terça-feira, 21 de maio de 2013

des_graça

líria porto

a cicatriz rente ao nervo
a lesão só por um triz
a meretriz teve sorte
tristeza sabe o limite

*

navalha

líria porto

outra vez no corredor da morte
e sorte ou azar permaneceu
incólume

*

segunda-feira, 20 de maio de 2013

pedras sobre pedras

líria porto

demoliram a casa onde mamãe morou quase cinquenta anos
temo olhar para aquela esquina e encontrar mamãe
soterrada

*

aventureiro

líria porto

de respirar outros ares
de frequentar outros bares
de vislumbrar outros mares
procurar outros lugares
distanciou-se de min(as)

*

draga

líria porto

não sei se é um tímido se é um espião
espreita tudo e todos

às vezes de olhos baixos outras arregalados
apreende-nos os detalhes

e bebe a nossa (c)alma

*

sábado, 18 de maio de 2013

dieta

líria porto

toda vez que almoço pétalas
janto espinhos

*

sexta-feira, 17 de maio de 2013

inconstitucionalissimamente

líria porto

a menina que falava palavrão
desancava todo mundo com seu jeito malcriado
toda vez que exagerava e falava políssilabas
quase destroncava a língua e doía-lhe
a garganta

*

buracos

líria porto

umbigos são lugares cheios de vazio
bocas sem língua sem dentes sem saliva
famintas para tudo que lhes chega à beira

*

quinta-feira, 16 de maio de 2013

paixões

líria porto

o fogo que nos consome
faz-nos sentir-nos vivos

*

terça-feira, 14 de maio de 2013

entraves

líria porto

o cansaço é de chumbo
o desânimo – de ferrugem

*

segunda-feira, 13 de maio de 2013

proteção

líria porto

não vou me mudar da beira do abismo
vou é arranjar um anjo ou amarrar uma corda
na cintura

*

fogacho

líria porto

o amor não tem jeito esfrega-se em mim
e eu  velho para sexo – adio outra vez
a aposentadoria

*

sexta-feira, 10 de maio de 2013

defesa

líria porto

os caninos tão agudos
na boquinha do menino
deus nos livre da mordida

súbito ele fica puto
crava os dentes e no susto
chora também

*

quarta-feira, 8 de maio de 2013

mania de grandeza

líria porto

meu teto é o infinito
minha piscina é o mar
tenho cabelos de nuvem
minha fita é o arco-íris
o meu chuveiro é a chuva
o secador é o vento

o horizonte é minha cama
e o abajour – a lua 

*

o homem

líria porto

esse bicho é diferente – ele pensa
e o tal do pensamento é agente do bem
e do mal

*

terça-feira, 7 de maio de 2013

virtual

líria porto

ser só pensamento
ir e voltar sem ninguém pressentir

de vagar devagar
divagar

*

elefante

líria porto

grande e desengonçado
quando move as quatro patas e levanta a tromba
as crianças se enternecem e batem palmas

*

jacaré

líria porto

de barriga rastejante e pernas curtas
quando ele abre a boca todo mundo
assusta

*

galinha

líria porto

come milho cacareja bota ovo
mas quando cai em desgraça
vira canja

*

ronc ronc

líria porto

todo porco tem rabinho retorcido
e tomada no focinho

*

miudinho

líria porto

a joaninha é um besourinho tímido
e com sardas

*

confronto

líria porto

para se obter o máximo
com o mínimo possível
é melhor nada dizer
:
o silêncio
é um murro

*

bola de névoa

líria porto

a vida é um novelo
numa ponta o nascimento

a gente enrola enrola enrola
o tempo passa entre os dedos

súbita
a outra ponta

*

segunda-feira, 6 de maio de 2013

preencher os lábios – só com beijos

desvaidade

líria porto

pés de galinha ciscam em torno dos meus olhos
e eu não sei o que é botox

*líria porto

domingo, 5 de maio de 2013

fruta

líria porto

nasci flor – fazer o quê
era macia cheirosa
mas depois quando encorpei
e a minha polpa rachou
despertou fome
desejo

uns homens
os mais gulosos
sujaram a boca
os bigodes

*

epílogo

líria porto

então abraço seu vulto
danço com ele uma valsa

o meu amor – esse último
sinto seus braços gelados

eu deito sobre seu túmulo
dormimos juntos

mais nada

*

conforme

líria porto

alguns poemas são pétalas
outros folhas caule raiz
e há também os espinhos
na roseira da poesia

*

sábado, 4 de maio de 2013

fases

líria porto

toda hora ela mudava
ora imensa branca cheia
ora apenas era um traço

o rei sol que se proteja
pode sofrer atentado
contra tanta majestade

(a lua é bipolar)

*

sexta-feira, 3 de maio de 2013

tórrido

liria porto

sol a pino
como um alfinete
o raio fura a pele
lá no fundo
chega a encostar
no osso

*

quinta-feira, 2 de maio de 2013

gato e rato

líria porto

abro a cortina a luz entra
salta pra dentro do quarto
o escuro um tanto assustado
corre pro fundo do armário
sabe que a luz é intensa

*

quarta-feira, 1 de maio de 2013

grandeza

líria porto

impressiona-me a generosidade das árvores
sombra flores frutos e o que elas pedem
senão um pouco de água

*

belíssima

líria porto

minha musa é a natureza
a mais incrível artista
nada escapa a seus pincéis
sua tela é o infinito

fauna flora oceanos
o relevo a cor o brilho
tudo assim com tanto esmero
que me deixa comovido

*

terça-feira, 30 de abril de 2013

retalhos

líria porto

rosas vermelhas – tão belas
(não vou colhê-las)

vou deixar que o vento as leve
(suavemente)

que elas pousem sobre a relva
(quais borboletas)

teçam um lindo tapete
(o mais efêmero)

onde o meu amor se deite

*

segunda-feira, 29 de abril de 2013

lugarejo

líria porto

a rodovia como espinha dorsal
a igreja no local mais alto
e de um lado e doutro
ruas sem calçamento
o boteco a venda a butique
o posto de saúde o grupo escolar
a casa lotérica a agência da caixa econômica
o ferro-velho os cavalos amarrados nos postes
os homens de chapéus a poeira
a camionete
o fusca

*

sábado, 27 de abril de 2013

gasta

líria porto

amolava a faca na pedra da pia
cortava os bifes a cebola o alho
a couve os tomates

a lâmina ficou
foice

*

quinta-feira, 25 de abril de 2013

mais que o peso das palavras os silêncios nos reprovam

jardineiro

líria porto

levei flores pelos quatro cantos
e elas eram leves

hoje as flores me carregam
e eu não posso ser
um fardo

*

a luz

líria porto

encontra uma fresta e penetra
na escuridão

*

quarta-feira, 24 de abril de 2013

pichação

líria porto

escrevi meu recado
no muro – a polícia me procura
sou uma ameaça

*

terça-feira, 23 de abril de 2013

aftas

líria porto

como meteoros
reabrem crateras
sobre minha língua
:
versos de rapina
comem meus miolos

*

na pele

líria porto

a tendência que eu tenho
de andar com as minorias
é u'a marca de nascença

*

rumo

líria porto

ninguém traça meus caminhos
só eu mesma

diante da encruzilhada
pego a estrada da esquerda

*

segunda-feira, 22 de abril de 2013

fera

líria porto

a bisavó tinha um código
se estava de ovo virado
penteava os cabelos
num coque

o coronel nem triscava

*

martírio

líria porto

depois que foste embora
martela dentro do ninho
o tique-taque das horas

*

blefe

líria porto

nem me pergunto quem sou
para não cair na tentação
de mentir e me enganar
como os outros

*

orador

líria porto

no canto do olho nenhuma nota musical
em compensação no céu da boca
palavras sonoras

*

domingo, 21 de abril de 2013

in_verso

líria porto

o meu sono sumiu e agora
quase hora de ir pro trabalho
a memória me falha e meus olhos
não aguentam o peso das pálpebras

*

minha sombra

líria porto

escapa-me dos pés
não me obedece o ritmo
gira à volta de mim
:
puxa-me o tapete

*

caduco

líria porto

estrelas choveram
pedradas de anjo
um galo cantou
em minha testa
:
estilhaços de versos
furos na cabeça
costurei-os com fios
cor de prata

enlouqueço quando esqueço
o que se passa

*

medonhas

líria porto

tão longas as noites do inverno tão frias
e mais se prolongam se não chega o sono

tremores perpassam a pele calafrios
no escuro aparecem os olhos dos monstros

sucedem-se as sombras as cismas os sustos
amontoam-se os medos – uns sobre os outros

*

sábado, 20 de abril de 2013

alquebrado

líria porto


de sonhar com o que não deve
de querer o que não pode
de poder o que não vai
de ir e se arrepender
amarrou pedra no pé
e quietou o facho

*

ambiguidades

líria porto

estrelas dormiram
debaixo da nuvem
a lua cochila
eu espero o sono

a noite é comprida
mas a vida é curta
quem sabe eu decifro
o enigma

amanhã
será ontem

*

desastre

líria porto

eletrocutados
:
um raio cai sobre o lago
e extermina os peixes

*

sexta-feira, 19 de abril de 2013

apelo

líria porto

não vai durar para sempre
então querido não suma
tudo se perde na espuma
a vida é sem complacência

*

quinta-feira, 18 de abril de 2013

fumante

líria porto

temo te pertencer
ser tragada pela tua boca
e virar fumaça
guimba

*

quarta-feira, 17 de abril de 2013

engodo

líria porto

arriscar todas as fichas
nu'a micha proposta
de felicidade

*

quase inverno

líria porto

o sol do lado de lá
(sua luz é fugidia)
parece querer falar-me
dos segredos do poente
é como se me dissesse
vive intenso teu outono
antes que se apaguem
as labaredas

*

terça-feira, 16 de abril de 2013

dos canais obstruídos

líria porto

vivo em estado líquido
vez por outra evaporo
mas choro pouco

*

desperta_dor

líria porto

antes do sol nascer
já o ronco dos motores
invadem ruas estradas

os ônibus trens caminhões
transportam trabalhadores
as suas tralhas a carga

já tem pão na padaria
o gado pasta o galo canta
bom dia

*

segunda-feira, 15 de abril de 2013

não mais

líria porto

durar o tempo de amolecer a alma
o olhar as palavras e morrer com a textura
e a profundeza de um lago

*

sangue roxo

líria porto

aquela avó índia caçada no laço
no bucho um filho de olhos azuis
tão igual ao maldito que a deflorou
exilou-se da tribo da terra da vida
parou de sorrir mas cuidou da sua cria
para que nós outros pudéssemos
existir

*

pássaro

líria porto

outono – abril – o azul é tão belo
um refestelo para o nosso espírito

corro uns milímetros além do atrito
mantenho a esperança de decolar

*

domingo, 14 de abril de 2013

com_bustão

líria porto

cambada cambeta
cambitos com botas
combinam com o quê?

