líria porto
lá vai o cargueiro
mar adentro
transporta ouro negro
(es)cravos pimenta
tesouros de áfrica
(sofrimento
chibata)
lavai
consciência
*
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
senti_nela
líria porto
meu pai (não) compareceu
ao septuagésimo terceiro aniversário
de minha mãe
à beira do corpo coberto com flores
entre filhos e velas
mamãe lamentava-se
: logo hoje meu velho
logo hoje?
(20 de novembro de 1995)
*
meu pai (não) compareceu
ao septuagésimo terceiro aniversário
de minha mãe
à beira do corpo coberto com flores
entre filhos e velas
mamãe lamentava-se
: logo hoje meu velho
logo hoje?
(20 de novembro de 1995)
*
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
arapuca
líria porto
um ponto duas laçadas
dois pontos três laçadas
três pontos quatro laçadas
assim se tece a carreira
(no cargo tudo são vagos
exceto contas-correntes)
um dia vem um pirralho
quer passar pelo atalho
cai mosquitinho na rede
*
um ponto duas laçadas
dois pontos três laçadas
três pontos quatro laçadas
assim se tece a carreira
(no cargo tudo são vagos
exceto contas-correntes)
um dia vem um pirralho
quer passar pelo atalho
cai mosquitinho na rede
*
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
limpo com jornal
liria porto
as vogais
as consoantes
brotam do papel
e proclamam
: depois da tempestade
ao invés de bonança
vem mais desgraça
*
as vogais
as consoantes
brotam do papel
e proclamam
: depois da tempestade
ao invés de bonança
vem mais desgraça
*
terça-feira, 17 de novembro de 2009
desassossego
líria porto
a palavra usa e abusa
do escritor
fá-lo seu cavalo seu cachorro
seu escravo e se necessário
dá-lhe com a chibata
até que ele se curve
e a obedeça
*
a palavra usa e abusa
do escritor
fá-lo seu cavalo seu cachorro
seu escravo e se necessário
dá-lhe com a chibata
até que ele se curve
e a obedeça
*
amar_ras
líria porto
(posseiro do seu corpo
controla sua boca seus olhos
finca-lhe estaca entre as pernas)
) de uma coisa ele não sabe
pensamentos pulam cerca (
*
(posseiro do seu corpo
controla sua boca seus olhos
finca-lhe estaca entre as pernas)
) de uma coisa ele não sabe
pensamentos pulam cerca (
*
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
granizo
líria porto
a chuva desce doida inconsequente
o vento - seu comparsa - faz estragos
um raio chicoteia o céu cinzento
parece que os deuses estão bravos
*
a chuva desce doida inconsequente
o vento - seu comparsa - faz estragos
um raio chicoteia o céu cinzento
parece que os deuses estão bravos
*
película
líria porto
fosse beijo técnico que fosse
e não houvesse o tal amasso pra valer
só de me encostar naquele moço
iria pelos ares - poeira cósmica
: estrela de cinema
ou de tevê
*
fosse beijo técnico que fosse
e não houvesse o tal amasso pra valer
só de me encostar naquele moço
iria pelos ares - poeira cósmica
: estrela de cinema
ou de tevê
*
domingo, 15 de novembro de 2009
armadilha
líria porto
outro dia
leva-se um susto
a morte se aproxima
e não se sabe ao certo
o momento
a hora da captura
*
outro dia
leva-se um susto
a morte se aproxima
e não se sabe ao certo
o momento
a hora da captura
*
sábado, 14 de novembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
à la alice ruiz
líria porto
apaixonada
apaixovoa
apaixoanda
apaixorrasteja
*
"apaixonada
apaixotudo
apaixoquase"
(alice ruiz)
*
apaixonada
apaixovoa
apaixoanda
apaixorrasteja
*
"apaixonada
apaixotudo
apaixoquase"
(alice ruiz)
*
noel
líria porto
pôs as barbas de molho
quando viu eram grisalhas
e não houve uma navalha
para raspar-lhe o tempo
*
pôs as barbas de molho
quando viu eram grisalhas
e não houve uma navalha
para raspar-lhe o tempo
*
) sofrer é soda (
líria porto
não tem medo de defunto
de assombração de escuro
porém foge da paixão
como o diabo da cruz
já provou desse veneno
não vai repetir a dose
*
não tem medo de defunto
de assombração de escuro
porém foge da paixão
como o diabo da cruz
já provou desse veneno
não vai repetir a dose
*
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
(des)casal
líria porto
acostumou-se a pôr a mesa para dois
e depois que ele se foi repete o ritual
: falar sozinha
*
acostumou-se a pôr a mesa para dois
e depois que ele se foi repete o ritual
: falar sozinha
*
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
montanhesa
líria porto
dissera-lhe a professora
tens olhos de folha seca
herança dos ancestrais
são castanho-esverdeados
ou verdes com algum barro
a parda cor dos pardais
*
dissera-lhe a professora
tens olhos de folha seca
herança dos ancestrais
são castanho-esverdeados
ou verdes com algum barro
a parda cor dos pardais
*
terça-feira, 10 de novembro de 2009
infelizes
líria porto
o que foi feito de amália
a bela de olhos lânguidos
e de tristeza entranhada
cujos passos a levaram
para a sombra de antônio
um homem de gestos rentes
e sorriso ácido?
o que foi feito de amélia
aquela mulher desverdade
que passava suas tardes
sem dizer uma palavra
e que durante o trabalho
deixava em tudo o rastro
da sua poeira amarga?
o que foi feito de emília
da sua pálida pele
quando foi abandonada
tão quieta tão sem ânimo
até que veio um pássaro
e levou-a para o céu
para a suíte dos santos?
o que foi feito de ordália
adélia odília odete
ana
o que foi feito de ângela?
*
o que foi feito de amália
a bela de olhos lânguidos
e de tristeza entranhada
cujos passos a levaram
para a sombra de antônio
um homem de gestos rentes
e sorriso ácido?
o que foi feito de amélia
aquela mulher desverdade
que passava suas tardes
sem dizer uma palavra
e que durante o trabalho
deixava em tudo o rastro
da sua poeira amarga?
o que foi feito de emília
da sua pálida pele
quando foi abandonada
tão quieta tão sem ânimo
até que veio um pássaro
e levou-a para o céu
para a suíte dos santos?
o que foi feito de ordália
adélia odília odete
ana
o que foi feito de ângela?
*
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
comunicado
líria porto
escrevo-te para te dizer
morri daqui a um mês
foi morte natural
misto de saudade e tédio
não houve remédio
em teu nome encomendei faixa
vela flor amarela
e lágrimas
dorme sossegado nada de missa
arranja outra namorada
mas presta atenção
tem muito corpo são
em mente insana
: tem muita canoa furada
*
escrevo-te para te dizer
morri daqui a um mês
foi morte natural
misto de saudade e tédio
não houve remédio
em teu nome encomendei faixa
vela flor amarela
e lágrimas
dorme sossegado nada de missa
arranja outra namorada
mas presta atenção
tem muito corpo são
em mente insana
: tem muita canoa furada
*
para compensar a força bruta
líria porto
atrás
homens e mulheres
são iguais
frente a frente
elas têm peito
eles - pendências
*
atrás
homens e mulheres
são iguais
frente a frente
elas têm peito
eles - pendências
*
domingo, 8 de novembro de 2009
desesperador
líria porto
nas ruas procuro teu rosto
nos rostos procuro teus traços
nos traços procuro teus gestos
nos gestos procuro teus atos
nos atos procuro teu amor
nos amores procuro por ti
e não te acho
*
nas ruas procuro teu rosto
nos rostos procuro teus traços
nos traços procuro teus gestos
nos gestos procuro teus atos
nos atos procuro teu amor
nos amores procuro por ti
e não te acho
*
príncipe (des)encantado
líria porto
o amor
aquele outro
é perfeito
o nosso amor ronca queixa-se
fala inconveniências emite sons e odores
agarra-se a mesquinharias é carente
mas no final das contas ele
tão somente ele
aguenta-nos
leva-nos a sentir (des)prazeres
por longo tempo
) amores-perfeitos também murcham (
*
o amor
aquele outro
é perfeito
o nosso amor ronca queixa-se
fala inconveniências emite sons e odores
agarra-se a mesquinharias é carente
mas no final das contas ele
tão somente ele
aguenta-nos
leva-nos a sentir (des)prazeres
por longo tempo
) amores-perfeitos também murcham (
*
sábado, 7 de novembro de 2009
brincos colares e acessórios
líria porto
o céu azul que beleza
com nuvens que maravilha
quebram a rotina dos mares
ondas ilhas e navios
nu deserto sem oásis
na floresta tem
orquídeas
*
o céu azul que beleza
com nuvens que maravilha
quebram a rotina dos mares
ondas ilhas e navios
nu deserto sem oásis
na floresta tem
orquídeas
*
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
mar revolto
líria porto
a cor indigo blue
dos olhos de maria luiza
veste-me o coração
despe-me o sorriso
*
a cor indigo blue
dos olhos de maria luiza
veste-me o coração
despe-me o sorriso
*
olhos de cais
líria porto
na rua jogo da bola
cento e dezenove
mora raquel
o orvalho ancora entre seus cílios
a lua diamantina
*
na rua jogo da bola
cento e dezenove
mora raquel
o orvalho ancora entre seus cílios
a lua diamantina
*
tem um sol no fim da rua
uma lua no começo
o preço é ficar na janela
da casa amar_ela
(dor de cotovelo)
*
líria porto
*
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
abraço
líria porto
o mundo fica leve tão pequeno
cabe na grandeza dos teus braços
no afago dos teus dedos
*
o mundo fica leve tão pequeno
cabe na grandeza dos teus braços
no afago dos teus dedos
*
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
descompasso
líria porto
a alma vai veloz em disparada
o corpo passo a passo não a alcança
felizes caminhávamos de mãos dadas
naqueles velhos tempos da infância
*
a alma vai veloz em disparada
o corpo passo a passo não a alcança
felizes caminhávamos de mãos dadas
naqueles velhos tempos da infância
*
terça-feira, 3 de novembro de 2009
e la nave va
líria porto
caminhei alguns calvários
tive tristeza alegria
desafios desenganos
porém nada permanente
quando a vida vira a página
quando amanhece de novo
o que deve ser será
vive-se
um olhar
um outro canto
o choro outras palavras
eu deixo a porta sem trava
se um amor quiser partir
outro por certo virá
é a vida seu compasso
a medida do possível
eu sorvo cada momento
eu bebo cada gotinha
eu choro rio padeço
repenso minhas fraquezas
aliso as marcas do tempo
deixo a vida dar os passos
voe ou rasteje
prossigo
sofres eu sofro junto
alegro-me quando te alegras
sou aquela caravela
que em plena calmaria
