quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

veloz

líria porto

minuto a minuto
dia após dia
ano após ano
o tempo nos empurra
voamos da infância
à velhice
:
com acidentes
no percurso

*

intuição

líria porto

é algo tático
fechar os olhos
respirar fundo

e meio às cegas
seguir o faro
algum ruído

que os instintos
são como bússola
e nos conduzem

ao lugar certo
desta viagem
que é a vida

*

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

trem-bala

líria porto

olhar no fundo do olho
é apenas o início
do que nos vira do avesso
leva-nos a
 loucuras

(tem cura – é tudo muito rápido)

paixão é fogo de palha
começa numa fagulha
faz labaredas incêndio
mas tem vida curta

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

gula

líria porto

nós temos tudo
não precisamos
tirar marmita
de gente pobre

um egoísta
come e vomita
ainda assim
assalta o cofre

*

domingo, 27 de dezembro de 2015

consumo

líria porto

é-me caro
mas eu quero aquilo
como um cu novo
que o meu
tão corrompido
não tem reparo

*


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

céu da boca

líria porto

para aguçar o paladar
evitar açúcar

com a ponta da língua tocar algo azedo
uma vez duas vezes
três

depois jiló
a delícia das coisas amargas
com um tanto de pimenta

(doce
basta-nos
a vítima)

*

casa grande

líria porto

entre a pia e o fogão
a menina e a tia da menina
as duas de avental

nos sofás cadeiras e redes
as crianças brancas e a certeza
da santíssima ceia

*

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

aurora

líria porto

tão bonita essa menina
roupa lilás tons de rosa

usa a fita do arco-íris
água-de-cheiro perfume

galos cantam quando surge
para acender o sol

*

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

até breve

líria porto

assim despeço-me
ontem foi chuva
por hoje é sol

arre_galado

líria porto

biquei a casca abri o olho
e um espanto atrás do outro
conseguiram me chocar

*

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

batente

líria porto

pedra no fundo do rio
o corpo de bruços na cama
cansado de guerrilha

*

presente

líria porto

relógio de minha mãe
doei-o à minha filha
não perco tempo
comigo

*

mortificação

líria porto

disseste-me
sou um homem triste
:
o que querias – macerar-me
culpar-me pelas desditas?

*

regalias

líria porto

café de homem – forte e amargo
porém feito por maria
o compadre era tão macho
não passaria o vexame
nem se daria ao trabalho
ir tomá-lo na cozinha
:
era servido na sala
numa xícara com pires

*

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

excesso

líria porto

acostumei-me de tal modo
a ficar comigo
que dei de tomar
liberdade

*

fura-olho

líria porto

não fumo maconha
não bebo até cair
(sou mesmo careta)
e o olho vermelho
não é de chorar
:
o cílio crescia pra dentro
(sou eu contra mim)

*

pobre diabo

líria porto

endeusei aquele homem
aquele com pés de barro
depois eu o cimentei
num buraco
            a sete palmos

*

domingo, 20 de dezembro de 2015

barba e bigode

líria porto

meu amor parece um cacto
é espinhento e dá flor

(o seu recato
um disfarce
dentro do quarto
ele é fogo)

*

pasmo

líria porto

zonzo
eu me benzo
e ao fim
pergunto
ao parlamento
onde foi parar
o cadáver
de bin laden?

*

enclausurados

líria porto

teus olhos – prisioneiros da treva
não impedem que vejas além dos homens
das verdades que carregam

*

sábado, 19 de dezembro de 2015

repeteco

líria porto

tudo já foi escrito tudo já foi traçado
por que insistirmos nisso – reinvenção
do quadrado?

*

a viagem

líria porto

remédios roupas sapatos
joias dólares maquiagem
deixou a mala pra trás

(e um corpo
na mortalha)

*

ilusões

líria porto

foice e martelo
no natal ou noutra noite
sem papai noel

*

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

íngreme

líria porto

as ladeiras as escadarias
subo-as de costas
e a cada passo
degrau
o mundo se descortina
os olhos veem
mais longe

*

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

impontual

líria porto

o verso vem quando quer
às vezes demora tanto
que o aguardo
na cama
:
ele me roça os cabelos
e se infiltra no sonho

*

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

quem sabe?

líria porto

toda vez que o cumprimento
ele desvia os olhos – fixa-os no meu peito
:
timidez ou atrevimento?

*

campo santo

líria porto

dentro dos muros brancos
descarnados e sem voz
os que se foram antes
os que esperam por nós

*

homúnculo

líria porto

a mulher idealista
o corpo todo suado
trabalhava noite e dia
ele –– hóspede –– boa vida
a questionar coisas tolas
da forma mais ordinária
:
um rato dentro da roupa

*

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

introspecção

líria porto

o horizonte cambiante do futuro
sua fonte inesgotável de incertezas
qual areia movediça nos conduz
ao profundo de nós mesmos
:
o momento é turvo

*

fraquezas

líria porto

por que não mostro
o meu avesso
todos os nós
fechados dentro?

por que não falo
dos meus defeitos
das tantas sombras
dos muitos medos?

por que não abro
meu coração
não me redimo
de toda a mágoa?

por que não digo
dos sofrimentos
por que não rasgo
a minha máscara?

