sexta-feira, 27 de maio de 2011

paissandu 44

líria porto

a casa da minha infância
tem olhos tristes

trocaram suas janelas
(alegria escancarada)
por basculantes

*

quinta-feira, 26 de maio de 2011

torre de pisa

líria porto

plantaram um campanário
numa cova bem rasinha
toda vez que bate o vento
ele se inclina um cadinho
cambaleia enquanto hesita
até parece com a gente
depois das taças de vinho

pileque ou vertigem?

*

terça-feira, 24 de maio de 2011

recém-nascido

líria porto

eu nunca vou me esquecer
do menininho em meus braços
um passarinho no ninho
um bezerrinho no estábulo

*

dos monstros

líria porto

causa-me espécie
uma espécie de gente
que nem gente se parece
que espalha sua tara
entre pernas inocentes

*

valores

líria porto

colada em meu olho me cega
a um metro de mim é só uma moeda
(além da esquina nem vejo)
:
quem quiser que a_pegue
eu não

*

segunda-feira, 23 de maio de 2011

marilyn

líria porto

lua escandalosa
levanta a saia de roda
bem no meio do céu

*

domingo, 22 de maio de 2011

estigma

líria porto

sem olhos para a leitura
deixava de aprender com letras e palavras
a sentença do mundo

*

pós-guerra

líria porto

evitas meus olhos
depois –– barco à deriva
cais em contradição
tu te atracas comigo
e navegas

*

quinta-feira, 19 de maio de 2011

ploft

líria porto

bolhas de sabão
bonitas e pereciveis
como as paixões

*

quarta-feira, 18 de maio de 2011

animação

líria porto

ao vento
dão cambalhotas
e dançam e flutuam
as folhas mortas

*

pneumo

líria porto

habitam-me uns bichos
que miam ganem e piam
enquanto chio

*

segunda-feira, 16 de maio de 2011

folha seca

líria porto

dei de voar
lembro-me que nem tenho asas
e estou no espaço

o vento me pega
o vento se encarrega

*

fera

líria porto

fui lá fora ver a lua
a rua estava deserta
levei francisco comigo
ia apresentá-lo à bela
uma nuvem fez fuxico
fiquei fula

*

jogo de cintura

líria porto

um tremendo pé na bunda
de romper os ligamentos

para relações futuras
pedra cimento e ferro
pra reforçar
o alicerce

*

domingo, 15 de maio de 2011

dívida atroz

líria porto

posso
devo?
:
perfurar um poço cavar uma fossa
preencher os ocos de absoluto
rasgar esse luto vestir-me
de púrpura

*

sexta-feira, 13 de maio de 2011

grises

líria porto

para os pelos
(pelos pálidos)
branqueados
desde cedo
eu concedo
muitas tardes
de sossego
muitas noites
de (a)luares

*

quarta-feira, 11 de maio de 2011

experiências

líria porto

puxei o mar pela borda
joguei-o dentro de mim
com espuma peixes
ondas

agora busco outra fórmula
vou desviar os riachos
do rumo dos olhos

(não sei se dou conta)

*

*

entre achados e perdidos

líria porto


é que eu já fui criança
olhos maiores que o mundo
mas que nunca viram bem

de lá para cá tateio
e uso ósculos

*

superego

líria porto

a sociedade impõe
(na verdade ela o exige)
sede assim ou sede assado
e a vocação para o cru
para o nu o natural
vai para o esgoto

e viramos massa amorfa
ficamos todos na moda – iguais
sem tirar nem (o)pôr-nos

*

terça-feira, 10 de maio de 2011

perfumoso

líria porto

se ele passar por mim
fecho os olhos bem fechados
e respiro fundo

*

ai mamãe

líria porto

não me belisques
eu acho isso covarde
quando me apertas arde
eu não posso revidar
e sinto raiva de ti
a pessoa amada
:
contar com quem
se me agrides?

*

segunda-feira, 9 de maio de 2011

no lago

líria porto

pulo de cabeça
e tenho fraturas

a temperatura?

trinta graus abaixo
de zero

*

se não queres tem quem queira

líria porto

não vou lavar o teu prato
não vou guardar teus talheres
nem tua cueca

cuido dos meus objetos
tenho o meu trabalho
contribuo com a metade
das despesas

ah
quem acordar por último
arruma o quarto

*

velho

líria porto

tem vexame não
é só ir devagarinho
que vinga faísca

*

à malagueta

líria porto

com um ela faz sexo
com o outro faz amor
assim cozinha e come
o seu baião de dois

(dona flor é fogo)

*

osama nas alturas

líria porto

a atirar estrelas com estilingue
a acertar carnes trêmulas
e calças borradas

*

domingo, 8 de maio de 2011

desenlace

líria porto

deixa-me dormir deste cansaço
não me fales de abandono ou despedida

quando eu retornar da morte em vida
desatamos nós – ficamos livres

*

sábado, 7 de maio de 2011

rumores

líria porto

nada peço à palavra
mas ela se entrega
então faço verso

com ruído
           ou silêncio

*

nós entre estas paredes

líria porto

o mundo inteiro lá fora
e o que mais te assombra
é eu querer estar sóbria

*

das necessidades

líria porto

passarim papo amarelo
quer farelo quer alpiste
ele sabe o quanto é triste
passar fome passar frio
e não ter sequer um ninho
para pousar

*

quinta-feira, 5 de maio de 2011

peixão

líria porto

a amante do vovô
uma sereia linda
de olhos verdes
que a vovó chamava
de piranha

*

quarta-feira, 4 de maio de 2011

per_verso

líria porto

o que esperas que eu faça
que eu traia mate morra
por instantes na gangorra
dos teus braços?

(não sou quebra-galho)

*

terça-feira, 3 de maio de 2011

aperto

líria porto

prisões de ventre
alças intestinais
algemas anais
façam o general
arriar as calças

*

domingo, 1 de maio de 2011

dodói

líria porto

entre lírico e irônico
um versinho afônico
chora tosse espirra
às vezes embirra
em nossa garganta
mas não adianta
ele sobrevive
mesmo que eu morra
de amigdalite

*

aquarela

líria porto

um lenço verde
a blusa amarela

saia azul celeste
bordada de estrelas

uma faixa branca
para o grande laço

(libertas quae sera tamen)

todas as bandeiras
de todas as raças

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

Arquivo do blog