sábado, 3 de dezembro de 2016

inábil

líria porto

tu te perderias pelas minhas veias
sem jamais tocar-me o coração

*

inábil

líria porto

eu me perderia pelas tuas veias
sem jamais tocar-te o coração

*

da poesia

líria porto

por onde os versos caminham
por onde tropeçam os poetas

as palavras que são rios
as palavras que são pedras

todas elas
desafios

*

infância

líria porto

amoras pitangas gabirobas
essas frutinhas miúdas
que as crianças adoram
povoam nossas lembranças

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

natalidade

líria porto

no tempo das ceroulas
casais se reproduziam
como coelhos

*

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

bola de cristão

líria porto

férias de um ano
(reapresentação em 2018)
toga de juiz e bico
de tucano

(xô satanás)

*

chama

líria porto

a vida –– um flash
um relâmpago

antes e depois
a escuridão

*

cilada

líria porto

no caminho da sucessão
rampa escorregadia beira
o precipício

*

terça-feira, 29 de novembro de 2016

perplexidade

líria porto

água doce no rio
no mar água salgada
com que sabedoria
o mundo –– o seu traçado
assim sem autoria
teria havido um guia
teu deus seria mágico?

(porque eu sou ateu)

*

matiz

líria porto

cambiante
meu sangue furta-cor
mestiço

*

doutrinação

líria porto

fui abduzida por um ET sem escrúpulo
sua tromba penetrou-me pelo ouvido
seu zumbido engravidou-me
:
o aborto
eu provoquei

*

processo

líria porto

o corpo –– vela que queima
cera que se derrete
entorna e muda o contorno
enquanto encurta o pavio
até apagar-se o fogo

*

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

é o cu

líria porto

nasci de chocadeira
mamãe não fazia bobagem
e filho pela vagina
jamais

(mamadeira de três em três horas
e babá eletrônica)

*

sábado, 26 de novembro de 2016

luto

líria porto

qual murro no peito
hoje –– a meio pau –– minha bandeira
vermelha

fidel eternamente

*

redemunho

líria porto

o diabo me carregue
leve-me para as grimpas da árvore
ou para a crista da nuvem

*

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

tara

líria porto

na casa de tolerância
velhos insuportáveis
passavam as mãos nas meninas
e consumiam viagras

*

trabalheira

líria porto

para fazer a montanha
o vento empurrou –– uma a uma
as partículas de poeira

*

naja

líria porto

bato de frente comigo
contesto mau pensamento
tenho tendência suicida
porém não acho propício
morrer do próprio veneno

*

regressão

líria porto

o cheiro denso da chuva
penetra minhas narinas
eu volto a ser a menina
que soluça aquele pranto
sem consolo sem alento
que só cessa quando dorme
nos braços de sua mãe

*

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

a poesia é o jardim suspenso da palavra

pontos colaterais

líria porto

virou a bunda pro leste
olhava fixo o crepúsculo
fincou um dedo no norte
o outro enfiou no sul

*

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

elípticas

líria porto

a gente é concebida
e tem data presumida
para apear no planeta

(mães são naves)

*

o feto

líria porto

aspecto de extra-terrestre
que se reveste de gente

*

terça-feira, 22 de novembro de 2016

ser_tão

líria porto

na sede do rio o verde
desesperança

*

portugueses

líria porto

beijos de freira –– doces
de lamber os beiços

*

vestígios

líria porto

cada poeta que lemos
deixa traços indeléveis
em nossos poemas

*

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

indícios

líria porto

valia-se da força
para dominar mulheres
submetê-las a sevícias
espancá-las humilhá-las
por isso creio –– o crime
foi legítima defesa

*

domingo, 20 de novembro de 2016

temporal

líria porto

d'agora em diante
(e agora nunca acaba
ou pelo menos durante)
não me preocupam as horas
pois que agora foi ontem
e continua agora
desde quando fui criança
até a hora da morte

*

extremos

líria porto

embora tão diferentes
um é macio o outro crespo
são eles meus prediletos
o abacaxi e o pêssego

