domingo, 30 de novembro de 2014

árabe

líria porto

meu avô grandalhão
imenso em tudo – imerso
em bondade e riso
nas lembranças do líbano
no amor aos filhos e netos
na birra pelos gringos
pelos ricos
pelo capitalismo

meu avô grandalhão
incapaz de ralhar com menino
ele próprio um menino gigante

*

noturno

líria porto

pôr dormir o sol
arredar a nuvem
e com pau de fósforo
acender a lua
e as estrelinhas

*

sábado, 29 de novembro de 2014

penhasco

líria porto

eu te abismo
tu me abismas
e a queda
é livre

*

lindo céu de beagá

líria porto

não vou morrer por aí talvez morra em araxá
enterrem-me em araguari  foi de lá que eu saí
é tempo de retornar

parto como cheguei
com a ventania

*


cainçalha

líria porto

cachorros cadelas
os vira-latas sem nome
que habitam as ruas

*

seja como flor

líria porto

em tempos chuvosos
replantar-se numa cova
irromper do chão

*

ermos

líria porto

nesse banho de amar que é a vida
só molhamos as solas dos pés
e sentimos o mar refluir
baixar-nos a maré

(pegadas na praia)

*

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

tim-tim por tim tim

líria porto

viver assim
entre vírgulas
aposto que é o aposto
o gosto por explicar-se
tão diferente de mim

*

prego

líria porto

o padre pregava
e as batidas
e as beatas
a metralhadora das bocas

(na janta
picadinho com molho
no campo
galo e raposa)

*

bronco

líria porto

trocou cago por defeco mijo por urino
não avançou um passo rumo
à humanização

(coisa de doutor)

*

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

passagem

líria porto

ouvia o vento ventar
zunia
levava em sua corcova
a nuvem cheia de chuva
sua bagagem de lágrima
maria

*

pedaços

líria porto

desabo
despenco sobre os degraus
e alquebrado
curvado sobre os escombros
recolho uns cacos de mim
os mais frágeis
para montar um mosaico

*

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

desmorrer

líria porto

brinco com tirana
tiro sarro
troco suas penas de gralha
pelas vestes da andorinha
:
ela encolhe de tamanho

*

autoconhecimento

líria porto

de fora para dentro
esbarro em cada costela
perfuro o coração – ele esguicha
faço o mesmo com o pulmão
fúuuuuuuuuuuuuuuuu
e eu de pé
:
morta-viva

*

munição

líria porto

o que me falta é coragem
pra disparar o gatilho
o resto tenho de sobra
motivo necessidade

(mas também me falta pólvora)

*

porto

líria porto

a saüdade tem trema
como as lüas tatuadas
as sardas
:
o arrepio

*

juízo final

líria porto

quis que a vida te matasse
a morte não – esta corriqueira
mata tudo e todos

quis que a morte te ressuscitasse
ela não faz isso – não te dá a mim
de mão beijada

*

intensidade

líria porto

a dor que te dói
o fogo que te queima
a solidão que te faz uma ilha
meio à multidão

(rodar sobre a sola dos pés
tomar o caminho de volta
retroceder)

tudo mata
até a alegria

*

terça-feira, 25 de novembro de 2014

bafejo

líria porto

a vida é uma libélula – um sopro
a aragem que mantém o corpo
de pé

*

as palavras

líria porto

quando eu ficar calada
louvem-nas
levem-nas à sua causa
espalhem-nas pelos canteiros
ruas praças e jardins
semeiem-nas
:
não deixem que as palavras
morram

*

absolutos

líria porto

encontros vocálicos
proparoxítonas polissílabas
prefixos sufixos tônicas
hiatos
:
eu tenho uma tara
até mesmo pelos vícios
da linguagem

*

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

arredio

líria porto

não sou não sei
jamais serei popular
só falo aquilo que penso
não sei mentir bajular
vivo enfiado em meu canto
não vou ao bar à igreja
e quando alguém se aproxima
fico encolhido - sou tímido
eu gosto mesmo é de um livro
conto os amigos nos dedos

