domingo, 30 de setembro de 2012

dependência

líria porto

preciso livrar-me dela
mas não quero
             nem consigo
:
poesia é vício

*

asa de passarinho

líria porto

efêmera porém tão bela
a que me leva ao sono
ao sonho louco – ultraleve
que sonho por breve tempo
até que o vento me leve

*

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

hostil

líria porto

o corpo perde o prumo balança tropeça cai
esfola a pele o joelho estoura a barra da saia

pior que o tombo - o susto
a reação do vizinho o seu risinho
de escárnio

*

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

pouco caso

líria porto

teu desdém mal tocou o meu corpo
mas feriu minha alma deixou-a
com hematomas

*

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

brotos

líria porto

o verde voltou e com ele
a certeza de dias mais leves
mais suaves sem a mão pesada
da seca e do corpo suado

*

é

líria porto

o espelho não mentia
ela tinha consciência
da sua aparência externa

feiosa e arredia
meteu a cara nos livros
formou-se com honra ao mérito

as primas ricas bonitas
com suas vidas medíocres
ainda morrem de inveja

*

terça-feira, 25 de setembro de 2012

exaustão

líria porto

quanto mais caminhas
mais se distanciam os horizontes
e as musas

*

das incompletudes

líria porto

a metade da laranja
quem quiser fique à vontade
eu quero laranja inteira
ou então não quero nada

*

caríssimo

líria porto

nenhum botão liga/desliga um sentimento
então eu lamento – voltamos a falar-nos
quando o tempo curar a ferida

*

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

forca

líria porto

o verso que falo tira-me o fôlego
o verso que calo quebra
meu pescoço

*

reação

líria porto

agora ninguém me amassa
o que passou já passou
eu tenho asas
coragem
preparo o próximo voo

*

domingo, 23 de setembro de 2012

complexo

líria porto

a arrogância é o disfarce de quem
é pequeno e não consegue crescer

*

sábado, 22 de setembro de 2012

des_cuida

líria porto

tropeça na poesia e cai de boca
na boca do povo

*

crítica

líria porto

muita nem pouca
do exato tamanho da nossa
(in)significância

*

partida

líria porto

palavras duras – de inverno
inundaram-me de tristeza
porém livraram-me a vida
dos dias cinzentos

ainda me recupero
e dentro em pouco terei
as flores da primavera
as alegrias inteiras

*

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

mudança


líria porto

virou-me as costas não olhou para trás
acaso volte não me peça para eu ser a mesma
o amor se esgota

*

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

in_sensível

líria porto

estendo a mão
e o outro lado da cama
é frio como pedra

rolo meu corpo
tento aquecer o outro lado
meu corpo gela

*

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

na ponta dos pés

líria porto

existe uma chance a porta entreaberta
até quando não sei – pode ser que amanhã
eu me ponha fora de alcance

quero as chaves do céu

*

terça-feira, 18 de setembro de 2012

parede

líria porto

lembra-te – és pó
(disso eu não me esqueço)
então eu não choro mais
pois lama já é demais

*

apoio

líria porto

adormeço agarrada à minha sombra
quem sonha sou – ela tem pesadelos

*

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

fênix

líria porto

sentimo-nos um nada um verme um zero à esquerda
até descobrimos que quem nos despreza fá-lo por pequeno
e não nos merece
:
levantamo-nos – primeiro a cabeça
o pescoço o dorso e pomo-nos de pé
para os primeiros passos

então voamos sem o peso
do remorso

*

domingo, 16 de setembro de 2012

performance

líria porto

a poesia não precisa do teu corpo
a poesia não precisa da tua voz
nem ao menos necessita
do teu verso

um poeta não precisa
ser ator

*

soluços

líria porto

primeiro o silêncio
depois ouviu-se o choro
como uma golfada
um vômito
                 de tristeza

*

sábado, 15 de setembro de 2012

aterrissagem

líria porto

em pouco voo estou quase
:
debaixo da terra um outro lugar
outra possibilidade?

seja o que for diverti-me à beça

*

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

vazios

líria porto

o que falta
salta aos olhos
o que sobra
ninguém vê
se não fôssemos
tão ingratos
estaríamos
bem felizes
com metade
do que temos
:
somos ricos
somos miseráveis

*



quinta-feira, 13 de setembro de 2012

entalo

líria porto

o mormaço as nuvens a poeira a dúvida
de repente um empurrão um susto
e tudo vai por água abaixo

*

terça-feira, 11 de setembro de 2012

delicadeza

líria porto

diferente do coração
eu não sei bater nem apanhar
então meu bem chega manso
roça-me o peito
                sem cavoucá-lo

*

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

tu

líria porto

volúvel como a trepadeira
ou um pé de chuchu

*

tapete

líria porto

aos pés do ipê
flores que não suportaram
o peso da beleza

*

domingo, 9 de setembro de 2012

sustentação

líria porto

voo como um pelicano – bato as asas plano
aproveito o ar da corrente para me sentir livre
dono absoluto do meu bico

*

a dor

líria porto

e não é dor na pele nos nervos nos músculos ou nas vísceras
nem dor de amor de saudade ou dor de ausência – a dor é profunda
e generalizada

brota dentro do esqueleto (no cerne de cada osso) atravessa-o
transpassa os órgãos chega às pontas dos cabelos dos pelos dos cílios das unhas
e dói mais que a dor do mundo

reveste o corpo a alma preenche-os
é dor concreta inevitável é dor de poeta
esse ser exagerado

*

sábado, 8 de setembro de 2012

ponto final

líria porto

quem vai banhar meu velho corpo
alimentar-me limpar os meus restos
quando eu não puder?
:
combinei comigo – meu último suspiro
será muito antes

*

toda verdade tem um fundo de verdade

a viagem

líria porto

a lua saía do chão
e a menina  acelera pai vai rápido
aproveita a lua aberta

*

sigilo

líria porto

grito calado
silêncio agudo
pedras não falam
escutam

*

féretro

líria porto

é hora de fechar os olhos
despedir do mundo deitar numa cova
e deixar que um corvo conte
a nossa história

*

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

lá vou eu

líria porto

tigres rugem no meu peito
gatos ronronam – não me dão
trégua

adeus viola violão gaita de fole
adeus terra

*

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

tripé

líria porto

sustentam relações duradouras
os que aceitam ficar à sombra
(as esposas por exemplo)

*

terça-feira, 4 de setembro de 2012

pé na cova

líria porto

cansaço quase abissal
deitou sobre a própria sombra
e não moveu mais um dedo

então a tosse atacou-o
assolou-lhe o peito as costas
como um disparo de pólvora

passada a crise o seu corpo
(a pele os ossos a soberba)
aquietou o esqueleto

*

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

acne

líria porto

vontade de me casar
eu juro de pés juntos disso eu não sofro
sou doida mas nem tanto só pode ser
outra coisa

(rosácea - doença de pétala branca)

*

a termo

líria porto

nasce a primavera
e não temos chuva
para a mamadeira

*

eternidade

líria porto

nosso amor  amor  é para lá do além
onde ninguém sabe onde

*

espelho

líria porto

quanto mais perto da estrela
mais risco de queimadura
por isso prefiro a lua –– o afresco
da luz

*

campa

líria porto

a vida é grávida a morte abrupta
e entre agudos e graves
um juiz apita

*

domingo, 2 de setembro de 2012

tempos bicudos

líria porto

madame natureza  estilista renomada
usa sobras de tecido dos fraques dos pinguins
para vestir andorinhas com trajes
de gala

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

Arquivo do blog