*

sábado, 13 de abril de 2013

gana

líria porto

dizer ali na lata
mas a voz não sai

entala na goela
que nem espinho

*

regressão

líria porto

de manhã de tarde à noite
todo dia a toda hora
sinto a falta de um tesouro
que eu tinha dentro / fora

a infância a inocência
duram pouco duram nada
ser adulto tem um peso
o da água estagnada

*

quinta-feira, 11 de abril de 2013

traste

líria porto

um gato ronrona no meu peito
detona meu pulmão e eu simplesmente
deixo que o gato me consuma
                                  como quem fuma
um charuto cubano

*

reviravolta

líria porto

quando tudo está de pernas para o ar
também ponho as pernas para o ar
e espero que um anjo me ame

*

inútil

líria porto

pratos acumulam-se na pia
e eu não penso em lavar vasilhas
desvio os olhos

a poeira assenta-se sobre os móveis
e eu não vou usar panos nem flanelas
eu fecho os olhos

as roupas despencam-se do cabide
e eu não quero dependurar roupa nenhuma
vou me deitar

e a cama está sem lençol

*

incondicional

líria porto

sem começo meio fim
amamo-nos desde sempre
e quando não existíamos
já havia o sentimento
que as grandes mãos invisíveis
entregam às mães e aos filhos
pra durar eternamente

*

quarta-feira, 10 de abril de 2013

esvaziamento

líria porto

verteu lágrimas a madrugada toda
a manhã a tarde e à noite percebeu
era ele próprio a sua última
gota

*

terça-feira, 9 de abril de 2013

destemor

líria porto

sobre um jacaré
atravesso o rio das piranhas
:
chego à margem mais morto
que vítima

*

segunda-feira, 8 de abril de 2013

aflição

líria porto

especulo sobre mim – eu quero saber
e as respostas que me dou me afligem
eu sou assim e não sei bem o quê
e não tenho ideia do que fazer comigo

*

atrevimento

líria porto

tem uma onda de banda
rescaldo de um redemunho
que se mal domada vira um baita
de um topete

*

domingo, 7 de abril de 2013

o furo

líria porto

olho no céu – uma estrela
só uma ali bem no meio
e para que a luz não escape
tampo-a com a ponta do dedo

*

desdesejo

líria porto

gato ingrato – passar a vida
sem unhar meu coração
sem roçar minha virilha
sem engatar um bem-bom 

*

sábado, 6 de abril de 2013

tristeza

líria porto

tu me negaste três vezes
depois passei muitos meses
sem me enxergar

e tanto puxei o fio
acabei puxando um rio
o mar o oceano a praia

desfiei os lençóis
                            d'água

*

de olho

líria porto

quanto mais penso estar certa
mais permaneço alerta
pode ser engano

*

alívio

líria porto

a vida acampa nas curvas
onde morrem os maridos
nascem as viúvas

*

ignorância

líria porto

entre o céu e a terra
se alguma coisa me emperra
esta coisa sou eu mesma

*

a carga

líria porto

lá vem a jiboia de ferro
arrasta a barriga nos trilhos
apita na curva anuncia-se
:
abram as porteiras do pasto
o gado chegou

*

sexta-feira, 5 de abril de 2013

inconsciente

líria porto

nós temos segredos
dos quais ninguém sabe
nem nós mesmos

*

detalhes

líria porto

quando o olhar oscila
deixa bambas as certezas
e a beleza se revela

*

causa e defeitos

líria porto

os seus olhos sobrancelhas
pulmões rins e coração
sem falar também que a alma
pés e pernas pele e boca
nunca encantaram as pessoas
talvez daí toda a birra
com a perfeição das coisas
:
para se justificar

*

quarta-feira, 3 de abril de 2013

estranhos

líria porto

tomou minha chuva pisei no seu barro
brincamos nas mesmas esquinas na mesma praça
bebemos da mesma água cristalina
e jamais nos falamos
:
conterrâneos ou moradores
de outras galáxias?

*

audácia

líria porto

passava no chão uma risca
pisa aqui se fores homem
os que pisaram ela os quis

(não é fácil peitar uma doida)

*

marionetes

líria porto

eu lhe disse nunca mais  não deveria
não se envolve com poesia impunemente
ela entra pelos poros penetra as veias
e comanda nossos nervos

todo poeta é refém

*

terça-feira, 2 de abril de 2013

estrela

líria porto

ela tem ponta tem brilho
é presunçosa atrevida
mesmo assim eu a prefiro
à que se faz de santinha

*

quinta-feira, 28 de março de 2013

multiplicação

líria porto

vou semear umas chuvas
colher qualquer temporal
um vento novo umas nuvens
algum raio que me parta
em quatro ou cinco
metades

*

fedamãe

líria porto

maricota não me beija
peço-lhe / imploro e ela nada
e também não me abraça
maricota desalmada
sabe o muito que lhe quero
só por isso me despreza
pelo tanto que rastejo
porque tenho olhos d'água

*

quarta-feira, 27 de março de 2013

reflexões

líria porto

dentro do espelho um homem carrega
um espelho dentro do espelho um homem
carrega um espelho dentro do espelho
um homem carrega um espelho dentro
do espelho um homem carrega
um espelho dentro do espelho
homem carrega um espelho
dentro do espelho um homem
descarrega-se

*

desconfiômetro

líria porto

não ajudas e sim atrapalhas
a estratégia é tirar o time 
bater em retirada

*

náusea

líria porto

tudo embrulha tudo enrola
o mundo gira ao contrário
a gente vira uma trouxa
de roupa velha e rasgada

*

aluada

líria porto

três arbustos na janela
e eu que moro nas nuvens
chego a pensar no térreo

*

apagão

líria porto

não sonhei
nem amassei o lençol
despertar sem nenhum verso
é quase dormir co'a morte

*

terça-feira, 26 de março de 2013

im_poluto

líria porto

ora vário ora uno
os ovários da puta tão iguais
o da madre

*

michê

líria porto

lambeu-a de ponta a ponta
fez de conta que ela era sua mulher
e quando lhe apresentou a conta
surpreendeu-se com a resposta
:
pago – pago sim
com o maior prazer

*

borrasca

líria porto

o tempo empurra a vida
como o vento empurra as nuvens
até que os dias e as noites se acumulem
e caia o temporal

*

segunda-feira, 25 de março de 2013

ilhós

líria porto

alguém me salve de mim e dos meus precipícios
jogue-me uma corda e eu me viro do avesso
ou me enforco

*

no fio da navalha

líria porto

não é teu não é meu
o mar – como o sol a lua os amantes – é de todos
é de ninguém

*

segredo


líria porto

a ponte entre os olhos
suporta amores concretos
com o peso do cimento
e das pedras

*

domingo, 24 de março de 2013

leme

líria porto

meu anjo mostrou-me as asinhas
corteia-as rente

ensinei-o de uma vez por todas
quem comanda nossos voos

*

como um rio

líria porto

trouxe comigo tão somente as cicatrizes
arrasto as rosas que encontro pelas margens
as suas pétalas forram o chão por onde piso

o que deixei para trás
ficou para trás

sigo

*

sábado, 23 de março de 2013

assobio

líria porto

gosto de estar sozinha
e sentir que o vento
faz-me companhia

*

arisca

líria porto

não arrisques persegui-la
a poesia foge de quem vai
com sede ao pote

*

sexta-feira, 22 de março de 2013

artesanal


líria porto

a realidade esmaga os sonhos
como os pés que pisoteiam as uvas

a nós nos resta coar o refugo
transformar o sumo num bom vinho
:
e embebedarmo-nos
de vida

*

quinta-feira, 21 de março de 2013

velhos

líria porto

precário para namoros
suficiente pros netos
vovô nos punha nas costas
e cavalgava igual touro
:
vovó virava uma arara

*

redenção

líria porto

muita vez nublada em vésperas de chuva
amua-se num canto a esperar que as lágrimas
expurguem-lhe a tristeza lavem-lhe a culpa
de viver num mundo cruel e injusto
e não fazer nada

*

quarta-feira, 20 de março de 2013

nas últimas

líria porto

se eu cortar o pulso
não estanque o verso
deixe que se esvaia
en_quanto eu poça

*

ceia

líria porto

abres meu livro e me lês
e me comes viva da cabeça
aos versos

*

terça-feira, 19 de março de 2013

pirraça

líria porto

palavras se acotovelam
depois me beliscam
e insistem insistem
acorda levanta
lava o teu rosto
estamos à espera
resisto reviro-me
viro para o canto
as palavras
              gritam-me

saio da cama
compareço
e elas se escondem
por vingança

*

segunda-feira, 18 de março de 2013

desamparo

líria porto

uma vez um tsunami arrombou meus olhos
e não houve lençol que os secasse

*

estratégia

líria porto

fechou-se-me a porta mas não sou ingrata
deu-me sua nata e a mim me importa
que não se exponha em mar de piranha
faça o que gosta com quem quer que seja
em quatro paredes e em segurança