*

cifrões

líria porto

séculos de floresta e as madeireiras
com seus dentes de motosserra
gula de tubarão

*

o menino

líria porto

sono pesado
ou sono leve

às vezes pedra
às vezes pena

alterno noites
de paquiderme

com belos sonhos
de borboleta

*

domingo, 23 de novembro de 2014

dúbia

líria porto

do bem do mal
de tudo de todos
treva ou farol
leva-nos aos píncaros
atira-nos no abismo
sem dó e sem choro
porém joga flores
depois pá
                de cal

(a vida  essa doida
morde e sopra)

*

condenada

líria porto

de braços com a morte
jamais se vestiu de preto

a vida ia cor-de-rosa
apesar do câncer

(vivia além do tempo)

*

equilibrista

líria porto

a mil metros do chão
a sombrinha de frevo
ou a vara comprida
que nos facilite
caminhar pelos dias
sem nenhuma certeza
de que haja uma rede
de proteção

*

pesadelo

líria porto

um sobressalto
as pernas trêmulas
coração disparado
a boca seca

(os sonhos são calmos)

*

sábado, 22 de novembro de 2014

vendilhões

líria porto

lucro lucro
lucro
adeus azul adeus verde
adeus água oxigênio
roubaram tudo da terra
e vão assaltar
mercúrio

(adeus vermelho)

*

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

o moço

líria porto

recusou-se a envelhecer
a cumprir tal o traçado

qual um rio intermitente
interrompe a caminhada

*

envelheço

líria porto

amarroto o corpo
ao passar do tempo

*

o pessimista

líria porto

o deserto caiu em seu olho
a areia o impede de ver o oásis
e até mesmo o camelo
e o beduíno

*

indagação

líria porto

a morte aguda a vida crônica
e eu nessa dúvida

*

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

bicão

líria porto

no teto
um olho
na parede
o ouvido
no chão
a formiga
e não nos livramos
nem do enxerido
nem do fantasma

*

aviãozinho

líria porto

curvas no ar
os desvios
e em minha rota
essa nuvem
:
temo ferir
um anjo torto
ou algum deus
perdido no azul

*

baixas

líria porto

morri e não disse a ninguém
nem vou dizer
o silêncio é a fala mais óbvia
se alguém perceber que sumi
eu me torno o defunto do dia
o assunto da hora

*

regras

líria porto

o rio passou dos limites
depois retomou o traçado
amarrado à corrente

*

desmilagre

líria porto

do pão que a diaba amassou
comi somente uma lasca
o resto dei pra santinha
e ela virou
                  a casaca

*

o escritor

líria porto

o livro da sua lavra
tanta beleza incontida
já me levaram às lágrimas
de tristeza de alegria
a poesia nas páginas
a magia das palavras
tudo me toca
o espírito

*

terça-feira, 18 de novembro de 2014

à festa

líria porto

ruge à sombra do batom
uma pintura

(e a minha cara lavada)

*

acidentes de trabalho

líria porto

quem confere o ferro
com ferro será ferida

*

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

o ladrão

líria porto

ninguém me roube
o que não tenho
não por engenho
por pura falta

(que o tempo ruge)

*

a cadela

líria porto

e atrás dela o cachorro
a focinhar os seus fundos
a mordiscar-lhe as carnes
oferecer-lhe o osso
duro

*

bailinho

líria porto

avós bisavós
quase todas centenárias
floresta de nuvens

*

ai ai

líria porto

amor é suspiro
açúcar batido
com nuvem

*

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

de barros

líria porto

de areia argila ou lama
seja lá do que te chamem
no plural no singular
agora és pó e o vento
ao te soprar para dentro
dos teus poemas
dos versos
entenderá que a vida
é tudo isso
e é pouca
:
quase igual a lagarta
que cria asas
e voa

*

da comida

líria porto

adão e eva – inocentes
aceitaram da serpente
a maçã que era de deus

(e assim nasceu caim)

que fome filha da puta
gostaram tanto da fruta
mais saborosa que mel

(e assim nasceu abel)