encontrou um novo rumo
se a bonança acabar
se voltarem o vento a chuva
um dia chega o estio
haverá amanhãs
*
caminhei alguns calvários
tive tristeza alegria
desafios desenganos
porém nada permanente
quando a vida vira a página
quando amanhece de novo
o que deve ser será
vive-se
um olhar
um outro canto
o choro outras palavras
eu deixo a porta sem trava
se um amor quiser partir
outro por certo virá
é a vida seu compasso
a medida do possível
eu sorvo cada momento
eu bebo cada gotinha
eu choro rio padeço
repenso minhas fraquezas
aliso as marcas do tempo
deixo a vida dar os passos
voe ou rasteje
prossigo
sofres eu sofro junto
alegro-me quando te alegras
sou aquela caravela
que em plena calmaria
encontrou um novo rumo
se a bonança acabar
se voltarem o vento a chuva
um dia chega o estio
haverá amanhãs
*
domingo, 1 de novembro de 2009
na zona da lua
líria porto
ipê tão pequeno
tão pleno de flor
dormiu ao relento
a noite beijou-o
beijou-o beijou-o
acordou respingado
de sereno
*
ipê tão pequeno
tão pleno de flor
dormiu ao relento
a noite beijou-o
beijou-o beijou-o
acordou respingado
de sereno
*
sábado, 31 de outubro de 2009
bijoux
líria porto
costuro meu canto
com outras medidas
sou eu das palavras
limadas antigas
pois tais como as pedras
se ficam pontudas
se têm muita aresta
eu digo não prestam
estão mal cosidas
as letras redondas
quais seixos no rio
são um desafio
um cordão de pérolas
meus dedos já gastos
às vezes coletam-nas
com as pontas das unhas
que tenho esmaltadas
na cor das petúnias
*
costuro meu canto
com outras medidas
sou eu das palavras
limadas antigas
pois tais como as pedras
se ficam pontudas
se têm muita aresta
eu digo não prestam
estão mal cosidas
as letras redondas
quais seixos no rio
são um desafio
um cordão de pérolas
meus dedos já gastos
às vezes coletam-nas
com as pontas das unhas
que tenho esmaltadas
na cor das petúnias
*
prazeres
líria porto
cidades de minas gerais
cheiros sabores aromas
queijos doces frutas flores
sodoma e gomorra
*
cidades de minas gerais
cheiros sabores aromas
queijos doces frutas flores
sodoma e gomorra
*
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
zelo
líria porto
sobe numa galha noutra
olha as ramas curioso
parece que o passarinho
quer um canto para o ninho
e todo cuidado é pouco
*
sobe numa galha noutra
olha as ramas curioso
parece que o passarinho
quer um canto para o ninho
e todo cuidado é pouco
*
freguês
líria porto
abre-lhe os colchetes
puxa-lhe os elásticos
depois se comporta
como se estivesse à mesa
: saboreia-lhe a carne
repete sua sobremesa
e satisfeito adormece
antes de ir embora
pede-lhe um café
deixa-lhe a gorjeta
*
abre-lhe os colchetes
puxa-lhe os elásticos
depois se comporta
como se estivesse à mesa
: saboreia-lhe a carne
repete sua sobremesa
e satisfeito adormece
antes de ir embora
pede-lhe um café
deixa-lhe a gorjeta
*
terça-feira, 27 de outubro de 2009
o fio da navalha
líria porto
eu não sei que mágoa é essa
eu não tenho olhos d'água
isso é coisa de mulher
homem que é homem não chora
não se queixa não se dobra
homem que é homem aguenta
(não posso mais suportar)
sou um dique uma represa
o meu amor foi embora
não devo dar um gemido
há um mar de sofrimento
estampado no meu riso
pobre de mim ai de mim
(sou o cinismo em pessoa)
eu não sei que dor é essa
escorrega pela cara
atravessa-me o peito
sou um cabra de respeito
sou um homem muito macho
não me agacho não me curvo
(deus do céu quero é morrer)
*
eu não sei que mágoa é essa
eu não tenho olhos d'água
isso é coisa de mulher
homem que é homem não chora
não se queixa não se dobra
homem que é homem aguenta
(não posso mais suportar)
sou um dique uma represa
o meu amor foi embora
não devo dar um gemido
há um mar de sofrimento
estampado no meu riso
pobre de mim ai de mim
(sou o cinismo em pessoa)
eu não sei que dor é essa
escorrega pela cara
atravessa-me o peito
sou um cabra de respeito
sou um homem muito macho
não me agacho não me curvo
(deus do céu quero é morrer)
*
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
rigidez
líria porto
algumas palavras secas
iguais bagaço de cana
tão somente são disfarce
de quem repete eu não amo
porém sofre chora sente
e tem todas as fraquezas
dessa tola raça humana
*
algumas palavras secas
iguais bagaço de cana
tão somente são disfarce
de quem repete eu não amo
porém sofre chora sente
e tem todas as fraquezas
dessa tola raça humana
*
domingo, 25 de outubro de 2009
(des)equilíbrios
líria porto
paredes frias
(corredores não têm alma
no entanto me seguiam
conduziam-me aos lugares)
deixei a casa
(ampliei os meus ex-passos
corro paro rodopio
com medo de dromedários)
tropeço em corcovas
*
paredes frias
(corredores não têm alma
no entanto me seguiam
conduziam-me aos lugares)
deixei a casa
(ampliei os meus ex-passos
corro paro rodopio
com medo de dromedários)
tropeço em corcovas
*
sábado, 24 de outubro de 2009
faminta
líria porto
eu disfarço tergiverso
finjo que ela nem existe
a tristeza me persegue
pede água pede alpiste
*
eu disfarço tergiverso
finjo que ela nem existe
a tristeza me persegue
pede água pede alpiste
*
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
almodóvar
líria porto
outubro outubra-a
e sempre de (as)salto
vestido encarnado
sapatos vermelhos
a rosa que dança
aberta no asfalto
tem cheiro de carne
tem jeito de chaga
o tango penetra-a
sangra-a impenitente
*
outubro outubra-a
e sempre de (as)salto
vestido encarnado
sapatos vermelhos
a rosa que dança
aberta no asfalto
tem cheiro de carne
tem jeito de chaga
o tango penetra-a
sangra-a impenitente
*
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
ancestral
líria porto
nas digitais
sinais atávicos
a aborígine
caçada no laço
mantém-se calada
seria feliz
solta no mato
*
nas digitais
sinais atávicos
a aborígine
caçada no laço
mantém-se calada
seria feliz
solta no mato
*
a reza do povo
líria porto
o pão nosso de cada dia
sovado por estes braços fatigados
não nos seja subtraído por ninguém
menos ainda por tecnocratas
manipuladores de dados
e de cifras
amém
*
o pão nosso de cada dia
sovado por estes braços fatigados
não nos seja subtraído por ninguém
menos ainda por tecnocratas
manipuladores de dados
e de cifras
amém
*
troviscos
líria porto
a vida segue a galope
em verdade o tempo venta
e nesse piscar de olhos
completei mais de sessenta
o meu espelho envelhece
depressa fica embaçado
daqui a pouco me esquece
veste pijama listrado
viver é tão de repente
a morte um denso mistério
em noites de lua plena
ninguém fique triste ou sério
quem quiser bailar comigo
tomar lugar nessa roda
coloque piercing no umbigo
ou cabelos cor-de-rosa
(sujei minhas mãos na terra
entendo os ranços da vida
exceto judiação
miséria fome e injustiça)
*
a vida segue a galope
em verdade o tempo venta
e nesse piscar de olhos
completei mais de sessenta
o meu espelho envelhece
depressa fica embaçado
daqui a pouco me esquece
veste pijama listrado
viver é tão de repente
a morte um denso mistério
em noites de lua plena
ninguém fique triste ou sério
quem quiser bailar comigo
tomar lugar nessa roda
coloque piercing no umbigo
ou cabelos cor-de-rosa
(sujei minhas mãos na terra
entendo os ranços da vida
exceto judiação
miséria fome e injustiça)
*
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
t. salomão
líria porto
eu tinha uma parceira
a turca
com ela eu tomava chuva
pisava nas enxurradas
voltávamos do colégio juntas
íamos ao cinema - ríamos
e chorávamos
tereza morreu e eu
sinto saudades de mim
*
eu tinha uma parceira
a turca
com ela eu tomava chuva
pisava nas enxurradas
voltávamos do colégio juntas
íamos ao cinema - ríamos
e chorávamos
tereza morreu e eu
sinto saudades de mim
*
brejo alegre - araguari
líria porto
o vento varria tudo
só ficava no lugar
quem tinha força raiz
aqueles que resistiam
às agruras do cerrado
ao ferrão dos pernilongos
à mortal monotonia
às vezes sinto saudade
retorno por alguns dias
depois volto para casa
coração a borbulhar
a transbordar boa água
agonias descampados
pessoas inesquecíveis
*
o vento varria tudo
só ficava no lugar
quem tinha força raiz
aqueles que resistiam
às agruras do cerrado
ao ferrão dos pernilongos
à mortal monotonia
às vezes sinto saudade
retorno por alguns dias
depois volto para casa
coração a borbulhar
a transbordar boa água
agonias descampados
pessoas inesquecíveis
*
des_maio
líria porto
desmalha-se
vive\morre um pouco
floco de neve pétala
rio solto no despenhadeiro
poeira
cinza de borralho
(passarinho rompe o ovo
abre o olho pela primeira vez)
*
desmalha-se
vive\morre um pouco
floco de neve pétala
rio solto no despenhadeiro
poeira
cinza de borralho
(passarinho rompe o ovo
abre o olho pela primeira vez)
*
terça-feira, 20 de outubro de 2009
sem telha
líria porto
o vento sopra o fogo sobe
ninguém segura maria
ela só volta amanhã
depois da missa
qual brasa coberta
de cisma
*
o vento sopra o fogo sobe
ninguém segura maria
ela só volta amanhã
depois da missa
qual brasa coberta
de cisma
*
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
ao vento
líria porto
é bom brincar de passarinho
abrir os braços a fingir que eles são asas
fechar os olhos e planar dentro do sonho
pensar num ninho ao regressar
à realidade
*
é bom brincar de passarinho
abrir os braços a fingir que eles são asas
fechar os olhos e planar dentro do sonho
pensar num ninho ao regressar
à realidade
*
no muro das lamentações
líria porto
chorei todos os rios
depois chorei os mares e oceanos
chorei todas as lágrimas das viúvas
todas as chuvas
molhei todos os lenços lençóis
e fronhas
chorei as pitangas
*
chorei todos os rios
depois chorei os mares e oceanos
chorei todas as lágrimas das viúvas
todas as chuvas
molhei todos os lenços lençóis
e fronhas
chorei as pitangas
*
domingo, 18 de outubro de 2009
longe
líria porto
quanto mais batia a clara
quanto mais batia a gema
quanto mais crescia o ovo
tanto mais eu me lembrava
de como gostas de bolo
coloquei manteiga açúcar
misturava com a colher
eu ficava com vontade
deu saudade de te ver
de voar onde estivesses
