domingo, 31 de janeiro de 2010

ego

líria porto

eu de mim não me queria
minhas grandes inconstâncias
minhas tantas insolências
meu saltitar cansativo
e de mim quase abortei

então de mim fui ficando
fui gostando dessa mim
acomodando-me as beiras
e se eiras eu não tinha
agora tenho

eu de mim já muito quero
pus-me à frente em minha fila
mas porém sem holofote
dessa luz eu não preciso
tenho eu clarão de mim

*

encruzilhada

líria porto

eu ando assim resumida
fogo de palha graveto
meu verso vive nos guetos
misto de fumaça e cinza

o que escrevo não gravo
minhas letras se desfazem
parece foram lambidas
pela língua do diabo

caneta e tinta secaram
engoli toda a saliva
agora diz-me o cansaço
é olho gordo ou feitiço?

*

sábado, 30 de janeiro de 2010

miragem

líria porto

terrível amar as sombras
os fantasmas as ausências
abraçar o vazio

*

a lenda da lia esplêndida e da lua desalmada

líria porto

lia nasceu branquinha
em noite de lua clara

desde muito pequenina
quando olhava para cima
lia achava a lua linda
então lia lhe falava – vem

a lua não vinha

passaram-se muitos anos
lia nunca desistiu
toda vez que viu a lua
acenou e repetiu – vem

a lua não vinha

um dia lia velhinha
cabelos da cor da lua
a pele fina enrugada
ouviu a lua dizer – vem

e lia virou estrela

*

irracional

líria porto

arrasem-se os erres - eu morro
arredem meu horror
enterrem-me

e das torres corrijam-me os erros
esparramem os torrões
de terra

(vivi às turras)

*

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

o casarão

líria porto

os quartos
as quatro bocas satisfeitas
os quatro risos fartos
as oitocentas opiniões

a cada pássaro que voava
ficava a imensidão
a saudade impregnada
nos espaços

) mudei-me
e no silêncio do casulo
desenho nas paredes
os nossos pares de asas (

*

resgate

líria porto

sou refém da lua cheia
ela entra pelo quarto
conhece-me os beijos
os cheiros guardados
as sombras e crateras
do meu cativeiro

sou refém da meia-lua
ela me sabe os pedaços
as tristezas os segredos
invade-me à madrugada
assiste o amor arder
sem endereço

sou refém de mim
a lua é pretexto

*

compulsão

líria porto

escrever é desatino
não sei se sábio se tolo
palavras enclausuradas
são a causa do transtorno

acomodar-me é custoso
caminho na contramão
preciso de muita água
eu tenho febre malsã

joguei a corda a caçamba
toquei no fundo do poço
talvez eu fique e me afogue
faça fumaça sem fogo

*

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

a philha

líria porto

os olhos de orvalho do meu velho
– vermelhos – olham-me 
do espelho

dna
herança
reflexo

*

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

tropeço na voz de minha mãe

líria porto

faz os deveres vai tomar banho
é hora de dormir escova os dentes
penteia os cabelos desce daí
não não podes
ou
vamos à casa da vovó fiz doce de leite
amanhã é teu aniversário trouxe teu presente
fiquei feliz quando nasceste
dá-me um beijo
:
muita vez odiei minha mãe
noutras a amei tanto
que tive medo
de mim

*

comi a aurora

líria porto

meu sangue ficou azul
de beijar o sol na boca
e a lua na nuca

*

sujeira

líria porto

presos nas pontas dos dedos
os versos não se desprendem
fincam debaixo das unhas

*

acorde

líria porto

rita moça prendada
não achava casamento
(violino)

dora cabeça de vento
tinha quatro pretendentes
(violão)

*

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

plagiando lúcio


líria porto

à la putcha pasqualito
a guria - prenda formosa
flor de açucena na beira
da sanga

*



*

gracias

líria porto

à vida não peço
da vida recebo de braços abertos
agradeço  –  e pago com a mesma
moeda

*

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

tempo quente

líria porto

o céu se zanga fala grosso
estala o chicote e a nuvem
chora como criança

*

advérbios

líria porto

vivia numa espelunca
sempre trazia-lhe presentes
então nunca ficou quase
e assim o seu tão pouco
virou muito tanto
ou mais

todo não agora
é sim

*

regime

líria porto

segunda-feira é dia
de boas intenções
e de vontade
fraca

(segunda-feira é dia
de ressaca)

