domingo, 30 de dezembro de 2012

declaração

líria porto

eu amo mario quintana
com ele eu passarinho
voo e vinho

*

sábado, 29 de dezembro de 2012

excelência

líria porto

eu que banhei seu corpo
ao vê-lo engravatado
ao lado desses doutores
seguro o riso
:
ele tem coceiras cócegas
algumas pintas na bunda
medo de rato e barata
e pavor de escuro

*

meia-idade

líria porto

na subida testamos o fôlego
se formos até o topo
será tão grande o esforço
e tão profundo o cansaço
que não teremos mais ânimo
para os afagos
os beijos

*

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

presunção

líria porto

quem nascer no ano da minha morte vai ter uma sorte e um azar
sorte por ocupar o lugar que deixo e me dá muito prazer
e azar em não partilhar comigo o ar que respira

*

trêmula

líria porto

falo digo repito
(tento me convencer)
não tenho medo da morte
embora ela tenha um imã
(tanto quanto a vida)
que me atrai

*

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

pele de cordeiro

líria porto

tomara seja como tu esperas
embora quem te acerque - desconfio
tenha se aproximado com escusas intenções

esta criatura arranca do incauto todo o possível
mastiga-lhe a alma cospe-a com nojo
e ainda fala mal da sua conduta

*

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

época

líria porto

os nossos filhos e filhas 
quais aves de arribação 
chega o natal eles vêm
no ano novo se vão

*

domingo, 23 de dezembro de 2012

esbanjamento

líria porto

coisas caras coram-me perante os miseráveis
que  nus  procuram no lixo
restos de comida

*

tamanho

líria porto

o espaço que ocupamos
não precisava ser mais justo nem mais amplo
que a nossa consciência

*

não te aflijas

líria porto

vou me sentar no arco-íris espiar de lá do alto
tomar conta dos teus filhos dos teus netos
:
esperar-te

*

sábado, 22 de dezembro de 2012

saborosa

líria porto

não poupo o corpo da fruta
cravo-lhe os dentes e como
da casca à semente

*

tentação

líria porto

não darei a alma pro capeta
mas o corpo – vou pensar

*

preguiceira

líria porto

acordo e faço um acordo
com quem ressona a meu lado
quem se levanta por último
arruma a cama e o quarto
:
dei de madrugar

*

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

sobre a lápide

líria porto

bebi a vida num gole
sem enjoo sem engasgo
:
senti-lhe o cheiro o sabor
e jazo aqui – seu bagaço

*

na estação

líria porto

prima_vera fez as malas
guardou as blusas floridas
as saias rodadas
vestiu fio dental
sandálias rasteiras
foi à praia

*

pitonisa

líria porto

este defeito nos olhos as bordas ficam difusas
confundo o real com o sonho e quando observo o mundo
vejo bolas de cristal – faço adivinhações
:
tenho lembranças futuras
mas nada sei do que fui

*

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

escarcéu

líria porto

o sol veio de um lado a lua veio de outro
e lá no meio do céu os dois se esbarram e brigam
ela branca ele amarelo logo no primeiro encontro
:
foi um pandemônio

*

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

ermo

líria porto

meu coração é um brejo
uns atolam até o pescoço
outros mal sujam os pés


*

domingo, 16 de dezembro de 2012

passagem

líria porto

no meio do caminho o cipó
no meio do cipó a formiga
no meio da formiga a vida
tão efêmera
tão pó

*

sábado, 15 de dezembro de 2012

boca livre

líria porto

olha a lua
um sorriso
que aumenta
cada dia
vira um ovo
uma bola
depois rola
poesia

*

lavor

líria porto

por mais sorte que haja
não vai cair do céu
nem vai brotar
do nada
:
o que vais conseguir
nascerá dos teus braços
e do teu intelecto

*

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

julgamentos

líria porto

não te posso condenar
eu nada sei de miséria
de filhos famintos

no teu lugar talvez eu
cometesse todos os delitos
pelos quais te julgam

*

fome

líria porto

ao redor da mesa
uma dúzia de olhos enormes
e seis barrigas que roncam

*

graffiti

líria porto

escrevi nas paredes
versos da minha lavra

alguém chamou a polícia?

condenem-me pelo delito
não pela arte

*

rédeas

líria porto

coleira gaiola sapatos casamento ordens repressão
qualquer coisa que me imponha limites
estouro as amarras

*

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

sertão

líria porto

o céu promete chuva
promete mas não cumpre

*

rabo de peixe

líria porto

nunca fui
serei-a?

(sempre
uma dúvida)

*

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

cavalgada

líria porto

na cela do amor
ciúme

na sela do amor
liberdade

*

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

retorno

líria porto

diz-me
espera
e quando eu me volto
ela
incrédula
fala-me quase
sem fôlego
:
bom te saber por perto
é triste o destino das pedras
passamos séculos e séculos
sem que se cumpram
as promessas

*

controle

líria porto

nem fosse pedra
ficava tão quieta

ele passa
seguro o fôlego

(só
o coração
dis_para)

*

enfaro

líria porto

comeu-a a de a a e tanto se satisfez
que cuspiu no prato
:
ingrato

*

domingo, 9 de dezembro de 2012

ô_dores

líria porto

a vida é uma roseira
pétalas efêmeras e espinhos
duradouros

*

des_encontro

líria porto

o tempo nos transforma
e se eu sou outra e se o outro é outro
como manter o mesmo sentimento?

*

sábado, 8 de dezembro de 2012

paladar

líria porto

ora adora ora detesta
e de resto - doce amargo azedo apimentado
conforme a hora

*

atalho

líria porto

para abreviar a vida
atravesso-a na diagonal

*

martelo

líria porto

quer queiras quer não queiras
vou à feira leiloar o nosso amor
quem pagar melhor por ele
vai levar nós dois

vai ficar com a parte
                            que te coube

*             

risco

líria porto

saiu da zona de conforto
e pairou no céu da manhã
:
lua de papel
puta à luz do dia

*

chacina

líria porto

perguntas piadas ciúme
suspeitas insinuações
e foi indiscreto impulsivo
o amor se encolheu
escondeu  sumiu de vez

*

desdém

líria porto

digo que não me interesso e que tampouco me importo
mas não sou sincero – espero consiga encontrar-te
em meu ponto cego

*

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

pentelha

líria porto

cão chupando manga
rebelde a não mais poder
não paguei aqui na terra
a minha prole
                   é de pérola

(escapei de bamba)

*

reconhecimento

líria porto

olho o espelho o que vejo
e a cara velha sem máscara
tem o que espero das caras
:
coragem para enfrentar-se
e um riso sem mágoa

*

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

niemeyer

líria porto

o poeta das curvas
deu asas ao concreto
fez o cimento voar

*

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

laia

líria porto

as pessoas que ele amava
não eram lá essas coisas
mas quando escolheu a mim
que me havia em grande conta
vesti-me da carapuça
tratei de ser mais modesta

*

danada

líria porto

seu olhar de lambe-lambe dá-me água
na boca

(cuspo-a para não sofrer)

*

presságio

líria porto

conquanto tão pequenina
nada soubesse da vida
discernia o que era belo
muito mais que as outras primas
a mãe previa  a menina
não se conforma com pouco
escolhe cor cheiro
brilho
:
feita mulher
é artista

*

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

resguardo

líria porto

a gata pariu e os gatinhos
todos de olhos azuis
mamavam sua energia

a pobre gata ainda fosca
estava muito orgulhosa
com a saúde da prole

eles corriam voltavam
abocanhavam-lhe as tetas
que pareciam vazias

e a gata magra sem forças
sequer provou da comida
que sua dona lhe trouxe

*

despacho

líria porto

constatou  não tem mais jeito
retirou o ponto a vírgula
botou um ponto final

*

miragem

líria porto

eu vi a felicidade lá na linha do horizonte
caminhei para alcançá-la  eu andava ela andava
eu corria ela corria na mesma velocidade

*

sismo

líria porto

o amor foi terremoto
cinco graus na escala richter
não houve desabamento
mas a paixão meu senhor
esta sinto - é tsunami

(arrastou pedras
e pedro)

*

sem gravidade

líria porto

morte é sono profundo
sem sonho nem pesadelo
é livrar-nos desse mundo
do peso do sofrimento

*

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

colo

líria porto

sou eu quem baldeia maria
levo-a por todo canto
vejo transbordar-lhe o riso
insisto em secar-lhe o pranto
:
rio-me às cataratas

*

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

alagado

líria porto

não peçam nem meçam o que faço
doo-me espontânea assim que poça

*

cobertor de orelha

líria porto

nem marido nem namorado
alguém que se deite comigo
e respeite o meu lado

*

safra

líria porto

os zeros não são nulos
os milhões são grãos de milho
para alimentarem os filhos
dos pobres de todo o mundo