o fermento a farinha
o leite o sentimento
a essência do teu jeito
o gosto bom do teu beijo
eu te queria por perto
esqueci de um detalhe
olha só que distração
ao invés de assar o bolo
congelei foi a saudade
a lágrima a distância
o choro
*
quanto mais batia a clara
quanto mais batia a gema
quanto mais crescia o ovo
tanto mais eu me lembrava
de como gostas de bolo
coloquei manteiga açúcar
misturava com a colher
eu ficava com vontade
deu saudade de te ver
de voar onde estivesses
o fermento a farinha
o leite o sentimento
a essência do teu jeito
o gosto bom do teu beijo
eu te queria por perto
esqueci de um detalhe
olha só que distração
ao invés de assar o bolo
congelei foi a saudade
a lágrima a distância
o choro
*
aqui jaz
líria porto
um dia o moreno vai voltar
e quando regressar será mui tarde
lerá em minha lápide o epitáfio
bebeu taça de ausência e de saudade
*
um dia o moreno vai voltar
e quando regressar será mui tarde
lerá em minha lápide o epitáfio
bebeu taça de ausência e de saudade
*
clandestino
líria porto
aí vou eu onde vives
andar pela tua rua
ver a lua que tu vês
o teu mar a tua praia
conhecer cada nervura
entranhada no endereço
depois volto para casa
e de ti que me esqueceste
saberei cada detalhe
cada pedaço fatia
que por desamor um dia
tu teimaste em me esconder
*
aí vou eu onde vives
andar pela tua rua
ver a lua que tu vês
o teu mar a tua praia
conhecer cada nervura
entranhada no endereço
depois volto para casa
e de ti que me esqueceste
saberei cada detalhe
cada pedaço fatia
que por desamor um dia
tu teimaste em me esconder
*
sábado, 17 de outubro de 2009
pomo-de-adão
líria porto
a folha de parreira
as vergonhas de eva
pecado é comer maçã
com gosto de isopor
*
a folha de parreira
as vergonhas de eva
pecado é comer maçã
com gosto de isopor
*
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
ascensão
líria porto
as alegrias postiças
jamais se sentira gente
foi só dor e sujeição
e o filho do patrão
pôs-lhe filho na barriga
(o menino não vingou)
ela nasceu no sertão
naquela sede de tudo
coração esfarinhado
o chão era pai e mãe
a terra seca sem viço
a sua cama o colchão
seu corpo virou moeda
moído na mão de todos
fosse qual fosse o macho
os direitos sobre ela
trocava-a por qualquer troco
partia sem despedir-se
nessa sorte sem fortuna
seu corpo se definhou
virou pele sobre ossos
nem freguês e nem comida
desgostou-se de tal fado
foi ser feliz lá em cima
marialva agora brilha
o seu espelho é a lua
o travesseiro uma nuvem
ficou linda como nunca
a estrela mais bonita
das que enfeitam a noite
*
as alegrias postiças
jamais se sentira gente
foi só dor e sujeição
e o filho do patrão
pôs-lhe filho na barriga
(o menino não vingou)
ela nasceu no sertão
naquela sede de tudo
coração esfarinhado
o chão era pai e mãe
a terra seca sem viço
a sua cama o colchão
seu corpo virou moeda
moído na mão de todos
fosse qual fosse o macho
os direitos sobre ela
trocava-a por qualquer troco
partia sem despedir-se
nessa sorte sem fortuna
seu corpo se definhou
virou pele sobre ossos
nem freguês e nem comida
desgostou-se de tal fado
foi ser feliz lá em cima
marialva agora brilha
o seu espelho é a lua
o travesseiro uma nuvem
ficou linda como nunca
a estrela mais bonita
das que enfeitam a noite
*
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
propriedade
líria porto
na casa onde moro
sou peixe dentro do aquário
nado peito borboleta
mergulho flutuo divirto-me
afundo choro trabalho
nada aqui é proibido
eu sonho e tenho o mar
o atlântico o pacífico
um lago imenso tranquilo
um rio de águas claras
uma bacia uma bica
tanto faz
a casa é minha
*
na casa onde moro
sou peixe dentro do aquário
nado peito borboleta
mergulho flutuo divirto-me
afundo choro trabalho
nada aqui é proibido
eu sonho e tenho o mar
o atlântico o pacífico
um lago imenso tranquilo
um rio de águas claras
uma bacia uma bica
tanto faz
a casa é minha
*
estrelado
líria porto
numa panela de pedra
manteiga alho cebola
deixar dourar só um pouco
pôr a medida de arroz
o dobro d'água fervente
temperar com sal a gosto
quando secar - que delícia
comer purinho com ovo
*
numa panela de pedra
manteiga alho cebola
deixar dourar só um pouco
pôr a medida de arroz
o dobro d'água fervente
temperar com sal a gosto
quando secar - que delícia
comer purinho com ovo
*
fogaréu
líria porto
há um verso intermitente
está sempre à tocaia
no espelho vejo-o avesso
nuvem negra me atrapalha
sem espada sem nobreza
submeto-me à cangalha
ele empurra o travesseiro
abro os olhos mui calada
ele deita no meu peito
quer rasgar minha mortalha
eu tão pálida tão sem jeito
ele usa algum atalho
e entalha no meu ventre
sê poeta não te entraves
nem te escondas do vermelho
o crepúsculo ficou grávido
*
há um verso intermitente
está sempre à tocaia
no espelho vejo-o avesso
nuvem negra me atrapalha
sem espada sem nobreza
submeto-me à cangalha
ele empurra o travesseiro
abro os olhos mui calada
ele deita no meu peito
quer rasgar minha mortalha
eu tão pálida tão sem jeito
ele usa algum atalho
e entalha no meu ventre
sê poeta não te entraves
nem te escondas do vermelho
o crepúsculo ficou grávido
*
eu nunca vou te esquecer
líria porto
quando eu me for daqui
para um lá que não conheço
um lugar a sete palmos
onde os vermes têm fome
for largada numa vala
a minha carne sem dono
quando eu me for daqui
a vagar pelos escuros
e ficarem meus afetos
meus apegos meus amores
estes versos sem destino
serão a ponte
*
quando eu me for daqui
para um lá que não conheço
um lugar a sete palmos
onde os vermes têm fome
for largada numa vala
a minha carne sem dono
quando eu me for daqui
a vagar pelos escuros
e ficarem meus afetos
meus apegos meus amores
estes versos sem destino
serão a ponte
*
terça-feira, 13 de outubro de 2009
cabuloso
líria porto
talvez seja esteja sempre tenha sido ou se torne
daquelas pessoas a ouvirem pedras antes de atirá-las
pense rimas estridentes a implorarem esmola
numa sacola de plástico em sinais de trânsito
debaixo de chuva de granizo e fale fale fale ou não diga nada
feche-se em silêncios dê quatro ou sete estalos estéreis
histéricos agressivos adjetivados
fique mudo ou gago
ninguém o compreende
sente dor nevrálgica e não dor de dentes
*
talvez seja esteja sempre tenha sido ou se torne
daquelas pessoas a ouvirem pedras antes de atirá-las
pense rimas estridentes a implorarem esmola
numa sacola de plástico em sinais de trânsito
debaixo de chuva de granizo e fale fale fale ou não diga nada
feche-se em silêncios dê quatro ou sete estalos estéreis
histéricos agressivos adjetivados
fique mudo ou gago
ninguém o compreende
sente dor nevrálgica e não dor de dentes
*
das mãos de cora
líria porto
versos de milho
agora nos alimentam
nós
poetas sem rima
exilados da terra
vidas de cimento
*
versos de milho
agora nos alimentam
nós
poetas sem rima
exilados da terra
vidas de cimento
*
quando vieres meu bem
líria porto
insiste na campainha
o tempo esse moleque
pôs tampão em meus ouvidos
não meças minha emoção
pelo tamanho dos versos
quando sinto - sinto muito
as palavras secam-me
*
insiste na campainha
o tempo esse moleque
pôs tampão em meus ouvidos
não meças minha emoção
pelo tamanho dos versos
quando sinto - sinto muito
as palavras secam-me
*
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
descartáveis
líria porto
dentre as tralhas muitas lembranças
nenhuma que me sirva de mortalha
nem que se assemelhe à esperança
*
dentre as tralhas muitas lembranças
nenhuma que me sirva de mortalha
nem que se assemelhe à esperança
*
insosso
líria porto
segunda-feira
um dia de segunda
embora feriado
sem gosto de sábado
sem cheiro de domingo
um dia sorumbático
*
segunda-feira
um dia de segunda
embora feriado
sem gosto de sábado
sem cheiro de domingo
um dia sorumbático
*
casanova
líria porto
um sofá para jandira
de couro macio
cheiro de cio
um querer bem
um sofá de canto
para o acalanto
o chamego
o quebranto
(a cor não importa
o outro era branco)
um sofá para jandira
descansar da vida
relembrar amores
esquecer desditas
(ser feliz)
um sofá para jandira
sentar-se aos domingos
cochilar e sonhar
com morangos
um sofá de nuvem
algodão ou pluma
um sofá de balanço
um colo
(de braços fortes)
*
um sofá para jandira
de couro macio
cheiro de cio
um querer bem
um sofá de canto
para o acalanto
o chamego
o quebranto
(a cor não importa
o outro era branco)
um sofá para jandira
descansar da vida
relembrar amores
esquecer desditas
(ser feliz)
um sofá para jandira
sentar-se aos domingos
cochilar e sonhar
com morangos
um sofá de nuvem
algodão ou pluma
um sofá de balanço
um colo
(de braços fortes)
*
arrimo
líria porto
fico a esperar prazenteiro
maria vem todo dia
traseiro fenomenal
meu fundo de garantia
essa mulher maravilha
me leva em sua canoa
recarrega minhas pilhas
faz-me a vida muito boa
navego nas suas ondas
no céu da boca o delírio
minha alegria se alonga
maria é o ar que respiro
sou marinheiro de sorte
maria é minha guarita
se me alcança a morte
maria me ressuscita
*
fico a esperar prazenteiro
maria vem todo dia
traseiro fenomenal
meu fundo de garantia
essa mulher maravilha
me leva em sua canoa
recarrega minhas pilhas
faz-me a vida muito boa
navego nas suas ondas
no céu da boca o delírio
minha alegria se alonga
maria é o ar que respiro
sou marinheiro de sorte
maria é minha guarita
se me alcança a morte
maria me ressuscita
*
domingo, 11 de outubro de 2009
batente
líria porto
sente-lhe o cheiro
abraça-o por trás
encaixe perfeito
beija-lhe as costas
alisa-lhe o mamilo
os pelos do peito
o relógio grita
ele fala afobado
aquieta-te mulher
é segunda-feira
*
sente-lhe o cheiro
abraça-o por trás
encaixe perfeito
beija-lhe as costas
alisa-lhe o mamilo
os pelos do peito
o relógio grita
ele fala afobado
aquieta-te mulher
é segunda-feira
*
sábado, 10 de outubro de 2009
solteirona
líria porto
rezava pedia implorava
ia à missa todo dia
às novenas
prometia batia o pé
santo antonio fazia-se de surdo
*
rezava pedia implorava
ia à missa todo dia
às novenas
prometia batia o pé
