quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

(af)lição

líria porto

curva após curva
o corpo se recompõe

não por coragem
por necessidade

a vi(d)a é sem retorno

*

extravio

líria porto

ter um amor e não sê-lo
qual envelope sem selo
conduz a lugar nenhum

a vida cobra com juro
por isso sei desconjuro
o desamor

*

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

unilateral

líria porto

amor sem asas é condenação à pena capital

*

(des)entendimentos

líria porto

a chuva encharca o brejo
sapos coaxam por cima
corações germinam faz séculos
desfaço-me entre os seixos
espaço há o das mágoas
bem no âmago das pedras

palavras não têm chave
silêncio é sinal de término
e o tempo se acelera
em dias que nos amassam
:
estou a sentir-me velha

*

consumição

líria porto

descuidados os sonhos os projetos
enveredamo-nos pelas trevas
reviramo-nos para o lado
dos tropeços

horror a espelhos olhos vermelhos
nós nos entornamos fora
esgota-se-nos a vida pelos poros
sequer ensaiamos novos passos

*

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

falastrão

líria porto

falo do homem
sua fala estúpida
fá-lo imp(r)udente

*

infinitivo

líria porto

navegar
flutuar sobre as ondas
balouçar
ancorar no profundo dos teus olhos
submergir
expirar
ter paz

*

menino do sino

líria porto

joão vai chegar

os nossos braços vazios
serão o colchão macio

joão vai reinar

na rima no estribilho
em minha filha e teu filho

joão vai chegar

aporta na tua aorta
escapa pra minha horta

joão vai reinar

*

sábado, 26 de dezembro de 2009

peão

líria porto

é de telha de amianto
o quarto do tal caboclo
lá dentro um calor louco
cá fora o desencanto

as paredes sem reboco
a baixa cerca de arame
no almoço pão com salame
na janta sopa com osso

essa tristeza arrastada
essa vontade enrustida
são calos na sua alma
no espinheiro de vida

sonhar não pode não sabe
dorme no fundo do copo
assim se esquece da mágoa
e dos flagelos do corpo

*

sem noção

líria porto

a fúria desenfreada
faz o rio derramar

eu não rio da desgraça
rio é rio mar é mar

*

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

sacos de linhagem

líria porto

no avesso da seda
nós
da idade média

aparências
enganam
a nobreza

) chita é infeliz
no shopping (

*

abandono

líria porto

esconde o inverno
no interno das coxas

*

vaudeville

líria porto

o vulto envolto em voile
vagava em volta do vinho
vício vertigem veleidade
ou vovó em vias
de vômito?

*

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

disposição

líria porto

acordar de madrugada
para ver o céu mudar
de escuro a azulão
arroxeado lilás
e chegar pé ante pé
aos tons da manhã

de lambuja ouvir os galos
os passarinhos os cães
as crianças buliçosas
de camisolas pijamas
ainda tontas de sono
(o amor no outro lado da cama)

tomar um banho um café
e já ter o dia ganho
pouco importa o que houver
no tempo no trânsito no trampo
no azedume do chefe
na tarde morna

(ao final do expediente
correr pra casa)

*

risco

líria porto

de olhar as abas do sol
cozinhou as pupilas

*

c'est fini

líria porto

as tralhas traças lembranças
por cima por uma pedra
e escrever au revoir

*

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

poema antigo para nina rizzi

líria porto

o ipê secou
mas numa das galhas
havia flores

(deus não abandona as árvores

que deus?
:
um que ria das dores e chore
de alegria)

*

proteção

líria porto

poderoso –– um penhasco
o pai olha o filho e ordena
passa aqui menino

o garoto
veloz como o vento
esconde-se atrás da avó

*

caim caim

líria porto

um grande um pequeno
coragem em pé de igualdade

no entanto
            tamanho é documento

*

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

pressa

líria porto

desce a ladeira
faz zigue-zague
tropeça nas pedras
mergulha no abismo
tem sede de mar
de sereia
de sal

ô rio moleque
sem breque
nem olha
pra trás

*

zequinha

líria porto

não tem jeito mais carinhoso de reduzir alguém
que o colocar exatamente no tamanho
de um apelido

*

domingo, 20 de dezembro de 2009

mãe

líria porto

se todos me pudessem ver
do jeito que ela me via

filhos não têm defeitos
são bons bonitos perfeitos

que pena - nem o espelho
tem seus olhos de magia

*

parafuso

líria porto

tudo gira
estou num barco
à deriva

não tenho eixo
nem âncora

*

conchas

líria porto

é a coisa mais linda
carregar água na folha
d’inhame

imagina u'a mãe
a levar no colo
o recém-nascido
ou um ninho pequeno
com três filhotes
abrindo os bicos

é tão lindo quanto

*

derrama

líria porto

de dentro pra fora de fora pra dentro
atravessa a fresta pula a janela
passa debaixo da porta
:
a luz não cabe onde mora
(nem o amor)

*

sábado, 19 de dezembro de 2009

quarto minguante

líria porto

se eu ficar quieta
a olhar o teto
não me atrapalhes

pode ser que esteja
a pensar nas vezes
que me dispensavas

*

desnutrido

líria porto

o amor morreu
sinto pena
há muito agonizava
melhor sepultá-lo hoje
rezar pela sua alma
enterrá-lo a sete palmos
regá-lo com nossas lágrimas
quem sabe nasce uma flor
amor-perfeito
saudade

*

dívidas

líria porto

o céu despenca
quando não é sol é chuva
:
nascem como pés de avenca
ora dádivas ora dúvidas

*

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

de chuva e chão

líria porto

limo no tronco da árvore
carinho nos aveluda

*

moita

líria porto

queres mesmo vir  pois chega inteiro
não tragas do teu mundo tantos vínculos
nem me trates por judith ou por marília

há coisas que emputecem as mulheres
causam-lhes queimaduras e feridas
são piores bem piores
que águas-vivas

*

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

passageiros

líria porto

embarcamos sem saber
para rumo ignorado

o trem segue pelos trilhos
sequer trouxemos bagagem

da infância à velhice
tão pequenino o atalho

num de repente o apito
já se faz tarde – neblino

é hora do desembarque

*

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

o diabo já foi anjo

líria porto

pelos pecadinhos alvos
ou pelo breu dos pecados
podemos ser condenados
ao furor do inferno

porém os pecados rubros
encarnados de sem lei
de luxúria de desejo
estes nos levam ao céu
:
eu sei tu sabes
queremos

*

língua de trapo

líria porto

no (o)culto daquela santa
abriga-se um ser infame
a vasculhar nossas vidas
infiltrar-se em cada canto
assuntar com falso tampo
as nossas falhas
                       deslizes

acaso nada consiga
engendra casos intrigas
espalha-os à vizinhança

*

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

cuspiu no prato

líria porto

o cílio nasceu errado
virado furava o olho

o filho nasceu errado
ingrato feria a mãe

o mundo – esse quadrado
coalhado de desenganos

*

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

anoitecemos

líria porto

ante o crepúsculo
sem nos olhar fitávamos
o horizonte

*

domingo, 13 de dezembro de 2009

cambada

líria porto

onde caibo cabem meus amigos
e ao cabo – estamos todos
fritos

*

sábado, 12 de dezembro de 2009

desisto

líria porto

tento tanto tanto tento
e sem nenhum talento
insisto no assunto
:
sinto ter chegado a esse ponto

*

pesadelo

líria porto

vinha como curupira
em passos contrários

diluídos em lágrimas
os sonhos molhavam-lhe
os nervos

*

professora ellena

líria porto

sabia pôr as palavras
uma por uma
com ou sem acento
em cem assentos macios
até que elas
sábias como os sabiás
alçassem voo

*

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

castigo

líria porto

cada qual tem uma cruz e a carrega
de acordo com sua culpa e motivos
muita vez junto da cruz há o remorso
ponta de espinho na garganta
de um omisso

*

neuras

líria porto

o que fizemos da vida
o que a vida fez de nós
desatamos desatamos nós
e ficamos amarrados

*

insones

líria porto

a noite roía as unhas
um vento forte zunia
imenso o leito vazio
até a lua minguava
e não havia estrelas

eu tive pena da noite
negro manto de graúna
os piados da coruja
nuvem densa carrancuda
intranquilo céu de piche

uma sirene tocava
os mendigos sem abrigo
os bêbados a madrugada
a rouquidão os gemidos
a noite toda tremia

nem ela nem eu dormimos

*

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

soledad

líria porto

a passear - mansa como uma criança
a reparar na nuvem na pedra na lua na montanha
e a sensação estranha de ser tão sozinha
pássara

(homens são um caso à parte
parecem-lhe de marte)

*

quem faz um cesto faz um assento

líria porto

em sua maioria
elogios são palavras
cheias de vazio

*

cara-pálida

líria porto

o espelho esfrega o tempo
nas nossas fuças

*

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

apelação

líria porto

não tem papas na língua
não reza salve a rainha
nunca foi ao catecismo
com santos se desentende
é livre qual passarinho
porém na hora do aperto
sinal da cruz credo em cruz
e missa e terço
e novena

*

sereia

liria porto

tecia as franjas do mar
picotava-as em bicos

estendia-as na praia
pr'areia ficar bonita

*

papo de aranha

líria porto

a palavra puxa o verso
desconverso
faço que não vejo
ela volta
rasga o verbo
faz-me cócegas
dá-me beijo
:
resistir como?