*

escudo

líria porto

tenho em torno
do meu corpo
um exército
de almas boas
que me salvam
e me protegem
dos espíritos
obsessores

*


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

tecelagem

líria porto

tão cedo eu me acordo com aurora no quarto
eu cerro meus olhos preciso é dormir
lá longe se escuta o canto de um pássaro
adeus meu sossego tem verso na agulha

tal como a bigorna que bate que surra
que insiste em dar forma às barras de ferro
assim faz a mente com meu sentimento
até que ele tenha compasso de música

vem dia vem noite vem sol e vem chuva
a lua se esconde por trás de uma nuvem
porém meu poeta lhe sai à procura

vasculha os escuros o espaço o infinito
arreda as estrelas recolhe a neblina
faz tudo o que pode – sua lua o sepulta

*



terça-feira, 27 de novembro de 2012

ao pé da árvore

líria porto

palhinhas e galhos secos
um ninho quase completo
o vento a fazer besteira
tem passarinho sem teto

*

ferrugem

líria porto

a cadeira de balanço range quando me sento
suas molas são antigas  suportaram sucessivas
barrigas de nove meses

*

poema para wânia

líria porto

ela aleitou a letícia e também a luciana
lavou-lhes fraldas cabelos - minha irmã já tens o céu
isso é merecimento não precisas rezar tanto
podes rasgar o verbo as meninas são mulheres
e agora o mundo é delas

*

folgados

líria porto

tal como o domingo ou sábado à tarde
um vestido velho um par de chinelos
o riso do amigo um disco antigo
um nó desfeito

*

babado

líria porto

a vida não é justa
- é plissada franzida godê -
e é curta

*

emoção

líria porto

um canto em cada canto
tal encanto a transbordar-me
se eu cantasse acalantos
guardava espantos na lágrima
teria nós na garganta
seria santa ao contrário

*

biruta

líria porto

para onde vou eu não sei
de onde vim nem me lembro
eu cá estou en_caminho-me
com essas asas de vento

*

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

compromisso

líria porto

respondo pelo que faço
mesmo quando eu me perco
nalguma queda de abraço

*

acusação

líria porto

apontou-me o dedo assim
como se fora um revólver
dei meia volta e senti
a dor de um tiro
nas costas

*

acerto

líria porto

pode chover canivete faca prego punhal
quando devo eu pago mas também pego
meu troco

*

leviana

líria porto

botei-a numa bateia
junto com muita gente
peneirei lá não ficaste
só selecionei as gemas
as que têm muito valor
que se prestam à amizade
jamais à enganação
à cobiça ao interesse
:
fica longe bem atrás
de ti eu quero
distância

*

atração

líria porto

quem quer não espera
os rios caminham e os mar os recebe
de águas abertas

*

domingo, 25 de novembro de 2012

desjuízo

líria porto

eu tento entender o vento
ouvi-lo um pouco mais calma
porém perco a paciência
ele vai vem assobia
tira a roupa do varal
bate a porta espalha as folhas
enche a casa de poeira
não presta atenção em mim

*

vogal

líria porto

assim eu me assanho
assim eu me assento
assim eu me assisto
assim eu me assomo
assim eu me assunto
:
nua

*

friagem

líria porto

de lá nevoeiro
de cá sentimentos nublados
que buscam encontrar noutros braços
um cadinho de sol

*

troco

líria porto

a vida esmurrou-lhe o fígado mas não foi a nocaute
revidou com força deu-lhe uma baita banana
e seguiu sua estrada

*

humor

líria porto

o sol não veio – é domingo
a nuvem cinza espreguiça-se
se o tempo faz cara feia
quem vai ter cara bonita?

*

justiceiro

líria porto

um raio atingiu
aquele que contra os seus
impetrou palavrões fez desfeitas
invocou o coisa ruim
tentou destruir saquear
quem lhe deu a luz
doou-lhe sangue feijão
e peixes

*

sábado, 24 de novembro de 2012

providência

líria porto

se a dor é funda viro-me do avesso
mas se a dor é rasa corto-lhe as asas
e as penas

*

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

recato

líria porto

com a lua eu me esbaldo
porém as estrelas
brilhantes pontudas
cheias de si e de orgulho
estas me calam
eu me assombro
eu me escondo
eu não falo

*

imaginação

líria porto

a lua é uma bola uma hóstia uma moeda um queijo
ou a_penas um satélite com lugar garantido na vida
do poeta?

*

calores

líria porto

um pôr de sol das arábias
daqueles de areia quente
e a lua que se prepara
pra sua dança do ventre

*

condenado

líria porto

trancafiou o amor
impediu-o de ir e vir
de conhecer-se no espaço
e o pássaro cativo
esqueceu as próprias asas
já não sabe assobiar
ficou triste triste triste
quer sequer comer alpiste
recusa-se a beber água

*

monotonia

líria porto

na encosta da montanha
de olho no pôr do sol
maria lua vivia
sua vidinha sem nuvem
a fazer poesia
sem sentir solidão
:
tudo com bolinhas
do mesmo corte

*

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

raios

líria porto

não deve ser tão ruim a longa noite sem fim
no que de mim depender vou esperá-la
de pé

*

cúmplices

líria porto

teu olhar qual uma adaga atravessa pensamentos
adivinhas-me num momento e se tento disfarçar
tu me abraças e me consolas

*



história da carrocinha

líria porto

o príncipe virou sapo
o amor ressentimento
a relação foi pro brejo
e a princesa dá duro
para sustentar os filhos

(o real é proletário
e o tal do romantismo
um caso policial)

*

anos de chumbo

líria porto

dói-me dentro
dói-me fora
entre também dói

tem um medo que me rói
tem um peso que me mói
uma pata de cavalo
um quepe de general

*

tirana

líria porto

não deve ser tão ruim
no que depender de mim
vou esperá-la de pé

*

domingo, 18 de novembro de 2012

de coração

líria porto

as promessas
os adiamentos a decepção
mesmo que eu não queira
o que era belo
põe-se como um zero
à esquerda

(esperei sentada)

*

sábado, 17 de novembro de 2012

destino

líria porto

por onde caminho
meu pé abre a picada

*

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

a rosa

líria porto

desabrocha depois despetala
e por uns momentos o seu cheiro
paira
:
alegrias não perduram
nem tristezas

*

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

dilema

líria porto

todo poeta vive na berlinda
sem saber ao certo se dá
ou desce

*

conservadores

líria porto

há um mofo sobre as telhas das casas antigas
sobre as cabeças de pensamentos velhos

*

con_sorte

líria porto

ela escreve o poema do amor perdido
ela escreve o poema do amor achado
eu não perdi nem achei um amor
e escrevo um trevo
de quatro
rolas

*

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

passarinhos

líria porto

peixes criaram asas fizeram ninhos
e viraram o mar de pernas pro ar

*

falta de jeito

líria porto

o vento com seus gestos bruscos
derruba as mangas verdes e assusta
os passarinhos

*

extermínio

líria porto

um canto sem corpo
a alma de um pássaro
um ninho vazio a chocar
solidão

*

poeminha

líria porto

dona terra espera
a visita da comadre chuva
que se esmera em tecer para ela
mantas e lençóis d'água

*

domingo, 11 de novembro de 2012

crítica

líria porto

escreveu um crivo
e cravaste uma cruz nas crostas
do escriba

*

sábado, 10 de novembro de 2012

empate

líria porto

só te traí uma vez e porque era verdade
ela fala  também eu só te traí uma vez

foram duas as garotas ele retruca
eu não  foi um teu amigo
mas em dose dupla

*

abdução

líria porto

fez amor com o verde
e tudo que há e ouve
engravida-a
:
a couve

*

gravidade

líria porto

a pedra atrai o mar
com olhar grávido/agudo
e o mar invade a gruta
:
entra e sai
entra e sai

*

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

pesadelo

líria porto

caiu da cama e sem rede
espatifou-se no escuro
então escreveu no muro
fechado para embalanço

*

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

valorização

líria porto

ultrapassar-se
saltar à frente de si mesmo
tornar-se objeto de desejo
e de amor-próprio

*

ser_tão

líria porto

a nuvem atravessa o azul
e quando apeia é chuva
verdura no chão do mundo
milho feijão jerimum

*

português

líria porto

mandou-a plantar batatas
ela o fez –– ao pé da letra
e a colheita foi tão boa
que a mulher enriqueceu
viajou para lisboa
e arranjou outro amor

*

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ausente

líria porto

nem todo poema é prolixo
tem dia que é um suspiro
um olhar fixo no nada

*

o quê?