santo antonio fazia-se de surdo
*
das cicatrizes seculares
líria porto
um dia pequeno partiste eu fiquei
restou-se-me a culpa estrago sem jeito
saí pelas ruas de olhos sem ver
prendessem-me matassem-me
arrancassem-me os seios
chorei como a chuva do mês de dezembro
virei enxurrada poça d'água represa
secou-se-me o leite a vida ruiu
uma cunha partiu minha alma o espelho
morri reencarnei e ainda padeço
são mil estilhaços com teus olhos dentro
*
um dia pequeno partiste eu fiquei
restou-se-me a culpa estrago sem jeito
saí pelas ruas de olhos sem ver
prendessem-me matassem-me
arrancassem-me os seios
chorei como a chuva do mês de dezembro
virei enxurrada poça d'água represa
secou-se-me o leite a vida ruiu
uma cunha partiu minha alma o espelho
morri reencarnei e ainda padeço
são mil estilhaços com teus olhos dentro
*
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
misericórdia
líria porto
nascera em ano bissexto
e sempre tão distraído
era traído e traía
a si mesmo
aparecera defunto
um tiro dentro do ouvido
uma coroa de flores
e os seguintes dizeres
: a quem mais amo/odeio
todo meu (res)sentimento
*
nascera em ano bissexto
e sempre tão distraído
era traído e traía
a si mesmo
aparecera defunto
um tiro dentro do ouvido
uma coroa de flores
e os seguintes dizeres
: a quem mais amo/odeio
todo meu (res)sentimento
*
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
o fio da meada é cor de prata
líria porto
o tempo passarava e o canto do galo
rasgava como um dardo
as madrugadas
amanhã era hoje num instante
embora nos olhássemos e jamais
fôssemos grandes
a vida pássara deixa-nos atrás
traz-nos cabelos brancos
o galo canta
não sei se agora ou ontem
*
o tempo passarava e o canto do galo
rasgava como um dardo
as madrugadas
amanhã era hoje num instante
embora nos olhássemos e jamais
fôssemos grandes
a vida pássara deixa-nos atrás
traz-nos cabelos brancos
o galo canta
não sei se agora ou ontem
*
o seminarista
líria porto
afunda no decote
margeia os mamilos
escorre pelas bordas
desvia pros quadris
desce até as coxas
retorna ao umbigo
enquanto a prima dorme
cheirosa igual canela
biquini cor-de-rosa
virgem por triz
*
afunda no decote
margeia os mamilos
escorre pelas bordas
desvia pros quadris
desce até as coxas
retorna ao umbigo
enquanto a prima dorme
cheirosa igual canela
biquini cor-de-rosa
virgem por triz
*
socorro
líria porto
os azuis surtam
ficam quase roxos
caem e desmaiam
como hematomas
chamo a enfermeira
vem roberta silva
faz-lhes boca-a-boca
eles se aproveitam
: beijo de língua
*
os azuis surtam
ficam quase roxos
caem e desmaiam
como hematomas
chamo a enfermeira
vem roberta silva
faz-lhes boca-a-boca
eles se aproveitam
: beijo de língua
*
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
o rato que rói
líria porto
nos arredores de belo horizonte
a fé não remove as montanhas
fá-lo a mbr
minerações brasileiras reunidas s/a
*
nos arredores de belo horizonte
a fé não remove as montanhas
fá-lo a mbr
minerações brasileiras reunidas s/a
*
gerais
líria porto
colinas desdobram-se
horizontes após horizontes
e lá onde pensamos que termina
ainda há minas
incontáveis
*
colinas desdobram-se
horizontes após horizontes
e lá onde pensamos que termina
ainda há minas
incontáveis
*
terça-feira, 6 de outubro de 2009
passe-livre
líria porto
quando a foice do destino
ceifar de mim as estrelas
vai me encontrar precavida
não sou de arrastar sandálias
já vivi suficiente
das cangalhas me livrei
aprendi a bater asas
a circular sem fronteiras
marquei encontro com lúcifer
na caldeirinha do meio
*
quando a foice do destino
ceifar de mim as estrelas
vai me encontrar precavida
não sou de arrastar sandálias
já vivi suficiente
das cangalhas me livrei
aprendi a bater asas
a circular sem fronteiras
marquei encontro com lúcifer
na caldeirinha do meio
*
invisibilidade
líria porto
esta dor que quando olhas
não compreendes por quê
não é de fratura exposta
é de amor sem resposta
a solidão ninguém vê
*
esta dor que quando olhas
não compreendes por quê
não é de fratura exposta
é de amor sem resposta
a solidão ninguém vê
*
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
infâmia
líria porto
o rio nasce espontâneo
brota do ventre da terra
rasga seu leito estreito
escorre por entre as pedras
ganha corpo correnteza
leva cardumes inteiros
atravessa as florestas
as campinas as veredas
o rio recolhe às margens
o canto das lavadeiras
a alegria dos pássaros
o corpo d’algum menino
anzóis canoas as redes
o riso das cachoeiras
sua vida peregrina
até se jogar no mar
quando cumpre seu destino
há homens pensam-se deuses
violam as águas do rio
roubam-lhe as riquezas
desviam-no da sua trilha
transformam-no em mijo seco
*
o rio nasce espontâneo
brota do ventre da terra
rasga seu leito estreito
escorre por entre as pedras
ganha corpo correnteza
leva cardumes inteiros
atravessa as florestas
as campinas as veredas
o rio recolhe às margens
o canto das lavadeiras
a alegria dos pássaros
o corpo d’algum menino
anzóis canoas as redes
o riso das cachoeiras
sua vida peregrina
até se jogar no mar
quando cumpre seu destino
há homens pensam-se deuses
violam as águas do rio
roubam-lhe as riquezas
desviam-no da sua trilha
transformam-no em mijo seco
*
o menino
líria porto
tinha três anos não mais
fez um buraco n’areia
e num balde pequenino
buscava água do mar
(trabalhou horas a fio)
quando viu a maré cheia
deu um sorriso e gritou
mamãe mamãe corre aqui
trazi o mar para a praia
*
tinha três anos não mais
fez um buraco n’areia
e num balde pequenino
buscava água do mar
(trabalhou horas a fio)
quando viu a maré cheia
deu um sorriso e gritou
mamãe mamãe corre aqui
trazi o mar para a praia
*
a todo vapor
líria porto
passageiros como as nuvens
deixem-nos chover
trovejar mudar de forma
derreter ante o azul
evaporar
viver é névoa
*
passageiros como as nuvens
deixem-nos chover
trovejar mudar de forma
derreter ante o azul
evaporar
viver é névoa
*
quando o amor se esfuma
líria porto
de tanto tecer possibilidades
tive l.e.r. (lesões por esforços repetitivos)
e quase fiquei triste
ainda não desisti
embora a dor persista
*
de tanto tecer possibilidades
tive l.e.r. (lesões por esforços repetitivos)
e quase fiquei triste
ainda não desisti
embora a dor persista
*
domingo, 4 de outubro de 2009
arte
líria porto
existe um ipê amarelo
floresce na minha serra
antes da chuva ele explode
nada vi assim tão belo
acho que o menino deus
esteve a brincar com ovo
sujou os dedos de gema
e limpou a mão nas flores
*
existe um ipê amarelo
floresce na minha serra
antes da chuva ele explode
nada vi assim tão belo
acho que o menino deus
esteve a brincar com ovo
sujou os dedos de gema
e limpou a mão nas flores
*
(in)experiência
líria porto
eu plantei uma roseira
quando ela floresceu
sangrou-me os dedos
eu então fiquei cabreira
ou rosas são perigosas
ou não sei lidar com elas
*
eu plantei uma roseira
quando ela floresceu
sangrou-me os dedos
eu então fiquei cabreira
ou rosas são perigosas
ou não sei lidar com elas
*
sábado, 3 de outubro de 2009
meia volta
líria porto
nuvem escura vento forte
a carroça do leiteiro com capota
maricota - bota a saia na cabeça
lá vem chuva
*
nuvem escura vento forte
a carroça do leiteiro com capota
maricota - bota a saia na cabeça
lá vem chuva
*
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
torre de babel
líria porto
letras embaralhadas
perfilam-se ante meus olhos
não entendo patavina
poliglotas trogloditas
cientistas eruditos
deu nó na ponta
da língua
*
letras embaralhadas
perfilam-se ante meus olhos
não entendo patavina
poliglotas trogloditas
cientistas eruditos
deu nó na ponta
da língua
*
lucubração
líria porto
viver é capricho
ou é nada disso
quem pode saber
se as pedras não dizem
os lagos cochilam
os rios se esvaem
os montes se calam
e os homens não prestam
atenção
*
viver é capricho
ou é nada disso
quem pode saber
se as pedras não dizem
os lagos cochilam
os rios se esvaem
os montes se calam
e os homens não prestam
atenção
*
evidente
líria porto
falar de amor a quem amamos é tão óbvio
que nos descuidamos
esquecemo-nos de perfumar os dias óbvios
oferecer as flores óbvias dizer o óbvio eu te amo
e fica tudo assim tão óbvio que amar
parece desamor
*
falar de amor a quem amamos é tão óbvio
que nos descuidamos
esquecemo-nos de perfumar os dias óbvios
oferecer as flores óbvias dizer o óbvio eu te amo
e fica tudo assim tão óbvio que amar
parece desamor
*
rem
líria porto
o corpo quieto estirado na cama
a alma vagueia por mundos e sonhos
e vai à espanha toureia o toureiro
e vai onde estejas te beija te beija
igual passarinho por ninhos e longes
conhece outros mares navios lugares
piratas corsários reinados rebanhos
a alma é livre o corpo é escravo
e peca e cansa padece envelhece
enquanto a alma prossegue encantada
*
o corpo quieto estirado na cama
a alma vagueia por mundos e sonhos
e vai à espanha toureia o toureiro
e vai onde estejas te beija te beija
igual passarinho por ninhos e longes
conhece outros mares navios lugares
piratas corsários reinados rebanhos
a alma é livre o corpo é escravo
e peca e cansa padece envelhece
enquanto a alma prossegue encantada
*
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
mistura fina
líria porto
minha mão branca em tua cara preta
tua mão preta em minha cara branca
desancam quaisquer preconceitos
meu peito encaixado no teu
teu corpo por cima do meu
as pernas embaralhadas
café com leite
*
minha mão branca em tua cara preta
tua mão preta em minha cara branca
desancam quaisquer preconceitos
meu peito encaixado no teu
teu corpo por cima do meu
as pernas embaralhadas
café com leite
*
bandoleiras
líria porto
maritacas maritacam
voam em bando
bicam verdes amarelos
e no meio da algazarra
roubam caquinhos do céu
para enfeitar as asas
*
maritacas maritacam
voam em bando
bicam verdes amarelos
e no meio da algazarra
roubam caquinhos do céu
para enfeitar as asas
*
rebordosa
líria porto
levei do teu copo
a sede que tinhas
sem água boca amarga
investigo - fui justo comigo?
