domingo, 30 de novembro de 2008

miserável

líria porto

sinto a sede de um rio seco
de um vinho findo

não vieste
              não virás

e as uvas estão verdes

*

recreio

líria porto

passarinhos e morcegos
chupam mangas
lá no alto

a festança é nas grimpas
da árvore

*

sábado, 29 de novembro de 2008

meninice

líria porto

sempre que chora
arcos se formam
dentro da íris

os verdes de outrora
nadam vermelhos
e tristes

*

carma

líria porto

nasci renasci
sou descendente
e ancestral

limpei-me com tudo e todos
mas não consigo
comigo

*

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

abominável

líria porto

não correspondido
o amor é um escalpelo
: reduz o cérebro
transforma-o em troféu

*

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

chorume

líria porto

leito dilacerado
di_amantes miseráveis
ouro de tolo

não vou a_mar nenhum

*

terça-feira, 25 de novembro de 2008

destaque

líria porto

galeria de obras-primas
a vida abriga meus queridos
na ala principal

(no porão amontoados
os chatos de plantão
os pobres de espírito
os ingratos)

*

entre o relativo e o absoluto

líria porto

na solidão das sextas-feiras
a impressão de que o tempo se encomprida
embora a vida se nos pareça tão breve

*

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

degelo

líria porto

tem um sujeito tímido quieto circunspecto
cujo jeito arredio causa-me arrepio

vontade de fazer-lhe cócegas beijar-lhe a boca
até que o amor o desvencilhe dos limites

e fiquemos quites

(hosana nas alturas)

*

domingo, 23 de novembro de 2008

precipitação

líria porto

partiste tão de repente
eu te disse eu te pedi
avisasses-me com antecedência
iríamos em nave única

(o cruzeiro as três marias tu viste a lua?
aquele cometa tem rabo quente
trancei as fitas do arco-íris)

já não tenho olhos
para este mundo

*

o bêbado

líria porto

beijou o defunto
e lhe disse
:
vai meu irmão
o céu é perto
mas fala com o chefe
só irei lá pra cima
se nalguma estrela
tiver um boteco

*

imitação

líria porto

quanto mais o tempo passa
mais se parece à avó
:
a pele
as manchas os olhos
os óculos de aros grossos
os chinelos as vestes
o jeito de caminhar
a intolerância a sapatos novos

(como fora um carbono
uma cópia xerox)

*

angu perdido

líria porto

meu soneto é capenga e obsoleto
minhas rimas óbvias como minhas primas
minhas trovas são a prova de que nenhum poema
nenhum verso poderá salvar-me

*

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

ironia

líria porto

tem (des)gosto pra tudo
doces ácidos picantes – que amarga
chega a vítima

*

olhos d'água

líria porto

implorei ao mandachuva
tivesse dó do sertão
por lá tecesse umas nuvens
não de inundação dilúvio
um chuvisqueiro molenga
que perdurasse algum tempo
preenchesse o nosso açude
amansasse-nos a sede
engordasse o nosso gado
salvasse o feijão
o milho

o azul não demudou
o sol continua a pino
a chão racha esfarinha-se
permaneço de joelhos
a insistir na ladainha
:
se este céu não tiver senso
não acudir quem precisa
será desleixo desdém
pelos bichos pelas gentes
destas terras desvalidas

*

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

forasteiro

líria porto

entrar e sair - tão fácil
se lá dentro não existir
um olhar de azeviche
que sem precisar suplique
: fica

*

terça-feira, 18 de novembro de 2008

moe(n)da

líria porto

(es)colhe teu destino
o tempo se (es)coa
(a vida não perdoa
quem se omite)

cara ou coroa?

*

entardece

líria porto

à volta da mesa
oito cadeiras

sirvo-me de ausências
e sopa de feijão

quem sabe amanhã?

*

pia batismal

líria porto

não sei se posso
faço-o sem permissão
por um verso laço letra
qualquer palavra
se ela tiver asas
caço-a numa rede
chamo-a borboleta
e só

*

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

sem pantufas

líria porto

arredei nuvem trovão
a chuva puxei pro lado
enxuguei todo o azul
fiz manhã de salto alto

*

decepção

líria porto

desembaraçar nós destrinçar-nos fio a fio
é descobrir na verdade um amontoado
de mentiras

*

domingo, 16 de novembro de 2008

vaticínio

líria porto

divagar
vestir os vestígios da alvorada
desvendar vértices voragens
vertigens

voar é vocação

*

sábado, 15 de novembro de 2008

depois da tempestade

líria porto

minha mãe a grande árvore
guardou-me entre folhagens
protegeu-me do mau tempo
cresci dentro dum invólucro
sem conhecer chuva e vento

um dia caiu um raio
derrubou folhas e galhos
abalou tronco e raiz
ainda assim me agarrei
à sombra imaginária

de mamãe herdei o verde
tatuado no espírito

*

desmedida

líria porto

arrombo as molduras
as retas os planos

desprezo os quadrados

prefiro as montanhas
os morros os gordos

os triângulos

*

natimorto

líria porto

o único filho
morreu enforcado
nas cordas do corpo

que homem seria
feliz infeliz
não tenho respostas

o filho varão
talvez preferisse
ser uma menina

(e fosse quem fosse
de todas as formas
seria minha cria)

*

refrega

líria porto

entre umbigos e ofensas
o sangue ferve

lâmina
perigo iminente

homem ou verme?