*

sábado, 19 de novembro de 2016

hibernação

líria porto

para livrar-me de um verso
preciso deixá-lo escrito
mesmo que depois o enfie
no fundo de uma gaveta
para não lhe ouvir o grito

*

incêndio

líria porto

qualquer paixão me adverte
acende uma luz vermelha
depois dispara a sirene

*

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

e o verbo se fez

líria porto

estraçalhar dilacerar –– palavras
cujas sílabas são cacos de vidro
estilhaços de metal

*

mamãe

líria porto

a língua da vaca é áspera
inspirados são seus olhos
e pela vida ela pasta
a doar seu corpo inteiro
(o couro o leite a carne)
a homens degenerados
que não percebem nem sentem
a humanidade da vaca

*

haicai

líria porto

cortina de tule
nas entranhas da neblina
minha própria rua

*

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

bolo de rolo

líria porto

espero-te para um café
café com beijo é ótimo
sem beijo também é bom
mas fica incompleto
e com sexo então
ah com sexo
nem é preciso o café

*

miudeza

líria porto

só quem se sente pequeno
precisa de pedestal

*

epitáfio

líria porto

aqui jaz meu corpo
meu arquivo morto

*

putanas

líria porto

nós –– mulheres públicas
não nos deixaremos privatizar

*

perdigueiro

líria porto

tenho bom faro
vasculho o escuro e acho
o que procuro

*

perecíveis

líria porto

nosso tempo de validade
impresso no avesso da pele
ninguém lê ninguém percebe

*

caí na tua sopa

líria porto

talvez devesses saber
a quantas anda a política
enquanto dormes e sonhas
os ratos rondam e roem
tua aposentadoria

*

literalmente

líria porto

foi um banho de água fria
a minha ducha queimou
em pleno dia de chuva

disseram-me -–– é a resistência
estou cada vez mais frágil

*

antisséptico

líria porto

tomei banho de caneca
-–– perereca pés axilas -––
o resto limpei com álcool
estou mais morta que viva
:
porém não fedo

*

revisor

líria porto

o cu não é lindo –– é tímido feioso
condenado a viver onde o sol
não bate

*

regras

líria porto

o rio passou dos limites
depois retomou o traçado
amarrado à corrente

*

nababos

líria porto

prometem o céu e tomam
o dízimo

*

lascas

líria porto

primeiro a mesa de mármore
agora a de vidro –– tão quebrável
quanto a dona da casa

*

sábado, 12 de novembro de 2016

aposentadoria

líria porto

pendurar as chuteiras
as luvas de box e passar o bastão
para mãos preparadas

quem foi rei
perde a majestade

*

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

dificuldades

líria porto

dentre o que me comove
o que se move com esforço
um besouro que capota
um pássaro de asa quebrada
um ancião de bengala
uma mulher de muletas
uma barata nas últimas

*

autoflagelação

líria porto

a provar que sou minha dona
castigo-me ou me abandono
depois volto arrependida
e não me perdoo

eu tenho um carma comigo
u'a mágoa – alguma espécie
de enjoo

*

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

rasteiras

líria porto

foram muitos pesadelos
e a cada vez que acordava outro assalto
outro susto
:
os bandidos variavam
só eu era o mesmo panaca
com cara de espasmo
e dor de barriga

*

lambança

líria porto

atravesso co'a bandeja
lá_vai dona beja – mil talheres
e à mesa
homens brancos velhos
e poucas mulheres
todas belas recatadas
e de touca

(patos são aves cagonas)

*

terça-feira, 8 de novembro de 2016

avaliação

líria porto

eu sou eu – não tanto quanto quero
nem tão pouco quanto pensam

*

blefe

líria porto

trambiqueiro salafrário
mas porém depois de morto
atribuem-lhe qualidades

*

caminho de mesa

líria porto

a agulha leva o fio pelo risco do bordado
como a mãe conduz o filho
:
de mãos dadas