*

vacance

líria porto

nesse (i)mundo de teu deus
ateia à toa incrédula – leva o corpo
ao refestelo e faz castelo na areia

*

teatro

líria porto

a vida tem cenas atores atrizes
aplausos e vaias - a morte fecha
as cortinas

*

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

conclusão

líria porto

quem sabe das tramas
das dobras da vida
aprendeu que as feridas
curam-se com o tempo
usemos mercúrio
ou unguento

no amor é assim
se alguém vai embora
choramos na hora
depois percebemos
damos graças
a_deuses

insubstituíveis
nem nós nem
laços

*

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

flores desabrocham

líria porto

insinuas compreendo
e sem nada explícito
fico nua tu te despes

em dias de delicadeza
o grotesco é belo
:
o sexo dos velhos

*

domingo, 6 de dezembro de 2009

fu(tu)ro

líria porto

do amanhã só saberei amanhã
isto é - se eu estiver presente

de repente acontece a morte
e eu desaconteço

*

chacina

líria porto

a chuva que chia
encharca os baixios
abre chagas no chão
chicoteia os bichos
:
há queixas nas choças
e peixes no lixo

*

guloseima

líria porto

derreto em tua boca
qual torrão de açúcar
algodão doce

merengue

*

sábado, 5 de dezembro de 2009

sossega-leão

líria porto

fileiras de pobres percorrem as ruas
parecem formigas e catam migalhas
a fome - esse monstro - maltrata corrói
a vida é a morte se é pão que lhes falta

*

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

zinha

líria porto

depois que um moreno
invadiu-lhe o peito
entrou e saiu
levou o que havia
ficou-lhe um sem jeito
um oco oriundo
um tal cataclismo
que ela preenche
igual indigente
com amores de um dia

*

palavras desnecessárias

líria porto

nosso encontro durou
o tempo de uma despedida

se eu pudesse voltar àquele ponto
eu te puxava para um canto
beijava eu te beijava tanto
e pronto

*

implacável

líria porto

não sei como será
não faço planos

e o tempo não perdoa
nem dá colher de chá

*

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

entretantos

líria porto

de encontro à chuva
(trombo)

numa gota d'água
(lágrima)

eu me inundo
(lástima)

dói-me a dor do mundo
(cáustica)

*

à distância

líria porto

numa qualquer parte do teu coração
(se eu a tivesse - a ponta que fosse)
eu plantava um canteiro de saudades
:
flores roxas

*

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

velhice

líria porto

quanto mais vou
mais fico
chego àquele patamar
onde não há degraus
nem saltos

*

safados

líria porto

a soma do quadrado dos capetas
elevada à milionésima potência
corresponde exatamente à metade
do sexo dos anjos

(eu manjo esses inocentes)

*

cocó

líria porto

tal jornada me exaure
(botar / chocar / cuidar dos pintos)
e no final virar canja

*

zero

líria porto

poeminha mínimo
ínfimas estrofes

tão pequenininho
quanto bala toffee

quando eu o espicho
vira puxa-puxa

jogo-o no lixo
nove noves fora

*

limitações

líria porto

a dor escadeira
as pernas as partes

a morte não chega
a vida não basta

não quero não queiras
ser ave sem asas

ser corpo sem alma
sem combustão

*

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

***
**
*
) ócio é o negócio
*
**
***
o luxo mora em palácios
o lixo fica nas ruas (
*
*
líria porto

apanha coração

líria porto

esquerda canhota
direita toda torta
: quem gosta de centro
é cu

(quase impossível
ter rumo)

*

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

maria luiza

líria porto

foi-se
mas deixou seu sabonete
não partiu completamente
(a)largou seu cheiro
e me fez acreditar
que em breve voltará
cheia de sono
e sonho

*

(des)empate

líria porto

farinha do mesmo saco
pedaços do mesmo naco
bichos da mesma procedência
gente

mulher e homem
cachorro e gato

*

domingo, 29 de novembro de 2009

sopro

líria porto

deserto
espalho areia

terreno fértil
semeio

*

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

bem mal

líria porto

escreve
atreve-se a fazer versos
vira do avesso o aperreio
apara as arestas
tapa as frestas por onde entram
as tristezas
:
coração ao cesto

*

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

maledicência

líria porto

atravessam-se-lhe à garganta
palavras pontudas como espinhos de peixe
e o que fala soa brusco agressivo
desarticulado
:
peçonha de víbora

*

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

lágrimas

líria porto

nem me lembro das luas de novembro
quase sempre vestidas de chuva
como as viúvas

*

lastro

líria porto

qualquer palavra
da tua lavra ou da minha
pode se tornar lavoura
lama leme limo lume
lava leva luva lavor
leviandade
levedura
conforme elaborada
com alegria ou lamúria

*

terça-feira, 24 de novembro de 2009

psssssssssiu

líria porto

fecha o bico passarinho
nenhum pio - malu dorme

abelhas não zunam
gatinhos não miem
cãezinhos silêncio
e tu vento não assobies
e nem a chuva cochiche

malu dorme - aprende
a sonhar

*

domingo, 22 de novembro de 2009

vigília

líria porto

a cidade dorme
mas o ronco dentro do asfalto
é o de um monstro feroz

*

verdecer

líria porto

no chão de nós dois
capim novinho

a isso chamo desejo
a fim de

afins

*

sábado, 21 de novembro de 2009

estampada

líria porto

roupa velha larga confortável
como um bom amigo um amor antigo
nossa própria casa

*

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

mancha

líria porto

lá vai o cargueiro
mar adentro
transporta ouro negro
(es)cravos pimenta
tesouros de áfrica
sofrimento
chibata

*






en_talada

líria porto

atada a nada
nada em panela
de vaca-atolada

: via-crucis

*

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

arapuca

líria porto

um ponto duas laçadas
dois pontos três laçadas
três pontos quatro laçadas
assim se tece a carreira

(no cargo tudo são vagos
exceto contas-correntes)

um dia vem um pirralho
quer passar pelo atalho
cai mosquitinho na rede

*

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

limpo com jornal

liria porto

as vogais
as consoantes
brotam do papel
e proclamam
:
depois da tempestade
ao invés de bonança
vem mais desgraça

*

terça-feira, 17 de novembro de 2009

ciúmes

líria porto

posseiro do seu corpo
controla sua boca seus olhos
finca-lhe estaca entre as pernas

) pensamentos pulam
cerca (

*

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

película

líria porto

fosse beijo técnico
não houvesse amasso pra valer
ainda assim iria pelos ares
virava poeira cósmica
estrela de cinema
ou de tevê

*

domingo, 15 de novembro de 2009

tocaia

líria porto

é outro dia – que susto
a morte vem e não sei
a hora da captura

*

sábado, 14 de novembro de 2009

olho aceso

líria porto

não é durante um sono
que desmoronamos

é num piscar

*

melancólica

líria porto

tem água na lua
solidão liquefeita
tristeza

*

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

à la alice ruiz

líria porto

apaixonada
apaixovoa
apaixoanda
apaixorrasteja

*

"apaixonada
apaixotudo
apaixoquase"

(alice ruiz)

*

ancião

líria porto

deixou as barbas de molho
quando viu eram grisalhas
e não houve uma navalha
capaz de raspar-lhe
a idade

*

) sofrer é soda (

líria porto

não tem medo de defunto
de assombração de escuro
porém foge da paixão
como o diabo da cruz

(já provou desse veneno
não vai repetir a dose)

*

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

grileiro - em terra de lobo quem tem ovelha é ele

sedes

líria porto

ele vem quer o meu corpo
e eu só pedi que me trouxesse
um pouco de água de coco

*

(des)casal

líria porto

acostumou-se à mesa para dois
e depois que ele se foi
o mesmo ritual
:
falar sozinha

*

fútil

líria porto

narciso não suporta sua calva
e cansado de bonés perucas chapéus
implanta um topete

(suplanta-se)

*

desastrada

líria porto

por desconhecer as bordas
esbarrões hematomas feridas

alma tem limites

*

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

montanhesa

líria porto

olhos de folha seca
herança dos ancestrais

castanho-esverdeados
ou verdes com algum barro
a parda cor dos pardais

*

terça-feira, 10 de novembro de 2009

infelizes

líria porto

o que foi feito de amália
a bela de olhos lânguidos
e de tristeza entranhada
cujos passos a levaram
para a sombra de antônio
um homem de gestos rentes
e sorriso ácido?

o que foi feito de amélia
mera mulher desverdade
que passava suas tardes
sem dizer uma palavra
e que durante o trabalho
deixava as marcas o rastro
da sua poeira amarga?

o que foi feito de emília
da sua pele amarela
quando foi abandonada
tão quieta tão sem ânimo
até que veio um pássaro
e levou-a para o céu
para a suíte dos santos?

o que foi feito de ordália
adélia odília odete
:
o que foi feito de ângela?

*

pororoca

líria porto

espero
a vida não para

transpiro

poros impuros
(e nenhum parâmetro)

*

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

comunicado

líria porto

escrevo para te dizer
morri daqui a um mês

foi morte natural
misto de saudade e tédio
não houve remédio

dorme sossegado nada de missa
arranja outra namorada
mas atenção – tem muita mente insana
em corpo são
:
muita canoa furada

*

para compensar a força bruta

líria porto

por trás
homens e mulheres
quase iguais

frente a frente
elas têm peito
eles – pendências

*

domingo, 8 de novembro de 2009

desesperador

líria porto

nas ruas procuro teu rosto
nos rostos procuro teus traços
nos traços procuro teus gestos
nos gestos procuro teus atos
nos atos procuro teu amor
nos amores procuro por ti
e não te acho

*

príncipe (des)encantado

líria porto

o amor dos outros é perfeito

o nosso amor ronca queixa-se
fala inconveniências emite sons e odores
agarra-se a mesquinharias é carente
mas no final das contas ele
tão somente ele
aguenta-nos
leva-nos a sentir (des)prazeres
por tempo indeterminado

) amores-perfeitos também murcham (

*

sábado, 7 de novembro de 2009

brincos colares e acessórios

líria porto

o céu azul que beleza
com nuvens que maravilha

quebram a rotina dos mares
ondas ilhas e navios

nu deserto sem oásis

na floresta tem
orquídeas

*

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

mar revolto

líria porto

a cor indigo blue dos olhos de maria
veste meu coração despe-me
o sorriso

*

olhos de cais

líria porto

raquel mora
na rua jogo da bola
cento e dezenove

o orvalho ancora em seus cílios
quando a lua diamantina

*

pouso

tem um sol no fim da rua
uma lua no começo
o preço é ficar na janela

(dor de cotovelo)
*
líria porto
*

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

abraço

líria porto

o mundo fica leve tão pequeno
cabe na grandeza dos teus braços
no afago dos teus dedos