líria porto

o tom pode distorcer-se – zum zum zum
pôr abelha em nosso ouvido

um zunido

*

mundana

líria porto

a mulher da minha vida
sem a qual sequer respiro
a que caminha comigo
e me apoia até nos erros
essa dos meus pecados
que me conhece os segredos
e gosta dos meus amigos
e ama os meus amores
essa mulher meio louca
da qual também desconfio
poderá roer-me as unhas
e até morrer por mim
essa mulher em ruínas
essa tal de líria porto
tem meu corpo
tem meu nome
tem meu endereço

*

terça-feira, 6 de novembro de 2012

carranca

líria porto

a língua míngua o silêncio espalha-se
a culpa é tua que não falas  engoles seco
e te mostras tão amargo

*

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

resgate

líria porto

mas porém houve um sujeito
ele me tomou de mim
transformou-me em borralheira
até me quis princesinha
trapo-bucha-amélia-gueixa
qualquer coisa

eu fiquei tão transtornada
já não pensava em mais nada
a não ser no grão-vizir
em servir sua majestade
deixar que ela ultrajasse
minha alegria meu riso

olhei-me então no espelho
e não me reconheci
levantei as sobrancelhas
rodei sobre os calcanhares
exclamei – vou me buscar
:
eu me achei
estou aqui

*

dedicação

líria porto

chegou mesmo a ver estrelas em plena noite chuvosa
e seu amor se esmerava realizava milagres
retirava-lhe a tristeza enxugava-lhe a lágrima
transformava espinho em pétala

*

domingo, 4 de novembro de 2012

a felicidade

líria porto

dá-nos esperá-la sentados
que de pé o cansaço monta

*

nos nervos

líria porto

além de maiúsculas pontuação gerúndio
birra por adjetivos
(sempre tão explicativos)
e por advérbios
(estes fofoqueiros com suas informações
de quando como
e onde)

*

bairrista

líria porto

colher rastelar abanar o café
deixá-lo espalhado ao sol até que seque
triturar a casca limpar torrar moer coar e servir
com queijo de minas

*

vantagem

líria porto

tinha um lugar à mesa
mas depois que ficou velha
e com tantas cadeiras disponíveis
muda de posição
:
vê a vida
por muitos ângulos

(uns agudos outros obtusos)

*

en_carregados

líria porto

a existência tem duas portas  uma de entrada uma de saída
uma entregue à vida outra entregue à morte e a sorte é que as duas
são pontuais

*

sábado, 3 de novembro de 2012

luxenta

líria porto

adoro morar comigo
fazer-me toda vontade
mimar-me ao infinito
ser minha mãe avó tia
por um ano um mês
um dia

depois fico insuportável

*

benta

líria porto

atiça o fogo do padre
fá-lo sentir-se bonito
o corpo inteiro se excita
o padre beija-a abraça-a
morde-lhe o lábio o mamilo
faz crepitar a basílica

*

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

sobressalto

líria porto

um estampido
pulei da cama
pensei num tiro
numa tragédia
:
por que não
num balão
de festa?

*

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

deslembrar

líria porto

o verso me abandona – isso não se faz
nós passamos juntos quase a vida toda
eu o socorri nos dias de modorra
foi-se da memória sem olhar pra trás

*

terça-feira, 30 de outubro de 2012

infortúnio

líria porto

figa pé de coelho
trevo-de-quatro-folhas
guiné arruda alecrim
comigo-ninguém-pode
ferradura atrás da porta
banho de sal grosso
espada-de-são-jorge
e nada de sorte

*

domingo, 28 de outubro de 2012

quá

líria porto

quá quá quá
de quem ri o pato
de mim?

eu rio do pato
que nada

*

machismo

líria porto

e quando ele lhe disse só te traí uma vez
ela falou simplesmente – eu também

o homem ficou maluco
queria saber com quem
se foi melhor ou pior
nunca mais teve sossego
e entrou em crise

*

sábado, 27 de outubro de 2012

vai-volta

líria porto

cansou-se de mim  fricote
exauriram-me seus faniquitos
esse gostar não gostar

(se voltar ponho pra dentro
como deixar ao relento
um ser tão sensível)

*

qual a senha para o sonho?

líria porto

nada me acontece
a realidade é triste
hora dessas durmo
e não acordo

*

matizes

líria porto

as tonalidades
tudo o mais parece
aquarela feita
pelas mãos do mestre

*

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

vidinha

líria porto

baldes e bacias aparavam as goteiras
titia arrancava os cabelos – enxugava
o chão da sala da cozinha do corredor
deixava o café pronto e corria
pra feira

(seu marido roncava
levantava-se para o almoço)

*

da sopa

líria porto

estalava-lhe os dedos
ela vinha igual cachorro
e ganhava um ponta-pé
:
pois dia desses vingou-se
partiu e levou o osso

*

mudança

líria porto

igual gota
sentir o peso do todo
e sem onde segurar-se
soltar o corpo
cair sobre a enxurrada
integrar-se a outras águas
ser feliz noutro lugar

*

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

librianos

líria porto

ah esse polvo de outubro
com tantos braços abraça-nos
a alma vai no regaço

ah essa gente tão rubra
o próprio desequilíbrio
quem a conhece afunda-se
e volta à tona

confuso?

(não ao câncer de mama)

*

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

líria porto

porém ainda
a dor intransferível
o sofrimento atávico
o juízo final

*

terça-feira, 23 de outubro de 2012

sinistro

líria porto

pela vida afora a morte
davam-lhe pêsames

parabéns
jamais

*

impúbere

líria porto

o nosso amor adolesce e tem espinhas na cara
e faz pirraça e é feinho – em poucos anos em breve
terá as chaves de casa

*

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

o carroceiro

líria porto

para que pressa – no trote a vida vai longe
eu não uso chicotes tu não dás pinotes
seguimos no ritmo de ontem

*

escapamento

líria porto

ufa
passou
mas se voltar
devolvo a dor
para o dono

*

seiva

líria porto

quem me inspira – outros poetas
eles me incitam fazem comigo o que a árvore
faz com a orquídea

*

domingo, 21 de outubro de 2012

de dar água na boca

líria porto

uma medida de arroz
três de suco de tomates
uma colher de manteiga
sal alho e cebola a gosto
levar tudo ao micro-ondas
sem nenhuma gota d'água
misturar uma vez ou outra
:
polvilhar queijo ralado
cebolinha salsa e comer
acompanhado

(quem me deu esta receita
faz amor muito bem)

*

com açúcar e com afeto

líria porto

nem joelhos sobre o milho
e nem mãos à palmatória
os castigos que humilham
não ensinam dão revolta

há todavia limites
não farão o que não podem
nesse jogo tem um líder
e regras harmoniosas

*

sem recato

líria porto

faltam-me versos
ataco de prosa
porém não descarto
o velho poeta
que sem mais nem menos
surge do nada
e chega dobrado
como um origami
:
um papel alado

*

sábado, 20 de outubro de 2012

lotação

líria porto

o sol sobe a lua desce
a lua sobe o sol desce
o céu é pequeno
para os astros

(um moreno me acena e some
vou achá-lo no inferno)

*

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

a ilha

líria porto

de pança pra cima
de papo pro ar
assim como está
deitada na areia
cercada de azul
e sem precisar
de mais nada

*

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

perna de pau

líria porto

em meu time sempre foi artilheiro
em seu time me deixava na reserva
agora me convoca?

(vou não)

*

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

escravo

líria porto

escrevo sobre eva
cravo uma uva onde é maçã – uma ova
diz-me o mestre e passa um abrasivo
na inovação

*

terça-feira, 16 de outubro de 2012

megalomania

líria porto

quando só restar a linha do horizonte
vou fazer um verso bem em cima dela
algo que se alongue ao redor da terra
:
de fechar o círculo
(ai quem me dera)

*

urtiga

líria porto

já faz tanto tempo
e é tão recente
pois que ainda arde
como água-viva

parece que o vão
que não se preenche
é perder-se algo
como a meninice

*

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

limbo

líria porto

saio do compasso não caibo na moldura
pairo no espaço – entre deus e o diabo
terríveis criaturas

*

flores de sibipiruna

líria porto

no alto das galhas bicos para o céu
a olharem as nuvens – só faltam
cantar

*

sobrevivente

líria porto

por amar a morte permaneço viva
todos a odeiam mas ela me respeita
e me olha à distância

*

carnívora

líria porto

dela não escapas
espécie de víbora
nasces morres
             renasces

*

abandono

líria porto

há uma espécie de coma
em tudo que é esquecido

a morte ronda
as gavetas

*

domingo, 14 de outubro de 2012

minas gerais

líria porto

ouro ferro diamantes
tudo isso ainda é pouco
para comprarmos o mar

*

inquietação

líria porto

o canto da porta a batuta do vento
agudos na ida graves na volta
como a voz dos meninos
na adolescência

*

alfinetadas

líria porto

pontadas na língua atiçam as palavras
afinam a saliva  impedem o silêncio
que tudo diz

*

feitio

líria porto

a poesia exige o corte o talhe a perícia
do exímio alfaiate

*

sábado, 13 de outubro de 2012

a chuva haicai

líria porto

maior temporal
um forte estalo ribomba
dentro do meu tímpano

*

geometria

líria porto

eu tu ele – triângulo equilátero
se entrar mais alguém nós viramos quadrado
e a vida muda cega surda

*

desastrado

líria porto

eu tenho dois pés esquerdos
e meto os pés pelas mãos
por onde passo perguntam
pé de vento redemunho
tornado furacão?