*
levei do teu copo
a sede que tinhas
sem água boca amarga
investigo - fui justo comigo?
*
rabo de fogão
líria porto
visão embaçada
ora pelas lágrimas
ora pela fumaça
ora pelas lentes sujas
oração contrária
*
visão embaçada
ora pelas lágrimas
ora pela fumaça
ora pelas lentes sujas
oração contrária
*
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
passageiro
líria porto
à frente a estrada atrás a estrada
no centro - eu - parado
dentro do carro em movimento
*
à frente a estrada atrás a estrada
no centro - eu - parado
dentro do carro em movimento
*
terça-feira, 29 de setembro de 2009
coerência
líria porto
foram todos por lá
é preciso saber
estar só(brio)
aqueço minha sopa
caminho com a sombra
planto sementes
(o silêncio é pudoroso)
*
foram todos por lá
é preciso saber
estar só(brio)
aqueço minha sopa
caminho com a sombra
planto sementes
(o silêncio é pudoroso)
*
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
calendário
líria porto
segunda é dia de sono e trabalh
terça é dia de trabalho
quarta é dia de trabalho e jogo
quinta é dia de trabalho e coisas
sexta é dia de atrapalho e noite
sábado é dia de mercado e boldo
domingo é dia
*
segunda é dia de sono e trabalh
terça é dia de trabalho
quarta é dia de trabalho e jogo
quinta é dia de trabalho e coisas
sexta é dia de atrapalho e noite
sábado é dia de mercado e boldo
domingo é dia
*
domingo, 27 de setembro de 2009
galardão
líria porto
o poleiro despencou
pulei para o andar de cima
estou nas nuvens
perto da lua
estrela na testa
bico aberto
*
o poleiro despencou
pulei para o andar de cima
estou nas nuvens
perto da lua
estrela na testa
bico aberto
*
teia
líria porto
eu me atrevo e uma aranha
espia o que escrevo
: ela mata mosquito no silêncio
eu mato no grito
*
eu me atrevo e uma aranha
espia o que escrevo
: ela mata mosquito no silêncio
eu mato no grito
*
sábado, 26 de setembro de 2009
(ao fantasma da biblioteca)
líria porto
uma folha uma página uma pétala
minh'alma na terceira prateleira
vez por outra
leia-a
*
uma folha uma página uma pétala
minh'alma na terceira prateleira
vez por outra
leia-a
*
de vão em vão
líria porto
tu e eu - corpos colados
um parque de diversão
montanha russa teus braços
o coração bate bate
se eu morrer desse enfarte
terá sido a salvação
*
tu e eu - corpos colados
um parque de diversão
montanha russa teus braços
o coração bate bate
se eu morrer desse enfarte
terá sido a salvação
*
ateu sofrimento
líria porto
dói-me a tua dor
e nada posso
a não ser
ficar do teu lado
segurar as tuas mãos
rezar rezar e rezar
sem crer
no onipotente
*
dói-me a tua dor
e nada posso
a não ser
ficar do teu lado
segurar as tuas mãos
rezar rezar e rezar
sem crer
no onipotente
*
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
prazo
líria porto
preciso de um tempo
é quase o final do jogo
o show está pelo fim
eu já te posso esquecer
só preciso de um tempo
não me peças além disso
pode ser que eu não consiga
não demora quase nada
apenas um pouco mais
que o resto da minha vida
*
preciso de um tempo
é quase o final do jogo
o show está pelo fim
eu já te posso esquecer
só preciso de um tempo
não me peças além disso
pode ser que eu não consiga
não demora quase nada
apenas um pouco mais
que o resto da minha vida
*
rupestres
líria porto
entre a história dos dois
a montanha a separá-los
de um lado a pouca força
do outro palavras parcas
e as rochas tão caladas
de cá vivia uma louca
de lá morava um poeta
o homem sangrava versos
as unhas dela rasgavam
feriam a pele da pedra
e a fina chuva regava
os gestos do amor eterno
*
entre a história dos dois
a montanha a separá-los
de um lado a pouca força
do outro palavras parcas
e as rochas tão caladas
de cá vivia uma louca
de lá morava um poeta
o homem sangrava versos
as unhas dela rasgavam
feriam a pele da pedra
e a fina chuva regava
os gestos do amor eterno
*
rimas caninas
líria porto
corações perdigueiros
farejam e caçam
amores verdadeiros
o meu vira-lata
também vai à cata
*
corações perdigueiros
farejam e caçam
amores verdadeiros
o meu vira-lata
também vai à cata
*
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
negociação
líria porto
nem sempre foi assim
eu não tinha areia nos olhos
nem neblina
o rouge o batom borrados
não são culpa minha
nunca fui desleixada
está bem
pagas só quinze
*
nem sempre foi assim
eu não tinha areia nos olhos
nem neblina
o rouge o batom borrados
não são culpa minha
nunca fui desleixada
está bem
pagas só quinze
*
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
gris
líria porto
verde não te quero verde
quero-te bem maduro
no ponto certo do apuro
dos teus cabelos cinzentos
das tuas marcas e rugas
que o tempo faz quando cura
as desilusões
*
verde não te quero verde
quero-te bem maduro
no ponto certo do apuro
dos teus cabelos cinzentos
das tuas marcas e rugas
que o tempo faz quando cura
as desilusões
*
pretinho básico
líria porto
marieta tinha medo de defunto
mas não perdia um velório
enviuvara cedo
e de certa forma
gostava da cerimônia
*
marieta tinha medo de defunto
mas não perdia um velório
enviuvara cedo
e de certa forma
gostava da cerimônia
*
primavera de praga
líria porto
ser lida
esse lado é o lodo
da notícia
grotesco é gravar
agressões e grosserias
meu cavalo é puro sangue
*
ser lida
esse lado é o lodo
da notícia
grotesco é gravar
agressões e grosserias
meu cavalo é puro sangue
*
fiel
líria porto
ela se dedica a ele
ele se dedica a ela
nessa tabela
não cabe cadela
nem cachorro
captou bentinho?
*
ela se dedica a ele
ele se dedica a ela
nessa tabela
não cabe cadela
nem cachorro
captou bentinho?
*
terça-feira, 22 de setembro de 2009
ao hospício
líria porto
ela é louca louca louca
não coordena mais nada
ainda escreve com pena
arranca as penas da asa
só bebe água da chuva
e em seus olhos de louca
correm soltas enxurradas
nas noites de lua cheia
pendura-se aos parapeitos
estufa o peito e voa
só falta um dia essa louca
jogar-se com suas penas
não restar nenhuma asa
nenhuma louca
que pena
*
ela é louca louca louca
não coordena mais nada
ainda escreve com pena
arranca as penas da asa
só bebe água da chuva
e em seus olhos de louca
correm soltas enxurradas
nas noites de lua cheia
pendura-se aos parapeitos
estufa o peito e voa
só falta um dia essa louca
jogar-se com suas penas
não restar nenhuma asa
nenhuma louca
que pena
*
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
pé-de-vento
líria porto
vassourinha piaçava
varre as folhas para o canto
vem o vento esse atrapalho
sopra as folhas esparrama-as
senhorinha fica brava
sobe logo nas tamancas
trabalheira redobrada
dor nos quartos dor nas ancas
esse verso não tem trava
qual risada de criança
quem quiser brincar de roda
pode vir - viva a infância
*
vassourinha piaçava
varre as folhas para o canto
vem o vento esse atrapalho
sopra as folhas esparrama-as
senhorinha fica brava
sobe logo nas tamancas
trabalheira redobrada
dor nos quartos dor nas ancas
esse verso não tem trava
qual risada de criança
quem quiser brincar de roda
pode vir - viva a infância
*
abstinência
líria porto
o mar não pára
vai e vem irrequieto
chega à praia passo à frente
depois acho se arrepende
arreda o pé
a serra por sua vez
permanece embasbacada
a olhar o mar de longe
com desejos de tocá-lo
o corpo não lhe obedece
*
o mar não pára
vai e vem irrequieto
chega à praia passo à frente
depois acho se arrepende
arreda o pé
a serra por sua vez
permanece embasbacada
a olhar o mar de longe
com desejos de tocá-lo
o corpo não lhe obedece
*
velho
líria porto
acelera os passos
tropeça em si mesmo
igual passarinho
de asas quebradas
(ao apear do corpo
vai ser pensamento)
*
acelera os passos
tropeça em si mesmo
igual passarinho
de asas quebradas
(ao apear do corpo
vai ser pensamento)
*
domingo, 20 de setembro de 2009
concórdia
líria porto
durou dez anos
perfeitos harmônicos
redondos como bolha
ele não se despediu
ela embarcou no trem
ele se casou com outro
ela se juntou a alguém
e foram felizes
felizes
) nunca discutiram
a relação (
*
durou dez anos
perfeitos harmônicos
redondos como bolha
ele não se despediu
ela embarcou no trem
ele se casou com outro
ela se juntou a alguém
e foram felizes
felizes
) nunca discutiram
a relação (
*
asas
líria porto
passaroco pequenino
na galhada da mangueira
faz a festa de domingo
limpa a pena passa o bico
canta um canto tão bonito
que o poeta vê seu verso
perder o sentido
*
passaroco pequenino
na galhada da mangueira
faz a festa de domingo
limpa a pena passa o bico
canta um canto tão bonito
que o poeta vê seu verso
perder o sentido
*
sábado, 19 de setembro de 2009
carimbado
líria porto
o meu amor adotivo
aquele que apareceu
entrou como quem não quer
ficou como quem não é
legitimou-se sem sê-lo
*
o meu amor adotivo
aquele que apareceu
entrou como quem não quer
ficou como quem não é
legitimou-se sem sê-lo
*
cruz
líria porto
hímen complacente
virgem para sempre
por mais homens
que viessem
não chora não ri
não pergunta nem responde
passa horas e mais horas
a olhar o teto
*
hímen complacente
virgem para sempre
por mais homens
que viessem
não chora não ri
não pergunta nem responde
passa horas e mais horas
a olhar o teto
*
eutanásia
líria porto
ao apagar das luzes cerrem-me os olhos
levem-me à tumba para sossegar
não me deixem o corpo a pairar insólito
como a folha seca que ao vento jaz
*
ao apagar das luzes cerrem-me os olhos
levem-me à tumba para sossegar
não me deixem o corpo a pairar insólito
como a folha seca que ao vento jaz
*
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
mundana
líria porto
de nada adianta
correr atrás dela
quando ela me quer
ela me procura
diz-me sem frescura
sou somente tua
podes me (ab)usar
eu por um momento
quase acredito
durmo sossegada
ela me abandona
fica transparente
vai pra não sei onde
faz não sei o quê
viste a poesia?