*

domingo, 24 de janeiro de 2010

fogueiras

líria porto

as labaredas os vulcões o desejo
os batons vermelhos e os morenos
chamados juan

*

pesadelo

líria porto

naquele capítulo
di_versos ridículos
faziam-me sombra

faltavam estrelas
sobravam-me abelhas
lá dentro das fronhas

então me acordavam
secavam-me a tinta
rasgavam os papéis

no meio do apito
buscavam silêncio
em nada específico

expunham com sangue
na cor do martírio
a força do pânico

(fechei bem os olhos
porém não dormi)

*

milagres

líria porto

nossos dedos
brinquedos dos deuses
como abelhas ou aranhas
transformam as coisas mais simples
em obras de arte

*

chumbo grosso

líria porto

a lua recebe marte
e o sol se desespera
insiste em ficar quieto
com a cabeça coberta

eu posso entender a lua
desfazer o compromisso
em tanto tempo de espera
passou a vida solita

não inventei esta história
eu vi marte e lua juntos
quando acordei madrugada
havia risos e arrulhos

depois ao amanhecer
o céu estava nublado
concluí - a fêmea deu
tiro certeiro no macho

(eu vou levar guarda-chuva)

*

(in)domável

líria porto

filho é bicho (in)dócil
nem chicote nem espora

é preciso tato
(beijo e melado)

*

amontanhado

líria porto

o poeta nasce velho
fala coisas estranhas
só depois ele adolesce
e com o passar dos anos
do vento
acrescenta-se

vira menino

*

sábado, 23 de janeiro de 2010

descuido

líria porto

quando a noite veio e tu não vieste
pousei o corpo em desalinho
no linho da cama que não arrumei

*

estéril

líria porto

a minha fonte secou
só te peço um copo d'água
não há um pingo de orvalho
vida poeira essa vida

não há flores no jardim
murcharam-se-me as palavras
o riso se evaporou
ficou tão crespa minha alma

plantara tanta ilusão
meus sonhos se desfolharam
já chorei todas as lágrimas
meus olhos ardem – coitados

reclamo um pouco de tudo
e só me resta a mortalha
embrulhada num cantinho
da prateleira do nada

*

cefaleia

líria porto

quando fico ácida
sai de baixo

fica sobre meu corpo
e faz os movimentos
até que eu me esqueça
da dor de cabeça

*

ímpio

líria porto

escuto o silêncio de mãos postas
à espera de um ser que não existe
rezo uma oração (di/agnóstico)
a/teu coração - ó deus em riste

*

ressurreição

líria porto

desmorrer é difícil – é saltar do fundo
para a superfície

*

pegadas

líria porto

o risco no céu
e um pássaro de aço puxa-me o olhar
para marte

*

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

inquietação

líria porto

meu pezinho de limão
nem ainda adolesceu
cobriu-se de espinhos

será que vai entender
quando o corpo pequenino
produzir acidez?

*

impotência

líria porto

arrogâncias
insolências
petulâncias
prepotências
tantas ânsias
e carências
como baldes
de água fria

*

a lamber embira

líria porto

não quer pouco
muito antes pelo contrário
quer de um tudo
e algo mais

*

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

invasão

líria porto

sem que possas peças
sem que o queiras
surge um ser um gesto
um olho verde
e antes de qualquer aviso
penetra pelas tuas margens
preenche teus vãos
tuas brechas
tua resistência

*

habite-se

líria porto

nós somos nossa morada
e conforme estejamos
um palácio um casebre
pequena água-furtada
rodeados de nós mesmos
sentimo-nos confiantes
ou desabitados

*

ainda

líria porto


nossos corpos se entrelaçavam – negamos os fatos o afeto
e a sombra que hoje te segue é a sombra antiga
que me acompanhava


*



motel

líria porto

nos quartos minguantes
camas brancas e redondas
como a lua cheia

*

me_teóricos

líria porto

existimos para poucos
seis gerações no máximo
as dos nossos pais e avós
a nossa própria geração
as dos nossos filhos/sobrinhos
netos e bisnetos
não mais

em cartas poemas lembranças
objetos histórias árvores
deixaremos marcas?

*

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

adiamentos

líria porto

a lua esperava o sol
redonda um talismã
quando ela se despiu
ficou de manhã

o sol lambia a lua
o meio o lado as beiras
lamberia a face oculta
a nuvem veio

só amanhã

*

ceia

líria porto

os restos mortais da barata
levados pelas formigas
em piedoso cortejo
serão servidos em bifes
cozidos ou à bolonhesa?