(tudo ao mesmo tempo)

*

sem compromisso

líria porto

fosse para dar-lhe um osso
levá-la para um passeio
ria ficava alegre
mas não queria
a cadela

*

caminhoneiro

líria porto

fico aqui e fico lá
são muitos ninhos nenhum
que possa ser o meu lar

estou sempre por chegar
atrás de mim tem estrada
à minha frente também

não sou pai não sou marido
mas tenho mulher
e filhos
:
não me sigam
eu me perdi

*

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

águas

líria porto

a chuva chegou e com ela 
a alegria do verde

as sementes dentro em breve
terão vestes diferentes

*

embalagem

líria porto

corpos são caixas onde as almas se escondem
até alcançar a plenitude

*

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

pedregulho

líria porto

na outra banda da cama
naquela que não estás
eu vou deitar outro homem
e arrancar para sempre
qualquer lembrança de ti
qualquer detalhe capaz
de fazer-me infeliz

*

trincas

líria porto

escondo-me sumo de ti
pra saber se sentes falta

a cada vez que me vou
a chama fica mais fraca

não viverei para sempre
exposta à ponta da faca

*

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

raça ruim

líria porto

o capeta o diabo o satanás o puritano
nenhum é melhor ou pior que o outro

*

com_paixão

líria porto

a dor que nos antecede
a dor de existir de ser
faz-nos olhar nos olhos
compreender outros seres

pobres somos todos nós
viventes

*

terça-feira, 9 de outubro de 2012

na sequência

líria porto

caí da cama quebrei o pé
caiu na lama sujou a pétala
caímos e levantamos
:
música maestro

*

alívio

líria porto

passei anos na penumbra
a alimentar vampiros

a sorte é que os malditos
enjoaram do meu sangue
:
abri as janelas

*

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

bígamo

líria porto

o pato tem duas asas
dois pés e duas patas
:
de pato este pato
não tem nada

(nada de braçada)

*

tête-à-tête

líria porto

tão íntimos que à distância
um no céu e  outro na terra
ainda se entendem

*

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

divórcio

líria porto

eu não sinto falta dele em minha cama
eu não sinto falta dele em minha chama
eu não sinto falta dele em minha brama
eu não sinto falta dele
:
fui me buscar – sinto falta é de mim

*

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

pernoite

líria porto

eu estou de cá da serra
meu amor ficou de lá

se eu subo deste lado
ele faz esforço igual

na metade da estrada
haverá um bom lugar

para dois corpos cansados
certamente lá no céu

onde tenha passarinhos
e não haja a_deus

*

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

excitação

líria porto

em estado de coma-me
é que te bebo

*

zen

líria porto

a vida pode ser mais fácil
do que a gente inventa

rios correm paro mar
sem deixar o leito
sem afobação

*

terça-feira, 2 de outubro de 2012

exibição

líria porto

as vestes rosadas
qual moça na festa
a árvore se empresta
ao olhar

*

do cão

líria porto

terrível viver com ele – um tal que não miava
um ser que não me houve

*

sabre

líria porto

caminho sobre lâminas já não deixo rasto
o medo não me fere e só sangro
quando quero

não menstruo mais

*

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

fuga

líria porto

sumiu na véspera
do sábado
:
com salto alto
e batom


*

arroto

líria porto

não é tristeza
nem alegria
o que me mata
é a poesia
:
ela me entorta
me sacaneia
eu quase morta
chupa-me as tetas
e regurgita
cospe-me fora
depois sorri

*

domingo, 30 de setembro de 2012

dependência

líria porto

preciso livrar-me dela
mas não quero
             nem consigo
:
poesia é vício

*

asa de passarinho

líria porto

efêmera porém tão bela
a que me leva ao sono
ao sonho louco – ultraleve
que sonho por breve tempo
até que o vento me leve

*

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

hostil

líria porto

o corpo perde o prumo balança tropeça cai
esfola a pele o joelho estoura a barra da saia

pior que o tombo - o susto
a reação do vizinho o seu risinho
de escárnio

*

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

pouco caso

líria porto

teu desdém mal tocou o meu corpo
mas feriu minha alma deixou-a
com hematomas

*

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

brotos

líria porto

o verde voltou e com ele
a certeza de dias mais leves
mais suaves sem a mão pesada
da seca e do corpo suado

*

é

líria porto

o espelho não lhe mentia
ela tinha consciência
da sua aparência externa

feiosa e arredia
meteu a cara nos livros
formou-se com honra ao mérito

as primas ricas bonitas
com suas vidas medíocres
ainda morrem de inveja

*

terça-feira, 25 de setembro de 2012

exaustão

líria porto

quanto mais caminhas
mais se distanciam os horizontes
e as musas

*

das incompletudes

líria porto

a metade da laranja
quem quiser fique à vontade
eu quero laranja inteira
ou então não quero nada

*

caríssimo

líria porto

nenhum botão liga/desliga um sentimento
então eu lamento – voltamos a falar-nos
quando o tempo curar a ferida

*

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

forca

líria porto

o verso que falo tira-me o fôlego
o verso que calo quebra
meu pescoço

*

reação

líria porto

agora ninguém me amassa
o que passou já passou
eu tenho asas
coragem
preparo o próximo voo

*

domingo, 23 de setembro de 2012

complexo

líria porto

a arrogância é o disfarce de quem
é pequeno e não consegue crescer

*

sábado, 22 de setembro de 2012

des_cuida

líria porto

tropeça na poesia e cai de boca
na boca do povo

*

crítica

líria porto

muita nem pouca
do exato tamanho da nossa
(in)significância

*

partida

líria porto

palavras duras – de inverno
inundaram-me de tristeza
porém livraram-me a vida
dos dias cinzentos

ainda me recupero
e dentro em pouco terei
as flores da primavera
as alegrias inteiras

*

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

mudança


líria porto

virou-me as costas não olhou para trás
acaso volte não me peça para eu ser a mesma
o amor se esgota

*

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

in_sensível

líria porto

estendo a mão
e o outro lado da cama
é frio como pedra

rolo meu corpo
tento aquecer o outro lado
meu corpo gela

*

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

na ponta dos pés

líria porto

existe uma chance a porta entreaberta
até quando não sei – pode ser que amanhã
eu me ponha fora de alcance

quero as chaves do céu

*

terça-feira, 18 de setembro de 2012

parede

líria porto

lembra-te – és pó
(disso eu não me esqueço)
então eu não choro mais
pois lama já é demais

*

apoio

líria porto

adormeço agarrada à minha sombra
quem sonha sou – ela tem pesadelos

*

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

fênix

líria porto

sentimo-nos um nada um verme um zero à esquerda
até descobrimos que quem nos despreza fá-lo por pequeno
e não nos merece
:
levantamo-nos – primeiro a cabeça
o pescoço o dorso e pomo-nos de pé
para os primeiros passos

então voamos sem o peso
do remorso

*

domingo, 16 de setembro de 2012

performance

líria porto

a poesia não precisa do teu corpo
a poesia não precisa da tua voz
nem ao menos necessita
do teu verso

um poeta não precisa
ser ator

*

soluços

líria porto

primeiro o silêncio
depois ouviu-se o choro
como uma golfada
um vômito
                 de tristeza

*

sábado, 15 de setembro de 2012

aterrissagem

líria porto

em pouco voo estou quase
:
debaixo da terra um outro lugar
outra possibilidade?

seja o que for diverti-me à beça

*

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

vazios

líria porto

o que falta
salta aos olhos
o que sobra
ninguém vê
se não fôssemos
tão ingratos
estaríamos
bem felizes
com metade
do que temos
:
somos ricos
somos miseráveis

*



quinta-feira, 13 de setembro de 2012

entalo

líria porto

o mormaço as nuvens a poeira a dúvida
de repente um empurrão um susto
e tudo vai por água abaixo

*

terça-feira, 11 de setembro de 2012

delicadeza

líria porto

diferente do coração
eu não sei bater nem apanhar
então meu bem chega manso
roça-me o peito
                sem cavoucá-lo

*

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

tu

líria porto

volúvel como a trepadeira
ou um pé de chuchu

*

tapete

líria porto

aos pés do ipê
flores que não suportaram
o peso da beleza

*

domingo, 9 de setembro de 2012

sustentação

líria porto

voo como um pelicano – bato as asas plano
aproveito o ar da corrente para me sentir livre
dono absoluto do meu bico