)eu fico de fora(

*

sábado, 16 de março de 2013

biruta

líria porto

como um barco a velas
o vento te sopra e tu segues
sem rota

*

do abandono

líria porto

o que dói não é a partida
são as quebradas

*

movimento

líria porto

janelas têm pálpebras – abrem-se pela manhã
fecham-se quando anoitece

janelas olham janelas
piscam

(portas engolem e vomitam)

*

sexta-feira, 15 de março de 2013

pé atrás

líria porto

não tens consciência
és 
    cru 
           pulo

*

primordial

líria porto

não conheço o líbano
tenho saudades do líbano
da infância de meu avô
das oliveiras tâmaras
figos emoção
da alegria que havia
antes da grande guerra

não conheço o líbano
sofro pelo líbano – ali
na beirada do conflito

*

quinta-feira, 14 de março de 2013

descuido

líria porto

firo-me com uma faca pontuda
e me acuso – burra – mais que as outras
esta dor é a tua

e não me desculpo

*

familiar

líria porto

cedo ainda
quando o sol lambe os telhados
e os pássaros se espreguiçam
menino rola no berço e pede
a mamadeira

mamãe leva-lhe o leite
retorna à cama cochila
(o papai dorme de bruços)
o menino se aquieta
o sol não

logo logo
um clarão lá na janela
menininho bem desperto
como um rio que transborda
sai do leito

*

quarta-feira, 13 de março de 2013

rol

líria porto

dentre as palavras mais tristes
órfão abandono desamparo

entre as mais alegres sabiá
gargalhar e cascata

*

fresta

líria porto

um murro trincou o escuro
apareceu uma luz

(nem tudo está perdido)

*

desterrados

líria porto

do segredo
ao degredo
o medo
do dedo-duro

*

hermético

líria porto

o inconsciente é um cofre
poucos ousam abrir-lhe
a porta

*

terça-feira, 12 de março de 2013

secura

líria porto

se eu perder a alma rasga o meu texto
não uses pretexto atira-o à vala
poema que se preze não é só palavra
é sentimento – algo tão bonito quanto o riso
a lágrima

*

letais

líria porto

palavras ferroam-me os dedos como abelhas africanas
e para matar o veneno escrevo-as escrevo-as
escrevo-as

*

segunda-feira, 11 de março de 2013

invasivo

líria porto

uns aqui outros lá no canto
o vento atira ao chão portarretratos
arranha as lembranças

*

sem miolo

líria porto

leonarda cava sepulturas
retira caveiras coloca-as em sacolas
depois espalha os ossos por ruas
e avenidas

cidade grande – fábrica
de malucos

*

dessaber

líria porto

eu não sei o que é trapiche
e elas riem de mim

se engolirem o dicionário
não vão ter grande trabalho
para descobrir – palavra

*

por um fio

líria porto

o poeta trafega entre a sanidade e a loucura
com a firmeza de quem anda
na corda bamba

*

origem

líria porto

embora em condições adversas
um grão de areia não renega
o deserto

*

autômatos

líria porto

meio bichos meio máquinas
repetimos comportamentos e sequer nos perguntamos
se isto é natural ou comodismo

*

impróprio

líria porto

espanca a mulher
mas fica desgovernado se um puto
toca numa unha do seu
amor-próprio

*

interrogatório

líria porto

tais como vampiros
muitas perguntas sugam
a vitalidade

*

domingo, 10 de março de 2013

eu tenho um gato

líria porto

ele vem a qualquer hora
joga-se em minha cama
toca-me as pernas
e vai subindo a pata

rasga-me a camisola
assanha-se em meu colo
arranha-me todo o pescoço
esfrega macio meu corpo
ronrona em meus ouvidos
depois lambe- me a boca
e dorme

*

perda

líria porto

chorava para dentro
um quase choro invisível
de olhos a chuviscar
a dilacerar a carne
a instalar-se nas tripas
e chorava a dor do mundo
dos sonhos desmoronados
:
desamor
             desesperança

*

vingança

líria porto

tudo que te desejo
um sabadão sertanejo
um domingão do faustão

*

talho

líria porto

a verdade é magra direta
a mentira é gorda
e rola solta

*

a morte

líria porto

o corte a corte
e ninguém suporta
tanto rodeio

direto ao ponto
onde está
o bisturi?

*

rimas pobres

líria porto

belos
singelos
elos
com
teus
olhos
paralelos

*

manipulação

líria porto

às vezes a prosa de elisa
era rasa e confusa

tudo de propósito

simulava loucura
e até o analista
deitava em
seu divã

*

sábado, 9 de março de 2013

prudência

líria porto

quando o sonho é pesadelo
melhor mesmo é despertar
ir caminhar no sereno
antes que a realidade
já não consiga
detê-lo

*

cúbica

líria porto

ardida profunda
a dor vem do chão para cima
e finca no orifício

quem manda eu comer pimenta?

*

sininho

líria porto

não me pontuem
não me vistam com maiúsculas
eu sou pimenta do reino
canela em pó
algo que se polvilha
igual purpurina

*

sexta-feira, 8 de março de 2013

haicai

líria porto

o canto do galo
atravessa a madrugada
magias da aurora

*

fel na boca

líria porto

ave – maricota
que olhares são esses
quanto entusiasmo
nossos dias são todos
e não tão somente
este 08 de março

*

quinta-feira, 7 de março de 2013

amor

líria porto

contumaz
melhor

*

o menino

líria porto

agarra um brinquedo
outro outro e outro
o ursinho de pano
a bola um carrinho
o macaco
e exclama com a força
dos proprietários
é meu é meu
é meu

aos dois anos ninguém sabe
isso aprendemos mais tarde
não somos donos de nada
nem de nós nem do destino

*

cambiante

líria porto

mudo e o outro fala
falo o homem se excita
não sei se sou verbo
ou substantivo

uno posso ser duplo triplo
ou depois ou antes

*

quarta-feira, 6 de março de 2013

reino animal

líria porto

depois de muito viver e observar as turbas
entre bípedes e quadrúpedes aprecio mais
os últimos

exceção para os de asas entre os quais
incluo-te

*

terça-feira, 5 de março de 2013

ranzinza

líria porto

madurou à força
e a doçura que teria
azedou de vez

*

meninice

líria porto

olhos de raio-x
era este meu sonho
mas podia virar pesadelo

abri mão

*

enigma

líria porto

há algo de perverso no sorriso
no riso não – este podemos decifrar

*

órbitas

líria porto

marilene do joelson
com sua fama de puta
vivia melhor que as outras
as mulherzinhas corretas
que só andavam nas retas
e nunca faziam curvas

*

lentes

líria porto

não se dá asas às cobras – a limitação dos olhos
permitiu-me enxergar almas

*

segunda-feira, 4 de março de 2013

viúva

líria porto

dele aguentou muita bucha
mas ele morreu primeiro
e ela pode saber
(antes tarde do que nunca)
que a vida é boa e é doce
como puxa-puxa

*

bifurcação

líria porto

não te preocupes eu decido
e o caminho que eu traçar mesmo que não te sirva
é por onde vou

(aforismos me remetem a desaforos)

*

trova

líria porto

amor se cura com outro
vovó falava eu não cria
apareceu-lhe outro amor
e devolveu-lhe a alegria

*

domingo, 3 de março de 2013

despertar

líria porto

adoro as auroras as canoas
o silêncio dessas horas
em que os sonhos ainda voam
ou deslizam na memória
quais pantufas
de duendes

*

ingenuidade

líria porto

inventas tantas tramoias
e sempre que acontece
eu caio nas armadilhas
até pareço uma ilha
cercada de incertezas
a imaginar saídas
que se derretem
igual gelo

*

sábado, 2 de março de 2013

fobia

líria porto

olho o buraco
o buraco me olha
se não me afasto
o buraco me engole

*

alforria

líria porto

qual um pássaro solitário
a voar em pleno espaço
assim se sente no mundo
a desfazer-se dos laços
a soltar pena por pena
em pouco livra a carcaça
e prossegue só espírito

*

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

renúncia

líria porto

pensou-se deus
e a divindade pesou tanto
que se arrependeu da arrogância
e pediu arrego

não o faz por humildade
fá-lo por fraqueza

*

voo

líria porto

leitor distraído
ao fim de poucos parágrafos
sonha os sonhos do autor
com suas próprias palavras

*

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

drible

líria porto

escapei por um triz – a tristeza me quis
mas tirei o corpo fora e dei chance
à alegria

*

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

brincadeira

líria porto

a vida é um novelo
que a gente enrola e enrola-nos
os dias passam entre os dedos
até que o fio se rompa

ah
essa vida
é uma bola

*

traidor

líria porto

eu sempre te olhei nos olhos
e tu – eu creio – enganaste-me
não percebi as mudanças
não me disseste observa-te
não és aquela criança
e agora espelho
estou velha
o tempo sulcou-me a pele
eu tenho cabelos brancos
e olhos que não te alcançam
:
tu foste falso insincero
fingiste que eu era bela

*

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

alianças

líria porto

eu nada sei de finanças
tropeço em coisas contábeis
meu preço é negociado
não tão difícil nem fácil
basta-me a confiança
para selar a amizade

*

domingo, 24 de fevereiro de 2013

extraterrestre

líria porto

amar-te é de morte é de marte
é tão distante e tão perto – não sei se é sorte
ou azar

*

príncipe

líria porto

quando a história for para o brejo e virarmos sapos
não te esqueças de coaxar bem longe
para eu não pular atrás

*

sereia

líria porto

vou vestida de escamas
ponho conchas nos cabelos
e os brincos de águas marinhas
que ganhei dos peixes
:
as estradas do mar não têm pedágio
posso te esperar no cais

*

sábado, 23 de fevereiro de 2013

líria porto

metade de mim sou eu – a outra metade
um ser pequenino que eu gostaria de conhecer
mas que resiste ao divã do analista e/ou a qualquer um
que me apontasse o dedo e dissesse que sabe
de mim mais que eu mesmo

*

mãos em concha

líria porto

os versos que te trouxe vazaram-me entre os dedos
espalharam-se pelo chão – sementes de margarida
para os jardins de amanhã

*

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

esquizoide

líria porto

escondido numa loca
nos confins d'algum lugar
é lá que mora joaquim
longe de tudo e de todos
o próprio bicho do mato

não é alegre nem triste
é só um pobre coitado
um sertanejo comum
que se isolou desse mundo
pra ter um pouco de paz

*

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

quase

líria porto

o sol é o teu relógio
quando aparece despertas
põe-se a pino estás com fome
inclina-se e já cochilas
depois ele some
e tu roncas

no verão és serelepe
no inverno hibernas
:
és girassol ou és urso?