*

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

avant-première

líria porto

no fundo do nosso sono
colorida ou branca e preta
uma fita de cinema
estrelada por nós mesmos

(não perco uma sessão
de sonho ou pesadelo)

*

haicai

líria porto

a lua embaçada
um acúmulo de nuvens
e poças de chuva

*

domingo, 6 de novembro de 2016

destemor

líria porto

guardou os sapatos de salto
as saias mantilhas leques castanholas
e empunha a bandeira de luta
:
vermelha

*

solitário

líria porto

sua vida não daria um romance
porém houve versos – oásis em meio
ao deserto de palavras

*

sábado, 5 de novembro de 2016

mescla

líria porto

infância e velhice no mesmo aposento
vovó tem sonhos inocentes e o menino
sabedoria

*

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

utilidade

líria porto

um velho
qual prato lascado
ninguém leva à mesa
(dá dó jogar fora)
empilha-o num canto
usa-o como tampa

*

origens

líria porto

sou uma casa portuguesa com incerteza
chego a pensar que sou uma tenda
que atravesso a vida montada
em camelo

(na cabeça
um turbante)

*

admiração

líria porto

janela boquiaberta
deslumbrada ante o crepúsculo
come mosca

leio clarice lispector
de queixo caído

*

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

plugue

líria porto

entre mãe e filho
aquela intimidade de placenta
de cordão d'umbigo

*

haicai

líria porto

o sol pegou fogo
e labaredas queimaram
o chão do cerrado

*

machão

líria porto

sua voz é grave
agudos são seus impropérios

*

domingo, 30 de outubro de 2016

equívocos

líria porto

a poesia pode ser óbvia
o poema não
se o poeta pesa a mão
a poesia se encolhe
e enquanto empalidece
palavras tropeçam
em si mesmas

*

elos

líria porto

já não sou eu sou nosotros
formamos um coletivo
lutamos todos por todos
por semelhantes motivos

tua fome é minha fome
sentimos o mesmo frio
somos homens somos bichos
nasceu de ti é meu filho

(couro pele pena escama
precisamos proteger-nos
dos terríveis predadores)

*

escravidão

líria porto

limpo tudo
(um esforço desgraçado)
o cupim disfarça-se de aleluia
chega manso desveste as asas
entra no armário enche a pança
e caga

*

sábado, 29 de outubro de 2016

poeminha doméstico

líria porto

consigo lavar dois banheiros
com meio balde d'água
ficam tão limpinhos
perfumados
na próxima encarnação
posso ser arrumadeira
:
nesta não – de mim afasto
esse carma

*

pianíssimo

líria porto

arranjei uma vassourinha movida a bateria
enquanto limpo o assoalho eu leio mario
quintana

*

donana

líria porto

ontem ria com todos os dentes
hoje sorri com um leve movimento dos lábios
nem disfarça a tristeza

*

projétil

líria porto

qual bala de chumbo penetrou-me o peito
alojou-se profundo e embora não sangre
carrego o peso de um amor sem saída

*

o oportunista

líria porto

escorrega para a zona de conforto
como a merda para o intestino
e o fosso
:
semelhanças não são coincidências

*

psicologismo

líria porto

fosse qual fosse
alface couve espinafre
verde o repugnava
:
também não queria tomate
preferia marrom ao vermelho
(chocolate)

serve cocô perguntaram-lhe
nem respondeu – devorou a salada
e gostou

*

tumulto

líria porto

tenho a bandeira vermelha
o touro quer sangue

fustigo-o até que se canse
também fico exausto

a luta é de grandes

*

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

caça

líria porto

a poesia é um pássaro
o poeta um menino com bodoque na mão
com espingarda de chumbinho

(o poeta é aprendiz
de assassino)

*

terça-feira, 25 de outubro de 2016

corpos

líria porto

encaixe perfeito
as asas da borboleta
pegadas na areia

*

borderline

líria porto

entre a lucidez e a loucura
uma rua pequena
por onde trafegam crianças
poetas sonhadores libélulas
e gente que escreve
com sangue