*

a dor

líria porto

e não é dor na pele nos nervos nos músculos ou nas vísceras
nem dor de amor de saudade ou dor de ausência – a dor é profunda
e generalizada

brota dentro do esqueleto (no cerne de cada osso) atravessa-o
transpassa os órgãos chega às pontas dos cabelos dos pelos dos cílios das unhas
e dói mais que a dor do mundo

reveste o corpo a alma preenche-os
é dor concreta inevitável é dor de poeta
esse ser exagerado

*

sábado, 8 de setembro de 2012

ponto final

líria porto

quem vai banhar meu velho corpo
alimentar-me limpar os meus restos
quando eu não puder?
:
combinei comigo – meu último suspiro
será muito antes

*

toda verdade tem um fundo de verdade

a viagem

líria porto

a lua saía do chão
e a menina  acelera pai vai rápido
aproveita a lua aberta

*

sigilo

líria porto

grito calado
silêncio agudo
pedras não falam
escutam

*

féretro

líria porto

é hora de fechar os olhos
despedir do mundo deitar numa cova
e deixar que um corvo conte
a nossa história

*

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

lá vou eu

líria porto

tigres rugem no meu peito
gatos ronronam – não me dão
trégua

adeus viola violão gaita de fole
adeus terra

*

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

tripé

líria porto

sustentam relações duradouras
os que aceitam ficar à sombra
(as esposas por exemplo)

*

terça-feira, 4 de setembro de 2012

pé na cova

líria porto

cansaço quase abissal
deitou sobre a própria sombra
e não moveu mais um dedo

então a tosse atacou-o
assolou-lhe o peito as costas
como um disparo de pólvora

passada a crise o seu corpo
(a pele os ossos a soberba)
aquietou o esqueleto

*

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

acne

líria porto

vontade de me casar
eu juro de pés juntos disso eu não sofro
sou doida mas nem tanto só pode ser
outra coisa

(rosácea - doença de pétala branca)

*

a termo

líria porto

nasce a primavera
e não temos chuva
para a mamadeira

*

eternidade

líria porto

nosso amor  amor  é para lá do além
onde ninguém sabe onde

*

espelho

líria porto

quanto mais perto da estrela
mais risco de queimadura
por isso prefiro a lua – o afresco
da luz

*

campa

líria porto

a vida é grávida a morte abrupta
e entre agudos e graves
um juiz apita

*

domingo, 2 de setembro de 2012

tempos bicudos

líria porto

madame natureza  estilista renomada
usa sobras de tecido dos fraques dos pinguins
para vestir andorinhas com trajes
de gala

*

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

passatempo

líria porto

o amor que eu quis passou por aqui mas não veio
do alto-mar me acenou e desde então eu só fiz
esperar no ancoradouro

enquanto espero
namoro os marinheiros

*

índia

líria porto

não fiz enxoval de noiva
o amor não me exigiu
tamanho sacrifício

eu fui com a roupa do corpo
com a cor da minha pele

*

revolta

líria porto

a poesia fugiu
desertou-se do meu verso
me deu um nó na garganta
no entanto eu não me calo
e só falo na injustiça

*

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

oco

líria porto

abstrato
cercado
de
concreto
:
poço

*

ceia

líria porto

o gato gabola
enrola os bigodes
alisa os pelos
e lambe com gosto
seu prato predileto
:
um rato
obeso

*

exposição

líria porto

a dor é profunda
furada com broca
então ponho a bucha
um parafuso
penduro a saudade
com moldura
e tudo

(à cor do hematoma)

*

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

miséria


líria porto

nem sapatos nem chinelos
o último partira as tiras
e maria não foi à missa

doíam-lhe as rachaduras nos pés
mais ainda o deus
sem piedade

*

domingo, 26 de agosto de 2012

cofre

líria porto

no toco tem um buraco
dentro do buraco um oco
onde guardo um tanto um pouco
desse meu demasiado

*

ponta a_ponta

líria porto

eu não pensava que vovó falasse a sério
então eu mesma continuo o raciocínio
fica tão próxima a infância da velhice
que a morte deve estar
                                       ali na esquina

*

saga_cidade

líria porto

atrás um perfume e uma cor que não se apresentam
à frente o cruzamento perigoso 

se eu me distraio com o passado
haverá futuro?

atento-me

*

sem estilo

líria porto

um estalo tolo e eu desisto
(esta faca cega não me levará)
a corda de fumo é que me enforca
num toco de hollywood



*

i_tens

líria porto

um pensamento uma emoção
uma palavra
                quase um silêncio

*

a moça

líria porto

as descobertas as madrugadas
todos os mistérios e na boca
um batom vermelho
 
*

preterida

líria porto

feiosa raquítica olhos imensos
cabelos aneladinhos como pimenta do reino
a mãe preferia passear com a outra – a primogênita

aprendeu a brincar com as sombras
e as delicadezas

*

sangria

líria porto

munido de noz e com raiva de mim
salvador deu dez tiros em meu coração
depois perguntou-me
queres vinho?
:
acenei-lhe que sim – ele disse
então vem

*

sábado, 25 de agosto de 2012

insatisfação

líria porto

bem dentro da alma  no âmago
(será que alma tem estômago)
eu sinto fome de quê?

*

terror

líria porto

rente ao portão do hospital
de onde saíam os defuntos
moravam as tias beatas
e com medo do outro mundo
de alguma coisa macabra
passávamos sem nem olhar
mas hoje sei são os vivos
a nossa grande ameaça

*

plantio

líria porto

as letras
as sílabas
as palavras
a sentença
:
lavrai a língua
semeai em fileiras
todas as luzes
e sombras

*

miragem

líria porto

um homem impossível inacessível – lá longe
eu ficava na ponta dos pés estendia-lhe os braços
não lhe tocava os esc_ombros

*

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

a atriz

líria porto

com uma saia cigana
um xale de renda preta
e eu virava uma puta
uma mulher sem cabresto

depois –– a roupa trocada
e limpa de qualquer culpa
fantasiada de santa
ninguém me apontava o dedo

difícil é ficar nua
ser muitas
seres tu mesma

*

censura

líria porto

prenderam-me em camisa de força
vendaram-me os olhos
costuraram-me a boca
acorrentaram meus pés
fecharam-me as portas
mas não se aquietam
meu pensamento está solto
e é demolidor

*

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

compatibilidades

líria porto

já me disseram – o vento
é um louco alucinado
mesmo assim damo-nos bem
ele derruba
eu cato

quando estou triste ele vem
sopra a tristeza pro alto
solto uma gargalhada
sou doida às vezes
ou quase

araguari – ventania
terra de boa água
e gente incrível

(eu inclusive)

*

cabisbaixo

líria porto

o verso ataca o papel
e o poeta acovarda-se

*

analista do sistema

líria porto

nos divãs as divas – as marias ali mesmo
nas frias cadeiras da sala de espera

*

para torturar dona de casa

líria porto

poltrona no quarto não se presta à leitura
nela jogamos roupas penduramos a toalha
deixamos o guarda-chuva

(muito melhor
a privada)

*

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

tamanho

líria porto

sei de ouvir falar
dessa tal felicidade
cujo céu é o limite
:
só conheço a da formiga
dentro do açucareiro

*

armação

líria porto

não demora chove
as nuvens se fecham em si mesmas
ganham o peso dos re_banhos

*

palavras

líria porto

tatuagem e cicatriz
para obtê-las é preciso
deferi-las

*

desleixo

líria porto

meu anjo é o dodói
quem cuida de quem sou eu
ele não se toca e eu morro
de ausência

*

desnaturada

líria porto

dá teu jeito  arredonda o coração
eu vou mamar do teu peito
um amor de mãe

*

desmistificação

líria porto

quem vai me salvar
a língua
que para se manter íntegra
precisa pronunciar
tudo o que a alma sinta
:
injustiças e maldades
todas as vilanias
os gritos os palavrões
abusos e canalhices

(língua limpa
impoluta
só a de um filho
da puta)

*

terça-feira, 21 de agosto de 2012

brrrrrrrrrrrrrrrr

líria porto

o frio é abraço de defunto
dedos finos e gelados
sob nossa blusa

*

móvel

líria porto

a cama antiga
balouçava igual jangada
oscilava pelos cantos
mal suportava
os amantes

a cama moderna
madeira de demolição
firme como as caravelas
navega sono adentro
sem balanço

(bom mesmo é dormir na rede
em cima o céu –– embaixo
a grama)