*
de nada adianta
correr atrás dela
quando ela me quer
ela me procura
diz-me sem frescura
sou somente tua
podes me (ab)usar
eu por um momento
quase acredito
durmo sossegada
ela me abandona
fica transparente
vai pra não sei onde
faz não sei o quê
viste a poesia?
*
escalada
líria porto
tão grande o cansaço
e nem se chegou
à escadaria
um degrau e outro
e mais outro e outros
pra alcançar-se o topo
o céu impossível
*
tão grande o cansaço
e nem se chegou
à escadaria
um degrau e outro
e mais outro e outros
pra alcançar-se o topo
o céu impossível
*
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
nas conchas
líria porto
como moisés
parti o mar ao meio
atravessei-o a pé
tropecei num peixe
feri-me com espinho
mar vermelho
: vinho
*
como moisés
parti o mar ao meio
atravessei-o a pé
tropecei num peixe
feri-me com espinho
mar vermelho
: vinho
*
curta-metragem
líria porto
olhou de lá da janela
sentiu a forte atração
viu seu corpo no asfalto
pessoas a seu redor
faria um vôo contrário
algo cinematográfico
seria clássico rápido
(adeus adeus solidão)
*
olhou de lá da janela
sentiu a forte atração
viu seu corpo no asfalto
pessoas a seu redor
faria um vôo contrário
algo cinematográfico
seria clássico rápido
(adeus adeus solidão)
*
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
sob a luz de velas
líria porto
as mãos de minha mãe
cruzadas sobre o peito
não vou esquecê-las
os seus dedos frios
antes tão macios
entre meus cabelos
o cheiro de flor
cheiro forte e doce
em minhas narinas
quero minha mãe
eu me sinto velha
mas eu sou menina
*
as mãos de minha mãe
cruzadas sobre o peito
não vou esquecê-las
os seus dedos frios
antes tão macios
entre meus cabelos
o cheiro de flor
cheiro forte e doce
em minhas narinas
quero minha mãe
eu me sinto velha
mas eu sou menina
*
terça-feira, 15 de setembro de 2009
rabiscos
líria porto
eu rabisco
rabiscando eu corro o risco
de riscar sem ter compasso
de dançar errando o passo
de passar a ser um traço
de traçar olhando nisso
de olhar pro meu rabisco
porém rabisco não é verso
rabisco não é poesia - é loucura
é teimosia
*
eu rabisco
rabiscando eu corro o risco
de riscar sem ter compasso
de dançar errando o passo
de passar a ser um traço
de traçar olhando nisso
de olhar pro meu rabisco
porém rabisco não é verso
rabisco não é poesia - é loucura
é teimosia
*
cobarde
líria porto
que vontade que vontade
enfrentar o meu espelho
cortar bem rente os cabelos
tirar deles toda a tinta
e deixar que as cãs me venham
flocos de neve branquinhos
sobre cabeça tão quente
cadê coragem?
que vontade que vontade
vestir-me largos vestidos
nada mais a me apertar
nem roupas e nem dinheiro
ser eu natural feliz
e em meu aniversário
fincá-las uma por uma
as mais de sessenta velas
num bolo cheio de doce
cadê coragem?
que vontade que vontade
com a alegria que tenho
rir das rugas rir de tudo
falar das minhas verdades
sem nenhum constrangimento
ir lá onde o amor está
desafiar a rival
dizer-lhe eu sou mais eu
esse amor agora é meu
cadê coragem?
que vontade que vontade
romper os grilhões da vida
com minha cara coragem
porém pergunto ao espelho
cadê coragem
cadê coragem?
*
que vontade que vontade
enfrentar o meu espelho
cortar bem rente os cabelos
tirar deles toda a tinta
e deixar que as cãs me venham
flocos de neve branquinhos
sobre cabeça tão quente
cadê coragem?
que vontade que vontade
vestir-me largos vestidos
nada mais a me apertar
nem roupas e nem dinheiro
ser eu natural feliz
e em meu aniversário
fincá-las uma por uma
as mais de sessenta velas
num bolo cheio de doce
cadê coragem?
que vontade que vontade
com a alegria que tenho
rir das rugas rir de tudo
falar das minhas verdades
sem nenhum constrangimento
ir lá onde o amor está
desafiar a rival
dizer-lhe eu sou mais eu
esse amor agora é meu
cadê coragem?
que vontade que vontade
romper os grilhões da vida
com minha cara coragem
porém pergunto ao espelho
cadê coragem
cadê coragem?
*
gêmeas
líria porto
alegria e tristeza nasceram juntas
uma gostava da luz a outra gostava das trevas
riram
choraram
cresceram
envelheceram
: alegria morreu primeiro
*
alegria e tristeza nasceram juntas
uma gostava da luz a outra gostava das trevas
riram
choraram
cresceram
envelheceram
: alegria morreu primeiro
*
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
eco
líria porto
certezas são riscos n'água
não resistem ao pé-de-vento
não valem um tostão furado
uma casca de ferida
todas tão repetitivas
batidas na mesma tecla tecla tecla
gravadas no mesmo oco oco oco oco
no arremedo medo medo medo
da vida ida ida ida
ida
*
certezas são riscos n'água
não resistem ao pé-de-vento
não valem um tostão furado
uma casca de ferida
todas tão repetitivas
batidas na mesma tecla tecla tecla
gravadas no mesmo oco oco oco oco
no arremedo medo medo medo
da vida ida ida ida
ida
*
domingo, 13 de setembro de 2009
ilusão
líria porto
aquele amor pareceu-me o vento
e durou o tempo de uma lufada
fez arder os olhos balançou-me o peito
prosseguiu caminho fiquei eu na estrada
*
aquele amor pareceu-me o vento
e durou o tempo de uma lufada
fez arder os olhos balançou-me o peito
prosseguiu caminho fiquei eu na estrada
*
ostras
líria porto
numa noite lânguida cheia de feitiço
a lua se expande o calor persiste
haja um milagre um fator explícito
seja nosso pleito amar e morrer
nesse alagadiço
*
numa noite lânguida cheia de feitiço
a lua se expande o calor persiste
haja um milagre um fator explícito
seja nosso pleito amar e morrer
nesse alagadiço
*
rebeldia
líria porto
quanto mais livre um artista
quão mais difícil é detê-lo
contê-lo dentro dos cinzas
dos amarelos
*
quanto mais livre um artista
quão mais difícil é detê-lo
contê-lo dentro dos cinzas
dos amarelos
*
deusmelivreguarde
líria porto
uma assombração ronda-me a casa
há passos gemidos cochichos arrulhos
morena d'olhos d'água
*
uma assombração ronda-me a casa
há passos gemidos cochichos arrulhos
morena d'olhos d'água
*
cúmplices
líria porto
o par de andorinhas
voa paralelo
dá as mesmas voltas
sobe desce roda
pousa no telhado
uma junto à outra
como se estivesse
de mãos dadas
*
o par de andorinhas
voa paralelo
dá as mesmas voltas
sobe desce roda
pousa no telhado
uma junto à outra
como se estivesse
de mãos dadas
*
película
líria porto
ei-la - a manhã
ancas largas pele azulada
despida de nuvem
bonita como artista de hollywood
*
ei-la - a manhã
ancas largas pele azulada
despida de nuvem
bonita como artista de hollywood
*
sábado, 12 de setembro de 2009
doce
líria porto
se por (a)ventura me queres
tira o cavalo da chuva
coloca-o para dentro
não vais deixá-lo ao relento
a noite toda
*
se por (a)ventura me queres
tira o cavalo da chuva
coloca-o para dentro
não vais deixá-lo ao relento
a noite toda
*
disque-me-disque
líria porto
é estilo do grilo repetir-se
cri cri cri
eu não creio
ou melhor - duvido
até de mim
*
é estilo do grilo repetir-se
cri cri cri
eu não creio
ou melhor - duvido
até de mim
*
insípido
líria porto
tem gente que ama na retranca
não se entrega não tem febre
não tem sudorese
não beija não chora
não sonha não sangra
não faz planos
tem gente que nem é gente
é prosopopéia
*
tem gente que ama na retranca
não se entrega não tem febre
não tem sudorese
não beija não chora
não sonha não sangra
não faz planos
tem gente que nem é gente
é prosopopéia
*
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
o cabaço
líria porto
penso assim aos borbotões
estou cheia de senões
se fossem abotoados
os pingolins dos meninos
ia ser um desatino
desarrolhar os coitados
acho mesmo houve engano
nas meninas muito pano
os rapazes sem cortina
triste é a nossa sina
um selo de validade
desde a mais tenra idade
*
penso assim aos borbotões
estou cheia de senões
se fossem abotoados
os pingolins dos meninos
ia ser um desatino
desarrolhar os coitados
acho mesmo houve engano
nas meninas muito pano
os rapazes sem cortina
triste é a nossa sina
um selo de validade
desde a mais tenra idade
*
burro-de-carga
líria porto
na espinha dorsal
dor de sal e espinho
vinho avinagrado
tonel de sofrimento
bebido todo dia
em grandes goles
*
na espinha dorsal
dor de sal e espinho
vinho avinagrado
tonel de sofrimento
bebido todo dia
em grandes goles
*
maria da silva
líria porto
aporta no lirismo
faz verso a esmo
cai no marasmo
e por osmose
perde a sequência
*
aporta no lirismo
faz verso a esmo
cai no marasmo
e por osmose
perde a sequência
*
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
diablo
líria porto
o fogo sobe a serra - capeta
morde o verde cospe os gravetos
queima as árvores os ninhos
expulsa aves répteis mamíferos
deixa por onde passa
cinza e carvão
cadáveres
*
o fogo sobe a serra - capeta
morde o verde cospe os gravetos
queima as árvores os ninhos
expulsa aves répteis mamíferos
deixa por onde passa
cinza e carvão
cadáveres
*
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
reumantismo
líria porto
dia após dia ano após ano
não sei quem põe sobre nós
uma camada tênue
nem sentimos que mudamos
mas ao comparar as fotos
tem retrato de criança
entre os nossos
*
dia após dia ano após ano
não sei quem põe sobre nós
uma camada tênue
nem sentimos que mudamos
mas ao comparar as fotos
tem retrato de criança
entre os nossos
*
assim assado
líria porto
na sala formalidades
no quarto solta folgada
nem vou contar os detalhes
boca-de-forno é quentíssima
diaba embaixo das saias
*
na sala formalidades
no quarto solta folgada
nem vou contar os detalhes
boca-de-forno é quentíssima
diaba embaixo das saias
*
terça-feira, 8 de setembro de 2009
conceitos
líria porto
a casa onde passei meus dias
precisou reparos trocar vasos veias
reformar fachada mudar reboco
alargar espaços ganhar claridade
piso novo
a vida nos refaz
ou não
*
a casa onde passei meus dias
precisou reparos trocar vasos veias
reformar fachada mudar reboco
alargar espaços ganhar claridade
piso novo
a vida nos refaz
ou não
*
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
instruções
líria porto
meninas
em dias de função
não se aflijam
ouçam a demanda do freguês
afastem bem os joelhos
deixem-no entrar
: não se entusiasmem
nem lhe beijem a boca
ao final
confiram as trinta moedas
e se receberem mais
acertem o troco
jamais se esqueçam
somos honestas e zelamos
pelo nosso nome
assinado
: mãe railda de cualcutava
*
meninas
em dias de função
não se aflijam
ouçam a demanda do freguês
afastem bem os joelhos
deixem-no entrar
: não se entusiasmem
nem lhe beijem a boca
ao final
confiram as trinta moedas
e se receberem mais
acertem o troco
jamais se esqueçam
somos honestas e zelamos
pelo nosso nome
assinado
: mãe railda de cualcutava
*
domingo, 6 de setembro de 2009
contra_partida
líria porto
minha casa é um coração
abri mão do corre_dor
giro nela o dia e o mês
minha casa é um pardieiro
) quem quiser morar comigo
levante o dedo (
*
minha casa é um coração
abri mão do corre_dor
giro nela o dia e o mês
minha casa é um pardieiro
) quem quiser morar comigo
levante o dedo (
*
gaiola
líria porto
debaixo dos holofotes
o corpo ganha sombras
preço da fama
passarim enquanto voa
livra a sombra dos pés
*
debaixo dos holofotes
o corpo ganha sombras
preço da fama
passarim enquanto voa
livra a sombra dos pés
*
sábado, 5 de setembro de 2009
uma coisa leva à outra
líria porto
igual um falcão
meu coração voa alto
depois se esborracha
(como uma bolacha)
tem café?