*

disperso

líria porto

norte sul leste oeste
vagou por tudo quanto
perdeu-se

precisou retornar
o vento era contra - a chuva
a favor

*

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

tragicomédia

líria porto

a vida – essa peleja
essa batalha sem trégua
a gente faz o diabo
rói as unhas
arranca os cabelos
mata um leão por dia
nada contra a correnteza
(usa todos os chavões)
até que a morte apareça
e passe a régua

*

domingo, 23 de outubro de 2016

reticente

líria porto

aqui ali onde seja
que as certezas se instalem
duvido que elas tenham consistência
ou que permaneçam incontestáveis

*

sábado, 22 de outubro de 2016

carruagem

líria porto

no mundo dos sonhos
nossa outra vida paralela
o resgate do tempo as lembranças
as pessoas que se foram para sempre
nossos medos ou desejos

nesta noite eu não tinha oito anos
caminhava de mãos dadas com vovô
o mais lindo libanês levou-me
à frança

(acordar é um choque épico
e eu era a rival da minha avó)

*

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

correria

líria porto

os dias passam
como se usassem patins
voam e trepidam

*

(in)flexível

líria porto

mudo de ideia
mudo de posição
mas não fico mudo
nem cego nem surdo
perante a injustiça
:
não sou uma pedra

*

enxurros

líria porto

como o trovão e a nuvem
papai dava a bronca
eu chorava

(eu sou a cara da chuva)

*

terça-feira, 18 de outubro de 2016

(des)conhecimento

líria porto

cerramos as pálpebras
reviramos os olhos
miramos o inconsciente

(decifremos nossos códigos)

acordados
nossas pupilas perscrutam
a realidade?

(nós temos dois mundos
o de dentro o de fora)

*

affffffffffffff

líria porto

a fama da foda
a fêmea do fubica
a fístula da febre
a fofura da filha
o furo da fábula
:
a fofoca

*

poetice

líria porto

a vida num parágrafo
talvez numa estrofe
numa trova

não há rimas
para flores que aportam
no pântano

*

ponto de ônibus

líria porto

ao meio-dia
finquei-me igual prego
em cima da sombra

*

domingo, 16 de outubro de 2016

haicai

líria porto

sábado de outubro
a lua feita a compasso
embrulhada em nuvens

*

uterino

líria porto

alimento colchão filtro
seja o que for é um tanto nojenta
a placenta

quando fiquei pronto e vi o mundo
berrei como um bezerro

*

sábado, 15 de outubro de 2016

obesidade

líria porto

perdeu a noção dos limites
invadiu as próprias bordas
produziu estrias

*

mazela

líria porto

é que o marido da bela
cheirava a naftalina
(chego a ter pena)
aquela moça menina
tão recatada do lar
deitada na mesma cama
que o mordomo do castelo

*

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

vento em popa

líria porto

o marido abominava
as calçolas no arame

(cuecas podia)

madame radicalizou
deixou de usá-las

*

à queima roupa

líria porto

bastava um tiro
o resto era tara
de assassino

*

fictícios

líria porto

não o que fomos o que somos
mas o que gostariam que fôssemos
no que poderiam nos transformar
:
assim nos amam
como seres imaginários
como personagens dos seus sonhos

*

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

destilado

líria porto

toda vez que a gente dorme
bebe uma dose de morte

(se for um copo desmalha)

no dia do sono eterno
entorna o alambique 

*

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

picadeiro

líria porto

a vida me diz – tu não podes
passo debaixo da lona e assisto o final
do espetáculo

*

domingo, 9 de outubro de 2016

custosa

líria porto

um redemunho na testa
outro no cocuruto
a menina não tem peia
não mandam nela
os adultos

é fazedora de arte
queixa-se a mãe para a avó
e a caduca a aplaude
tem uma herdeira
isso é ótimo