*

in_sustentável leveza

líria porto

borboletas balançam o mar
e provocam as marés

*

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

descompasso

líria porto

a alma vai veloz em disparada
o corpo passo a passo não a alcança

felizes caminhávamos de mãos dadas
naqueles velhos tempos da infância

*

terça-feira, 3 de novembro de 2009

la nave va

líria porto

caminhei alguns calvários
tive tristeza alegria
desafios desenganos
porém nada permanente
quando a vida vira a página
quando amanhece de novo
o que deve ser será
vive-se

um olhar
um outro canto
o choro outras palavras
eu deixo a porta sem trava
se um amor quiser partir
outro por certo virá
é a vida seu compasso
a medida do possível

eu sorvo cada momento
eu bebo cada gotinha
eu choro rio padeço
repenso minhas fraquezas
aliso as marcas do tempo
deixo a vida dar os passos
voe ou rasteje
prossigo

sofres eu sofro junto
alegro-me quando te alegras
sou aquela caravela
que em plena calmaria
encontrou um outro rumo

se a bonança acabar
voltarem o vento a chuva
um dia chega o estio

haverá amanhãs

*

domingo, 1 de novembro de 2009

na zona da lua

líria porto

ipê tão pequeno
tão pleno de flor
dormiu ao relento

a noite beijou-o
beijou-o beijou-o

acordou respingado
de sereno

*

sábado, 31 de outubro de 2009

colar

líria porto

costuro meu canto
com outras medidas
sou eu das palavras
limadas antigas
pois tais como as pedras
se ficam pontudas
se têm muita aresta
eu digo não prestam
estão mal cosidas

as letras redondas
quais seixos no rio
são um desafio
um cordão de pérolas
meus dedos já gastos
às vezes coletam-nas
com as pontas das unhas
que tenho esmaltadas
na cor das petúnias

*

minas

líria porto

cheiros sabores aromas
queijos doces de fruta e de leite
pães bolos biscoitos
amores pecados prazeres

(sodoma em gomorra
em fogão de rabo quente)

*

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

recesso

líria porto

recostado no horizonte o sol cochila
a_manhã dorme até tarde
a chuva cisma

*

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

zelo

líria porto

sobe numa galha noutra  olha as ramas curioso
parece que o passarinho quer um canto para o ninho
e todo cuidado é pouco

*

freguês

líria porto

abre-lhe os colchetes
puxa-lhe os elásticos
depois se comporta
como se estivesse
à mesa
:
saboreia-lhe a carne
repete a sobremesa
e adormece

antes de partir
bebe café e deixa
a gorjeta

*

terça-feira, 27 de outubro de 2009

fragilidade

líria porto

eu não sei que mágoa é essa
eu não tenho olhos d'água
isso é coisa de mulher
homem que é homem não chora
não se queixa não se dobra
homem que é homem aguenta

(não posso mais suportar)

sou um dique um aguaçal
o meu amor foi embora
não devo dar um gemido
há um mar de sofrimento
estampado no meu riso
pobre de mim ai de mim

(sou o cinismo em pessoa)

eu não sei que dor é essa
escorrega pela cara
atravessa fura o peito
sou um cabra de respeito
sou um homem muito macho
não me agacho não me curvo

(deus do céu quero é morrer)

*

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

rigidez

líria porto

algumas palavras secas
iguais bagaço de cana
tão somente são disfarce
de quem repete eu não amo
porém sofre chora sente
e tem todas as fraquezas
dessa tola raça humana

*

mentirosas

líria porto

paixões prometem-se e se desfazem
às primeiras provações

*

desgarrados

líria porto

cobertas ralas
frio severo

escassas cartas
inferno

i n v e r n o

*

domingo, 25 de outubro de 2009

(des)equilíbrios

líria porto

paredes frias

(corredores não têm alma
no entanto me seguiam
conduziam-me aos lugares)

deixei a casa

(ampliei os meus ex-passos
corro paro rodopio
sem medo de dromedários)

tropeço em corcovas

*

sábado, 24 de outubro de 2009

faminta

líria porto

eu disfarço tergiverso
finjo que ela nem existe
a tristeza me persegue
pede água pede alpiste

*

plenilúnio

líria porto

doce deleite
queijo do serro ou da canastra
(c)asa de mineiro

seresta

*

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

almodóvar

líria porto

outubro outubra-a
e sempre de (as)salto
vestido encarnado
sapatos vermelhos
:
a rosa que dança
aberta no asfalto
tem cheiro de carne
tem jeito de chaga
tem tango no sangue
tem nome de cármen

*

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

camelo

liria porto

vou comê-lo
depois rumino
a rima

*

ancestral

líria porto

nas digitais
sinais atávicos

seria mais feliz
solta no mato

*

a reza do povo

líria porto

o pão nosso de cada dia
sovado por estes braços fatigados
não nos seja subtraído por ninguém
menos ainda pelos donos do mundo
manipuladores da dor
e da miséria
:
amemo-nos

*

amorosamente

líria porto

o girassol olha o sol
com olhar de lua

*

curiosidade

líria porto

ao olhar atento
não lhe escapa a capa
nem o que está dentro

*

troviscos

líria porto

a vida segue a galope
em verdade o tempo venta
e neste piscar de olhos
já tenho mais de setenta

o meu espelho envelhece
depressa fica embaçado
daqui a pouco me esquece
veste pijama listrado

viver é tão de repente
a morte – eterno mistério
em noites de lua plena
não fico triste nem sério

quem quiser dançar comigo
tomar lugar nesta roda
coloque piercing no umbigo
ou cabelos cor de abóbora

(sujei minhas mãos na terra
entendo os ranços da vida
exceto judiação
miséria fome e injustiça)

*

de virada

líria porto

sonhos redondos
bolas de futebol

*

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

t. salomão

líria porto

eu tinha uma parceira
a turca

com ela eu tomava chuva
pisava nas enxurradas
voltávamos do colégio juntas
íamos ao cinema - ríamos
e chorávamos

tereza morreu e eu
sinto saudades
de mim

*

brejo alegre

líria porto

o vento varria tudo
só ficava no lugar
quem tinha força raiz
aqueles que resistiam
às agruras do cerrado
ao ferrão dos pernilongos
à mortal monotonia

às vezes sinto saudade
retorno por alguns dias
depois volto para casa
coração a borbulhar
a transbordar boa água
agonias descampados
pessoas inesquecíveis

*

des_maio

líria porto

desmalha-se
vive\morre um pouco
floco de neve pétala
rio solto no despenhadeiro
poeira
brasa no borralho

(passarinho rompe o ovo
abre o olho pela primeira vez)

*

patrulha

líria porto

as sirenes
as viaturas

inocentes pagam
pelos predadores

*

luzes

líria porto

as cores mudam

a olhar miúdo
o azul me ilude

*

terça-feira, 20 de outubro de 2009

caráter

líria porto

mexe-se na fachada na pintura
a estrutura permanece
o alicerce

*

sem telha

líria porto

o vento sopra o fogo sobe
ninguém segura maria
:
ela só volta amanhã
brasa coberta
de cisma

*

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

criancice

líria porto

a mariposa
pousou numa rosa
roubou duas pétalas
voou como a borboleta

*

escape

líria porto

é bom brincar de passarinho
abrir os braços a fingir – sou livre
fechar os olhos e planar no sonho
pensar num ninho ao voltar
pra casa

*

lamentações

líria porto

chorei todos os rios mares oceanos
todas as lágrimas das viúvas todas as chuvas
molhei todas as toalhas lenços lençóis
e fronhas
:
chorei as pitangas

*

domingo, 18 de outubro de 2009

longe

líria porto

quanto mais batia a clara
quanto mais batia a gema
quanto mais crescia o ovo
tanto mais eu me lembrava
de como gostas de bolo

coloquei manteiga açúcar
misturava com a colher
eu ficava com saudade
deu vontade de te ver
de voar onde estivesses

o fermento a farinha
o leite o sentimento
a essência do teu jeito
o gosto bom do teu beijo
eu te queria por perto

esqueci de um detalhe
olha só que distração
ao invés de assar o bolo
congelei foi a saudade
a lágrima a distância

o choro

*

aqui jaz

líria porto

um dia o moreno vai voltar
e quando regressar será mui tarde

haverá em minha lápide o epitáfio
bebeu taça de ausência
e de saudade

*

clandestino

líria porto

vou aí onde tu vives
andar pela tua rua
ver a lua que tu vês
o teu mar a tua praia
conhecer cada nervura
entranhada nos caminhos

depois volto para casa
e de ti que me esqueceste
saberei cada detalhe
cada pedaço fatia
que por desamor descaso
quiseste um dia esconder

*

sábado, 17 de outubro de 2009

pomo-de-adão

líria porto

a folha de parreira
as vergonhas de eva

pecado é comer maçã
com gosto de isopor

*

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

ascensão

líria porto

as alegrias postiças
jamais se sentira gente
foi só dor e sujeição
e o filho do patrão
pôs-lhe um filho na barriga
(o menino não vingou)

ela nasceu no sertão
naquela sede de tudo
coração esfarinhado
o chão era pai e mãe
e a terra seca sem viço
sua cama seu colchão

seu corpo virou moeda
moído na mão de todos
fosse qual fosse o macho
os direitos sobre ela
trocavam-na por qualquer troco
partiam sem despedir-se

nessa sorte sem fortuna
seu corpo se definhou
virou pele sobre ossos
nem freguês e nem comida
desgostou-se de tal fado
foi ser feliz lá em cima

conceição agora brilha
o seu espelho é a lua
o travesseiro uma nuvem
ficou linda como nunca
a estrela mais bonita
das que enfeitam a noite