*

ócio

líria porto

quão bom é dormir
numa cama à toa

igual a canoa 
a alisar o rio

a nos transportar
para a outra margem

a sentir no dorso 
o frescor da brisa

o corpo do amado
o amor o cio

*

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

fogo-fátuo

líria porto

paixões infinitas
incendeiam-nos
avassalam-nos

depois deixam cinzas
guimbas e pigarros

*

olha a garoa

líria porto

amanheceu chuva fina
acabou-se a aguaceira
agora nossa senhora
coa nuvem na peneira

a minha serra cheirosa
vestiu manto de neblina
com roupa tão vaporosa
parece moça menina

mantém os olhos abertos
sem cortina sem vidraça
a vida é boa é bela
não a vês? - a vida passa

*

estados de espírito

líria porto

verdes frondosos imperturbáveis
como grandes árvores

de repente
dependentes amarelos sufocantes
ervas de passarinho

*

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

reza de sétimo dia

líria porto

de mim não sabes metade
nenhum terço
e no escuro do quarto
onde pensas que me tens
requinto-me
:
amores ao cesto
e no sábado
enforco a missa

*

estreia

líria porto

é do estilo das estrelas
estarem estonteantes

*

reverência

líria porto

quem teve a primeira ideia
de pintar o céu de azul
semear nele umas nuvens
desfiar depois a chuva
colorir o chão de flores
lindos tons vário o verde
luz no sol branco na lua
sete cores no arco-íris
brilho em toda estrela
sem usar papel nem tinta
deslumbra-me

*

ao velho combatente

líria porto

se não me falha a memória
(e ela é bolha)
espalhei muita brasa

agora espelho
carvão

*

perdulária

líria porto

disso tenho pena
desperdiço vida
:
se fosse sabida
usava medidas
exatas

*

domingo, 17 de janeiro de 2010

poema da tua ausência

líria porto

o meu passo oco
em teu quarto oco
e existe um oco
dentro do meu peito

abro teu armário
está quase oco
sinto este sufoco
escavar meu peito

olho tua foto
tão plena de riso
vem esta saudade
amassar meu peito

meu olhar tão oco
pleno de sem jeito
a pedir que venhas
preencher meu peito

*





tambores

líria porto

milton minério
nascimento pássaro
caçador de min(as)

*

minhas rimas pobres

líria porto

quão fora eu sem recato
sem timidez atrevida

atirar-me em teus braços
melhor nem tivesses ido

cobriste com tua pele
meu velho corpo ferido

de ti fiquei tatuada
como se fosse um tecido

depois partiste e eu sem nada
vivi invernos seguidos

*

sem nenhuma poesia

líria porto

gás comprimido à altura da cintura
flatos arrotos arrepios confundem o quadro
seja infarto coluna intestino - não o rim
meu filho único

(foi-se o outro
o ingrato)

*

sábado, 16 de janeiro de 2010

réchaud

líria porto

cheiro de chuva de chão de riacho
achego-me ao macho para o chá
o aconchego
:
a chama chamusca o rochedo

*

embornal

líria porto

eita vidinha capenga
a transportar na cacunda
esta vontade molenga
esta saudade iracunda

*

reviver

líria porto

minha cara não te eclipses
em todos nós há crateras
a inércia faz escaras
escancara nossas vísceras
quando a vida se esfacela
vão-se os louros
                 e os morenos

*

s.o.s

líria porto

tinha um país
houve uma guerra
a terra tremeu

morte dor fome
sede sofrimento
escombros

(deus é brasileiro
podia ter ido
com o exército)

*

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

conheço meu coração

líria porto

suponha que houvesse um beijo um abraço
um toque de mão um olhar demorado
e o insensato decidisse incendiar-nos

passamos da idade de saltar dos trapézios
equilibrar-nos em arames com sombrinhas de frevo
brincar de atiradores de facas

*

descarrilado

líria porto

o cargueiro leva ferro
leva ouro camuflado
dessas minas onde homens
valem menos que minério

passa passa passa passa

pasto

*

gira pião

líria porto

a lua doida de pedra
arranca a roupa desnuda-se
revela em minha janela
a sua casa noturna
sorri pra mim ri de mim
coitado pobre poeta
não durmo mais eu não durmo
os olhos grudados nela
os sentimentos pululam

ai lua lua tão bela
ai lua minha translúcida
por ti troquei meio mar
por ti perdi meio mundo
o meu juízo trafega
nestas sequelas distúrbios
quando eu morrer me carrega
esconde-me nas tuas curvas
é que te amo te quero