*

cirandinha

líria porto

belas manhãs
claridade
a primavera é uma festa
além das flores
nas árvores

*

do avesso

líria porto

entre nós – furos
desculpas esfarrapadas
e por debaixo dos panos
a vida sem alinhavo

*

meia lua

líria porto

papoula cor de uísque
vou na proa dessa barca
sem leminski
:
só com alice

*

sábado, 8 de outubro de 2016

mandamentos extras

líria porto

não trazer para casa o que não podes comer
não adquirir o que não ousas usar
não dizer sim para todo prazer
não soltar a franga

*

abandono

líria porto

fez mais que o necessário por um resultado
e o que obteve foi proporcional ao contrário
de tudo que sonhava

(no caso houve sorte
livrou-se do encosto)

*

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

somenos

líria porto

a nossa pele do avesso
e ninguém vai saber qual é branca
qual é preta

*

lanterninhas

líria porto

o sol cai
estrelas brilham
clareiam a trilha
pra lua reinar

*

nosotros

líria porto

os ossos todos juntos
na mesma vala comum
ou então as nossas cinzas
numa única urna

(que nada e ninguém nos distinga
pelo que um dia fomos ou parecíamos
ser)

mendigos e príncipes

*

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

temperamentais

líria porto

pessoas como cactos
polpa carnuda flores
cuidados simples
e unhas

*

violência

líria porto

o amor é caro
o ódio – produto gratuito
distribuído pelas redes sociais
(muita vez às escondidas
em conversinha privada)
é também panfletado
nas ruas

(ouve o som das panelas)

*

gota d'água

líria porto

a fonte secou
a sede não cede
e o que pedem?
:
(h)umi(l)dade

*

alvará de soltura

líria porto

a verdade possível
é a que podemos acreditar
aquela mesclada de pequenas ilusões
capazes de apaziguar nossas
consciências

*

passagem

líria porto

atrás da neblina o sol
o farol que ilumina o caminho
e indica a direção

*

excitação

líria porto

lava
do porão à proa
e mesmo que navegue
ou naufrague
o mar não apaga
esse fogo

*

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

príapo

líria porto

deus menino tem um pinto
o dia a brincar com ele
o pinto dorme ele acorda-o
acaricia-o e sente
aquela grande alegria

deus menino tem um pinto
(mais importante que ele)
que um dia vai ser galo
e ser o rei das galinhas

*

saudosismos

líria porto

tenho um cofre para guardar ninharias
quando não me resta coisa alguma
elas me aliviam

(um caco de xícara uma flor seca
um disco quebrado
a bandeira ultrajada do meu país
a roupinha velha do meu filho)

*

o pastor

líria porto

vendia lotes no céu
mas não garantiu o seu
no dia que ele morreu
o diabo amarrou-o
enfiou-lhe um tridente na bunda
chamou-o de concorrente
levou-o para as profundas

*

lábia

líria porto

nesse jogo de palavras – além da língua
vence quem tem saliva

*

o plano

líria porto

uma navalha
um talho na jugular
o vermelho a tingir-lhe a blusa
e tudo se acaba

(abrir os pulsos
caiu de moda)

*

domingo, 2 de outubro de 2016

carcomido

líria porto

o prato que te ofereço
é marmita requentada
pois que perdi o traquejo
não faço mais pão de queijo
nem macarrão alho e óleo

proibiram-me os molhos
só bebo água e refresco
e o contexto é mais pobre
que os panfletos da igreja
e as notícias do governo

(que venha a morte mas antes
a revolução)

*

hipnose

líria porto

os tiranos têm um imã
um brilho agudo

(serpentes
olham fixo
e devoram
passarinhos)

*

sábado, 1 de outubro de 2016

nem vem

líria porto

(sou de paz
mas pombos não cagam
em meu ombro)

