:
desejar morrer é compreensível
mas não morremos

*

domingo, 16 de maio de 2010

dominante

líria porto

bastante
antes depois durante
de um tanto sufocante
transbordante
a fazer cada instante
pesar como elefante

*

sábado, 15 de maio de 2010

desvario

líria porto

paixões arrebatam-nos
assemelhamo-nos aos terremotos
aluviões cataclismos martírios
delírios

tudo a um só tempo

*

sexta-feira, 14 de maio de 2010

mato é mato

líria porto

passarim bicou o grilo o seu verde o seu cri-cri
pobre grilo coitadinho nunca mais a luz
do dia

*

quinta-feira, 13 de maio de 2010

consultório

líria porto

doutor
a dor que sinto
uma chaga em cada poro

abre o coração minha senhora
sou todo ouvidos

*

quarta-feira, 12 de maio de 2010

arquivo

líria porto

manchas e rugas são mapas
onde o tempo registra
as jornadas

*

(r)evolução dos bichos

líria porto

trocaram ternos gravatas
por batas de algodão
deixaram crescer os pelos
esses profetas modernos
que levavam nas mochilas
paz e amor

*

terça-feira, 11 de maio de 2010

o visitante

líria porto

já o inverno me rodeia
tece sua teia branca
finca estaca lá na porta
entra por baixo das telhas
reclama lenha coberta
arranha-me a pele

eu quieta no meu canto
ele insiste pede leite
uma dose de conhaque
chá de cravo de canela
chocolate sopa quente
agasalho meias vela

o inverno veio cedo
com seus braços magricelas
respiração ofegante
pouco cabelo
misérias

*

le visiteur

déjà l´hiver m´entoure

tisse sa toile blanche
fiche pieu à la porte
se glisse sous les tuiles
réclame bois, couvre-lit
érafle ma peau

moi paisible dans mon coin
il insiste pour du lait
une gorgée de cognac
du thé d´oeillet, de cannelle
du chocolat, bouillon chaud
fourrures, bougies, bas de laine

l´hiver est venu de bonne heure
avec ses bras maigrelets
au souffle haletant
peu de cheveux
des misères

líria porto


(tradução para o francês de ademar ribeiro)

até certo ponto

líria porto

o tempo me deixou redonda
sem ponta sem quina sem atrito
e ninguém mais se machuca
:
a não ser que pise em mim

(daí eu empurro)

*

carnívora

líria porto

farejar teu ombro o pescoço
roçar-me nos teus bigodes
embrenhar-me pela tua boca
perder-me

e nunca nunca mais
abrir os olhos

*

domingo, 9 de maio de 2010

sem fronteiras

líria porto

: línguas não têm dono
cabem em todas as bocas

*

ascendência

líria porto

a vida nada me pede
pelo contrário ordena-me
: dá-me ou desce

à vida obedeço
e prossigo

e envelheço

*

herança

líria porto

meus velhos chinelos
macios como as mãos de minha mãe
tinham sumido

ontem achei os meus chinelos

no corpo tanto conforto passos seguros
na alma - a certeza dos chinelos velhos

*

não chores meu bem

líria porto

na pontinha dos pés
tão igual a bailarina
menininha estende o braço
tenta alcançar a lua
e fura o dedo na
estrela

*

triângulo

líria porto

fez um xale de tricô
como se tecesse versos

um afago para os ombros
no inverno - afetos

*

sábado, 8 de maio de 2010

folhetim

líria porto

eu quis mamãe colorida
cabeleira platinada
nas charretes tão bonita
quanto a zape ou a jussara

tivesse ela ancas largas
blusas leves com decote
requebrasse igual sarita
fosse o foco dos olhares

pobre mãe – sempre discreta
vestidos bege ou cinza
não tinha saias rodadas
e nem joelhos à vista

meus ocos sonhos vadios
eram bocas de batom
seria eu como elas
as mariposas da rua

(faltou-me capacidade)

*

um dia não vai funcionar

líria porto

todo ano
em janeiro
quando penso
minha morte
será neste
cruzo os dedos
e espero
dezembro