*

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

espelho espelho meu

líria porto

por natureza
eles têm belas penas boa pelagem
e elas – as fêmeas – são simples

conosco seria diferente
ou os machos encarnam
a vaidade?

(as leoas não têm jubas)

*

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

desalmado

líria porto

teu coração é uma pedra
não uma pedra qualquer um seixo um cascalho
teu coração é um rubi – o vermelho está preso
à dureza do resto mas finge
                                           que é carne

teu coração não bate por mim
nem por ninguém

*

sufoco

líria porto

nós na garganta é a corda que nos mortifica
se não se lhe diz um basta ela nos trucida

*

conclusão

líria porto

temos sorte – há mais de sessenta anos
não nos levamos a sério

(precisamos aprender com acertos
erros ensinaram-nos bulhufas)

*

domingo, 17 de fevereiro de 2013

zero a zero

líria porto

pífia
cheia de empáfia
achava-se magnífica
e o máximo que conseguia
era empatar a peleja

*

estacionamento

líria porto

o outono desfolhou-a
caíram-lhe os peitos as pálpebras
o ânimo

o inverno foi rigoroso
tornou-a mais fria que o mármore
da lápide

*

sábado, 16 de fevereiro de 2013

imprevisto

líria porto

chegou aqui – eu saíra
terá vindo sem aviso
surpresas são o diabo
podem dar em_burro n'água
posso estar acompanhada
ou com dores de barriga

*

livre

líria porto

enquanto durmo
a minha alma vagueia
por outros mundos

vai a vênus marte lua
aos anéis de saturno
conhece céus e infernos
mas não me conta
os detalhes

hora dessas voo junto
e não sei se volto

*

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

inférteis

líria porto

assépticos
sem intensidade
e eu quero versos
com bactérias e vírus
capazes de contaminar
de se espalharem
como epidemia

*

ala psiquiátrica

líria porto

falar com as paredes eu falo
bom dia paredes como estão
elas respondem irritadas
paradas tais quais os postes
sem enfeites pichações
quadros espelhos sem nada
e pálidas como os mortos

*líria porto

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

manancial

líria porto

o mar de minas – (in)visível
dissolvido o sal abriu suas veias
verdeceu colinas e serpenteia
nos rios córregos
e lagoas

*

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

história pra boi dormir

líria porto

dois passarinhos minúsculos
pouco maiores que um grilo
namoravam-se ao crepúsculo
quando veio um gavião
resolvido a persegui-los
:
não sentem medo tremor
sou grande sou perigoso
os dois suspiram e respondem
nada é mais que nosso amor
podemos vencer o mundo

diante desta certeza
o gavião desistiu
e saiu de fininho

*

intocável

líria porto

com velho a gente não mexe
velho não sai de onde está
(se o velho for insensato
cabeça-dura teimoso
desconhecer o que é gozo
não sonhar quiser sofrer)

*

mudança

líria porto

arrumei os meus teréns
e entre trecos e tralhas
trouxe dobradas na mala
todas as possibilidades

*

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

prato esmaltado

líria porto

arroz com molho e sardinha
às vezes couve com ovo
mas era tão saboroso
que me dá água na boca
lembrar-me daqueles dias
em que o dinheiro era pouco
e não faltava alegria

*

constatação

líria porto

depois que ficamos velhos
a mala das roupas é menor
que a dos remédios

*

respeito

líria porto

relaxa amor
deixa a poeira sentar
deitar rolar o que queiram
suas questões não são minhas
não devemos interferir
em decisão alheia

*

touceira

líria porto

o mato cresce
um homem aparece com enxada
e foice

desta vez eu morro – sou joio
o amor é trigo

*

verdade

líria porto

num ato de coragem
rasguei a realidade
vesti a fantasia
:
nua e crua

*

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

octogenária

líria porto

abolidos o batom a tintura nos cabelos
os saltos o esmalte as joias o relógio
lá vai vovó – sem vaidade nenhuma
rumo à sua hora

*

domingo, 10 de fevereiro de 2013

sem adereços

líria porto

vovó caducou
ficou sem roupa
e exposta

foi presa
por atentado à beleza
não atentado ao pudor

*

perigo

líria porto

quais catadores de mel
os homens se submetem
às ferroadas do amor

*

malogro

líria porto

unidos como os canos da espingarda
mas os tiros saíram pela culatra

*

sábado, 9 de fevereiro de 2013

desapontamento

líria porto

na folha de papel
escrevo meu nome
espero e o verso
não vem

o tempo passa
o papel amarela
envelheço e durmo
sobre a ilusão

sonho – sou poeta
e quando desperto
tenho fome de mim
e contas a pagar

*

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

suspiros

líria porto

que todas as claras gemam pelos morenos
mestiços e negros

*

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

lentidão

líria porto

meus ponteiros
tão lerdos quanto meus pés
não conseguem alcançar as horas

coisa de velho

*

sorte

líria porto

chegada a nossa hora
nada de vacilo
cavalo encilhado e de raça
só passa uma vez

o resto é pangaré

*

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

altura

líria porto

tinha que crescer para entender tudo
mas concluiu – precisava ser mais de mil metros
e não um metro e sessenta

*

palavras ao vento

líria porto

as primeiras garatujas
em aviões de papel
eram bilhetes de amor
endereçados ao mestre

castigos depois da aula
foram prêmios
inocentes também amam
brutalmente

*

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

lembranças de borboleta

líria porto

uma folha voa
nem que seja por instantes
quando cai

mas antes ela farfalha
dança nos braços da árvore

*

secreto

líria porto

não sei bem o que acontece
eu aqui ele lá longe
ponho-me em sua cama
entre ele e a mulher
então ele me procura
e ouço quando ela geme

não sei se é dor
se é gozo

(eu nunca sei)

*

penúria

líria porto

sob a chuva dos meus olhos
o sertão se esfarinha

*

in_fusão

líria porto

eu me liquefaço nos teus braços
e penetro dentro dos teus poros
o meu sangue agora é o teu sangue
a tua pele abriga este meu óbito

eu
tu
nós
nus

*

domingo, 3 de fevereiro de 2013

backup

líria porto

só tenho um rim
o outro morreu antes de mim
e não me faz falta

*

moderação

líria porto

só um bocadinho – pra matar vontade
pra fazer de conta que tudo se pode
sem passar da dose

(ter só um pouquinho
é pior que nada)

*

sábado, 2 de fevereiro de 2013

dos atrasos e distrações

líria porto

a rua era a via que os conduzia
mas na avenida havia tanta vida que até a morte
ficava atrás do poste ou se disfarçava

mudavam o itinerário

*

aprendiz de feiticeira

líria porto

tenho talento para tanto
transformar-te em tarântula
e não morrer do veneno

*

cinzas

líria porto

já não me iludem as cores
desmanchei o arco-íris
eu quero o preto no branco
tais quais nós dois

*

diploma

líria porto

a maricota embirrava
conseguia o que queria
então vovó cochichou-lhe
quero aprender essa manha
eu também vou ser atriz
e a pestinha num instante
deu um berro aaahhhhhhhhh
que a vovó imitou - ahhhh

faz mais forte vovozinha
aaaahhhhhhhhhhh
e bate também o pé
a vovó fez direitinho
e a menina completou
agora estufa a barriga
e põe o dedo na boca
assim mamãe tem mais dó

*

maldade

líria porto

o riso de rosa é raso
rezo por ela e a abuso
e isso é pecado

*

temores

líria porto

nestas tardes de torpor e tédio
tenho estado tão triste

à noite a morte espreita-me

*

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

corpo velho

líria porto

tal como o barraco na encosta do morro
exposto à tempestade à ventania
desabo a qualquer momento
não tenho alternativa

*

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

apressa-te

líria porto

a vida ruge
o tempo que me resta é pouco
estou de mala e cuia

*

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

dissipações

líria porto

canto de cigarra asa de libélula
nuvem de fumaça gelo ao sol

*

im_possibilidades

líria porto

toda vez que fico assim
à flor da pétala
alguém se apodera de mim
bem me queres mal me queres
atormenta-me com perguntas
que não sei responder

*

buraco negro

líria porto

nos abismos do poema
jogo-me dia após dia
mas só ficarei contente
quando for tragada
inexoravelmente
pela gravidade
da poesia

(sem jamais tocar-lhe o fundo)

*

corresponsáveis

líria porto

esconjuro a nuvem que cai de uma vez
arranca as lascas do morro e suja
as ruas

cuidamos do lixo ou isso
é desnecessário?

*

domingo, 27 de janeiro de 2013

triângulo

líria porto

eu namoro a morte mas sou casada com a vida
dia qualquer largo desta caio nos braços daquela
de forma definitiva

*

meta

líria porto

sigo os trilhos tenho um rumo
o que encontrar eu assumo
ou então sumo de vez

*

desembestada

líria porto

apito na curva
trilho o caminho do trem
e uma louca motiva-me

*

haicai

líria porto

parecem cristais
sobre as folhas do capim
gotinhas de chuva

*

sábado, 26 de janeiro de 2013

chuvada

líria porto

o céu despenca qual um rio vertical
passarinho vira peixe

(sardinha ou lambari?