*

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

haicai

líria porto

chuva copiosa
as rugas amadurecem
em torno dos olhos

*

binò^óculos

líria porto

a insana
tir'água do joelho
espirra nos artelhos
enxuga c'os pentelhos
a bund'alvíssima

(tua'alma me pertence
caíste n'armadilha
já vi um cu.rioso
d'olho triste)

*

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

onde cantam os bem-te-vis

líria porto

esta terra tem um cheiro
beiro a serra sinto um bem
um ardor me atravessa
um prazer um arrepio
um desalojar das penas
um desejo singular
de morrer neste lugar
e de aqui renascer

*

paciente

líria porto

sem sono relaxa
continua na cama
passarinho sem asa

*

condições

líria porto

após o rapto
o pedido de resgate

a lua só voltará
se o sol baixar o facho

*

torrão

líria porto

atrás da aspereza das folhas
a doçura do canavial

*

meninice

líria porto

as mangas amadurecem
meus olhos não descem das galhas
o cheiro se espalha pelas lembranças

(e se eu pulasse o muro?)

*

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

repeteco

líria porto

a cabeça ferve
igual caldeirão
intenções
pensamentos
ideias
versos reversos
conversas
repetição

*

terça-feira, 11 de novembro de 2008

pôr de solas

líria porto

a loucura dos olhos abertos
o tempo a pesar-nos as pernas
o verso apesar dos invernos
a boca amarga o chá de ervas

(se a película é tão fina
quanto bolha de sabão
por que tocá-la?)

devia haver um decreto
deixem quieto o poeta
é lindo viver
de brisa

*

boca a boca

lítia porto

quando meu amor falou tenho carunchos no pulmão
não consegui nem chorar

meu peito doeu meu coração doeu minha alma doeu
e só pude dizer – não há de ser nada
respiro por nós

*

eureca

líria porto

perdeu-se o sono entre as trevas
a noite dura mil anos – não sei pedir
nem  rezar

vigio o escuro
sua cara sem cabimento
sequer um sonho
ou um susto

acendo um verso
               invento uma estrela

*

contradições

líria porto

para (en)cobrir seus (esc)ombros
precisou tecer mil xales

(o corpo do pobre jazia no esquife
envolto por flores cercado de olhares
tão liso tranquilo tal qual pedra
mármore)

às vezes a morte
é mais generosa
que a vítima

*

roda-viva

líria porto

a rotina – pata de elefante – amassa-nos a alma
precisamos sair do casulo buscar a cor
das nossas asas

quando a lida me tortura tem a dureza do jugo
cato alegria no bolso

a roda do mundo gira e nada fica parado
passam o sol o vento a chuva
a lua o rio a estrada

eu era moço outro dia
fiquei velho num piscar
:
danças comigo?

*

indigência

líria porto

abstrato prato
maltrato concreto
a fome não tem muro

casebre quatro por quatro
tapera de pau a pique
pobreza a mostrar a cara

miséria em riste

*

pragmatismo

líria porto

eu te uso
tu me usas
não é abuso


é no máximo
o mínimo recurso
dos solitários


*

lamento

líria porto


a língua lânguida alisa o lábio alonga a lenda
faz duma lágrima
                               a lengalenga

*

franqueza

líria porto

coçou-se-me a ponta da língua
cuspi depressa a saliva
a dor foi junto aprendi
toda palavra engasgada
precisa encontrar destino
ou vira tumor maligno

*

recesso

líria porto

manhã cinzenta
vidinha mole
rimas me espetam
versos me bolem

fico na cama
olhos fechados
a chuva bate
molha o molhado
:
o feriado

*

timidez

líria porto

tô fraco tô fraco tô fraco
bicho aflito
dispara do mato pro pasto
para o quintal

tô fraco tô fraco tô fraco
o corpo cinzento pintado de branco
corre dum lado pra outro
pra cima pra baixo
sem direção

tô fraco tô fraco tô fraco
galinha d’angola que graça
bota ovo no buraco
tô fraco tô fraco

tô forte?