*

casadoira

líria porto

ainda que velha
caindo os pedaços
eu vou para a grécia
catar os meus cacos

e nua na praia
radiante de azul
de casas caiadas
eu vou mergulhar
num rochedo
de braços
morenos
e quebrar
muitos pratos

*

sexta-feira, 7 de maio de 2010

os olhos da coruja

líria porto

se pudessem proteger as crias
livrá-las das dores dos perigos

mães carregam o coração nas mãos
é sempre um susto

*

de transformar o sofrimento

líria porto

no inverno era pior
doíam-lhe os dedos os joelhos
as costas os braços as pernas
os pés
e quando lhe perguntávamos
como te sentes mãe
respondia-nos
:
no maior romantismo

*

tolerância

líria porto

quebrávamos castanhas nozes avelãs
nas junções das janelas e das portas

maria varria varria varria
mamãe acalmava-a
:
sossega maria deixa os meninos
hoje é natal

*

revertério

líria porto

para espantá-lo
precisou rasgar o verbo
pesar nas tintas

deu-se o contrário
: o amor é cego
e surdo e tolo

e egoísta

*

po_mar

líria porto

lavrar a terra
semear nela umas letras
deixar crescerem as palavras
florescerem os versos

se alguns frutificarem
devem amadurecer
e que a polpa do poema
alimente almas

*

quinta-feira, 6 de maio de 2010

coletânea

líria porto

guardo lágrimas em frascos de perfume
as saudades são muitas

*

urubu

líria porto

circula
sobrevoa
observa
aterrissa
e devora
a carniça

*

assobio

líria porto

flauta de vento
quando estou triste

*

andorinha

líria porto

a vida à toa às tontas
como manuel bandeira

*

paparazzi

líria porto

no rastro da estrela
um resto de luz
um rosto sem rugas
um riso um rato
um parasita

*

latifúndio itabirano

líria porto

pu_los ao peito
abracei-os beijei-os
senti-os à emoção dos três tomos
(obra completa de drummond)
ao rés da pele

felicidade é o caminho entre as pedras
o olhar pluvioso
os re_versos pendurados nas paredes
das retinas

fustigados

*

quarta-feira, 5 de maio de 2010

calma

líria porto

nenhuma outr'hora nenhuma aurora
foi lavanda tão lilás
                               tão derramada

a lua caminhava de pantufas

*

pecadores

líria porto

seu jeito ardoroso
inquieto arruaceiro
a banhar meu corpo
molhar-me o pescoço
cabelos ombros dorso
glúteos coxas pés
não sobra um pedaço
depois meu regaço
recolhe seu sonho
seu adormecer

*

madre

líria porto

a vida nada lhe deve
recebeu o seu quinhão
teve sol força sementes
pode plantar e (a)colher

*

terça-feira, 4 de maio de 2010

na semente mora a floresta

líria porto

velha árvore
assisto à minha sombra
a conversa animada das filhas
e o revoar entre as galhas
de maria luiza - minha
maritaquinha

*

não choro seu corpo

líria porto

fabiano nasceu morto
que sina desse menino
nem bem podia ter asas
já era anjo

subiu ligeiro pro céu
voou do ventre da mãe
foi tomar conta do espaço
olhar de lá por nós outros

*

segunda-feira, 3 de maio de 2010

adolescentes

líria porto

magrelos
feinhos
de óculos
e nós
nus
amávamo-nos
um nu
noutro

*

in_continente

líria porto

os rios saídos dos olhos
são rios sem peixes
nascidos no amar

amor meu amor não me deixes
sem ti sou areia e o vento
é voraz

o sal da saudade é amargo
é um fardo de morte morrida
ou matada

*

domingo, 2 de maio de 2010

pré-munição

líria porto

recanto do galo
eu falo eu falo
o rifle apontado
gargalo da noite
um galo outro galo
e outro e outro
colar de disparos
na boca de fumo

acordo assustada
a lua apagada
coitada coitada
vai pôr pé na estrada
a vida é uma sorte
e a morte não sabe
por onde caminha

*

sobrevivente

líria porto

a poesia voltou
espia-me por uma fresta

o céu está azul
o sol redondo
a vida dá o tom

mãos à máxima

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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