*

hóstia

líria porto

fez a primeira comunhão com medo
e se os dentes sangrassem o corpo do cristo
e o pai do céu a condenasse ao fogo eterno?

*

minhas flores

líria porto

andei com elas nos braços
como se fossem troféus
ostentei quatro

hoje
elas que me carregam
e eu não quero ser
um fardo

*

aporrinhação

líria porto

não me apontes não me pontues não me julgues
nem te ponhas reticente a tudo quanto vivi
pois que escolhi a ti mas posso
voltar atrás

*

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

monotonia

líria porto

se eu fosse uma princesa
dormisse com lua acesa
tivesse um amor à mesa
e não sentisse tristeza
ainda assim fugiria
para encontrar minha rima
num brejo qualquer

*

gulosa

líria porto

quis ser a branca de neve
mais pela dentada na maçã
que pelo príncipe e os sete
anões

*

de fachada

líria porto

andei de braços dados com teus ternos
porém nunca estiveste dentro deles
comigo tu ficavas sempre ausente
e eu tentava manter as aparências

*

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

espera

líria porto

lágrimas no varal - se o sal corroer o arame
um rio vai despencar e inundar o quintal

*

esculpidas em carrara

líria porto

malu e ana luísa
mesmo tamanho e idade
são amigas e são primas

ouso dizer que as duas
tão parecidas tão lindas
são semigêmeas

*

ímpeto

líria porto

eu dei um jeito no vento
pu-lo ao colo de_vagar
contei-lhe histórias de brisa
de crianças boazinhas
ele ouviu-me e desatento
escapou em disparada

lá de longe ele gritou
eu sou o vento vovó
e ventar é minha sina
vou rever maria luíza
correr com o francisquinho
voar voar e voar

*

comodismo

líria porto

ser a primeira é um peso
ser a segunda alivia-a
ser a última é um risco
pode-se inverter a fila

prefere estar no recheio
ficar ali – sem ser vista
nesta zona de conforto
fingir-se de morta
é possível

*

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

de_composição

líria porto

abre as asas sobre o toco
fica a esperar a morte
(não a sua - a de outra vítima)
para sustentar-lhe
o fôlego

(urubu voava em círculos
lá no céu um aeroplano
a vigiar as carcaças
a limpar toda a carniça
com seu bico instruído
para descarnar
defuntos)

*

cerzidos

líria porto

eu na rua ele na rua
perguntou-me se podíamos
disse sim sem titubeio
desde então todos os dias
nunca mais nos separamos
tornamo-nos um par de meios
:
tão iguais tão diferentes
como todos os casais
com remendos no dedão
buracos no calcanhar

*

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

ávido

líria porto

sede de mar
daquelas de beber todos os rios
e sentir sal na saliva

*

caolho

líria porto

o direito enxerga o outro
o esquerdo – quase nada
o direito é precioso
o esquerdo é uma lástima
:
ou seria o contrário?

*

contramão

líria porto

nada em mim me obedece (coração mãos nem pés)
menos ainda a cabeça que sabe de cor e desliza
pelos devaneios – como a brisa

bebo

*

tufão

líria porto

abro os braços
giro o corpo
fico à beira
da loucura

é uma eterna
brincadeira
um saltar
no escuro

vou ao fundo
e no impulso
ultrapasso
a nuvem
:
beijo a boca
de são pedro
faço amor
com lúcifer

*

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

a anciã

líria porto

cabelos sob o lenço
o corpo curvado e nas costas
o peso dos noventa anos
:
casca envergada à terra
alma pronta para voar
em breve

*

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

o viúvo

líria porto

depois que voltou à casa
caminha como um sonâmbulo

fareja cheiros nos cantos
nenhuma roupa no armário

e quando se senta à mesa
almoça e janta sozinho

o cobertor não lhe esquenta
as noites são sempre longas

está ainda casado
com uma ausência

uma sombra

*

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

negócio

líria porto

eu
arrimo de mim
arrumo-me como posso

o que era nosso é só meu
dá-me um trabalho do cão
:
quando acertar outro sócio
vai ser mais macio que o capim
onde cochilo

*

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

momentos

líria porto

lembranças dos vínculos das emoções e sentimentos
e até dos esquecimentos necessários (des)construídos
ao longo da vida - isso é passado e é parte
da nossa história

sobre o futuro não falo
ele não existe

*

domingo, 13 de janeiro de 2013

infiltração

líria porto

entrou pela porta dos fundos
lavou os copos os pratos
encaminhou-se pra sala
pediu-me pra ir ao banheiro
usou-me a toalha o roupão
dirigiu-se até meu quarto
recostou-se em minha cama
tirou um cochilo e depois
pôs suas roupas no armário
:
sentiu-se bem com direitos
fez-me de mim gato
e sapato

*

sábado, 12 de janeiro de 2013

pavio curto

líria porto

já não tem mais fôlego paciência
para sustentar contestações
fala sim ou não ou simplesmente
cala sua boca e abre mão

*

o menino

líria porto

beijo-lhe as bochechas
e a testa e seu nariz
também beijo-lhe os pezinhos
os joelhos a barriga
não existe neste mundo
um perfume que eu prefira
mais que o cheiro de um bebê
recém-nascido

*

felizardo

líria porto

eu tomo o lugar da mulher do coronel
quando ela não o quer ele me procura
:
ela é mãe dos seis legítimos
sou eu a mãe dos bastardos

ele tem catorze filhos
todos machos

*

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

tempo

líria porto

falou que a vida era breve eu não cria
até que eu - cria dela - alcancei maior
idade

*

urdidura

líria porto

acordo cedo levanto-me
digo olá pra o novo dia
encaminho-me ao banheiro
dou bom-dia para o espelho
(santo dio eu fiquei velho)
faço tudo que preciso
privada banho higiene
tomo todos os remédios
como algo café leite
(a caminhada eu adio)

pego um jornal leio escrevo
telefono para os filhos
peço notícia dos netos
falo com algum amigo
e passo as demais horas
a fazer umas coisinhas
antes que a sorrateira
empurre-me pelas costas
para o fundo de uma cova
e jogue terra por cima

*

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

e_vidente

líria porto

mantenho a lua entre os dedos
e apago o dragão de são jorge

no alforje carrego as estrelas
e teus olhos

*

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

(des)grama

líria portoa

o amor tece a trama
amortece as bacadas
põe-nos em camas macias
e (des)confortáveis

*

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

manchete

líria porto

a notícia é um dardo
na direção do escândalo

*

diário

líria porto

os quebrados os murchos os carunchados
separo os grãos de feijão e me lembro
das mãos de minha mãe

muitas vezes assisti este ato
e ao olhar os meus dedos eu a vejo
e sinto saudades de mim

*

domingo, 6 de janeiro de 2013

re_correntes

líria porto

acostumados a caminhos invisíveis
os pensamentos voam e voltam
passarinham

*

possuída

líria porto

tocou o meu corpo
ex_traiu minha alma

falei sua língua senti-a
tive arrepios horrendos

foice
deixou-me uma pena

fui a mulher do diabo
por uma noite

*

sábado, 5 de janeiro de 2013

nona

líria porto

passos curtinhos
vidinha lenta
os pensamentos
são quase brisa
pois que a velhice
como o inverno
precisa manto
meias e vinho

(tricô dá tendinite)

*

perturbações

líria porto

nossa aflição os nossos medos
nossos pensamentos conturbados
obstáculos que criamos nos momentos
de enfrentar as próprias falhas

*

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

tônica

líria porto

numas vezes fico grave como acento agudo
noutras flano como um til
:
só coração

*

bílis

líria porto

o peso de um pensamento
capaz de tirar-nos o sono
bem pior que pesadelo
pode amassar-nos o corpo
extrair-lhe um caldo verde
amargar a nossa boca

*

ímã

líria porto

não adianta mudares teu rumo
por mais amplo que o mundo seja
teu destino foi traçado até chegares
a mim

*

enrugadas

líria porto

as minhas mãos centenárias
tanto trabalho forçado
cansaram-se e nada fazem
não cozinham não tricotam
mas também não se aposentam
cismadas em fazer versos
em transcrever o que penso

*

pavio

líria porto

o corpo - cera que derrete
desfaz-se enquanto a alma
arde

*

fachada

líria porto

o corpo é minha casa
os ossos que lhe dão sustentação
enchem-se de ferrugem

a pintura cheia de manchas
já não faz bela a figura
mas a alma que habita a tapera
aprecia as estampas

*

ejaculação precoce

líria porto

no natal eu não quis presentes - quis o papai-noel
ele veio sem roupa vermelha e sem saco
:
que impaciência

*

homem

líria porto

não digas o que não sentes - não precisas
prefiro o silêncio às mentiras

*

no pasto

líria porto

morena olhos pretos
tetas grandes língua áspera
espera o quê neste vácuo?