*

decisão

líria porto

amei-o o quanto pude
mas quando ao final de tudo
o amor não prevaleceu
deixei-o e caí no mundo

quem sei de mim
só eu mesmo

*

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

suspiro

líria porto

muita vez eu me canso de mim
não ao ponto do autoextermínio

(quisera poder hibernar
sumir por uns tempos – enlouquecer
trocar de casca como as cobras
e as cigarras)

*

o pulo

líria porto

as patas do gato arranham o ar
era uma vez um canário

*

lugar-comum

líria porto

de tanto engolir sapos – goela entalada
gosto de cabo de guarda-chuva
tristeza aqui é mato a vida vai para o brejo
beijos foram para o ralo e mais dia menos dia
adeus viola

*

domingo, 19 de agosto de 2012

marca

líria porto

tão linda a palavra cicatriz
pena que para obtê-la
precisemos nos ferir

*

espantos

líria porto

muitas caras
uma da infância algumas da juventude
inúmeras caras maduras e agora
a da velhice
:
todo dia a cara muda

(e cega
e surda)

*

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

trêmula

líria porto

um frio tão gelado - acendo o fogo
ele me cobre com seu corpo e me beija
com sua boca de vulcão

*

a questão

líria porto

há quem se apresente igual anjo
e não passe de filho da puta

*

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

orvalho

líria porto

diante desse mar
debaixo dessa chuva
dentro dos teus braços
sou um pingo d'água

*

monumento

líria porto

no ombro
o cântaro  na cabeça
cocô de pombo

*

abandono

líria porto

vi minha sombra
pronta para partir
puxei-a pela ponta
pedi-lhe que ficasse
ela deu de ombros
a desalmada

*

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

fogão de rabo quente

líria porto

dois paus de lenha gravetos
um pedaço de jornal ou papelão
um fósforo aceso três sopros
e fumaça e esforço

*

terça-feira, 14 de agosto de 2012

cicuta-me

líria porto

é que o suicida tem ideia fixa
vê o edifício surge logo um pulo
de alguma faca escorre seu sangue
pensa em gilete olha para os pulsos
nunca se esquece dos pontiagudos
daqueles objetos perfurocortantes
das armas de fogo do cianureto
dos medicamentos
de tarja preta

é que o poeta tem ideia fixa

*

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

distantes

líria porto

hoje
especialmente hoje
uma segunda-feira
sinto a tua falta

no começo
quando o amor era farto
às segundas me dizias
aqui é meu oásis

quando precisei partir
já não eras tão assíduo
e as segundas igualavam-se
aos outros dias

hoje
especialmente hoje
uma segunda-feira
sinto a vida áspera

*

condicionais

líria porto

se o estoque é escasso
se nem se faz para o gasto
se não convém ficar sem

se o orgulho o egoísmo
cavou valas e abismos
se só se pensou em si

esperar o quê
e de quem?

*

domingo, 12 de agosto de 2012

velhos tempos

líria porto

o disco de bolero
ele me abraçava
eu fechava os olhos
quando despertava
no leito desfeito
havia silêncio

e só

*

sábado, 11 de agosto de 2012

a caçula

líria porto

borboletinha amarela
voava rente na grama
tão singela simplesinha
parecia flor do campo
colhida pela manhã

*

vida moderna

líria porto

toda manhã
um comprimido para baixar a pressão
das vinte e quatro horas
que virão

*

lixo hospitalar

líria porto

o rim que me dói é o rim que não tenho
que foi decepado pela foice do erro
que não teve enterro nem reza
ou velório

é o rim que me chora
e eu nem sei dele

*

terça-feira, 7 de agosto de 2012

ativos e passivos

líria porto

falo seco
de arranco
coisa assim de capiau
ele não
é sedoso nas palavras
tem cetim na voz
gestos de moça

apesar das diferenças
damo-nos bem
ele faz papel de dama
eu viro macho

*

novelo

líria porto

mulherzinha sensabor
(na minha opinião)
levou ele de mim
e depois quis
devolvê-lo
:
quem ela pensa que é – modelo
artista de telenovela?

(ninguém devolve meu homem)

*

dis_sabor

líria porto

o doce de fruta na tacha de cobre
o açúcar era pouco o esforço era enorme
e o fogo queimava por dentro
                                              e por fora

desculpa seu moço – estou tão amarga
tão triste e pequena com essa vida de pobre
que tudo o que faço tem gosto de cabo
de guarda-chuva

*

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

miragem

líria porto

sumiste tu de mim e de um tal jeito
procuro-te no leito não há vestígio
parece que sonhei que existias
e eras tão somente invenção minha
desejo reprimido

*

epitáfio

líria porto

enfim de mim eu me livro
em meu último capítulo
a pá de cal

*

filmagem


líria porto

a gota trêmula no raminho do alecrim
era a chuva se mostrando e se negando
a cair

precisei paciência e mão firme

*

cristal

líria porto

gargalhada de criança – mais bonita
que o marulho a ventania ou o farfalhar
da árvore

*

domingo, 5 de agosto de 2012

formosura

líria porto

rosa desabrocha
abre as pernas para os homens

sua pele é como a pétala
tem maciez tem aroma

rosa encanta rosa trama
rosa espeta

rosa vermelha

*

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

patrimônio

líria porto

entre os morros e o casario
o vento assobia e dá voltas

faz frio  isso faz  mas a história de minas
dá lustres no brio e revela-se nas curvas
sob o som dos sinos

*

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

metáfora

líria porto

matar o mito é mutilar o motor
que move o imaginário

*

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

inevitável

líria porto

por mais que fechemos os olhos tapemos nossos ouvidos
fujamos das evidências a morte se faz presente
mais dia menos dia

*

sutileza

líria porto

não sê tão direto
põe sobre a mesa o cheque
(se possível em branco)
jamais o dinheiro
:
e não reclames

*

senões

líria porto

não sei o que fez o que fiz
só sei que abalou-me a raiz e fiquei
triste 

por um traste um alpiste
senti-me infeliz

*

terça-feira, 31 de julho de 2012

demo_lição

líria porto

as mãos
tão mais velhas que eu
os cabelos ficaram brancos
pesam-me os pés
curvam-se os meus ombros
as bordas do corpo sumiram
os olhos perderam o alcance
:
o que mais faltará
para eu me esmerar
no desmanche?

*

serventia

líria porto

bordei os monogramas dos lenços de meu pai
com os quais enxuguei as lágrimas de minha mãe
quando o velho se foi para sempre e nada levou
a não ser o seu corpo de oitenta anos

*

retorno

líria porto

voltei ao pó de onde vim
foi bom para mim - aprendi
a terra é leve

(perdi o medo)

*

só se flor

líria porto

uma estrada que me leve ao nada
uma ponte onde eu brinque de mocinha e de bandido
a bacia das almas um punhal uma navalha
um furo na barriga – uma jangada
que naufrague nas montanhas
de minas

*

advertência

líria porto

ninguém me pise ninguém me prense
ninguém me acue ninguém me amargue

eu fico azeda saliva seca
arrumo as malas não volto mais

*

segunda-feira, 30 de julho de 2012

desprevenida

líria porto

qual um fio furta-cor
vem o frio o calor
ponho roupa tiro roupa
qualquer dia a morte chega
e me veste com uma folha
de parreira

*

in_sensatez

líria porto

aurora está por aqui
o sol já chega e lá fora
a passarada barulha
dá cambalhotas com a voz
saúda a vida e a luz

nós - seres ingratos
cuspimos no prato

*

do cão

líria porto

o gato fugiu pra dentro do mato
eu mato esse gato de tanto correr
tal como ele faz com o pobre do rato
um bicho pequeno e indefeso

*

bandeira

líria porto

sob o azul o tapete verde
e a passarada a rabiscar no céu
versos mestiços

ordem e progresso? 
:
liberdade
ainda que à tardinha

*

ausculta

líria porto

eu ouvi a voz do vento dentro do canavial
o lamento do boia-fria

*

domínio

líria porto

passarinho lá no alto sua sombra aqui no chão
isso sim é liberdade – distanciar-se da sombra
ultrapassar a montanha

*

tropeços

líria porto

eu até erro – mas acerto tanto
da última vez foi o martelo
no dedo

*

reprodução

líria porto

ante o viço e a beleza das bezerras
os bois babam e as vacas
pastam

*

sexta-feira, 27 de julho de 2012

enxoval

líria porto

nas tramas do lençol
duzentos fios de algodão
e nós

sem hora para ir embora
a sede saciada

*

quinta-feira, 26 de julho de 2012

cândida

líria porto

quieta num canto
tímida discreta
até sua sombra
era branca
*

cadentes

líria porto

de apontar estrelas
dedos têm verrugas
e rugas são regos
a céu aberto

*

madrinhas

líria porto

fui cercada por mulheres fabulosas
na pia batismal

*

chiquê

líria porto

meu vestido de bolero lero
saia de roda alças fininhas
e laço na cintura
era mais bonito
que a roupa de domingo
das meninas ricas