*

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

propriedade

líria porto

na casa onde moro
sou peixe dentro do aquário
nado peito borboleta
mergulho flutuo divirto-me
afundo choro trabalho
nada aqui é proibido

eu sonho e tenho o mar
o atlântico o pacífico
um lago imenso tranquilo
um rio de águas claras
uma bacia uma bica
tanto faz

a casa é minas

*

estrelado

líria porto

numa panela de pedra
manteiga alho cebola
deixar dourar só um pouco
pôr a medida de arroz
o dobro d'água fervente
temperar com sal a gosto
quando secar  que delícia
comer purinho com ovo

*

fogaréu

líria porto

há um verso intermitente
está sempre à tocaia

no espelho vejo-o avesso
nuvem negra me atrapalha

sem espada sem nobreza
submeto-me à cangalha

ele empurra o travesseiro
abro os olhos mui calada

ele deita no meu peito
quer rasgar minha mortalha

eu tão pálida tão sem jeito
ele abusa de um atalho

e se instala no meu ventre

(sê poeta não te entraves
nem te escondas do crepúsculo
os vermelhos ficam grávidos)

*

não vou te esquecer

líria porto

quando eu me for daqui
um lugar que desconheço
e ficar a sete palmos
onde os vermes têm fome
for largada numa vala
a minha carne sem dono
quando eu me for daqui
a vagar pelos escuros
e deixar os meus afetos
meus apegos meus amores
estes versos sem destino
serão a ponte

*

terça-feira, 13 de outubro de 2009

cabuloso

líria porto

talvez eu seja esteja sempre tenha sido ou me torne
daquelas pessoas a ouvirem as pedras antes de atirá-las
pense em rimas estridentes a implorarem esmola nos semáforos
debaixo de tempestade ou chuva de granizo
(numa sacola de plástico)
e fale fale fale ou não diga nada feche-me em silêncios
dê quatro ou sete estalos estéreis histéricos agressivos adjetivados
fique mudo ou gago

ninguém me compreende –– sinto dor nevrálgica
e não dor de dente

*

das mãos de cora

líria porto

versos de milho
agora nos alimentam

nós
poetas sem rima
exilados da terra
vidas de cimento

*

editora lê - ausculta

líria porto

quando vieres meu bem
insiste na campainha
o tempo esse moleque
pôs tampão nos meus ouvidos

não meças minha emoção
pelo tamanho dos versos
quando sinto - sinto muito
as palavras me emudecem

*

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

in_descartáveis

líria porto

dentre nossas tralhas
muitas lembranças
:
nenhuma que te sirva de mortalha
nem que se assemelhe à esperança

*

insosso

líria porto

dia de segunda
embora feriado

sem gosto de sábado
sem cheiro de domingo

dia sorumbático

*

a prole

líria porto

busco energia
nas quatro philhas
recarregáveis

*

casanova

líria porto

um sofá para jandira
de couro macio
cheiro de cio
um querer bem

um sofá de canto
para o acalanto
o chamego
o quebranto

(a cor não importa
o outro era branco)

um sofá para jandira
descansar-se da lida
relembrar os amores
esquecer agonias

(ser feliz)

um sofá para jandira
sentar-se aos domingos
cochilar e sonhar
com delícias

um sofá de nuvem
algodão ou pluma
um sofá de balanço
um colo

(de braços fortes)

*

arrimo

líria porto

fico a esperar prazenteiro
maria vem todo dia
traseiro fenomenal
meu fundo de garantia

essa mulher maravilha
carrega-me em sua canoa
abastece minhas pilhas
faz-me a vida muito boa

navego nas suas ondas
no céu da boca o delírio
minha alegria se alonga
maria é o ar que respiro

sou marinheiro de sorte
maria é minha guarita
a morte vem e me abate
maria me ressuscita

*

domingo, 11 de outubro de 2009

batente

líria porto

sente o seu cheiro
abraça-a por trás
encaixe perfeito

beija-lhe as costas
morde sua nuca
bole nos mamilos

o relógio grita
fala afobada
:
sossega marido
é segunda-feira

sábado, 10 de outubro de 2009

solteirona

líria porto

rezava pedia implorava
ia à missa todo dia
às novenas
prometia batia o pé
santo antônio distraía-se com o menino
e se fazia de surdo

*

das cicatrizes seculares

líria porto

um dia pequeno partiste eu fiquei
restou-se-me a culpa estrago sem jeito
saí pelas ruas de olhos sem ver
prendessem-me matassem-me
arrancassem-me os seios

(chorei como a chuva do mês de dezembro)

virei enxurrada poça d’água represa
secou-se-me o leite a vida ruiu
um raio partiu minha alma o espelho
morri reencarnei e ainda padeço
são mil estilhaços com teus olhos dentro

*

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

misericórdia

líria porto

nascera em ano bissexto
e sempre tão distraído
era traído e traía
a mulher

aparecera defunto
um tiro no peito
uma coroa de flores
e os seguintes dizeres
:
a quem amo/odeio
meu (res)sentimento

*

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

o fio da meada é cor de prata

líria porto

o tempo passarava e o canto do galo
rasgava como um dardo as madrugadas

amanhã era hoje num instante
embora nos olhássemos
e jamais fôssemos grandes

a vida pássara
traz-nos cabelos brancos

o galo canta
não sei se agora
                      ou ontem

*

o seminarista

líria porto

afunda-se no decote
margeia seus mamilos
escorre pelas bordas
desvia-se até o quadril
desce-lhe pelas coxas
retorna a seu umbigo
enquanto a prima dorme
cheirosa como flor
biquíni de bolinhas

(virgem por um triz)

*

socorro

líria porto

azuis se machucam
ficam quase roxos
caem e desmaiam
como hematomas

chamo a enfermeira
vem roberta silva
faz-lhes boca a boca
eles se aproveitam
:
beijo de língua

*

pulmões

líria porto

refutam resfolegam refustigam
e têm a mania de pegar
pneumonia

*

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

secret-ária

líria porto

eu tu

nós

atas
desatas
meus olhos

*

almofariz

líria porto

à dor do alho socado com sal
comparo a topada do dedão

*

devastação

líria porto

em belo horizonte
a fé não (re)moveu a montanha
fê-lo a mbr s/a
(minerações brasileiras reunidas
sociedade anônima)

*

campos altos

líria porto

colina após colina
o horizonte se desdobra
e onde pensamos que termina
ainda há minas
:
incontáveis

*

terça-feira, 6 de outubro de 2009

passe livre

líria porto

quando a foice do destino
ceifar de mim as estrelas
vai me encontrar precavida
não sou de arrastar sandálias
já vivi suficiente
das cangalhas me livrei
aprendi a bater asas
a circular sem fronteiras
:
marquei encontro com lúcifer
na caldeirinha do meio

*

invisibilidade

líria porto

esta dor que quando olhas
não compreendes por quê
não é de fratura exposta
é de amor sem resposta
a solidão ninguém vê

*

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

gradil

líria porto

na gaiola um passarinho
mavioso sabiá –– pobrezito triste sina
ter asas de não voar

*
*
o silêncio é poliglota
comunica-se e faz-se entender
em todas as línguas
*
líria porto

providência

líria porto

antes que a luz me apague
visto teu olho nu

*

remorso

líria porto

mar revolto
ondas de tristeza e dor
mescladas de vazios solenes

(deixa-me chorar o choro inteiro)

*

a todo vapor

líria porto

passageiros como as nuvens
deixem-nos chover
trovejar mudar de forma
derreter ante o azul
evaporar

viver é névoa

*

grisalhos

líria porto

pelas ruas e esquinas
pelos brancos à procura
de aventura e vida

*

quando o amor se esfuma

líria porto

de tanto tecer possibilidades
tive l.e.r. (lesão por esforço repetitivo)
e quase fiquei triste

ainda não desisti
embora a dor persista

*

domingo, 4 de outubro de 2009

in_experiência

líria porto

eu plantei uma roseira
quando ela floresceu
sangrou-me os dedos

(ou rosas são perigosas
ou não sei lidar
com flores)

*

sábado, 3 de outubro de 2009

meia volta

líria porto

nuvem escura vento forte
a carroça do leiteiro com capota
maricota –– bota a saia na cabeça
lá vem chuva

*

todo dia

líria porto

pergunto à poesia
ela não responde talvez saibas
: onde amarrei meu burro?

*

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

babel

líria porto

letras embaralhadas perfilam-se diante dos olhos
não entendo patavina

poliglotas trogloditas cientistas eruditos
dei nós na ponta da língua

*

evidências

líria porto

falar de amor a quem amamos é tão óbvio
que até nos descuidamos

esquecemo-nos de perfumar os dias óbvios
oferecer as flores óbvias dizer o óbvio eu te amo
e fica tudo assim tão óbvio que o amor
parece desamor

*

dormentes

líria porto

o corpo quieto estirado na cama
a alma vagueia por mundos e sonhos
e vai à espanha toureia o toureiro
e vai onde estejas te beija te beija
igual passarinho por céus e distâncias

conhece oceanos navios outros ares
corsários paragens reinados rebanhos
a alma é liberta o corpo é escravo
e peca e cansa padece envelhece
enquanto a alma prossegue encantada

*

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

mistura fina

líria porto

minha mão branca em tua cara preta
tua mão preta em minha cara branca
desancam quaisquer preconceitos

meu peito encaixado no teu
teu corpo por cima do meu
as pernas embaralhadas

café com leite

*

bandoleiras

líria porto


maritacas maritacam
voam em bando
bicam verdes amarelos
e no meio da algazarra
roubam caquinhos do céu
para enfeitar as asas


*

a terrinha

líria porto

a saudade apertou
peguei a gaita a matula
e piquei a mula

fui pra brejo alegre

*

rebordosa

líria porto

levei do teu corpo a sede que tinhas
sem água boca amarga investigo
fui justo comigo?