*

de floração

líria porto

apraz-me olhar as árvores
a calma com que se movimentam
parecem-se a mulheres grávidas
no aguardo do rebento

*

desbandeirada

líria porto

vou-me embora pro horizonte
lá sou amigo do infante
aquele que adiante
depois da ponte da fonte
busca a nascente o poente

vou-me embora pro horizonte
não me pergunte o quadrante
nem me peça que o aponte
vou-me embora pro horizonte

(lã onde o sol alua)

*

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

pôr de lua

líria porto

estou naquela fase
cheia de resumo

foge-me o verso
a rima escapole-me

peço a são jorge
lave-me leve-me

love me

*

asso/alho

líria porto

doce amargo
gosto de desgosto
dissabor

bandeja mesa cama
fosso

*

domingo, 9 de novembro de 2008

carretel

líria porto

encontros diários ficaram semanais
mensais e eu que era a outra
sei que há outra

mente para ela para mim
ela acredita
eu finjo

(e vou dar-lhe o troco)

*

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

dentuça

líria porto

durante a tua ausência
deitei-me do outro lado
dormi de rosto colado
com a tua fronha

a saudade é uma doninha
a saudade é uma toupeira
ela rói dentro e fora
rói os ossos rói o peito
o corpo os sentimentos
a saudade rói os sonhos

e mostra os dentes

*

um mapa para vítor

líria porto

se vieres à tarde
à tua frente terás o pôr-do-sol
à esquerda mangas prestes a madurar
à direita uma parede
eu no corre_dor

(as grades ficarão para trás)

dormirás
em berço
de almo/fadas

*

suflair

líria porto

ao cozer em fogo brando
certas letrinhas minúsculas

tomou-me espécie de encanto
recheá-las com borbulhas

deixá-las leves macias
iguais suspiros de açúcar

daqueles que em nossa língua
transformam-se em gostosuras

levam-nos a flutuar
em carruagens de espuma

*

anarquista

líria porto

fico a olhar a moça recolher o lixo
ajuntar o cisco com vassoura e pá

vem depois o vento está tudo limpo
espalhar as folhas bagunçar o pátio

*

sumidouro

líria porto

foi-se o sol
levou meu xale de lã

igual a canoa
o sonho resvala
para as turvas águas
do inconsciente

os medos as dúvidas
tudo vem à tona
depois se dissipa
dentro da sombra

*

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

antecipação (villa rizza)

líria porto

sem colarinho
as tulipas de cerveja
floresciam

*

cheiro verde

líria porto

em nossa casa
quando nascia menino
vovó – cozinheira de mão cheia
fazia durante o resguardo
sopa de galinha com farinha de milho
muita salsa e cebolinha

meu pai engolia o quarto
quinto sexto sétimo oitavo
nono filho
                  às colheradas

depois dizia
sou rico

*

radiofônico

líria porto

ouve-se o mar 
por ondas longas
e curtas

*
para um passarinho
felicidade tem asas
*
(líria porto)

cisterna

líria porto

a boca aberta da terra
tem a garganta coberta
de água límpida

*

lembranças

líria porto

e quando amanhã for ontem
esperanças serão acervo

*

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

a árvore

líria porto

joão desferiu-lhe os golpes
a galha matou joão

não sei dizer - foi vindita
ou legítima defesa?

*

talagada

líria porto

delírio vive nas nuvens
pinga lágrimas
enxurrada
córrego

rio no mar/asmo

*

terça-feira, 4 de novembro de 2008

exagero

líria porto

qui-lo
pintou-se-me então um grilo

: se este for como o outro
e eu cometer a estultice
a sandice a imprudência
de elevá-lo ao altíssimo?


*

crepúsculo

líria porto

um sino corta a pracinha
hora do ângelus

naquela conversa mole
de céu de mar de azul

enquanto o sol extrapola
bebe cerveja no bar

a lua fica lá fora
a caminhar pela areia

com sua saia de roda
e sandália rasteira

*

retorno

líria porto

chegar de viagem
entrar sem vacilo pela porta da frente
deitar a bagagem na sala
percorrer a casa
cômodo por cômodo
de canto a canto
e concluir
aqui é o paraíso

*

involução

líria porto

no fundo
no fundo
somos
o quê?
:
e no raso?

*

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

vigia

líria porto

enquanto dormem
fico eu alerta
quando despertam
voo pra cama
e sem um toque
nenhum fonema
vidas se escorrem
(s)em segurança

(merde)

*

perdição

líria porto

não sei o que fazer
em noites como esta
estou à flor da pétala

é essa lua portenha
a infiltrar-se nas brenhas
eu finjo não a desejo
invento sono bocejo
ela me roça

entrego-me

*

de língua

líria porto

penso penso
concluo
:nada é tudo

e vice
verso

*

domingo, 2 de novembro de 2008

promessa

líria porto

juro pela língua que esta língua há de lamber
pelo cale-se do vinho cuja cor reduz-me o verso
pelos cravos e espinhos arrancados destas pétalas
pelos passos que caminham nestes caminhos de pedra
hei de me entoar poeta

*

(des)conforto

líria porto

o lugar da legítima é duro e fixo

o da amante
macio e flutuante

*

sábado, 1 de novembro de 2008

cantoria

líria porto

enquanto o velho poeta
em seu cansaço abissal
arrisca um verso abstrato
a poesia concreta-se
no bico do pássaro

*

fora do trilho

líria porto

trombada de nuvem dá cada estrondo
pior que trombada de trem

tem gente que afirma
nuvem é vapor

: eu não acredito

*

último ato

líria porto

corda
laço
pescoço
passo

i
m
p
a
c
t
o

o corpo?
lasso

*

ambulatório

líria porto

ai doutor a dor seria
angústia trauma
enfarte?

não maria
gazes

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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