terça-feira, 30 de agosto de 2011

o pensamento

líria porto

desbravador de obstáculos
esse viageiro vai onde e quando deseja
sempre que lhe apetece

*

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

a lavadeira

líria porto

rio seco
roupas e almas encardidas
e a exigência do patrão
um ladrão de colarinho
branco

*

pele

líria porto

o manto de minha avó
cobriu mamãe minhas tias
está sobre nós e as filhas
sobre as netas as bisnetas
e todas que em linha reta
acolherão em seus ventres
crias de toda raça –– de todas
as etnias

*

desclassificado

líria porto

não foi um amor de primeira nem um amor de segunda
foi um amor comum que me fez rir e chorar
e viver como nunca

*

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

entrelinhas

líria porto

tão somente o rastro
o que permita ao olhar atento
buscar o significado
nas digitais

*

brecha

líria porto

toda causa tem defeito todo defeito tem pausa
toda pausa tem suspiro todo suspiro
é uma válvula

na praia

líria porto

falam sobre estrelas
rosas rebentos haicais
e recolhem conchas

*

terça-feira, 23 de agosto de 2011

outonal

líria porto

pedaços de mim que morreram
o útero um rim os ovários
o apêndice a vesícula
as amígdalas
alguma pele algum dente
muitos fios de cabelo
dão-me a sensação
das árvores

*

de toca

líria porto

a lua rodou no céu
a saia godê – loucura
parecia rosa aberta
seda pura na cintura

(pena – o sol dormia)

as pernas alvas da lua
tão saborosas carnudas
estampavam-se no escuro
e despertavam libido
e provocavam arrepios

(pena – o sol dormia)

os santos mais fervorosos
os mais pudorosos anjos
enchiam de água a boca
enquanto a lua dançava
flutuava esplendorosa
cheiro seu em quase tudo

(pena – o sol dormia)

*

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

cúmplices

líria porto

caminho
a lua vem junto
eu sem assunto
a lua calada

troco de estrada
contorno a montanha
ela me acompanha

(dispensa palavras)

*

trote

líria porto

monto a vida em pelo
sem arreio sem espora

em pouco apeio
deixo a carga em qualquer cova

atravesso a margem

*

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

roça

líria porto

noite de céu arado
nenhuma moita de nuvem
nenhum torrão de lua
tão somente estrelas
semeadas

*

panela de pressão

líria porto

em pouco sopitas
apitas antes do tempo
estouras a válvula
:
calma
baixa o fogo

*

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

incompreensível

líria porto

fiamos olhares
tecemos afetos com duas agulhas
depois nos espetamos

*

apatia

líria porto

fica ali – embaciada
distante de tudo e todos
a esperar que um milagre
arranque-a desse mar ázimo
desse morrer e estar viva
qual carro sem combustível
carroça sem cavalo
            corpo sem espírito

*

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

estado

líria porto

o ódio é sólido
o amor é líquido
a indiferença é gasosa
e é mortífera

*

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

paranoica

líria porto

sol a pino
eu me curvo
(antes olho para os lados)
pego a sombra sob os pés
calço-os
visto as pernas
os quadris
(a sombra aperta mais
que a calça jeans)
cubro peito
costas
ombros
ergo os braços
(dedos grudados nela)
passo-a pela cabeça
dou um nó
(agora ninguém me acha)

*

sábado, 13 de agosto de 2011

drummondiana

líria porto

meu grande amor por luigi
ardeu nos braços de juan
que amava sua judith
mas se tornou meu amante

(ninguém se perde
todos se aproveitam)

*

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

despertador

líria porto

teu barulho logo cedo
assobias qual um cuco
abro a_penas uma pálpebra
olho o céu vejo uma estrela
fico puto

*

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

toneladas

líria porto

do ente inesquecível que te deixava doente
nem fotografias - não valem o quanto
pesam

*

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

tanino

líria porto

palavra rascante grudou-se-me à goela
encolheu-me a língua
fiquei em silêncio por horas e horas
no aguardo de letras
sedosas

*

ô diacho

líria porto

perdi-me e não me acho – sigo minha trilha
piso nos meus calos ando em círculos
corro atrás do rabo

*

apego

líria porto

os dentes de leite
os fios de cabelo
as aparas das unhas
o rim que não tem
a juventude
eu
:
doem-lhe até hoje
todas as perdas

*

pesos e medidas

líria porto

um amigo tudo pode
o amado bota ferro
leva chumbo              

terça-feira, 9 de agosto de 2011

pá de cal

líria porto

quem nasceu está fadado
(e não há como evitá-la)
ela chega e nos carrega
(apesar dos apesares)

*

editora lê - assoreamento

líria porto

ou rio da vida ou ela me encharca
e viro uma esponja uma sonda uma draga
a sugar toda mágoa toda lágrima
toda tristeza que haja

então vou pescar e fisgo
uma botina

*

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

à distância

líria porto

choro por quem merece
rio da maioria e oceano por ti
tão desértico tão maríntimo

*

complexo

líria porto

vestida com poucos pelos
(tinha pelagem restrita)
caminhava uma mulher
sem qualquer outro adereço
e nua como nasceu
atravessava esta vida
até que um dia um cruel
apontou suas estrias

a mulher então corou
apequenou-se
                  cobriu-se

*

domingo, 7 de agosto de 2011

manobras

líria porto

aparentemente fraca
movimenta tudo e todos
ora está muito doente
ora está triste demais
e para que ela não sofra
(a desgraçada)
morramos nós

*

sábado, 6 de agosto de 2011

como acreditar?

líria porto

de longe
parece-me reto
quando chego perto
ele se ondula
adula-me os pés
e os das outras mulheres

ah o_mar - esse traiçoeiro
esse sedutor

*

viagem

líria porto

o_mar é homem sou pedra
ele me banha eu espero
deixo que a espuma me tome
deixo que o_mar me devore
eu bebo o_mar bebo o homem
o_mar é morno e o remanso
é azul pleno de conchas
é azul pleno de pérolas

*

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

insurreição

líria porto

a formiga
escrava de outra formiga
deveria rebelar-se

esta história de rainha
de privilégios de casta
não serve nem para insetos

sou o meu rei
sou meu súdito                   

*

javali

 líria porto

depois da feijoada
linguiça charque toucinho
vovô dorme e ronca

parece ter engolido
um porco vivo

ronc ronc

*

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

delírio

líria porto

barco de papel ancorou em terra estranha
e como não falava quis ser traduzido
na língua de sinais

*

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

preguiça

líria porto

o corpo - massa amorfa
derrama-se sobre a cama
e permanece
                      poça

*

terça-feira, 2 de agosto de 2011

implacável

líria porto

o tempo não tem tampa o tempo não tem fundo
a nossa estampa muda e entramos pelo cano
sem salvo-conduto

*

única

líria porto

estrelas estralam estressam-se estrilam
estropiam-se estrebucham-se

a lua segue tranquila
sem concorrência

*

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

enxertos

líria porto

árvores genealógicas têm galhos ocultos
histórias escabrosas frutos ilegítimos

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

Arquivo do blog