*

quarta-feira, 25 de julho de 2012

conquistador

líria porto

ficou de cabeça branca
o barba-azul

mulher dá trabalho

*

ostracismo

líria porto

aprontei-me como devia
passei água de cheiro batom rímel
vesti-me de primavera mas a poesia
não dançou comigo

*

terça-feira, 24 de julho de 2012

bigorna

líria porto

o tempo passa repassa-nos
e amarrota-nos

*

jamanta

líria porto

não só a pele a carne os ossos
o tempo é de chumbo e carrega-se no corpo
a tonelada das décadas

*

segunda-feira, 23 de julho de 2012

tresnoitados

líria porto

estes olhos cor de jambo
mais pesados do que chumbo
já me deixaram no limbo
passaram-me tantos tombos
:
(muitos - nem me lembro
quantos)

*

ressaca

líria porto

toda vez que bebo desse vinho varo a madrugada
fico de pileque e o tal moleque me derruba na sarjeta
da poesia

hoje eu sou ninguém

*

come come

líria porto

o tempo é a fera que engole os dias os meses os anos
arrota na cara dos homens e depois os devora

um a um

*

domingo, 22 de julho de 2012

papiros

líria porto

na pele encarquilhada
que cobre o corpo dos velhos
as manchas formam arquipélagos
a vida desenha os mapas

*

sábado, 21 de julho de 2012

assinatura

líria porto

não faço poesia – faço plágio
copio da vida mínimos detalhes

*

da poesia

líria porto

qualquer vento acende a chispa
(muita alma nessa hora)

*

papada

líria porto

quando se emagrece as ancas diminuem
e as pelancas descem

*

sexta-feira, 20 de julho de 2012

estrelas

líria porto

palavras que o vento en_leva
e prega no azul do mundo
entregam-me na noite escura
di_versos versos de luz

*

fartura

líria porto

está em período fértil
achou de ajeitar-se à força
pratica pequenos furtos
:
afirma ser honesta

*

desgaste

desgaste

a vida me testa - põe-me à prova
estraga o que pode eu conserto

neste acerto de contas
leva a melhor quem tiver
paciência

*

quinta-feira, 19 de julho de 2012

meia tigela

líria porto

nem alegres nem tristes
viviam por viver

*

artesão

líria porto

panelas bonecas e flores de barro
quase como deus – falta-lhes
o sopro

*

somenos

líria porto

no corre_dor
dolorosas doloridas
as nossas dores paradas
as nossas dores de pé
as dores que caminhavam
contorciam-se aflitas
à espera do doutor
que ria e contava piadas
aos colegas do hospital

*

quarta-feira, 18 de julho de 2012

passarela

líria porto

atravessa a avenida um atalho de cimento e ferro
apinhado de operários que madrugam e trabalham
por um salário de merda

*

des_preparo

líria porto

fazer a mortalha com sacos de linhagem
(pobre diabo)

bordar os versos mais ricos e deitar num caixão de vidro
(de gelo?)
:
morrer de frisson
(de frio?)

*

sentimento

líria porto

o vapor embaça o espelho
escrevo versos sem me olhar nos olhos
sei que estão vermelhos
o que vejo e sinto vem
das veias

*

transparências

líria porto

há versos que escrevo no avesso da pele
a pele descama – o in_verso aparece

*

terça-feira, 17 de julho de 2012

arapuca

líria porto

nem épico nem opaco
um poema qualquer
que não me escape

*

vingança

líria porto

ninguém manda no coração
ele bate e para independente de nós
mas quando apanha alguém tem culpa
e deve pagar com sangue

*

aventura

líria porto

solta no ar
as asas fechadas

tomara que se abra
o paraquedas

*

conforto

líria porto

eu não vou correr da morte vou esperá-la sentada
bater um papo com ela tentar adiar a data

a morte se tiver pressa que me carregue no colo
ou venha de carruagem –– não vou cansar
minhas pernas

*

segunda-feira, 16 de julho de 2012

mamãe

líria porto

noite de sobressaltos
de assombrações e de bruxas

meu travesseiro foi palco
de pesadelos e sustos

quando vieres me abraça
permite que eu chore e durma

só em teu corpo eu me acalmo
só teu amor me aveluda

*

friagem

líria porto

pálpebras se fecham  
as da janela as dela
a luz da vela
a lua míngua
e a língua definha
:
trêmulas

*

desconfiança

líria porto

conquanto aurora venha
ao final da noite

e chegue tão alegre
e cheire como flor

só quer atiçar o fogo
(a demora é pouca)

*

sábado, 14 de julho de 2012

deboche

líria porto

esfrego minha humanidade em teu focinho
minha idade minha impaciência

(rio que transbordo)

*

temperamental

líria porto

fazia rosas de pedra
e se batesse um vento
uma brisa que fosse
despetalava-se - ele
o escultor

*

concreto

líria porto

nada é tão intransponível
quanto um muro imaginário

*

quarta-feira, 11 de julho de 2012

marujo

líria porto

leão marinho e mãe-d'água
vivem à beira da praia e nem pensam em mim

que raiva
*

pra quê macumba?

líria porto

eu ia fazer mandinga para gostares de mim
como afirmas que já gostas aproveito a galinha
incremento a farofa e bebemos juntos
:
a farra é nossa

*

terça-feira, 10 de julho de 2012

desejos

líria porto

roçam-nos os seios
as bordas do umbigo
descem pela nossa pelve
somem pelos pelos
entram entre nossas pernas
e nos engravidam

*

afrodites

líria porto

atrás das burcas as avós
e todas as mulheres do seu tempo
razão pela qual amei as putas
:
tão livres
quanto a minha alma

*

segunda-feira, 9 de julho de 2012

fidelidade

líria porto

se a margarida amasse o girassol
estaria perdida -- ele não tem olhos
para mais ninguém

*

salamaleques

líria porto

o cara faz canalhices depois vem
com rapapés

*

domingo, 8 de julho de 2012

endereço

líria porto

aqui pela minha porta
passa uma rua torta
que se encosta numa praça
simplesinha até sem graça
onde moram uns passarinhos
:
lá pelas seis da tarde
fazem tanta algazarra
é só seguir o barulho
perguntar às maricatas
encontrarás minha casa

não tem erro

*

mãe

líria porto

abri o olho tu ali - diante de mim
um elo definitivo

*

essencial

líria porto

auroras e crepúsculos não sabem sobre nós
precisamos sol a pino escuros absolutos
pra que os medos se revelem
:
os ponteiros se juntam
e é tudo ou nada

*

sábado, 7 de julho de 2012

terreiro

líria porto

matuto matuto matuto – concluo
sou fruto do chão

*

mágoa

líria porto

peço água do poço e o moço me diz – eu não posso
esse fosso é da sogra e a cobra me põe na salmoura

*

sexta-feira, 6 de julho de 2012

tu_barão

líria porto

se tens que matar alguém
mata o sujeito importante
o comandante

guelra é guelra

*

limiar

líria porto

ninguém manda ninguém obedece
e tudo acontece direito
:
é respeito

*

sonho

líria porto

sono profundo  o corpo quieto
e o espírito aí pelo mundo

*

quinta-feira, 5 de julho de 2012

mula

líria porto

a cavalgadura que carrega a mala
quem tem uma jura faz-se fácil amá-la
ela pisa duro às vezes empaca
mas aceita sela seu olhar é dócil
tem o corpo forte trabalha trabalha
ajuda no negócio – seu dono
prospera

*

ter_çol

líria porto

não sei se quero se devo
porém não posso evitá-lo
sou girassol e amarelo
diante de quem me cega 

*

quarta-feira, 4 de julho de 2012

de opinião

líria porto

rios
não
voltam
atrás
nem
sob
pressão

*

marasmo

líria porto

no rubor da pele no calor do corpo
no auge da febre no estupor no assombro
o medo da vida que se evapora
que se vai embora cada dia um pouco

*

segunda-feira, 2 de julho de 2012

criação

líria porto

não se faz por encomenda
a poesia se dá e o poema acontece
em momentos imprevisíveis

o último metalinguístico
foi feito nas coxas

*

domingo, 1 de julho de 2012

leitura

líria porto

transtornados diante da palavra
mergulhamos no desconhecido
até perdermos o fôlego

*

queda livre

líria porto

sempre esta atração pelo abismo
pelas beiras da janela do último andar

*

isaura

líria porto

à mão que me amassa o alho
lágrimas de cebola

*

sábado, 30 de junho de 2012

leitor

líria porto

estou aqui / estou lá
o livro é meu passaporte
meu transporte minha asa
ele me escreve e me lê