*

biológica

líria porto

às vezes fico flora de mim
às vezes fico fauna
e viro bicho

*

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

trivial

líria porto

separo os feijões pro lado
os murchos os carunchados
os outros vão pra panela
cozinham sob pressão
:
fritar o alho a cebola
umas tirinhas de bacon
juntar os grãos bem cozidos
deixar engrossar o caldo

com arroz carne e couve
(alguma farofa?)
garanto-te – é pra lá
de bom

*

o cão

líria porto

o sol morde
o vento sopra
a brisa lambe

*

involução

líria porto

descendo do macaco
sou o primata o bicho o fóssil
o homúnculo que vive na selva
de pedra

*

ninhada

líria porto

no mês de setembro
nascia-lhes o sexto filho
exatamente no dia
que leda fez oito anos

completei sete em outubro
lizete seis em dezembro
em junho a ana fez quatro
em novembro o ciro fez dois

depois do césar mais três
(a wânia a tânia o cícero)
mas meu pai ficou frustrado
queria onze meninos
:
um time de futebol

*

fracasso

líria porto

fui poeta – não sou mais
passarinhos roubaram-me o verso
fico a chocar palavras
nenhuma trova nenhum poema
só garatujas mal-ajambradas

*

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

ponte para o abismo

líria porto

para se forjar um golpe
juntar num mesmo balaio
analfabetos políticos
traidores e canalhas
um punhado de juízes
senadores deputados
procuradores polícia
novos ricos e egoístas
banqueiros e empresários
velhos casados com misses
delatores premiados
alguns fundamentalistas
pelegos de sindicatos
mais o apoio da mídia
e estará feito o desastre
o fim da democracia
o enterro da liberdade

*

terça-feira, 27 de setembro de 2016

crise

líria porto

sem profundidade sem superfície
quem puder me traga um copo d'água
com estricnina

cabocla

líria porto

tenho inveja não
nem de quem tem terra
nem de quem tem luxo
tenho inveja é de quem lê
de quem escreve sem erro

*

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

fartura

líria porto

benjamim da sorveteria
fornecedor de meu pai
ele chocava os ovos
mandava os pintos pra nós
meu pai os alimentava
até que virassem frangos

(nunca faltou-nos carne
nem bolos nem omeletes)

*

cismas

líria porto

marandovás em camadas
nos troncos das laranjeiras
eu tinha nojo e medo
porém pensava – veria
nascerem as borboletas

(para que servem as lagartas?)

*

delicadezas

líria porto

meu pai cimentou o quintal
em volta das laranjeiras
fez canteiros em relevo
e semeou esporinhas
:
as florinhas roxas
brancas cor-de-rosa
povoam-me ainda
os olhos

*

dias de são nunca

líria porto

conquanto nossas angústias
perpassem quaisquer milênios
sabemos que as petúnias
florescem desde setembro
e tingem com a cor fúcsia
canteiros dos quais me lembro

(nós fomos crianças juntos
subimos em paus-de-sebo
fizemos graças bagunças
vivemos sem arremedo)

domingo, 25 de setembro de 2016

o ovo

líria porto

o zero nada vale
o zero vale tanto
o zero não é o mesmo
conforme o lado
que esteja

*

rugas

líria porto

velho
é o homem encolhido
dentro da pele

*

a cura

líria porto

arrancar a crosta
lancetar a mágoa
deixar vir à tona
e drenar a dor
o ressentimento
:
quando necessário
afundar um pouco
e raspar o osso

(cicatriz não dói)

*

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

raia

liria porto

no pódio os masoquistas
nas arquibancadas
os sádicos

*

temporada de caça

líria porto

as verdades que inventam
(suas convicções
e razões inexplicáveis)
valeriam mais que provas
condenariam inocentes
protegeriam canalhas?