*

a grosso modo

líria porto

depois do fogo do gelo
o mundo virou um brejo
e surgimos bactérias
fomos insetos e vermes
assim passamos milênios

já tivemos couro escamas
e pelos penas ou plumas
criamos patas e cauda
e faz pouquíssimo tempo
largamos mão de ser
micos

(tem homem de rabo preso
tem verme substituto)

*

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

inquisição

líria porto

um pangaré um burro chucro
u'a mulinha –– só não quero ir a pé
pra guilhotina

cada falso me condena
(filho duma égua)

*

domingo, 13 de dezembro de 2015

nimbos

líria porto

temporal à vista
trovões relâmpagos vento
as nuvens espessas

*

a gota d'água

líria porto

pediu-lhe um café
coou-o
achou que ficara ralo
pôs numa xícara
bebeu um gole
pôs noutra xícara
serviu-o

empurrou-a
: não quero

: ficou forte
e amargo
como gostas

: não quero
a minha é sempre
a primeira

: ah é?
não mais te sirvo

(e deu no pé)

*




*

à luz

líria porto

noite prenha parruda
uma estrela reluz
ao lado da lua
:
uni_versos
da treva

*

quase

líria porto

vimo-nos apenas
por alguns momentos
e teve o sabor
do fruto de vez

mal olhei seu rosto
não lhe dei um beijo
porém me recordo
de cada minuto

pudesse voltar
retornava no tempo
ficava por lá
talvez para sempre

*

(des)engrenagens

líria porto

ronco de motor
o barulho vinha de dentro
alguém dormia profundo
e o mundo girava
girava

no espelho
três ou quatro cabeças
uma delas pendida
(perdida)
sugava-me o seio

(eu via de olhos fechados
sentia)

*

sábado, 12 de dezembro de 2015

haicai

líria porto

urubu no toco
depois da chuva ele seca
as asas abertas

*

haicai

líria porto

igual bailarina
a garça na beira da água
as pernas compridas

*

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

cartinha

líria porto

papai noel
em seu saco elástico
ponha os da mesma farinha
leve-os para o polo norte
sem trenó para retorno
e sem taco de golfe

*

verme

líria porto

na sucursal do inferno
cunha-se o demônio
:
seu bafo de enxofre
causa diarreia
e vômito

*

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

do impeachment

líria porto

dona baratinha foi ingênua
não se casa com ratão
impunemente

*

congresso

líria porto

aranha mosca verme
morcego barata ratazana
catarro mijo bosta
:
esgoto
pesadelo
fossa

*

medida improvisada

líria porto

acerca dos acontecimentos
melhor passássemos a cerca
confinássemos os roedores

*

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

bento rodrigues

líria porto

a vida daquele jeito
de cabeça para baixo
e a contaminação
do barro

do jeito que era
nunca mais vai ser

*

último ato

líria porto

doíam-lhe os ossos os músculos as vísceras
mas o coração – em consciência
deixou de bater

*


domingo, 6 de dezembro de 2015

picadeiro

líria porto

o mundo é um grande circo
e cá estamos – palhaços
equilibristas dançarinos
mágicos malabaristas
engolidores de fogo

*

viver

líria porto

manobra arriscada
da qual não se escapa incólume
a gente nasce acelera
faz curvas
atravessa as serras
e cai no despenhadeiro

*

sábado, 5 de dezembro de 2015

estrábicos

líria porto

a lua não é tua não é minha
a lua é nossa e é única
mas refletida na poça
a lua é duas – como tu e eu
espelho meu
:
plural e singular

*

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

alpinista

líria porto

o sol vai alto
escala o azul
finca bandeira
bem no umbigo
do meio-dia

*

tempos modernos

líria porto

dois homens
com um falava ao telefone
o outro entre suas pernas

( os dois de bigodes)

*

trabalheira

líria porto

após a chuva
o sol vem de sola
passa o rodo e seca
a rua

*

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

maria

líria porto

das lembranças mais remotas
os medos da minha avó
trovejava ela encolhia
amuava-se num canto
fechava os olhos
rezava
e eu morria de dó
queria tê-la ao colo
dizer-lhe – acalma-te vó
é só uma chuvinha

*

função

líria porto

então acordo
escrevo um verso
viro pro canto
durmo de novo
choco outro ovo

*

palavra

líria porto

não pego no pé da letra
deixo-a livre para ser
o que se lhe der na telha

*

olhar

líria porto

poeta é como fotógrafo
capta a magia do instante

poeta é como pintor
dá pinceladas de luz

poeta é como criança
fura o dedo nas estrelas

poeta é homem ou mulher
à flor da pétala

*

deficiência

líria porto

a cicatriz junto ao nervo
seria cegueira
e treva
não tem a vista perfeita
vê no entanto o que precisa
para juntar ao que sente
e fazer o verso

*

tempo integral

líria porto

eu escrevo quando acordo
eu escrevo enquanto durmo
escrevo dia e noite
em claros e lusco-fuscos

(e leio nos intervalos)

*

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

destino

líria porto

seja o que for
se foi traçado
será

a vida não permite rasura

*

o bacalhau

líria porto

o desejo desse gajo
porém perdi o traquejo

o seu falo se intumesce
diante dele eu me castro

não pretendo abrir as pernas
vá dessalgar-se no tejo

*

de pantufas

líria porto

mansa a manhã
de tão branda
o canto do bem-te-vi
descortina a madrugada
e dá trégua para o galo

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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