*

rabo de fogão

líria porto

ora pelas lágrimas
ora pela fumaça
ora pelas lentes sujas
os olhos se embaçam
a vista se turva

*

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

passageiro

líria porto

à frente a estrada atrás a estrada
no centro - eu - parado dentro
do carro em movimento

*

terça-feira, 29 de setembro de 2009

tanto (a)mar

líria porto

os pezinhos de malu
voam sobre as ondas

o (a)mar faz cócegas

*

coerência

líria porto

é preciso saber
estar só(brio)
aquecer a sopa
lavar a louça
esticar o lençol
gostar da própria
sombra

*

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

semaninha

líria porto

segunda é dia de sono e atrapalho
terça é dia de recomeçar
quarta é dia de trabalho e futebol
quinta é dia de trabalho e telefonemas
sexta é dia de atabalhoar
sábado é dia de mercado e boldo
domingo é dia

*

domingo, 27 de setembro de 2009

galardão

líria porto

o poleiro despencou
pulei para o andar de cima
estou nas nuvens

perto da lua
estrela na testa
bico aberto

*

teia

líria porto

eu me atrevo e uma aranha
espia o que escrevo
:
ela mata mosquito em silêncio
eu mato no grito

*

sábado, 26 de setembro de 2009

(ao fantasma da biblioteca)

líria porto

uma folha uma página uma pétala
minh'alma na terceira prateleira

vez por outra
leia-a

*

sustos

líria porto

tu e eu – corpos colados
um parque de diversão
montanha russa teus braços
o coração bate bate
se eu morrer de infarto
terá sido a salvação

*

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

esqueleto

líria porto

escrevo
depois faço a poda
:
só sobram
os ossos descarnados
do poema

*

prazo

líria porto

preciso de um tempo
é quase o final do jogo
o show está pelo fim
eu já te posso esquecer
só preciso de um tempo

não me peças além disso
pode ser que eu não consiga
não demora quase nada
apenas um pouco mais
que o resto da minha vida

*

haicai

líria porto

tesouros tesoura
bando de andorinhas
e o céu picotado

*

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

negociação

líria porto

nem sempre foi assim
eu não tinha areia nos olhos
nem neblina

o rouge o batom borrados
não são culpa minha
nunca fui desleixada

está bem
pagas só quinze

*

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

gris

líria porto

verde não te quero verde
quero-te bem maduro
no ponto certo do apuro
dos teus cabelos cinzentos
das tuas marcas e rugas
que o tempo faz quando cura
as desilusões

*

medo de defunto

líria porto

vestia um pretinho básico
e não perdia um velório

(enviuvara de um traste
e não resistia à tentação
de reenterrá-lo)

chorava de alívio

*

primavera de praga

líria porto

ser lida
esse lado é o lodo
da notícia

grotesco é gravar
agressões e grosserias

meu cavalo é puro sangue

*

fiel

líria porto

ela se dedica a ele
ele se dedica a ela

nessa tabela
não cabe cadela
nem cachorro

captou bentinho?

*

terça-feira, 22 de setembro de 2009

compensação

líria porto

a chuva que me suja os pés
lava minha alma

*

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

platônicos

líria porto

o mar não para
vai e vem  irrequieto
chega à praia passo à frente
depois acho se arrepende
arreda o pé

a serra por sua vez
permanece embasbacada
a olhar o mar de longe
tem desejos de tocá-lo
o corpo não lhe obedece

*

velho

líria porto

acelera os passos
tropeça em si mesmo
igual passarinho
de asas quebradas

(ao apear do corpo
vai ser pensamento)

*

domingo, 20 de setembro de 2009

concórdia

líria porto

durou uma década
harmônica e redonda
como uma bolha

ele não se despediu
ela embarcou num trem
ele se casou com outro
ela se juntou a alguém
e foram felizes felizes
sem nunca discutirem
a relação

*

momento

líria porto

passaroco pequenino
na galhada da mangueira
faz a festa de domingo
limpa a pena passa o bico
canta um canto tão bonito
que o poeta perde a rima
e nem sente

*

sábado, 19 de setembro de 2009

carimbado

líria porto

o meu amor adotivo
aquele que apareceu
entrou como quem não quer
ficou como quem não é
legitimou-se sem sê-lo

*

cruz

líria porto

hímen complacente
virgem para sempre
por mais homens
que viessem

não chora não ri
não pergunta nem responde
passa horas infindáveis
a mirar o teto

*

mutilação

líria porto

o corpo frágil a vontade férrea
anseiam outro par de pernas

*

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

dissimulada

líria porto

quando ela me quer
ela me procura
diz-me sem frescura
sou somente tua
podes me (ab)usar

eu por um momento
quase acredito
durmo sossegada
ela me abandona
e cria asas

viste por aí
a poesia?

*

topo

líria porto

um degrau e outro e outros
para se chegar ao impossível

*

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

nas conchas

líria porto

como moisés
parti o mar ao meio
atravessei-o a pé

tropecei num peixe
feri-me com espinho
mar vermelho

: vinho

*

cenário

líria porto

olhou de lá da janela
sentiu a forte atração

viu seu corpo no asfalto
pessoas a seu redor

faria o voo contrário
algo cinematográfico

seria clássico rápido
um curta-metragem

*

grand finale

líria porto

dormimos - a morte ronda a cama
assiste o ensaio na primeira fila

*

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

sob velas

líria porto

cruzadas ao peito
as mãos de mamãe
os seus dedos frios
a pele sem cor
(eu quero mamãe
seus braços seu colo
seus gestos macios
a luz dos meus olhos)

*

terça-feira, 15 de setembro de 2009

fantasma

líria porto

roupas no varal
dança sem corpo
andança

*

garatujas

líria porto

eu rabisco
rabiscando eu corro o risco
de riscar sem ter compasso
de dançar errando o passo
de passar a ser um traço
de traçar olhando nisso
de olhar pro meu rabisco

porém rabisco não é verso
rabisco não é poesia –– é loucura
é teimosia

*

ímpeto

líria porto

que vontade que vontade
enfrentar o meu espelho
cortar bem rente os cabelos
tirar deles toda a tinta
e deixar que as cãs me venham
flocos de neve macios
sobre cabeça tão quente

cadê coragem?

que vontade que vontade
vestir-me largos vestidos
nada mais a me apertar
nem roupas e nem trabalho
ser eu natural feliz
e em meu aniversário
fincá-las uma por uma
as mais de sessenta velas

cadê coragem?

que vontade que vontade
com a alegria que tenho
rir das rugas rir de tudo
falar das minhas verdades
sem nenhum constrangimento
ir lá onde o amor está
desafiar a rival
dizer-lhe eu sou mais eu
esse amor agora é meu

cadê coragem?

que vontade que vontade
romper os grilhões algemas
com minha cara e coragem
porém pergunto ao espelho
cadê coragem

cadê coragem?

*

gêmeas

líria porto

alegria e tristeza nasceram juntas
uma gostava da luz a outra gostava das trevas

riram
choraram
cresceram
envelheceram

: alegria morreu primeiro

*

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

eco

líria porto

certezas são riscos n'água
não resistem ao pé de vento
não valem um tostão furado

todas tão repetitivas
batidas na mesma tecla tecla tecla
gravadas no mesmo oco oco oco
no arremedo medo medo
da vida ida ida
ida

*

domingo, 13 de setembro de 2009

ilusão

líria porto

aquele amor pareceu-me o vento
e durou o tempo de uma lufada

fez arder os olhos balançou-me o peito
prosseguiu caminho

                            fiquei eu na estrada

*

mormaço

líria porto

numa noite lânguida cheia de feitiço
a lua se expande o calor persiste
haja um milagre um fator explícito
seja nosso pleito amar e morrer
nesse alagadiço

*

explosão

líria porto

quanto mais livre um artista
quão mais difícil é detê-lo
contê-lo dentro da argila
ou do cinzel

*

servente

líria porto

pau pra toda obra

*

mea maxima culpa

líria porto

ajudei a elegê-lo
ele - essa pedra de gelo
a beber uísques

*

deusmelivreguarde

líria porto

uma assombração ronda-me a casa
há passos gemidos cochichos arrulhos

morena d'olhos d'água

*

cúmplices

líria porto

o par de andorinhas voa paralelo
dá as mesmas voltas sobe desce roda
pousa no telhado uma junto à outra
como se estivesse
                          de mãos dadas

*

tardam mas não faltam

líria porto

são tantas manguinhas miúdas
e eu na janela à espera do suco

*

película

líria porto

a manhã
ancas largas pele azulada
despida de nuvem – bonita como artista
de hollywood

*

sábado, 12 de setembro de 2009

doce

líria porto

se por (a)ventura me queres
tira o cavalo da chuva

: não o deixes ao relento
a noite inteira

*

disque-me-disque

líria porto

o estilo do grilo é cri cri cri
e eu duvido das certezas

*

insípido

líria porto

tem gente que ama na retranca
não se entrega não tem febre não tem sudorese
não beija não chora não sonha não sangra
só faz planos
                      e teses

tem gente que nem é gente
é prosopopeia

*

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

burro de carga

líria porto

na espinha dorsal
tonéis de sofrimento
vinho avinagrado
bebido a cada dia
em grandes goles
:
e o pasto seco

*

lirismo

líria porto

faz verso a esmo cai no marasmo
e por osmose perde a sequência

*

gralha

líria porto

choco as letras
e quando levanto depressa
quebro logo os óvulos

*

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

incêndio

líria porto

o capeta sobe a serra morde o verde
cospe os gravetos queima as árvores
aves répteis e mamíferos
:
só fica carvão
e cinza

*

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

reumantismo

líria porto

nem sentimos que mudamos
mas ao comparar as fotos
tem retrato de criança
entre as nossas

*

assim assado

líria porto

na sala formalidades
no quarto soltos folgados
nem vou contar dos detalhes

*

terça-feira, 8 de setembro de 2009

conceitos

líria porto

a casa precisa reparos
trocar vasos e veias
reformar a fachada
o reboco
alargar espaços
ganhar claridade
piso novo

a vida também

*

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

treinamento

líria porto

meninas
em dias de função
não se aflijam
:
ouçam as demandas
afastem bem os joelhos
deixem o freguês à vontade
confiram o preservativo
e nada de beijo

ao fim
confiram as trinta moedas
acertem o troco
e jamais se esqueçam
somos distintas
zelamos pelo nome
do lupanar

assinado mãe railda
de cualcuestá

*

domingo, 6 de setembro de 2009

haicai

líria porto

na porta da igreja
noiva alegre e esvoaçante
borboleta branca

*

contra_partida

líria porto

minha casa é um coração
abri mão do corre_dor
giro nela dias meses
ânus

minha casa é um pardieiro

*

semideus

líria porto

espalhou cacos de vidro nos degraus
quem quiser estar consigo
vai sangrar

*
palavras escritas faladas distorcidas omitidas silenciadas
precisam aprender a calar

silêncio

*

gaiola

líria porto

debaixo dos holofotes
o corpo ganha sombras
preço da fama

passarim enquanto voa
livra a sombra dos pés

*

sábado, 5 de setembro de 2009

como água

líria porto

mato sede apago fogo
acomodo-me
mas se achar um furo
pingo fora

*

uma coisa leva à outra

líria porto

igual um falcão
o coração voa alto

depois se esborracha
(como bolacha)

tem café?