*

retorno

líria porto

os braços fortes do sol
enlaçam o horizonte
bom dia bom dia bom dia
o vento persegue a brisa
os homens vão à deriva
os pássaros voam
e cantam
:
o mundo gira

*

à meia-noite

líria porto

no céu as estrelas no chão vaga-lumes
no meio do espanto - felizes da vida
pirilampeio e cintilas

*

domingo, 30 de dezembro de 2012

declaração

líria porto

eu amo mario quintana
sabedoria dos fortes
seus versos falam da vida
e compreendem a morte
:
com ele eu passarinho
com ele eu viro vinho

*

sábado, 29 de dezembro de 2012

doutor

líria porto

eu que banhei o seu corpo
ao vê-lo de terno e gravata
do lado de alguns senhores
seguro o riso
:
ele tem coceira e cócegas
algumas pintas na bunda
e medo de escuro

*

ponderação

líria porto

desçamos só uma parte depois retornamos
e na subida pra casa testamos o nosso fôlego

nós já não somos crianças – se formos até o fundo
será tão grande o esforço e tão profundo o cansaço
que não teremos mais ânimo para os abraços
e os beijos

*

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

presunção

líria porto

quem nascer no ano da minha morte vai ter uma sorte e um azar
sorte por ocupar o lugar que deixo e me dá muito prazer
e azar em não partilhar o ar que respiro

*

trêmula

líria porto

falo alto digo repito
(tento me convencer)
eu não temo a morte
ainda que ela tenha um imã
(tanto quanto a vida)
e nos atraia ao abismo

*

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

pele de cordeiro

líria porto

tomara seja como tu esperas
embora quem te acerque - desconfio
tenha se aproximado com escusas intenções

esta criatura arranca do incauto todo o possível
mastiga-lhe a alma cospe-a com nojo
e ainda fala mal da sua conduta

*

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

pouso

líria porto

os nossos filhos e filhas 
quais aves de arribação 
chega o natal eles vêm
no ano novo se vão

*líria porto

domingo, 23 de dezembro de 2012

esbanjamento

líria porto

coisas caras coram-me perante os miseráveis
que  nus  procuram restos de comida

*

tamanho

líria porto

o espaço que ocupamos no planeta
não precisa ser mais justo nem mais largo
que a nossa aura

*

não te aflijas

líria porto

vou me sentar no arco-íris espiar-te lá alto
tomar conta dos teus filhos dos teus netos
te esperar

*

sábado, 22 de dezembro de 2012

da fruta

da fruta

não poupo a polpa
cravo-lhe os dentes
até à semente

*

comi_chão

líria porto

não vou dar a alma pro capeta
mas o corpo - vou pensar

*

preguiceira

líria porto

acordo e faço um acordo
com quem ressona a meu lado
quem se levanta por último
arruma a cama e o quarto
:
dei de madrugar

*

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

sobre a lápide

líria porto

bebi a vida num gole
sem enjoo sem engasgo
:
senti o gosto na língua
chupei até o bagaço

*

na estação

líria porto

prima_vera fez as malas
guardou as blusas floridas
as sandálias rasteiras
as saias rodadas

prometeu retornar em setembro
como sempre

*

pitonisa

líria porto

este defeito nos olhos
as bordas ficam difusas
confundo o real com o sonho
e quando observo o mundo
vejo bolas de cristal
e faço adivinhações
:
tenho lembranças futuras
mas nada sei do que fui

*

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

parlenda

líria porto

foi um escarcéu foi um pandemônio
o sol veio de um lado a lua veio de outro
e lá no meio do céu ela branca ele amarelo
os dois se esbarraram e brigaram
logo no primeiro encontro
:
mudaram de rota
nunca mais se falaram e jamais
esqueceram-se

*

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

ermo

líria porto

meu coração é brejo
onde uns atolam até o pescoço
outros a_penas sujam o pé

um príncipe veio
quis ficar e virou sapo
:
meu amor coaxa

*

domingo, 16 de dezembro de 2012

passagem

líria porto

no meio do caminho o cipó
no meio do cipó a formiga
no meio da formiga a vida
tão efêmera
tão pó

*

sábado, 15 de dezembro de 2012

boca livre

líria porto

olha a lua
um sorriso
que aumenta
a cada dia
vira um ovo
uma bola
depois rola
para o sonho
do poeta

*

lavor

líria porto

por mais sorte que haja
não vai cair do céu
nem vai brotar do nada
:
o que vais conseguir
nascerá dos teus braços
e do teu intelecto

*

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

das avaliações

líria porto

não te posso condenar
eu nada sei de miséria
de ter filhos sem comida
sem escola ao deus dará
no teu lugar talvez eu
fizesse coisas mais graves

*

fome

líria porto

ao redor da mesa
uma dúzia de olhos enormes
e seis barrigas que roncam

*

graffiti

líria porto

sonhei escrever nas paredes
nos muros nos monumentos
os versos da minha lavra

alguém foi à rua
chamou a polícia? 

condenem a miséria
não o minha arte

*

arrocho

líria porto

coleira gaiola cela sapatos ordens repressão
qualquer coisa que me imponha limites
explodo e estouro as amarras

*

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

sertão

líria porto

o céu promete chuva
promete mas não cumpre

*

desvio nunca fui santa serei-a? *líria porto

líria porto

nunca fui santa
serei-a?

*

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

cavalgada

líria porto

na cela do amor
células de ciúme

na sela do amor
a liberdade

*

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

retorno

líria porto

diz-me
espera
e quando eu me volto
ela
incrédula
fala-me quase
sem fôlego
:
bom te saber por perto
é triste o destino das pedras
passamos séculos e séculos
sem que se cumpram
as promessas

*

controle

líria porto

nem fosse pedra
ficava tão parada

ele passa
seguro o fôlego

(só
o coração
dis_para)

*

enfaro

líria porto

comeu-a a de a a z
e tanto se satisfez
que cuspiu no prato
:
ingrato

*

domingo, 9 de dezembro de 2012

de dor e perfume

líria porto

na vida como no roseiral
as pétalas são efêmeras e os espinhos
duradouros

*

des_encontro

líria porto

o tempo nos transforma
e se eu sou outra e se o outro é outro
como manter o mesmo sentimento?

*

sábado, 8 de dezembro de 2012

paladar

líria porto

ora adoro ora detesto
e de resto - gosto de doce
de amargo de azedo
conforme a hora

*

atalho

líria porto

para abreviar a vida
atravesso-a na diagonal

*

leilão

líria porto

quer queiras quer não queiras
vou vender na feira o nosso amor
quem pagar melhor por ele inteiro
vai levar-me - a mim e a ele
pra cuidar da parte que te coube

*

risco

líria porto

saiu da zona de conforto
e pairou no céu da manhã
:
lua de papel
puta à luz do dia

*

chacina

líria porto

a culpa foi minha
massacrei o amor com perguntas
piadas ciúme insinuações
e fui indiscreta impulsiva
expu-lo ao público ao ridículo
e o amor encolheu-se
escondeu-se
sumiu

*

desdém

líria porto

diz que não se importa tampouco interessa-se
mas não é sincera - espero consiga encontrar-se
em seu ponto cego

*

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

pentelha

líria porto

fui o cão chupando manga
rebelde a não mais poder
mas não paguei cá na terra
a minha prole é de pérola
escapei de bamba

*

reconhecimento

líria porto

olho no espelho o que vejo
a cara velha sem máscara
e gosto dela  é sincera
tem o que espero de mim
coragem para enfrentar o medo
e um riso sem mágoa

*

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

niemeyer

líria porto

o poeta das curvas
deu asas ao cimento
fez o concreto voar

*

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

laia

líria porto

as pessoas que ele amava
não eram lá essas coisas
mas quando escolheu a mim
que me havia em grande conta
vesti-me da carapuça
tratei de ser mais humilde

*

danada

líria porto

teu olhar de lambe-lambe
dá-me água na boca

engulo a saliva
ou melhor - cuspo-a
para não sofrer

*

presságio

líria porto

conquanto tão pequenina
nada soubesse da vida
discernia o que era belo
muito mais que as outras primas
a mãe previa  a menina
não se conforma com pouco
escolhe cor cheiro
brilho
:
feita mulher
é artista

*

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

resguardo

líria porto

a gata pariu e os gatinhos
todos de olhos azuis
mamavam sua energia

a pobre gata ainda fosca
estava toda orgulhosa
com a saúde da prole

eles corriam voltavam
agarravam-se às tetas
que pareciam vazias

e a gata quieta sem forças
não quis provar da comida
que sua dona lhe trouxe

*

agonizante

líria porto

constatou - não tem mais jeito
mas colocou ponto e vírgula
e ainda não teve peito pra jogar
a pá de cal

*

miragem

líria porto

eu vi a felicidade lá na linha do horizonte
caminhei para alcançá-la – eu andava ela andava
eu corria ela corria na mesma velocidade

*

sismo

líria porto

o amor foi terremoto
cinco graus na escala richter
não houve desabamento
mas a paixão meu senhor
esta sinto - é tsunami

*

sem gravidade

líria porto

a morte é sono profundo
sem sonho nem pesadelo
é o livrar-nos do mundo
do peso da existência

*

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

colo

líria porto

sou eu quem baldeia maria
levo-a por todo canto
vejo transbordar-lhe o riso
insisto em secar-lhe o pranto
:
rio às cataratas

*

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

alagado

líria porto

não me peçam nem meçam o que faço
doo-me espontâneo sempre que poça

*

imprescindível

líria porto

eu não quero o marido e nem mesmo o namorado
eu espero e preciso do amigo que se deita nesta cama
e respeita o meu lado

*

safra

líria porto

os zeros não são nulos
os milhões são grãos de milho
para alimentarem os filhos
dos pobres de todo o mundo

*

escudo

líria porto

tenho em torno do meu corpo um exército de almas boas
que me salvam e me protegem dos espíritos obsessores

*


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

moldagem

líria porto

tão cedo eu me acordo com aurora no quarto
eu cerro meus olhos preciso é dormir
lá longe se escuta o canto de um pássaro
adeus meu sossego tem verso na agulha

tal como a bigorna que bate que surra
que insiste em dar forma às barras de ferro
assim faz a mente com meu sentimento
até que ele tenha compasso de música

vem dia vem noite vem sol e vem chuva
a lua se esconde por trás de uma nuvem
porém o poeta lhe sai à procura

vasculha os escuros o espaço o infinito
arreda as estrelas recolhe a neblina
faz tudo o que pode – sua lua o sepulta

*



terça-feira, 27 de novembro de 2012

ao pé da árvore

líria porto

palhinhas e galhos secos
um ninho quase completo
o vento a fazer besteira
tem passarinho sem teto

*

declive

líria porto

a cadeira que balanço
range um pouco quando sento
suas molas são antigas
suportaram sucessivas
barrigas de nove meses

*

poema para wânia

líria porto

ela aleitou a letícia e também a luciana
lavou-lhes fraldas cabelos - minha irmã já tens o céu
isso é merecimento não precisas rezar tanto
podes rasgar o verbo as meninas são mulheres
e agora o mundo é delas