*

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

momentâneo

líria porto

chove chove
o fogo apaga lá fora
e ao respirar da fumaça
ao escrever com carvão
não sinto abafo ou sufoco
e nem saudades do sol

*

folia

líria porto

eu frevo tu ferves
o fogo pega

*

maria fumaça

líria porto

ao nascer embarcamos num trem
cada qual com trilhos exclusivos
onde fomos tão só passageiros
aprendemos a ser maquinistas
:
piuíiiiiiiiiiiiiiii

*

no início

líria porto

deitava-se no sofá
cabeça nas minhas coxas
roncava alto
e assim passava a noite

de manhã
eu ia para o trabalho
jogava-se na minha cama
dormia até meio-dia

(tanto
amor

raiva)

*

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

irmãos

líria porto

este mundão de teu deus
esta coisinha de nada

em cada esquina
uma estrela

e o mundo dentro de casa

*

curativo

líria porto

o que os netos implantam de ternura
num pobre coração puído e exausto
suplanta qualquer dor qualquer recalque
que a agrura do viver imponha
                                               aos velhos

*

tanto

líria porto

belas
e
efêmeras
como
bolhas
de
sabão
:
as
paixões

*

ilícito

líria porto

podemos tudo mas não devemos
porém teus olhos me olham fixos
e eu não resisto e arrombo
a cerca

*

domingo, 9 de novembro de 2014

fervura

líria porto

a lua dentro do lago
como um alka-seltzer

*

cantochão

líria porto

enquanto durar o fôlego
um verso  depois  ah depois
a pá de cal

*

panorama

líria porto

meio aos morros desce um rio
tão igual fio de prata
pelo verde uns pontos brancos
a moverem-se sobre o pasto
mais abaixo uma casinha
uma chaminé - fumaça
e por certo outra maria
a preparar as marmitas
a socar o arroz em casca

*

quantas horas?

líria porto

mais de oito mais de nove
tenho o sono desse mundo ancorado
em minhas costas

*

mecânico

líria porto

falo duro
sem romance
sem trilha sonora

(penetro
bato estacas
viro para a parede
e durmo)

gozo do que faço

*

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

derradeiro

líria porto

não haverá verso
só um ponto final e uma pá
de terra

um silêncio a sete palmos

*

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

agulha

líria porto

teu olhar
fino agudo
a furar-me o olho
a apagar a luz
que me ilumina

*

último ato

líria porto

o corpo do pássaro
voo e canto interrompidos
morte na varanda

*

haicai

líria porto

a lua no céu
um globo com luz acesa
no teto da casa

*

terça-feira, 4 de novembro de 2014

varal

líria porto

penduraram a infância
lado a lado co'a velhice
no espaço desse palmo
cabia uma saia justa

(eu vivo só o resumo
daquilo que gostaria)

*

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

cisco

líria porto

no corpo da humanidade
cada qual é uma célula
removível renovável
:
então pra quê
                tanta empáfia?

*

petrechos

líria porto

mais velha que a vida
a presença da vassoura
é tão somente
um detalhe

(o corvo vive comigo)

o caldeirão é herança
deixou-mo a minha avó
presidente da irmandade
das mulheres sábias

*

arena

líria porto

ver ou não ver
(ah coração)
melhor fingir
cerrar os olhos
pois que espiar
(nos dois sentidos)
causa tragédias
(dor de_ferida)

adeus a todos
que nos tornamos
só personagens
desta vingança
(vindita)

*

domingo, 2 de novembro de 2014

o banquete

líria porto

mesa posta – tantos livros na bandeja
a palavra como entrada e os poemas
como prato principal

*

homelet

líria porto

voei e volto pro ovo
o bico silencioso
as asas dentro da casca

eu tenho pena de mim
um promissor passarim
um candidato a gemada

*

notícias

líria porto

passarim firmou as pernas
o bico tal como novo
voa bem e sem sequelas
então - amigos - sosseguem
já está pronto pra outra

*

sábado, 1 de novembro de 2014

quilates

líria porto

na bateia
o cascalho
das palavras

a que brilha
pedra rara
é poesia

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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