*

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

sem energia

líria porto

esvaio-me
sumo pelo ralo
tomo um banho frio

caio no mar_asmo

*
todo espelho
é a minha cara
*

estrangeiro

líria porto

daqui sei nada
nem vinho nem voo

: quanto ficarei?

qual barco em mar alto
sem bússola sem direção

: cadê bandeira?

*

bisturi

líria porto

médicos disseram-lhe
pressão nas alturas é igual raio
e pode chover canivetes

*

felicidade

líria porto

ruth foi para beirute
e ao vê-lo sobre um camelo
decide-se

uma tenda
o chão de areia
as estrelas

quem nada quer
nada pe(r)de

*
com sorte
sara
*

caríssimo

líria porto

sonhos imensos
entalam e não entram

a porta é estreita

*
um gato mia no mato
fato corriqueiro
*

flash

líria porto

tem noite que a lua se supera
fica tão bela tão esplendorosa
que meu verso todo prosa
perde o freio

*

mudança

líria porto

troquei corredor por escada
beiro céu

) bom é ser nuvem
poder chorar sem lenço (

o joelho dói
passo saliva

) sorte (

*

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

o raio cai

líria porto

pessoas e árvores
com a passagem dos anos
engrossam o tronco

*

anjinho

líria porto

corria atrás de si
qual cachorro atrás do rabo
perseguia a própria sombra
ia prendê-la nos ombros
esconder as asas

(queria ser igual lúcifer
o cão danado)

*

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

delicadeza

líria porto

amaciar os passos
:
e que as pedras não sintam
a dureza dos pés

*

hijos de la santa madre

líria porto

galinha choca
ninguém trisque o dedo no recheio
dos meus óvulos

*

ilusão de ótica

líria porto

a mulher do próximo
é muito mais próxima
que o próprio

*

novelo

líria porto

o que fizemos nós
o que a vida fez de nós
: desatamos desatamos nós
e somos noz

*

terça-feira, 1 de setembro de 2009

insatisfação

líria porto

oco
vazio
vácuo
buraco
oco vazio
vácuo buraco
oco vazio vácuo
buraco oco vazio vácuo

) falto-me
por mais que eu me preencha (

*

busca

líria porto

parecíamos garimpeiros
a vasculhar o cascalho

procurávamos um no outro
pepitas de ouro

di_amantes

*

fora de foco

líria porto

a escrever eu me isolo
posso ir morar no polo
conviver com pinguins
e nessa rima ruim
parir do invólucro
o insólito o irrisório
o descabido
o que interessa a ninguém
só a mim

*

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

ninguém morre com um barulho desses

líria porto

cansado de se repetir
deu um grito pra espantar a raiva
e um tiro longe do ouvido

*

extermínio

líria porto

incapaz de matar ratos moscas e baratas
criava sapos cobras e aranhas – fizessem eles
o trabalho sujo

*

de reis e rainhas

líria porto

ninguém me aborrece
sou eu quem decide
o rumo da peça
:
xeque-mate

*

domingo, 30 de agosto de 2009

trabalheira

líria porto

meu pai vendia feijão e arroz
no armazém de secos e molhados

mamãe cozinhava feijão e arroz
para onze bocas famintas

*

sherloc

líria porto

o corpo do gato estirado no asfalto
sem nenhuma das suas sete vidas
é prova cabal do múltiplo
assassinato

*



aquela mulher

líria porto

mãos frias olhos vagos
rosto encovado soluços
perambula pelas ruas
pelos becos parques praças
vai a orfanatos conventos
asilos esquinas
presídios

s
o
l
i
d
ã
o
tem companhia

*

favor

líria porto

acerto tudo - do primeiro ao último centavo
: custoso é pagar o que não tem preço

*

intimidade

líria porto

passa a roupa
avesso direito frente costas
gola barra cós

ele vem abraça-a por trás
faz-lhe cócegas amarrota
tudo

dão risadas

*

supremacia

líria porto

desde que nasci toureio a morte
ela não desiste e eu prossigo

um dia quando a infame me quedar
dir-lhe-ei –– eu te venci

cansei-me de viver
                       aqui não fico

*

sábado, 29 de agosto de 2009

insensíveis

líria porto

o pensamento ferve
borbulha como lava
minhoca na pedra

finge dormir
quase funde o cérebro
mas ninguém percebe

*

cafundó

líria porto

passarinho passaroco
no oco do mundo
afundo-me pelos cantos
nu recanto da poesia
desde que nasci
saci desengonçado
atado às raízes

*

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

instabilidade

líria porto

dentro de nós mora um anjo
e também um diabinho
é um tal de puxa empurra
puro desequilíbrio

*

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

amarela

líria porto

linda flor caiu do galho
girou –– bailarina –– girou
e ao tocar o asfalto
virou purpurina

*

ébano

líria porto

quando eu nascer outra vez
quero ser negra retinta
e os meus cabelos pretos
deixá-los à carapinha
brancos só mesmo os dentes
e nos olhos azeviche
carregar a minha áfrica
seu sol ardente sua púrpura

quando eu nascer outra vez
vou dançar com o meu povo
no compasso do batuque
e dentro da pele quente
conduzir-me à altura
da cor e da raça esplêndidas
da beleza de ser gente
no coração  na estatura

*

cuidado

líria porto

o diabo já foi anjo
conhece os caminhos do céu
e sabe como ninguém
fingir-se santo

*

pau do cerrado

líria porto

segredos do vento
de sopro e assovio
ninguém os decifra
nem nós que nascemos
em ventania

de terras tão planas
de galhas torcidas
ao vir pras montanhas
eu trouxe e te entrego
o sal da saliva

*

indignação

líria porto

direto como um soco
com razão fico vermelho
vivam em paz os palestinos

*

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

amélia

líria porto

ficava lá disponível
limpa macia perfumada
igual blusa no cabide

ele vinha usava-a
virava para a parede
dormia

(foi visto no shopping
de roupa nova)

*

terça-feira, 25 de agosto de 2009

cadela

líria porto

ando ela anda
deito-me ela se deita
sento-me ela se senta
ou fica ali do lado

minha sombra não me deixa
às vezes levanta as orelhas
e sacode o rabo

*

a tia

líria porto

o traçado da letra
a delicadeza da palavra
maria da glória - simples
extraordinária

*
o dia promete
mas não cumpre
*

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

es_fera

líria porto

quem dera a terra
rodasse para o outro lado
e pudéssemos retornar
ao ponto de partida

a infância
é um templo
lindo

*

os miseráveis

líria porto

quem janta sua fome espanta
jante mal ou jante bem

terrível é quem não janta
e não almoça

e não tem

*

de mau a pior

líria porto

o sol sobre o olho
o sal sobre o molho
o mal sobre o bem
o tal do olho gordo
o estorvo o atrapalho
o dente de alho
na boca de alguém

*

neblina

líria porto

como um cachorro que não abana o rabo
ou um passarinho de asas quebradas
sem ti o mundo todo se embaça
sem lua e sem azul

*

domingo, 23 de agosto de 2009

pasmos

líria porto

entre velho e novo
um ser boquiaberto
sem saber ao certo
se foi a galinha
ou o ovo

entre certo e errado
um nunca satisfeito
um sempre sistemático
truncado pelo meio
sem arremate

entre muito e pouco
um sujeito rouco
a pedir um cado

entre um e outro
nada nada
nada

nabo

*

fósseis

líria porto

paixões e amores acabam
perecem evaporam-se

muita vez não sobra coalho
nenhuma atitude dócil

lembramo-nos dos que amávamos
somente em detalhes sórdidos

e sequer consideramos
quão fomos intolerantes

inóspitos
ignóbeis

*

pega

líria porto

não entendo tua pressa
mal fizeste vinte anos
de tudo pouco conheces
nem tristezas nem espantos

não corras tanto menino
vai devagar ri um pouco
aproveita tuas f(r)estas
olha as flores ouve o canto
a idade um dia pesa
os olhos murcham e o pranto
inundará duas pistas
não te aceleres –– o tempo
é bem maior que a avenida

) vruuuummmmmm (

espera guri espera
tenho presentes comigo
um bombom um salto um grilo
quero te dar castanhas
ensinar-te minhas manhas
olhares além do umbigo

*

eutanásia

líria porto

abandono descuido desprezo
condenaram o amor à morte lenta

) procura-se um cúmplice – um companheiro
capaz de desligar o aparelho (

*

sábado, 22 de agosto de 2009

arrupio

líria porto

vento varre
vai dum lado doutro
doutro
junta cisco
dá uns sopros
tenho medo dos diabos
desses redemunhos

*

turista

líria porto

igual morcego
e no ponto cego
nossa jugular
:
yo quiero sangre
verde amarillo

*

comprimido

líria porto

afoga a tristeza no copo
bebe um antidepressivo

*

brevê

líria porto

vem o dia vem a noite
esta estafa deixa a alma
amarrotada

vaca amarela pulou a janela
quem morrer morreu
ela ele ou eu

) a vida pasta (

*

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

ruína

líria porto

sair do circuito
fugir do ruído
é doido e é doído
e é seu intuito
arruinar-se
diluir-se
fluidificar-se
descuidar-se
ir-se