*
igual um falcão
meu coração voa alto
depois se esborracha
(como uma bolacha)
tem café?
*
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
estrangeiro
líria porto
daqui sei quase nada
nem vinho nem vôo
: quanto ficarei?
qual barco em mar alto
sem bússola sem direção
: cadê bandeira?
*
daqui sei quase nada
nem vinho nem vôo
: quanto ficarei?
qual barco em mar alto
sem bússola sem direção
: cadê bandeira?
*
felicidade
líria porto
ruth foi para beirute
e ao vê-lo sobre um camelo
decide-se
uma tenda
o chão de areia
as estrelas
quem nada quer
nada pe(r)de
*
ruth foi para beirute
e ao vê-lo sobre um camelo
decide-se
uma tenda
o chão de areia
as estrelas
quem nada quer
nada pe(r)de
*
flash
líria porto
tem noite que a lua se supera
fica tão bela tão esplendorosa
que meu verso todo prosa
perde o freio
*
tem noite que a lua se supera
fica tão bela tão esplendorosa
que meu verso todo prosa
perde o freio
*
mudança
líria porto
troquei o corredor pela escada
beiro o céu
) é bom ser nuvem
poder chorar sem lenço (
o joelho dói
passo saliva
) sorte (
*
troquei o corredor pela escada
beiro o céu
) é bom ser nuvem
poder chorar sem lenço (
o joelho dói
passo saliva
) sorte (
*
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
anjinho
líria porto
corria atrás de si
qual cachorro atrás do rabo
perseguia a própria sombra
ia prendê-la nos ombros
esconder as asas
(queria ser igual lúcifer
o cão danado)
*
corria atrás de si
qual cachorro atrás do rabo
perseguia a própria sombra
ia prendê-la nos ombros
esconder as asas
(queria ser igual lúcifer
o cão danado)
*
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
terça-feira, 1 de setembro de 2009
insatisfação
líria porto
oco
vazio
vácuo
buraco
oco vazio
vácuo buraco
oco vazio vácuo
buraco oco vazio vácuo
) falta-se
por mais que o preencham (
*
oco
vazio
vácuo
buraco
oco vazio
vácuo buraco
oco vazio vácuo
buraco oco vazio vácuo
) falta-se
por mais que o preencham (
*
amantes
líria porto
parecíamos garimpeiros
a vasculhar o cascalho
procurávamos um no outro
pepitas diamantes
prazeres
*
parecíamos garimpeiros
a vasculhar o cascalho
procurávamos um no outro
pepitas diamantes
prazeres
*
fora de foco
líria porto
a escrever eu me isolo
posso ir morar no polo
conviver com pinguins
e nessa rima ruim
parir do invólucro
o insólito o irrisório
o descabido
o que interessa a ninguém
nem a mim
*
a escrever eu me isolo
posso ir morar no polo
conviver com pinguins
e nessa rima ruim
parir do invólucro
o insólito o irrisório
o descabido
o que interessa a ninguém
nem a mim
*
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
ninguém dorme com um barulho desses
líria porto
cansada de se repetir
deu um tiro - entrou num ouvido
saiu no outro
*
cansada de se repetir
deu um tiro - entrou num ouvido
saiu no outro
*
rei_nação
líria porto
a mim me interessa
ter rei e rainha
no meu tabuleiro
ninguém me aborrece
sou eu quem decide
o rumo da peça
xeque mate
: a bola é minha
*
a mim me interessa
ter rei e rainha
no meu tabuleiro
ninguém me aborrece
sou eu quem decide
o rumo da peça
xeque mate
: a bola é minha
*
domingo, 30 de agosto de 2009
trabalheira
líria porto
meu pai vendia feijão e arroz
no armazém de secos e molhados
minha mãe cozinhava feijão e arroz
alimentava onze bocas
(nós estudávamos
eles nos davam vida boa)
*
meu pai vendia feijão e arroz
no armazém de secos e molhados
minha mãe cozinhava feijão e arroz
alimentava onze bocas
(nós estudávamos
eles nos davam vida boa)
*
sherloc
líria porto
o corpo do gato
sem nenhuma das suas sete vidas
é prova cabal
do múltiplo assassinato
*
o corpo do gato
sem nenhuma das suas sete vidas
é prova cabal
do múltiplo assassinato
*
aquela mulher
líria porto
mãos frias olhos vagos
rosto encovado soluços
vai à casa do homem-sapo
perambula pelas ruas
becos parques praças
orfanatos conventos
asilos esquinas
presídios
s
o
l
i
d
ã
o
tem companhia
*
mãos frias olhos vagos
rosto encovado soluços
vai à casa do homem-sapo
perambula pelas ruas
becos parques praças
orfanatos conventos
asilos esquinas
presídios
s
o
l
i
d
ã
o
tem companhia
*
íntimos
líria porto
passa a roupa
avesso direito
frente costas cós
gola barra
ele vem
abraça-a por trás
faz-lhe cócegas
amarrota tudo
dão risadas
*
passa a roupa
avesso direito
frente costas cós
gola barra
ele vem
abraça-a por trás
faz-lhe cócegas
amarrota tudo
dão risadas
*
supremacia
líria porto
desde que nasci toureio a morte
ela não desiste e eu prossigo
um dia quando a infame me quedar
dir-lhe-ei - eu te venci
cansei-me de viver
aqui não fico
*
desde que nasci toureio a morte
ela não desiste e eu prossigo
um dia quando a infame me quedar
dir-lhe-ei - eu te venci
cansei-me de viver
aqui não fico
*
sábado, 29 de agosto de 2009
insensíveis
líria porto
finge dormir - o pensamento ferve
borbulha como lava de vulcão
minhoca em pedra quente
quase funde o cérebro
ninguém percebe
*
finge dormir - o pensamento ferve
borbulha como lava de vulcão
minhoca em pedra quente
quase funde o cérebro
ninguém percebe
*
cafundó
líria porto
passarinho passaroco
é no oco do mundo
que me afundo no teu canto
nu recanto de poesia
desde o dia que nasci
um saci desengonçado
atado às raízes
*
passarinho passaroco
é no oco do mundo
que me afundo no teu canto
nu recanto de poesia
desde o dia que nasci
um saci desengonçado
atado às raízes
*
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
na corda bamba
líria porto
dentro de nós mora um anjo
e também um diabinho
é um tal de puxa empurra
puro desequilíbrio
*
dentro de nós mora um anjo
e também um diabinho
é um tal de puxa empurra
puro desequilíbrio
*
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
azar
líria porto
linda flor caiu do galho
girou tal qual bailarina
e ao tocar o asfalto
virou purpurina
*
linda flor caiu do galho
girou tal qual bailarina
e ao tocar o asfalto
virou purpurina
*
ébano
líria porto
quando eu nascer outra vez
quero ser negra retinta
e os meus cabelos pretos
deixá-los à carapinha
brancos só mesmo os dentes
e nos olhos azeviche
carregar a minha áfrica
seu sol ardente sua púrpura
quando eu nascer outra vez
vou dançar com o meu povo
no compasso do batuque
e dentro da pele quente
conduzir-me à altura
da cor e da raça esplêndidas
da beleza de ser gente
no coração - na estatura
*
quando eu nascer outra vez
quero ser negra retinta
e os meus cabelos pretos
deixá-los à carapinha
brancos só mesmo os dentes
e nos olhos azeviche
carregar a minha áfrica
seu sol ardente sua púrpura
quando eu nascer outra vez
vou dançar com o meu povo
no compasso do batuque
e dentro da pele quente
conduzir-me à altura
da cor e da raça esplêndidas
da beleza de ser gente
no coração - na estatura
*
pau do cerrado
líria porto
segredos do vento
de sopro e assovio
ninguém os decifra
nem nós que nascemos
em ventania
de terras tão planas
de galhas torcidas
ao vir pras montanhas
eu trouxe e te entrego
o sal da saliva
*
segredos do vento
de sopro e assovio
ninguém os decifra
nem nós que nascemos
em ventania
de terras tão planas
de galhas torcidas
ao vir pras montanhas
eu trouxe e te entrego
o sal da saliva
*
saudosa maloca
líria porto
simples e direto igual um soco
meu verso é como eu doido varrido
e sem qualquer razão fica vermelho
) era esse meu slogan predileto
: viva a rússia - abaixo os estados unidos (
*
simples e direto igual um soco
meu verso é como eu doido varrido
e sem qualquer razão fica vermelho
) era esse meu slogan predileto
: viva a rússia - abaixo os estados unidos (
*
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
amélia
líria porto
ficava lá disponível
limpa macia perfumada
igual blusa no cabide
ele vinha usava-a
voltava-se para a parede
foi visto no shopping
de roupa nova
*
ficava lá disponível
limpa macia perfumada
igual blusa no cabide
ele vinha usava-a
voltava-se para a parede
foi visto no shopping
de roupa nova
*
terça-feira, 25 de agosto de 2009
cadela
líria porto
ando ela anda
deito-me ela se deita
sento-me ela se senta
ou fica ali do lado
minha sombra não me deixa
às vezes levanta as orelhas
e sacode o rabo
*
ando ela anda
deito-me ela se deita
sento-me ela se senta
ou fica ali do lado
minha sombra não me deixa
às vezes levanta as orelhas
e sacode o rabo
*
o mundo
líria porto
jamais saberei dos detalhes
das minúcias
tento aprender o novo
abrir arregalar o olho
tudo é misterioso
esdrúxulo
*
jamais saberei dos detalhes
das minúcias
tento aprender o novo
abrir arregalar o olho
tudo é misterioso
esdrúxulo
*
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
es_fera
líria porto
quem dera que a terra
rodasse para o outro lado
e pudéssemos retornar
ao ponto de partida
a infância é um templo lindo
*
quem dera que a terra
rodasse para o outro lado
e pudéssemos retornar
ao ponto de partida
a infância é um templo lindo
*
os miseráveis
líria porto
quem janta sua fome espanta
jante mal ou jante bem
terrível é quem não janta
e não almoça
e não tem
*
quem janta sua fome espanta
jante mal ou jante bem
terrível é quem não janta
e não almoça