*

momento

líria porto

folgado como um domingo
um sábado à tardinha um vestido velho
um chinelo

*

à moda

líria porto

a vida não é justa
é plissada franzida
godê
:
e é curta

*

emoção

líria porto

um canto em cada canto
tal encanto a transbordar-me
se eu cantasse acalantos
guardava espantos na lágrima
teria nós na garganta
seria santa ao contrário

*

biruta

líria porto

pra onde vou eu não sei
de onde vim eu nem lembro
aqui estou encaminho-me
persigo asas de vento

*

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

compromisso

líria porto

respondo pelo que faço
mesmo quando eu me perco
nalguma queda de abraço

*

acusação

líria porto

apontou-me o dedo assim
como se fora um revólver
dei meia volta e senti
a dor de um tiro nas costas

*

acerto

líria porto

pode chover canivete faca prego até punhal
quando eu te devo eu te pago mas também pego
meu troco

*

leviana

líria porto

botei-a numa bateia
junto com muita gente
peneirei não ficou lá
só selecionei as gemas
as que têm muito valor
que se prestam à amizade
jamais à enganação
à cobiça ao interesse
:
fique longe bem atrás
daquela quero é distância

*

barreiras

líria porto

quando se quer não se espera
vai-se atrás – rios procuram o mar
e na caminhada renovam-se
conhecem campinas desfiladeiros
e tudo o que esteja às margens

*

domingo, 25 de novembro de 2012

desjuízo

líria porto

eu tento entender o vento
ouvi-lo um pouco mais calma
porém perco a paciência
ele sai entra assobia
tira a roupa do varal
bate a porta espalha as folhas
enche a casa de poeira
não presta atenção em nada

*

vogal

líria porto

assim eu me assanho
assim eu me assento
assim eu me assisto
assim eu me assomo
assim eu me assunto
:
nua

*

friagem

líria porto

de lá nevoeiro
de cá sentimentos nublados
que buscam encontrar noutros braços
um cadinho de sol

*

troco

líria porto

a vida esmurrou-lhe o fígado mas não foi a nocaute
revidou com força deu-lhe uma baita banana
e seguiu sua estrada

*

humor

líria porto

o sol não veio – é domingo
a nuvem cinza espreguiça-se
se o tempo faz cara feia
quem vai ter cara bonita?

*

ingratidão

líria porto

o raio atingiu em cheio aquele que contra os seus
impetrou palavrões desfeitas invocou o coisa ruim
tentou destruir e saquear quem lhe deu a luz do dia
doou-lhe sangue feijão e peixes

*

sábado, 24 de novembro de 2012

providência

líria porto

se a dor é funda viro-me do avesso
mas se a dor é rasa corto-lhe as asas
e as penas

*

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

recato

líria porto

com a lua eu me esbaldo
porém as estrelas
estes seres brilhantes pontudos
cheios de si e de orgulho
as estrelas me calam
eu me assombro
eu me escondo
eu não falo

*

imaginação

líria porto

a lua é uma bola uma hóstia uma moeda
um circo um queijo ou então um satélite
com lugar garantido na vida do poeta

*

calor

líria porto

um pôr de sol das arábias
daqueles de areia quente
e a lua que se prepara
pra sua dança do ventre

*

condenado

líria porto

trancafiou o amor
impediu-o de ir e vir
de conhecer-se no espaço
e o pássaro cativo
esqueceu as próprias asas
já não sabe assobiar
ficou triste triste triste
quer sequer comer alpiste
recusa-se a beber água

*

porre

líria porto

na encosta da montanha
de olho no pôr do sol
maria lua vivia
sua vidinha sem nuvem
a fazer poesia
sem sentir solidão
:
tudo azul com bolinhas
do mesmo corte

*

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

raios

líria porto

não deve ser tão ruim a longa noite sem fim
no que de mim depender vou esperá-la
de pé

*

cúmplices

líria porto

teu olhar qual uma adaga atravessa pensamentos
adivinhas num momento se estou bem
se estou mal

quando tento disfarçar tu falas - eu te conheço
e me abraças e me consolas

eu era tal uma rocha
perto de ti estou líquida

incomodo-te acomodas-me
e ainda me agradeces por molhar a tua boca
por matar a tua sede

*



história da carrocinha

líria porto

príncipes viraram sapos
o amor ressentimento
relações foram pro brejo
e princesas dão um duro
pra sustentar os rebentos

o final não foi ruim
o real é proletário
e o tal romantismo
casos de polícia

*

chumbo

líria porto

dói-me dentro dói-me fora
entre também dói

tem um medo que me rói
tem um peso que me mói
uma pata de elefante

*

olho no olho

líria porto

não deve ser tão ruim a grande noite
no que depender de mim vou esperá-la
de pé

*

domingo, 18 de novembro de 2012

de coração

líria porto

as promessas
os adiamentos a decepção
mesmo que eu não queira
o que era belo
põe-se como um zero
à esquerda

(esperei sentada)

*

sábado, 17 de novembro de 2012

destino

líria porto

por onde caminho
meu pé abre a picada

*

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

a rosa

líria porto

desabrocha depois despetala
e por uns momentos o seu cheiro
paira
:
alegrias não perduram
nem tristezas

*

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

dilema

líria porto

todo poeta vive na berlinda
sem saber ao certo se dá
ou desce

*

conservadores

líria porto

há um mofo sobre as telhas das casas antigas
sobre as cabeças de pensamentos velhos

*

con_sorte

líria porto

ela escreve o poema do amor perdido
ele escreve o poema do amor achado
eu não perdi nem achei e escrevo
num trevo de quatro
bolhas

*

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

passarinhos

líria porto

peixes criaram asas fizeram ninhos
e viraram o mar de pernas pro ar

*

falta de jeito

líria porto

o vento com seus gestos bruscos
derruba as mangas verdes e assusta
os passarinhos

*

extermínio

líria porto

um canto sem corpo
a alma de um pássaro
um ninho vazio a chocar
solidão

*

poeminha

líria porto

dona terra espera ansiosa
a visita da comadre chuva
que se esmera em tecer pra ela
lençóis verdes e fronhas
coloridas

*

domingo, 11 de novembro de 2012

crítica

líria porto

escrevo um trevo um crivo
e cravas uma cruz nas crostas
do escriba

*

sábado, 10 de novembro de 2012

a mesma moeda

líria porto

só te traí uma vez e porque era verdade
ela lhe diz - também eu só te traí uma vez

foram duas as garotas ele retruca
eu não - ela fala - fui com teu amigo
mas em dose tripla

*

abdução

líria porto

fez amor com o verde
e tudo que há e ouve
engravida-a
:
a couve

*

gravidade

líria porto

a pedra atrai o mar
com olhar grávido/agudo
:
o mar invade-lhe
                         a gruta

*

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

pesadelo

líria porto

meu sonho caiu da cama
espatifou-se no escuro
então escrevi no muro
fechado para embalanço

*

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

valorização

líria porto

ultrapassar-se
saltar à frente de si mesmo
tornar-se objeto de desejo
e de amor-próprio

*

ser_tão

líria porto

sem arreio freio armadura
o vento cavalga a nuvem
atravessa o pasto azul
e quando apeia é chuva
verde no chão do mundo
feijão arroz jerimum

*

assessoria

líria porto

mandou-a plantar batatas
ela o fez – ao pé da letra
e a colheita foi tão boa
que a mulher enriqueceu
viajou para lisboa
e arranjou um outro amor

*

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ausente

líria porto

nem todo poema é prolixo
tem dia que é um suspiro
um olhar fixo no nada

*

o quê?

líria porto

o tempo não tem tampa o tímpano tem
o tom pode distorcer-se – zum zum zum
pôr uma abelha um zunido no ouvido

*

mundana

líria porto

a mulher da minha vida
sem a qual sequer respiro
a que caminha comigo
e me apoia até nos erros
esta dos meus pecados
que me conhece os segredos
e gosta dos meus amigos
e ama os meus amores
esta mulher meio doida
da qual também desconfio
poderá roer-me as unhas
e também morrer por mim
esta tal de líria porto
tem meu nome tem meu corpo
tem meu endereço

*

terça-feira, 6 de novembro de 2012

carranca

líria porto

a língua míngua o silêncio espalha-se
a culpa é tua que não falas  engoles seco
e te mostras tão amargo

*

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

feitiço

líria porto

mas porém houve um sujeito
ele me tomou de mim
transformou-me em borralheira
até me quis princesinha
trapo-bucha-amélia-gueixa
qualquer coisa

eu fiquei tão transtornada
já não pensava em mais nada
a não ser no grão-vizir
em servir sua majestade
deixar que ela maltratasse
minha alegria meu riso

quando eu me olhei no espelho
e não me reconheci
levantei as sobrancelhas
rodei sobre os calcanhares
exclamei – vou me buscar
:
eu me achei
estou aqui

*






dedicação

líria porto

cheguei mesmo a ver estrelas
naquelas noites chuvosas
o meu amor se esmerava
realizava milagres
tirava toda a tristeza
enxugava a minha lágrima
transformava espinho
em rosas

*

domingo, 4 de novembro de 2012

a felicidade

líria porto

dá-nos esperá-la sentados
que de pé o cansaço monta

*

nos nervos

líria porto

além da implicância
por maiúsculas pontuação gerúndio
a birra pelos adjetivos
sempre tão explicativos
e pelos advérbios
estes fofoqueiros com suas informações
de quando como
e onde

*

bairrista

líria porto

colher rastelar abanar o café
deixá-lo espalhado ao sol até que seque
triturar a casca limpar torrar moer coar e servir
com queijo de minas

*

vantagem

líria porto

sempre tive um lugar à mesa
mas depois que fiquei velha
e com tantas cadeiras disponíveis
mudo de posição e vejo a vida
por muitos ângulos

(uns agudos outros obtusos)

*

en_carregados

líria porto

a existência tem duas portas  uma de entrada uma de saída
uma entregue à vida outra entregue à morte e a sorte é que as duas
são pontuais

*

sábado, 3 de novembro de 2012

luxenta

líria porto

adoro morar comigo
fazer-me toda vontade
mimar-me ao infinito
ser minha mãe avó tia
por um ano um mês
um dia

depois fico insuportável

*

água benta

líria porto

atiça o fogo do padre
fá-lo sentir-se bonito
o corpo inteiro se excita
o padre abraça-a beija-a
morde-lhe o lábio o mamilo
faz-se crepitar a basílica

*

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

sobressalto

líria porto

um estampido
pulei da cama
pensei num tiro
numa tragédia
:
por que não
num balão
de festa?