(f)ui

*

registro

líria porto

helenice não

e a mãe feliz
batiza-a
flor-de-lis


*

terça-feira, 18 de agosto de 2009

namoro

líria porto

eu na janela
o sol no horizonte
e olho no olho
nós nus

*

concorrente

líria porto

um dos segredos
é a disputa de quem se diz
puta

*

putinha

liria porto

na entrega do produto
a lua tudo faz para o sol
não ficar puto

) vê estrelas (

*

bolhas

líria porto

ele pensava nela
e ela pensava
na morte da bezerra

quem acha que acerta
erra redondamente

*

virgem santa

líria porto

vão precisar de um bravo
para exercer tal façanha
o mato cresce e tem onça
entre as pernas dessa aranha

*

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

cartas

líria porto

palavras silenciosas fechadas em envelopes
troam como tambores – levam para as pessoas
notícias boas ou péssimas

*

diferenças

líria porto

aquele que nos leva
a fazer com alegria
todas as tarefas
é líder

o fracote
a nos sujigar
a usar chicote
é chefe

*

gerações

líria porto

derrubar a parede
alargar o corredor

permitir que a luz se adentre
mudar o lugar das sombras

aprender - a experiência
dos ancestrais é inócua

*

sábado, 15 de agosto de 2009

depois do choro

líria porto

c_alma voltou - veio mansa
acomodou-se no canto
aproximou-se aos poucos
acalentou-me o corpo
fez-me dormir

sou criança

*

consideração

líria porto

lavou o corpo da morta
com água morna

a velha não gostaria
de banhar-se em água fria

*

disfarce

líria porto

debaixo da capa a culpa
as emoções proibidas
as marcas de batom

(e as manchas roxas
nas coxas)

*

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

mundos e fundos

líria porto

olhos fechados corpo quieto
sem mover um músculo

e o pensamento solto
a recordar planejar imaginar

ninguém sabe a extensão
dos sonhos

*

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

colcha de retalhos

líria porto

ao doarmos órgãos
somos recicláveis
e não descartados
como lixo humano

*

terça-feira, 11 de agosto de 2009

tantã

líria porto

forte como a pétala
fraca como a muralha
tenho cílios de arco-íris
alma de batata-palha

*

ganidos

líria porto

finquei todo meu desejo
no branco lençol do leito
deitei-me só e de borco
e assim eu em decúbito
abraçada ao travesseiro
farejava o teu cheiro
qual um cachorro

meu corpo de tanta ânsia
derramava a substância
advinda do meu cio
as lágrimas me afogavam
afundavam-me em areia
movediça

a fresta entre minhas pernas
jogadas de qualquer jeito
abrigava a rejeição
as ausências repetidas
das vezes que te chamei
sem retorno

não vieste não virás
e o vão do meu umbigo
a ganir nos teus ouvidos
não te deixará

*

ruindade

líria porto

a dor sem entranha montava-lhe as costas
fincava o ferrão a espora o chicote
galopa galopa galopa

o pobre ancião já sem forças gemia
eu não posso eu não posso
eu n ã o  p o s s o

deus e o diabo
espiavam

(sem dó)

*

não tinha dono

líria porto

viu um cachorro
acompanhou-o

viver sem carne
é osso

*

versinhos encapetados

líria porto

quando nasci
não tinha anjo disponível
então um diabinho com um tridente
espetou a minha bunda e disse – vai
cai na vida
não tens outra saída

*

conto de bruxa

líria porto

era uma vez acredite
uma criança mirrada
espertinha pá-virada
que nasceu lá no planalto
malcriada topetuda
não queria ser rainha
e de longe admirava
quem freios também não tinha

parecida com o pai
a origem não negava
sua língua era ferina
suas unhas afiadas
os olhos de folha seca
cor acanhada mortiça
disfarçavam muito bem
os desperdícios da alma

dos filhos a mais feiosa
doentinha magricela
crescia a erva daninha
sem nenhuma contenção
junto ia o coração
que pendia para o lado
onde o fraco se rendia
onde a corda rebentava

já adulta pobre moço
aquele que a amou
pois com tanta rebeldia
nem a casa ela varria
não julgava obrigação
essa doida era varrida
ficava puta da vida
explodia-se ao fogão

branquearam-se os cabelos
de vermelho se coraram
e um brilho se instalou
mudou então seu olhar
assumiu sua loucura
acendeu o caldeirão
e em fogo muito brando
cozinhou-se com_paixão

hoje voa vaga flutua
tricota faz doce cose
vira a noite pelo dia
sua alma não encolhe
pois ela ainda acredita
montada numa vassoura
que pode mudar o mundo
ser avó feliz  e doida

*

deslírio

líria porto

de manhã vejo no céu
uma lua de papel
escrevo nela meu verso
pra dizer ao universo
ô rima besta

*

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

caranguejo

líria porto

não quero saber de ti
nem hoje nem nunca mais
mas é bom te prevenir
se vieres por aqui
eu volto atrás

*

decrépita

líria porto

minh'alma velha de guerra
emaranhada no corpo
atada dentro das vestes
parece que nesse inverno
desistiu dos voos

não cria nada que preste
merece_dor

*

domingo, 9 de agosto de 2009

cardo

líria porto

eu mordia a boca dele
sabia a peçonha na língua
lambia e bebia a saliva
era para engolir ele
morrer dele
do adocicado da víbora

*

a_deuses

líria porto

subo e desço a serra
de um lado e doutro
os ipês me acenam

amarelos loucos

é só vir a chuva
é só vir o vento
já é quase agosto

*

precisão

líria porto

um cadinho do teu corpo
um borrifo do sorriso
qual a terra quando chove
ou o galo o passarinho
ao nascer do sol

*

sábado, 8 de agosto de 2009

atração

líria porto

são joão tão bonito
naquela bandeira
e eu tão aflita
entrei na fogueira

a vida era boa
tirei tal proveito
subi no seu colo
deitei no seu leito

queria um beijo
o primeiro da fila
de seus olhos verdes
bebi clorofila

agora meu santo
não sei de mais nada
paixão é veneno
caixão e mortalha

*

voos

líria porto

o poeta usa o pensamento
mas às vezes abre os braços
e espera o vento

*

poliglota

líria porto

inglesa francesa espanhola portuguesa
pouco importa - queria era beijo
de língua

*

nevoeiro

líria porto

pântano lamaçal areia movediça
e a preguiça de acender o sol
de beber à superfície

*

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

oh

líria porto

mudar de casa ou de vida
livrar-nos das velharias
dos badulaques e tralhas
requer mais do que dinheiro
estrutura analista
ou paciência
de jó

é preciso sobretudo
ter-se um saco
de filó

*

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

lágrima

líria porto

veio
foi-se

estrela
c
a
d
e
n
t
e

*

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

adelice

líria porto

a doida da nossa infância
entrava / saía pulava a janela falava sozinha
comia com os gatos xingava os moleques
sacudia os ombros

em barbacena
bebeu do chá da meia-noite
e nunca mais sentiu medo

*

sujeito a adjetivos

líria porto

bonito era meu avô
aqueles bigodes fartos
barriga proeminente
pelos grisalhos
olhar substantivo

*

preguiça

líria porto

não há como recuperar oportunidades
momentos e talentos negligenciados
atirados à vala das coisas
imprestáveis

*

terça-feira, 4 de agosto de 2009

abismados

líria porto

na escuridão do tempo
quanta vida se perdeu
resvalou-se pras profundas
tu não te lembras
nem eu

*

cavalgada

líria porto

dei a ele meia lua
dele ganhei meio mar

fomos sócios
somos cúmplices

*

domingo, 2 de agosto de 2009

per secula seculorum

líria porto

tornei-me o invólucro da tua boca
sou eu o teu beijo permanente
ao beijares outras bocas
beija-as sôfrego
estarás a beijar-me como louco
em todos os sabores
e indecências

*

aclamação

líria porto

quem pudesse ver e visse
a elegância de clarice
poderia adivinhar
em seus pés
as sapatilhas

ágil como uma corça
esguia igual espiga
quando clarice gira
deus do céu
virgem santíssima

*

sábado, 1 de agosto de 2009

viuvez

líria porto

vestir-se internamente de sem cor
minguar-se à penúltima gota
e se um dia houver forças
reviver

*

malabares

líria porto

) palavras seduzem-me
fascinam-me (

faço malabarismos brinco
jogo-me (con)sigo-as
não há como me sentir sozinha
nesta companhia

) sem lapso
nem papelão (

por estas e outras eu sofro
por festas e ostras prossigo
quem quer vinho venha
às brenhas da bruma

) tenha risos motivos
borbulhas (

*

bip.o_lar

líria porto

abismo intransponível
entre alma e corpo

agarrou-se às asas do amor

salvou-se do inferno
e dos transtornos

*

sexta-feira, 31 de julho de 2009

a borboleta

líria porto

ao voar voar
faz tremer o céu
o mar o ar o planeta
nada fica inerte

(há um leve sopro nas letras do poeta)

*

(pretérito imperfeito)

líria porto

se eu vestisse o mar tal qual um manto
e nele me abrigasse para sempre
coberta de azul verde ou cinzento
conforme fosse um dia diferente
e ouvisses o canto da sereia
e viesses e entrasses água adentro
beberias dos meus seios

*

a_versão

líria porto

qual faca te fere
qual boca te cospe
qual rato te rói
qual chave te tranca
qual copo te bebe
qual treva te cega
qual dedo te acusa
qual cabo te aprisiona
que inimigo te persegue
:
eu odeio todos eles

*

habilidade

líria porto

penetrava-me os labirintos
como se conhecesse de cor e salteados
todos os obstáculos

*

segunda-feira, 27 de julho de 2009

préstimos

líria porto

tantas flores cobrem a serra
eis que chega a primavera
esta moça meus senhores
(o seu cheiro pleitos pétalas)
faz-me cócegas favores
quando à noite eu me deito
tenho bambos corpo
vestes