*

cais

líria porto

na cama
eu embarco
e desembarco
do sonho

*

sexta-feira, 29 de junho de 2012

paizinho

líria porto

hoje ao rever a tua foto retorno
ao homem que me pôs no colo
a primeira vez

*

quinta-feira, 28 de junho de 2012

a construção

líria porto

o cimento as pedras – feito o alicerce
um tijolo outro todas as paredes a laje o telhado
os canos os fios as louças as portas as janelas
depois o reboco as trancas os vidros
a pintura

tempo e trabalho para que tenhas
um teto

*

covardia

líria porto

para ser sincero
eu só sei fingir
faço cara alegre
nas horas mais tristes

quando alguém me fere
eu digo – não dói
pensam que sou forte
verdadeiro herói

recebi medalhas
condecorações
lágrimas tremulam
sob os meus olhos

*

quarta-feira, 27 de junho de 2012

ar_rasante

líria porto

estou triste
e não quero alpiste nem jiló
se uma cobra vier der o bote
deixem que o veneno
me mate

(ninguém tenha pena de mim
nem me ponha debaixo
da asa)

*

terça-feira, 26 de junho de 2012

enredo

líria porto

conheço-te mais que a mim mesma
e tu me conheces mais que ninguém

por isso mantemo-nos à distância

é terrível saber dos avessos de nós
e que há nós nos avessos

amarrações

*

segunda-feira, 25 de junho de 2012

saliva

líria porto

habito
a língua
e dentro
da boca
tenho
um idioma

*

domingo, 24 de junho de 2012

das grandezas

líria porto

de um lado o mar do outro as montanhas
entre as montanhas e o mar nós  os grãos
de areia

*

sábado, 23 de junho de 2012

infuturo

líria porto

não fales assim - dobra a língua
tuas gírias me ferem os ouvidos e olvidam
o passado e os presentes

*

quinta-feira, 21 de junho de 2012

pedintes

líria porto

mais que eu
meus pobres braços
sentem falta de ti
do morno da tua pele
e pedem o agasalho
dos teus afagos

então volta para casa
não por mim –– volta por eles
meus braços vazios

*

matemático

líria porto

especialista em cálculos
tinha pedras nos rins na vesícula
e –– desconfio –– no lugar do coração
paralelepípedo

*

derrota

líria porto

o chão é xadrez
sou um dos peões
caminho pra frente
ataco de banda
defendo meu rei

o rei tem rainha
cavalos e torres
e os bispos
de ponta a ponta
dão-lhe proteção

(eu só dou cheque
sem fundo)

*

emboscada

líria porto

de costas para o sol
acompanho cada gesto da minha sombra

de frente fico cega  temo que ela se erga
e me apunhale

*


quarta-feira, 20 de junho de 2012

cabeça nas nuvens

líria porto

a nuvem balofa
uma baleia no céu
em vias de virar mar

*

carneirinhos

líria porto

as nuvens se embolam enrolam-se e rolam
caminham juntinhas como um grande rebanho
sobre o pasto infinito

*

indecisa

líria porto

cinzenta - a nuvem - não sabe se fica no alto
ou se desaba

*

vulcão

líria porto

maomé não vai à montanha
a montanha vaia maomé
:
úuuuuuuuuuuu

*

a imagem da poesia dispensa palavras

o poeta

líria porto

não escreve porque quer
nem tomou a decisão
foi condenado a si mesmo
a oscilar entre a pele
e o papel

*

a centopeia

líria porto

imelda tinha cem pés de sapatos
um sem número de chinelos e sandálias
cinquenta pares de tênis e muito
muito chulé

*

terça-feira, 19 de junho de 2012

consumismo

líria porto

dei de implicar com enfeites
penduricalhos supérfluos
:
sapatos preciso um par
roupas  três ou quatro mudas
e uma cantante

*

segunda-feira, 18 de junho de 2012

emboscada

líria porto

por um verso em branco
passei noites sem dormir
passei dias com os olhos
perdidos dentro do uísque

*

sanguessugas

líria porto

ingratos são sociopatas
sugam-te como buracos negros
dão a mínima para os teus sentimentos
e estão convencidos de que te fazem
um favor

*

sábado, 16 de junho de 2012

inconsciente

líria porto

no âmago no cerne
nas profundezas do íntimo
bem abaixo das raízes
nossos traumas violências
nossas baixezas
e vícios
:
conhecer-nos
é tatear o incerto
caminhar nos labirintos

*

sexta-feira, 15 de junho de 2012

farpas

líria porto

debaixo da unhas
a dor do sacrifício
do ofício de poetar
de cavoucar palavras
dentre os pedregulhos
:
na palma da mão
na linha da vida

*

quarta-feira, 13 de junho de 2012

subtra(i)ção

líria porto

não foste meu
mas tive a sensação
que te perdi
:
doeu

*

marquise

líria porto

a noite gela
engulo seco
aperto a gola
dou um cochilo
o galo canta
e me desperta
eu pulo fora
do meu abrigo

*

terça-feira, 12 de junho de 2012

desamor

líria porto

para ele foi mais uma
para ela a salvação
agarrou-se a uma sombra
porém sombras se desfazem
e agora vive só 

*

segunda-feira, 11 de junho de 2012

fascínio

líria porto

quando uma pedra me acha
não tenho como fugir
ela me atrai dou uns passos
finjo que não a vi
no entanto volto atrás
ponho-a na palma da mão
a pedra chega a sorrir
vem comigo para casa
para a minha coleção
de objetos sensíveis

*

faxina

líria porto

ao limpar as gavetas
achei pó de estrelas
e traças barrigudas

*

na pétala

líria porto

a poesia me toca tão leve
parece bicada de beija-flor

*

esteira

líria porto

os caminhos
tão compridos quanto árduos
engolidos velozmente pelos passos
e regados com a chuva do suor
dão prazer?
:
prefiro outra espécie de gozo

*

sexta-feira, 8 de junho de 2012

s_anta

líria porto

nas núpcias branco no enterro preto
e durante todos aqueles anos
listrada como as zebras

*

avitaminose

líria porto

careço de sol e isso tem preço
qualquer vento transforma a montanha
em farinha de osso

*

inferno

líria porto

a pedir-lhe explicações a cada gesto
a fazer-lhe acusações sem comprová-las
e sem qualquer razão
cair no choro

a insegurança é um monstro
com estatura de inseto

*

quinta-feira, 7 de junho de 2012

solto

líria porto

para se obter um pássaro à janela
quirela de arroz e um pouco d'água
:
ele vira freguês e frente à beleza
um montinho de cocô não é nada

*

quarta-feira, 6 de junho de 2012

sem holofotes

líria porto

segunda filha
contentavam-lhe as sobras
as roupas usadas o amor periférico
:
melhor ser amante
a que não cobra
nem paga

*

terça-feira, 5 de junho de 2012

simbiose

líria porto

chove e brota da terra
um cheiro que me sobe às pernas
e me lembra quando chegas
:
tu te entornas
tu me derramas

*

pão-duro

líria porto

recebe recebe – não dá não empresta
e nem tem boa vida

*

insigth

líria porto

esperei sentada para não me cansar
tomei chá de cadeira e ele não veio
:
o melhor a fazer é ir para a cama
dormir sossegada e largar de ser besta

*

descartável

líria porto

a moça rosada
sem véu sem juízo
tal qual mariposa
em torno da luz
nas tardes nas noites
no céu desses homens
que queimam seu corpo
e pagam-na com o troco
de outras vítimas

*

susto

líria porto

sonhei que morrera
e morri

corri ao espelho
tremia

fantasmas se espantam
comigo

*

domingo, 3 de junho de 2012

pro_pensão

líria porto

há os que não negam água
há os que não negam fogo

os melhores fazem os dois
e ainda servem o café

*

torcedora

líria porto

bia - a boneca - atleticana como eu
tem olhos azuis mas gostaria de tê-los
pretos

*

lua

líria porto

nua no espaço caminha sozinha
seu sangue de índia de mulher pega
no laço

*

continentes

líria porto

quando o velho manuel
deixou o mar português
e aportou no brasil
encontrou uma mocinha
ana luísa dos santos
com ela teve alguns filhos
entre eles joão - meu pai
(apelidado biloca)
que se casou com mundina
a bela filha de elias
o meu amado avô árabe
marido de vó maria
uma mulher sábia

*

sexta-feira, 1 de junho de 2012

feitor

líria porto

a chibatada do verso
se ele se quer perfeito
bate forte no poeta
vai ao cerne do seu peito

*

animação

líria porto

uns moços velhos
de cabeças prateadas
deram de querer novilhas
:
ouvi a dona dizer
o jeito é pegar frango

*

turrão

líria porto

eu não voo tu não vens somos tolos
e ninguém soube ou saberá que nus
quisemos

só o além

*

quinta-feira, 31 de maio de 2012

arrego

líria porto

peço a lua que me ajude a fazer verso
ela se recusa diz que é musa e não
poeta

*