(mi corazón arde en cuba)

*

urgências

líria porto

não carece outro amor
precisa é de um quilo de feijão
de um pouco de pão e leite

os meninos não comem desde ontem
e a pensão alimentícia só vem
no fim do mês

*

limiar

líria porto

aonde foi o meu verso
estava aqui ainda há pouco

depois passou um poeta
canário bico de ouro

eu ando meio calado
a minha voz ficou rouca

quem sabe fugiram juntos
foram cantar para a moura

a dona dos olhos tardos
a musa de tantos loucos

*

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

consolo

líria porto

oh flor de azevinho
as rugas na testa
traduzem aflição
anseios temores
pois dorme tranquila
vovó tem poderes
cozinha num tacho
bigodes de rato
pestanas de pulga
chocalho de cobra
perninhas de aranha
besouros baratas
sapos e lagartos
faz forte poção
e dá para os monstros
pros ogros diabos
não sobra na terra
nenhuma maldade
prometo

florzinha não chores
vovó fica alerta
enquanto houver
treva

*

(na)valha-me deus

líria porto

caminho pelos contrários
só vou aonde não devo
escolho lados errados
sou apanhado bêbado
distraio-me  tropeço
caio

céus  perigo para mim
e o mundo

*

kahlo-me

líria porto

aparentemente inerte
a pedra espera
e sente

frida ao meio-dia
à meia-noite fervente
a pedra dentro da pele

*


quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

desfecho

líria porto

tirana me aguarda
vestida de treva
a foice afiada

olho-a rio
desfio uma palha
acendo a cigarrilha

) não arrumei amá-la
que espere (

*

a cofiar os bigodes

líria porto

o frio olhar puxa o fio
contrário à ponta da agulha
no ponto da dúvida
um nó

o ovo ou a galinha?

o bico da caneta
qual dedo de deus
decide os destinos

e o pão dos meninos?

*

tanto mar

líria porto

azul azul azul
a jogar-se nas pedras a roçar a areia a balouçar
a bramir canções de espuma

*

à boca-pequena

líria porto

as filhas de antônio pio
esmeralda e almerinda
uma feia outra linda
são gêmeas

esmeralda se casou
almerinda ficou para titia

rimar não é o bastante
é preciso ser interessante

*

artista

líria porto

retas encurvam-se
curvas se alinham
quem traçou à perfeição
o arco-íris?

*


panfleto

líria porto

palavras no papel
não determinam
o papel das palavras

melhor seria
uma folha branca
cuja dobradura
fizesse um menino
sair para a rua

*

nos degraus da febre

líria porto

estourei os lábios sangrei as gengivas
arranhei a pele fervi dentro das veias
fiquei em carne viva
:
a sorte é que choveu

*

ao alvorecer

líria porto

mal abre os olhos
fica a ouvir a passarada
então os versos perfilam-se
marcham como
o sol_dado

*

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

máquinas de moer

líria porto

feriados prolongados
corpos corpos corpos
na estrada
:
almôndegas

*

i.p.t.último

líria porto

pobre só tem paz
na sepultura

*

diabos

líria porto

já não se faz espelhos como antigamente
eu olho vasculho procuro por todo canto
e não encontro a mocinha de batom

*

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

gado

líria porto

o tempo tem seu tempo  às vezes galopa
às vezes empaca como o boi
e a vaca

*

na fila dos velhos

líria porto

os passos são lentos
o entendimento

tropeça-se em números
em teclas

em recordações

*

a_manhã pode ser tarde

líria porto

meia-noite morre o dia
morre um e morre outro
e outro e outro e outro
e mais dia menos dia
eis que sou o novo
morto

*

sem manteiga

líria porto

beleza não põe mesa - quem põe é feiúra
a sofrer as agruras do preconceito
a comer o pão que madame amassou