*

sedução

líria porto

a lua nem bem surgiu
estava séria arredia
um xale tão recatado
aprontou-se o astro rei
no mais belo pôr de sol
tingiu o céu de sem lei
um vermelho quase roxo
e levou consigo a lua
para a suíte de deus

*

domingo, 26 de julho de 2009

insuficiente

líria porto

estou assim passarim
a me arrastar numa asa
a outra quebrei faz tempo
naquele dia o vento
atravessou-me a carcaça
forçou-me a aterrissagem

desde então sinto-me lassa
o corpo dói se ancora
o peito se descompassa
tateio a alma escoro-me
não mais decolo não voo
perdi a graça

*

atriz

líria porto

quem me visse assim chorosa
pensaria está doendo
eu diria é fingimento
nas horas que sofro mesmo
não derramo uma lágrima
pareço igual uma rocha
com o mar batendo

*

sábado, 25 de julho de 2009

bígama

líria porto

tinha um amor
e dois homens

metade dum
metade doutro

seria assim
o amor o fim

: bilhete azul
para todos

*

excêntrico

líria porto

lá vai o poeta
olhar caudaloso

aspecto de pétala
espectro de louco

*

dormiu co'as galinhas

líria porto

nem bem o sol se escondeu
lá estava ela nos braços
de morfeu

despertou com o galo
(sabes do que falo)

'dia
cotovia

*

sexta-feira, 24 de julho de 2009

privilégio

líria porto

) na terra dos amorreus
comi pão ázimo

o levedado era dado
ao primogênito (

*

mar_asmo

líria porto

partam-me raios
: seus olhos chovem
sem que eu (tro)veja

*

tive um amor

líria porto

veio e partiu sem deixar qualquer sinal
qualquer registro que eu pudesse comprovar
que (in)existiu

*

quinta-feira, 23 de julho de 2009

pelas trompas de eustáquio

líria porto

não lhe dê ouvidos
ele é bom de bico
e seu jeito adunco
é pura fachada
(no fundo no fundo
são fossas)

e tem a mania
de chegar primeiro
de sentir o cheiro
de estar na cara
cobrir-se com sardas
de ficar vermelho
meter o bedelho
de se arrebitar

*

mala

líria porto

na bolsa ou numa sacola
enfia o que acha um saco
e joga fora

*

confusa

líria porto

assim
sem estar em mim
sem saber de mim
sem começo e fim
e sem miolo

*

explícita

líria porto

viu-me como no filme
: entranha e pele duma estranha
(en)fiada nu'a teia de aranha

*

quarta-feira, 22 de julho de 2009

inesquecível

líria porto

amor bissexto
tão distraído
levou consigo
minha alegria

a lua míngua
o sol se cobre
tudo é sombrio
tudo é inóspito

(por onde andas
luz que alumia
estou perdido
e sinto frio)

*

ioiô

líria porto

atado a sentimentos
meu coração vai e volta
igual um brinquedo

*

capitalismo

líria porto

estragada é a carne da miséria
recheada de tão duro sofrimento
as vísceras dos que dela se alimentam
apodreçam e padeçam a dor e a fúria

nas córneas desses olhos de abutres
instalem-se as pústulas e as feridas
que o céu os martirize com as trevas
co'a sentença do remorso e do infortúnio

que os ovos dessas aves de rapina
adoeçam e jamais se proliferem
dos seus crimes odiosos assassinos
as latrinas mais imundas se encarreguem

*

rompante

líria porto

no tempo dum pingo d'água
entrou saiu deixou choro
e manchas roxas

*

invólucro

líria porto

isso não a envaidece
é como se descobrisse
ser uma espécie de égua
:
(o que temos de melhor
nem os espelhos revelam)

*

passarinhos e morcegos

líria porto

a menina
asas quebradas
chupava cana

) a ciranda é na grimpa da árvore (

*

bolas argolas e círculos

líria porto

os brincos de hercília
voam como mariposas
: en_torno de luz

*

terror

líria porto

nas unhas roídas
sinal de aflição
colou as postiças
imensas esmaltadas
fez cara de alma
e entrou no avião

*

sinal

líria porto

minha pendenga
sou eu comigo
ninguém me aguenta
não corre o risco

perdi o voo
vou de carroça
a vida ruge
dá-me uma coça

vi o aviso
agora sei-o
pulou do umbigo
pingou no seio

na encruzilhada
é que decido
se eu me acabo
dou-te o recibo

*

terça-feira, 21 de julho de 2009

de gelo

líria porto

na pedra escrevi
um verso triste
de rimas pobres

a pedra chora

*

incômodos

líria porto

estrela tem ponta
rosa tem espinho
josé tem frieira
maria tem chico

*

biodiversidade

líria porto

ao se separar
o joio do trigo
algo me intriga

qual a causa
dessa briga?

*

de pombas e pavões

líria porto

eu vi a lua de frente
assim mesmo cara a cara

perguntei-lhe   a vestimenta
não vais trocar tua bata?

ela disse  a cor de prata
é a que em mim se assenta

e seguiu sua jornada
naquela simplicidade

enquanto o sol se cobria
com um manto de brocado

a refletir sua imagem
no mar nos rios nos lagos

*

rebolo

líria porto

olhos fechados corpo encolhido
dou asas ao poeta

ele voa vara mundo vira anjo pássaro grilo
faz de tudo um pouco

volta feito doido quando acha
um verso

*

segunda-feira, 20 de julho de 2009

xanas

líria porto

lili é a dona da gata
a gata se chama donna
dona e donna em nossa cama
e o quarto vira uma zona

) odeio cheiro de gatos
confesso - eu sinto gana
prometo o assassiná-la
em menos duma semana (

*

domingo, 19 de julho de 2009

ao lui

líria porto

a ele dei meia lua
fi(n)cou-me a outra parte

num corpo só - descampado
fiamos o plenilúnio

*

sábado, 18 de julho de 2009

arabesca

líria porto

a lua é a pupila
do olho azul do infinito

desde que o mundo é mundo
ela nos vê tudo assiste
o que é feio
o que é bonito
registra tudo e repassa
para o gestor dos destinos

ele é quem faz
(in)justiça

*

fingidor

líria porto

quem destrinçar o meu verso
achar segredos nas frinchas
decerto vai perceber
minha tristeza infinita
disfarçada em ironia

rio do mar
não das pessoas

*

convés

líria porto

é dor de secar um rio
dizer adeus querido
parto por um ano

é dor de secar o oceano
dizer a quem amo
é definitivo

é dor de secar a vida
todas as partidas

todos os lenços brancos

*

deriva

líria porto

o mar vem e volta
não se prende à areia

e há folhas secas
soltas pelo ar

carrego na alma
o peso do vazio

e faz muito frio
não poder ficar

*

opereta

líria porto

a moça cara de anjo
olhava lá da janela
o velho no seu piano

toca verso toca inverso
pedia ela com os olhos
o velho batia as teclas

o velho depois de velho
detém coração de banjo
e manias de poeta

*

muito prazer

líria porto

a amizade é um manto tecido a quatro mãos
um cobertor compartilhado

sem que se o perceba
um amigo faz um ponto o outro dá uma laçada
o amor se estende

com o passar dos anos
não importam a distância as dificuldades
não haverá inverno que os desagasalhe

*

sexta-feira, 17 de julho de 2009

descaso

líria porto

rói
dói
mói

amassa
amarrota
mas passa

*

quinta-feira, 16 de julho de 2009

surfe

líria porto

eu tinha muita vontade
de a minha alma voltar
houve um tempo tão feliz
leve corpo a acompanhava
e as nossas travessuras
eram passeio inocente

se o mar ficasse parado
quieto igual um espelho
meteria meu bedelho
cutucava-lhe a pança

quando a alegria voltasse
qual balanço de criança
eu iria numa prancha
à crista do azul

*

impaciência

líria porto

os nervos retesados do violino
reagem às tentativas do aprendiz
e desafinam

*

quarta-feira, 15 de julho de 2009

coralina

líria porto

chão a pojar milho
a espigar poesia
:
goiás velha

*

pau-de-arara

líria porto

no corte da cana-de-açúcar
o suor salgado dos boias-frias
tratados como bagaço

*

elogio

líria porto

nem muito
nem pouco

o suficiente
pra virar o jogo

*

úmida

líria porto

tons lilases
gotas de orvalho
pétalas entreabertas
:
véspera

*

borrasca

líria porto

primavera verão
ninguém detém o outono

inverno

*

terça-feira, 14 de julho de 2009

vagos

líria porto

sentei minha ausência
ao lado da tua ausência

ficamos assim

os dois sem ninguém
no banco do jardim

*

livre

líria porto

quero um cavalo baio
pra gastar na ribanceira
todo o tempo que me resta
subir e descer a galope
arriscar as minhas beiras
arranhar as minhas pernas
montada sobre um pelego
se possível branquicento
morto de medo

quero a minha pele preta
meu cabelo pixaim

*

operariado

líria porto

passarela apinhada de gente atravessa a avenida
correição de formigas por um salário
de migalhas

*

de cá da vidraça

líria porto

chove
a menina grita
:
vem ver mamãe
a árvore lava
a cabeça

*

meteoro

líria porto

bola de fogo
despencada do céu
desintegrou-se o amor
antes de tocar o solo

*

líria porto

e quanto mais
soo insólito
necessitado
dum canto

(só_lido
como pétalas
pasto-as
de_vagar)

*

segunda-feira, 13 de julho de 2009

campanhas

líria porto

questão da fome meu caro
não é prato de comida
pois quando falta a marmita
o buraco é mais embaixo

não há trabalho abrigo
salário sapato agasalho
são muitas as precisões
ratos vivem de migalhas
homens não

*

editora lê - acordes

líria porto

a manhã acorda cedo
um pouco antes de mim
toma banho passa cheiro
põe tocar uns passarinhos
melhor que isso só tu
a bicares-me o umbigo
a dizeres-me ao ouvido
minha flor gosto de ti

*

estopim

líria porto

vi-me

o vento me empurrava
pendia-me para um lado
e outro

pedi implorei
cortem o mal pela raiz
ninguém me escutou

: explodi

*