e não tem
*
de mau a pior
líria porto
o sol sobre o olho
o sal sobre o molho
o mal sobre o bem
o tal do olho gordo
o estorvo o atrapalho
o dente de alho
na boca de alguém
*
o sol sobre o olho
o sal sobre o molho
o mal sobre o bem
o tal do olho gordo
o estorvo o atrapalho
o dente de alho
na boca de alguém
*
neblina
líria porto
como fosse um cãozinho
que não abanasse o rabo
ou então um passarinho
incapaz de bater asas
viver sem ti não tem graça
o mundo todo se embaça
é igual viver sem brisa
sem lua e sem azul
*
como fosse um cãozinho
que não abanasse o rabo
ou então um passarinho
incapaz de bater asas
viver sem ti não tem graça
o mundo todo se embaça
é igual viver sem brisa
sem lua e sem azul
*
domingo, 23 de agosto de 2009
pasmos
líria porto
entre velho e novo
um ser boquiaberto
sem saber ao certo
se foi a galinha
ou o ovo
entre certo e errado
um nunca satisfeito
um sempre sistemático
truncado pelo meio
sem arremate
entre muito e pouco
um sujeito rouco
a pedir um cado
entre um e outro
nada nada
nada
nabo
*
entre velho e novo
um ser boquiaberto
sem saber ao certo
se foi a galinha
ou o ovo
entre certo e errado
um nunca satisfeito
um sempre sistemático
truncado pelo meio
sem arremate
entre muito e pouco
um sujeito rouco
a pedir um cado
entre um e outro
nada nada
nada
nabo
*
fósseis
líria porto
paixões e amores acabam
perecem evaporam-se
muita vez não sobra coalho
nenhuma atitude dócil
lembramo-nos dos que amávamos
somente em detalhes sórdidos
e sequer consideramos
quão fomos intolerantes
inóspitos
ignóbeis
*
paixões e amores acabam
perecem evaporam-se
muita vez não sobra coalho
nenhuma atitude dócil
lembramo-nos dos que amávamos
somente em detalhes sórdidos
e sequer consideramos
quão fomos intolerantes
inóspitos
ignóbeis
*
pega
líria porto
não entendo tua pressa
mal fizeste vinte anos
de tudo pouco conheces
nem tristezas nem espantos
não corras tanto menino
vai devagar ri um pouco
aproveita tuas f(r)estas
olha as flores ouve o canto
a idade um dia pesa
os olhos murcham e o pranto
inundará duas pistas
não te aceleres - o tempo
é bem maior que a avenida
) vruuuummmmmm (
espera guri espera
tenho presentes comigo
um bombom um salto um grilo
quero te dar castanhas
ensinar-te minhas manhas
olhares além do umbigo
*
não entendo tua pressa
mal fizeste vinte anos
de tudo pouco conheces
nem tristezas nem espantos
não corras tanto menino
vai devagar ri um pouco
aproveita tuas f(r)estas
olha as flores ouve o canto
a idade um dia pesa
os olhos murcham e o pranto
inundará duas pistas
não te aceleres - o tempo
é bem maior que a avenida
) vruuuummmmmm (
espera guri espera
tenho presentes comigo
um bombom um salto um grilo
quero te dar castanhas
ensinar-te minhas manhas
olhares além do umbigo
*
eu_tanásia
líria porto
descuido desprezo
condenam o amor
à morte lenta
) procura-se um cúmplice
capaz de desligar aparelhos (
*
sábado, 22 de agosto de 2009
arrepios
líria porto
vento varre minha terra
vem dum lado doutro
junta cisco dá um sopro
forma redemunho
tenho um medo
dos diabos
*
vento varre minha terra
vem dum lado doutro
junta cisco dá um sopro
forma redemunho
tenho um medo
dos diabos
*
turista
líria porto
penduro-me como morcego
em teu ponto cego
e assim
sem que o percebas
bebo teu sangue gosto de morango
durante as férias
*
penduro-me como morcego
em teu ponto cego
e assim
sem que o percebas
bebo teu sangue gosto de morango
durante as férias
*
brevê
líria porto
lá vem o dia
lá vem a noite
a estrada anda
levem a roupa do corpo
lavem a alma
amanhã é agora
) vaca amarela
pulou a janela
quem morrer morreu
ele ela ou eu
a vida não pasta (
*
lá vem o dia
lá vem a noite
a estrada anda
levem a roupa do corpo
lavem a alma
amanhã é agora
) vaca amarela
pulou a janela
quem morrer morreu
ele ela ou eu
a vida não pasta (
*
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
suicida
líria porto
sair do circuito
fugir do ruído
tudo é doído
e é seu intuito
arruinar-se
diluir-se
fluidificar-se
descuidar-se
ir-se
(f)ui
*
sair do circuito
fugir do ruído
tudo é doído
e é seu intuito
arruinar-se
diluir-se
fluidificar-se
descuidar-se
ir-se
(f)ui
*
terça-feira, 18 de agosto de 2009
bolhas
líria porto
ele pensava nela
e ela pensava
na morte da bezerra
quem acha que acerta
erra redondamente
*
ele pensava nela
e ela pensava
na morte da bezerra
quem acha que acerta
erra redondamente
*
virgem santa
líria porto
vão precisar de um bravo
para fazer a façanha
o mato cresce e tem onça
entre as pernas dessa aranha
*
vão precisar de um bravo
para fazer a façanha
o mato cresce e tem onça
entre as pernas dessa aranha
*
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
cartas
líria porto
palavras silenciosas
dentro de envelopes
acham destino
e troam como tambores
levam para as pessoas
notícias boas
*
palavras silenciosas
dentro de envelopes
acham destino
e troam como tambores
levam para as pessoas
notícias boas
*
diferenças
líria porto
aquele que nos leva
a fazer com alegria
todas as tarefas
é líder
o fracote
a usar chicote
é chefe
) braços sem abraços
transportam carga (
*
aquele que nos leva
a fazer com alegria
todas as tarefas
é líder
o fracote
a usar chicote
é chefe
) braços sem abraços
transportam carga (
*
gerações
líria porto
derrubar a parede
alargar o corredor
permitir que a luz se adentre
mudar o lugar das sombras
aprender - a experiência
dos ancestrais é inócua
*
derrubar a parede
alargar o corredor
permitir que a luz se adentre
mudar o lugar das sombras
aprender - a experiência
dos ancestrais é inócua
*
sábado, 15 de agosto de 2009
depois do choro
líria porto
c_alma voltou - veio mansa
acomodou-se no canto
aproximou-se aos poucos
acalentou-me o corpo
fez-me dormir
sou criança
*
c_alma voltou - veio mansa
acomodou-se no canto
aproximou-se aos poucos
acalentou-me o corpo
fez-me dormir
sou criança
*
consideração
líria porto
lavou o corpo da morta
com água morna
maria não gostaria
de banhar-se em água fria
*
lavou o corpo da morta
com água morna
maria não gostaria
de banhar-se em água fria
*
disfarce
líria porto
debaixo da capa a culpa
as emoções proibidas
as marcas de batom
(e as manchas roxas
nas coxas)
*
debaixo da capa a culpa
as emoções proibidas
as marcas de batom
(e as manchas roxas
nas coxas)
*
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
mundos e fundos
líria porto
olhos fechados corpo quieto
sem mover um músculo
e o pensamento solto
a recordar planejar sonhar
ninguém sabe da sua extensão
*
olhos fechados corpo quieto
sem mover um músculo
e o pensamento solto
a recordar planejar sonhar
ninguém sabe da sua extensão
*
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
colcha de retalhos
líria porto
eu tu nós
ao doarmos órgãos
somos recicláveis
e não descartados
como lixo humano
e sobrevivemos
ao inexorável
à morte cínica
à rigidez ao frio
à inutilidade
à desesperança
*
eu tu nós
ao doarmos órgãos
somos recicláveis
e não descartados
como lixo humano
e sobrevivemos
ao inexorável
à morte cínica
à rigidez ao frio
à inutilidade
à desesperança
*
terça-feira, 11 de agosto de 2009
tantan
líria porto
forte como a pétala
fraca como a muralha
tenho cílios de arco-íris
alma de batata-palha
*
forte como a pétala
fraca como a muralha
tenho cílios de arco-íris
alma de batata-palha
*
ganidos
líria porto
finquei todo meu desejo
no branco lençol do leito
deitei-me só e de borco
e assim eu em decúbito
abraçada ao travesseiro
farejava o teu cheiro
qual um cachorro
meu corpo de tanta ânsia
derramava a substância
advinda do meu cio
as lágrimas me afogavam
transformavam-se em lagoa
de quebrantos
a fresta entre minhas pernas
jogadas de qualquer jeito
abrigava a rejeição
as ausências repetidas
das vezes que te chamei
sem retorno
não vieste não virás
e o vão do meu umbigo
a ganir nos teus ouvidos
não te deixará
*
finquei todo meu desejo
no branco lençol do leito
deitei-me só e de borco
e assim eu em decúbito
abraçada ao travesseiro
farejava o teu cheiro
qual um cachorro
meu corpo de tanta ânsia
derramava a substância
advinda do meu cio
as lágrimas me afogavam
transformavam-se em lagoa
de quebrantos
a fresta entre minhas pernas
jogadas de qualquer jeito
abrigava a rejeição
as ausências repetidas
das vezes que te chamei
sem retorno
não vieste não virás
e o vão do meu umbigo
a ganir nos teus ouvidos
não te deixará
*
ruindade
líria porto
a dor sem entranha montava-lhe as costas
fincava o ferrão a espora o chicote
: galopa galopa galopa
a pobre anciã já sem força gemia
não posso não posso
n ã o p o s s o
deus e o diabo
espiavam
sem dó
*
a dor sem entranha montava-lhe as costas
fincava o ferrão a espora o chicote
: galopa galopa galopa
a pobre anciã já sem força gemia
não posso não posso
n ã o p o s s o
deus e o diabo
espiavam
sem dó
*
versinhos encapetados
líria porto
quando nasci
não tinha anjo disponível
então um diabinho com um tridente
espetou a minha bunda e disse - vai
cai na vida
*
quando nasci
não tinha anjo disponível
então um diabinho com um tridente
espetou a minha bunda e disse - vai
cai na vida
*