*

domingo, 10 de janeiro de 2010

alumbramento

líria porto

o raio de sol
igual um punhal
feriu o azul
o beiral do céu

oh virgens vestais
vim vi e vivi
o voo no vinho
valeu desvarios

vertigem arrebol
palavras tão lindas
caíram-me ao colo

um susto  refaço-me
desmalho a neblina que havia
em meus olhos

*

vou escrever nas paredes

líria porto

minhas janelas são alegres
e só ficam tristes
quando chove

as portas são sérias
não se abrem para qualquer um

*

atrás do morro tem um moço

líria porto

ele não me dá bola
gosta de brincar é com bonecas

*

a fome é feia

líria porto

fraturou o fêmur
faltou feijão e farinha
ficou enfermo

*

cabeça quente

líria porto

meio-dia
o sol finca como um prego
mas não ilumina
as ideias

*

mãe de santo

líria porto

entre as meninas um menino
ele caminha e resmunga
:
mãe eu parti
vim embora para que nunca
em tempo algum
pudesses implicar com tua nora

casei-me com santa
do pau oco

*

colírio

líria porto

à meia-noite
as estrelas pingam
em meu olho

*

acordei com carlos d.

líria porto

no meio da cama tinha uma pena
e um anjo torto

a bunda - que engraçada

(nasci porto - se cais
ancoro-te)

fulano mata
             fulana é mito

*

sábado, 9 de janeiro de 2010

a b c

líria porto

abóbora batata chuchu
qualquer dia faço sopa
de letrinhas

*

altos e baixos

líria porto

por mais que o tempo passe
sentimo-nos velhos quando a alma murcha
ontem dormi com cem anos hoje acordei
com trinta

*

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

pés no chão

líria porto

a lua no alto
o gato a lamber os bigodes
a sonhar com um prato de leite

vou à janela
e sem ilusão
vejo o satélite

*

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

amigo

líria porto

arrumei a cama abri a janela plantei flores azuis
amornei a água perfumei os cabelos há gavetas para a tua dor
cabides para pendurar o medo e se quiseres
terás novo cobertor

podes trazer o gato o teclado os velhos chinelos
os discos de jazz o amor o cansaço
estou à tua espera

*

pico

líria porto

atado às origens
um pássaro estende a montanha
na direção das nuvens

*

brasileirinhos

líria porto

o que há de mestiçagem
no sangue dessa minha boa gente
só deus sabe

brancos vermelhos pretos amarelos
formam o grande povo

*

prece

líria porto

quando a vida se faz noite
eu durmo de lua acesa
a iluminar os meus medos
a enfrentar minhas sombras
a esperar que amanheça

lua cheia padroeira
benfazeja minha santa
clareia-me as trevas
dá-me coragem
substância

*

sangria

líria porto

dentro da pele
tudo que somos
fora da pele
o que fingimos
cortar os pulsos
talvez resolva
volver o suco
dessa ruína

*

medusa

líria porto

execrável como os medos
ódios misérias injúrias
a megalópole se expande
assusta-nos mais que o demo
mastiga-nos cospe-nos
transforma-nos
em disforme pasta urbana

*

sem eiras nem beiras

líria porto

palavras bonitas - subúrbio
arrebalde cercanias cascalho

) caminhar pelos arredores
apreciar as flores nascidas entre
as pedras (

*

madame noite

líria porto

sem escrúpulo
sem cabimento
após o crepúsculo
veste roupa escura
ostenta brilhantes
perfumes amantes
luxúria

*

remanso

líria porto

um cisco
pisco

o ramo
o remo
a rima
o romance
o rumo

*

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

resfriado

líria porto

chateia-me chegares chuvoso
queria raios de sol
(febres?)
chás de frutas cítricas
incêndios íntimos
(beijos na boca?)
torradas de pão com geleia
sopa creme de aspargos

*

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

pingente

líria porto

lágrima - sem força para cair
pendurou-se no cordão

*

andarilho

líria porto

minha casa é onde durmo
um colchão um travesseiro
fecho os olhos nem pergunto
se o chão é estrangeiro

*

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

luane

líria porto

a lua me roça
a roça me alua

adoça-me moça
coça-me

sua-me

*

domingo, 3 de janeiro de 2010

revolta

líria porto

o que nos revolve
não se resolve com revólver
nem com faca

*

vingança

líria porto

são mais eficazes
atitudes frias

servir a entrada
o prato principal
o vinho
a sobremesa

finalmente
na hora da (in)digestão
copinhos de licor
com cianureto

*

sábado, 2 de janeiro de 2010

poema para o amigo que se foi

líria porto

primeiro mês
o sol não veio
a lua não apareceu
ficamos todos recolhidos
chovemos

manhã qualquer o céu terá
a cor dos seus olhos

*

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

flores-de-laranjeira

líria porto

o casamento é um cento de laranjas
doces azedas verdes e maduras

) uma podre estraga tudo (

*

quem se arrisca
rompe a risca entre o chão
e a areia movediça
*
(líria porto)
*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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