*

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

deslembrar

líria porto

o verso me abandona – isso não se faz
nós passamos juntos quase a vida toda
eu o socorri nos dias de modorra
foi-se da memória sem olhar pra trás

*

terça-feira, 30 de outubro de 2012

revés

líria porto

figa pé de coelho
trevo-de-quatro-folhas
guiné arruda alecrim
comigo-ninguém-pode
ferradura atrás da porta
pedrinhas de sal grosso
espada-de-são-jorge
e nada de sorte

*

domingo, 28 de outubro de 2012

nada

líria porto

quá quá quá
de quem ri o pato
de mim?

eu rio do pato
que nada
no lago

*

machismo

líria porto

e quando ele lhe disse só te traí uma vez
ela falou simplesmente – eu também

o homem ficou maluco
queria saber com quem
se foi melhor ou pior
nunca mais teve sossego
e entrou em crise

*

sábado, 27 de outubro de 2012

temperamental

líria porto


falou que se cansou de mim - fricote
eu que estou exausta de tanto faniquito
desse quero não quero gosto não gosto
não estou disposta a sacrifício

(tomara que não volte
se voltar ponho para dentro
como deixar ao relento
alguém tão sensível)


*

descrença

líria porto

qual a senha para o sonho sinhá
eu me assanho e nada acontece
e é tão tristonha a realidade
que hora dessas durmo
e não acordo mais

*

matizes

líria porto

as tonalidades
tudo o mais parece
aquarela feita
pelas mãos do mestre

*

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

vidinha

líria porto

baldes e bacias aparavam as goteiras
titia arrancava os cabelos enxugava o chão da sala
seu marido roncava

ao acordar reclamava do café
e do pão dormido

*

da sopa

líria porto

assoviava estalava-lhe os dedos
ela vinha igual cachorro e ganhava
um ponta-pé

pois dia desses vingou-se
partiu e levou o osso

*

mudança

líria porto

igual gota
sentir o peso do todo
e sem onde segurar-se
soltar o corpo
cair sobre a enxurrada
integrar-se a outras águas
ser feliz noutro lugar

*

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

librianos

líria porto

ah esse polvo de outubro
com tantos braços abraça-nos
a alma vai no regaço - difícil faz-se
escapar

ah essa gente tão rubra
não é o próprio equilíbrio
quem a conhece se afunda
e volta à tona sem fuso

confuso?

sei lá

*

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

líria porto

porém ainda existem
a dor intransferível
o sofrimento atávico
o momento final

*

terça-feira, 23 de outubro de 2012

sinistro

líria porto

nasceu em dois de novembro
levou pela vida afora
morte e tristeza

a festa à beira do túmulo
as velas a canção fúnebre
sempre lhe deram pêsames

parabéns – jamais

*

impúbere

líria porto

o nosso amor adolesce e tem espinhas na cara
e faz pirraça é feinho – em poucos anos em breve
terá as chaves de casa

*

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

o carroceiro

líria porto

pra que pressa - no trote a vida vai longe
eu não uso chicote tu não dás pinote
seguimos no ritmo de ontem

*

escapamento

líria porto

ufa
passou
mas se voltar
devolvo a dor
para o dono

*

seiva

líria porto

quem me inspira – outros poetas
eles me incitam fazem comigo o que a floresta
faz com as orquídeas

*

domingo, 21 de outubro de 2012

reza

líria porto

uma medida de arroz
três de suco de tomates
(madurinhos - é claro)
sal e cebola e alho
uma colher de manteiga
levar tudo ao micro-ondas
sem nenhuma gota d'água

ao final
polvilhar queijo ralado
e mais cebolinha e salsa

(ajoelhar e comer)

*

com açúcar e com afeto

líria porto

nem joelhos sobre o milho
e nem mãos à palmatória
os castigos que humilham
não ensinam dão revolta

há todavia os limites
não farão o que não podem
nesse jogo tem um líder
e regras harmoniosas

*

sem recato

líria porto

se me faltam versos
ataco de prosa
porém não descarto
o velho poeta
que sem mais nem menos
surge assim do nada
vem todo dobrado
como um origami
:
um papel alado

*

sábado, 20 de outubro de 2012

infernal

líria porto

o sol sobe a lua desce
a lua sobe o sol desce
:
o céu é pequeno
para tanto
astro

*

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

a ilha

líria porto

de pança pra cima
de papo pro ar
a vida é macia
assim como está
deitada na areia
cercada de azul
e sem precisar
de ninguém
e de nada

*

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

perna de pau

líria porto

em meu time sempre foi artilheiro
em seu time me deixava na reserva
agora me convoca?

(vou não)

*

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

escravo

líria porto

escrevo sobre eva
cravo uma uva onde há maçã - uma ova
diz-me o mestre e passa um abrasivo
sobre a inovação

*

terça-feira, 16 de outubro de 2012

megalomania

líria porto

quando só restar a linha do horizonte
vou fazer um verso bem em cima dela
algo que se alongue ao redor da terra
:
de fechar o círculo
(ai quem me dera)

*

urtiga

líria porto

já faz tanto tempo
e é tão recente
pois que ainda arde
como água-viva

parece que o vão
que não se preenche
é a perda de algo
como a meninice

*

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

limbo

líria porto

saio do compasso não caibo na moldura
pairo no espaço – entre deus e o diabo
terríveis criaturas

*

flores de sibipiruna

líria porto

no alto das galhas bicos para o céu
a olharem as nuvens – só faltam
cantar

*

sobrevivente

líria porto

por amar a morte permaneço viva
todos a odeiam mas ela me respeita
e me olha à distância

*

carnívora

líria porto

dela não escapas
espécie de víbora
nela morres
             renasces

*

abandono

líria porto

há uma espécie de coma
em tudo que é esquecido
a morte ronda as gavetas
do nosso armário embutido

*

domingo, 14 de outubro de 2012

minas gerais

líria porto

ouro ferro diamantes
insuficientes para se comprar
o mar

*

inquietação

líria porto

o canto da porta a batuta do vento
agudos na ida graves na volta
como a voz dos meninos
na adolescência

*

alfinetadas

líria porto

pontadas na língua atiçam as palavras
afinam a saliva  impedem que o silêncio
sinta-se à vontade

*

feitio

líria porto

a poesia exige o corte o talhe a perícia
do exímio alfaiate

*

sábado, 13 de outubro de 2012

a chuva haicai

líria porto

maior temporal
um forte estalo ribomba
estoura-me os tímpanos

*

geometria

líria porto

eu tu ele – triângulo equilátero
se entrar mais alguém nós viramos quadrado
e a vida muda cega surda

*

desastrado

líria porto

eu tenho dois pés esquerdos
eu meto os pés pelas mãos
por onde passo perguntam
se eu sou um pé de vento
se sou eu um furacão

*

sem compromisso

líria porto

fosse para dar-lhe um osso
levá-la para um passeio
ria ficava alegre - mas não queria
a cadela

*

caminhoneiro

líria porto

fico aqui e fico lá
são muitos ninhos nenhum
que possa ser o meu lar

eu sempre estou pra chegar
atrás de mim vem poeira
à minha frente a estrada

eu não sou pai nem marido
mas tenho filho e mulher
isso é pior que o deserto

*

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

águas

líria porto

a chuva chegou e com ela
a alegria da terra e do verde

as sementes estarão dentro em breve
com vestes bem diferentes

*

embalagem

líria porto

corpos são caixas onde as almas se escondem
até alcançar a plenitude

*

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

pedregulho

líria porto

na outra beira da cama
naquela que não estás
eu vou deitar outro homem
e arrancar para sempre
qualquer lembrança de ti
qualquer detalhe capaz
de me fazer infeliz

*

trincas

líria porto

muita vez sumo de ti
pra saber se sentes falta

a cada vez que me vou
a chama fica mais fraca

não viverei para sempre
exposta à ponta da faca

*líria porto

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

raça ruim

líria porto

o capeta o puritano o diabo o satanás
nenhum deles é melhor que o outro
pode acreditar

*

com_paixão

líria porto

a dor que nos antecede
a dor de existir de ser
que nos faz olhar nos olhos
compreender outros seres
é a dor que nos faz melhores
que nos ensina – os pobres
somos todos nós
viventes

*

terça-feira, 9 de outubro de 2012

na sequência

líria porto

caí da cama quebrei o verso
caíste na lama sujaste a pétala
caímos e levantamos
:
música maestro

*

alívio

líria porto

passou anos na penumbra
a alimentar vampiros

sorte é que os malditos
enjoaram do seu sangue
e pediram trégua

(ela abriu a janela)

*

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

bígamo

líria porto

o pato tem duas asas dois pés
e duas patas
:
de pato o pato não tem nada
nada de braçada

*

tête-à-tête

líria porto

tão íntimos que à distância
um no céu um na terra
ainda se entendem

*

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

divórcio

líria porto

eu não sinto falta dele na minha cama
eu não sinto falta dele na minha chama
eu não sinto falta dele no minha brama
eu não sinto falta dele
:
eu fui me buscar – sinto falta é de mim

*

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

pernoite

líria porto

eu estou de cá da serra
meu amor ficou de lá

se eu subo deste lado
e ele faz esforço igual

na metade do caminho
haverá algum lugar

para dois corpos pousarem

*

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

clímax

líria porto

tu em estado de coma-me
eu em estado de bêbada

*