*

branca

líria porto

a bata de renda
que a lua usava
foi lavada pela chuva
e pendurada ao vento
no varal do firmamento

*

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

visão

líria porto

muita vez nos pomos
em seu ponto cego
o amor nos olha
mas não nos enxerga

*

segundo seu josé

líria porto

um amigo quando some
está a fazer besteira
ou fala de ti por trás
ou te prepara a rasteira

*

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

vaidade

líria porto

deus fez o homem
à sua imagem e semelhança
deu no que deus – arrogância

*

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

levianos

líria porto

sejamos honestos
tu não prestas eu não presto
mas somos muito melhores
que aqueles que nos acusam
sem provas

*

minguante

líria porto

de novo
a lua parece um ovo
e aparece no céu
para espiar o inferno
do povo trabalhador
que se sente ameaçado
por um governo de merda
que lhe caça os direitos

*

domingo, 18 de setembro de 2016

benigno

líria porto

correu atrás do amor
um tempão a persegui-lo
deu-lhe flores e bombons
e o amor igual um grilo
pulava dum galho noutro
então desistiu do amor
e buscou nalgum amigo
tudo que sempre quis
:
camaradagem

*



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

abro mão

líria porto

o finado teu marido
um finório conhecido
deitou-se na minha cama
rolou comigo achou bom
devolvi-o são e salvo
e ainda com saúde
:
a pensão é tua
já tive o meu quinhão

*

os critérios

líria porto

português e matemática
tirava notas ótimas
(tinha que saber)

história e geografia
tirava notas médias
(teria que estudar)

seria reprovada
por mau comportamento
ou pela cor da pele?

*

véspera

líria porto

ontem foi um dia feio
na verdade um dia péssimo
de pensamentos confusos
pancadas na minha testa

ontem foi um dia estranho
de pedras e metais duros
levei mil tiros nas costas
com pregos e parafusos

ontem foi um dia extenso
durou muito mais de um século

*

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

desmedida

líria porto

quem é aquela mundana
que vai pra a rua sem roupa
que sem pudor sem juízo
provoca o sol e os poetas?

quem é aquela maluca
com jeito de mulher-dama?

*

fossa

líria porto

sentia-se um lixo
nem o laxante o ajudava
precisava escorrer o chorume
convocar urubus livrar-se da carniça
voltar a ser osso duro
:
cortou os pulsos

*

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

rebarba

líria porto

casamentos são monógamos
casamentos são monólogos
casamentos são monótonos
casamentos são monóculos
casamentos são o canto
de falos e falas
falidos

*

envolvimento

líria porto

há o que se fala em tese
há o que se fala com tesão
:
um é da boca pra fora 
o outro é da pele
pra dentro

*

domingo, 11 de setembro de 2016

sinceridade

líria porto

preciso um apagador
pra desmanchar o que fiz
não o quiseste
era giz

(a dor
esta não conta)

*

descabreado

líria porto

ir por aí
sem norte
tal como fosse
um nenhum
sem documento
sem renda
só à procura
de rima
de algo que
por sensível
não me ferisse
de morte

*

lorota

líria porto

não levem ao pé da letra
toda verdade que dizem
falam pelos cotovelos
a maior parte
                     é vertigem

*

homens

líria porto

beberam-me à jugular
a poesia que eu tinha
precisei ficar sozinha
pra poesia voltar

(amores são vampiros)

*

sábado, 10 de setembro de 2016

piração

líria porto

o girassol ficou louco
a causa todos sabemos
aquela ideia fixa
olhar o sol na pupila
até cozer o miolo

*

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

dissimulados

líria porto

em algum lugar de nós
os pensamentos
as lembranças
porém em nós há um pântano
onde se afundam
em segredo
medos pecados e culpas

(esquecemos
por defesa
nossos pedaços
mais sujos)

*

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

vaivém

líria porto

a vaia voa
viaja
vai à veia
do velhaco
e o vaidoso
o vendilhão
viciado
em vanglória
em vale-tudo
é varrido
pra valeta
onde vivem
as varejeiras

(vê-se
num vapt-vupt
em desvantagem
vertiginosa)

*

mapa

líria porto

da praça sete à casa
subia a avenida afonso pena
virava à esquerda na getúlio vargas
chegava à contorno com rua do ouro
e ali mesmo subia a pouso alto
até a salutares

porém se tinha pressa
pela altura da praça tiradentes
pegava o atalho da aimorés
em direção à serra

(abraçava-a ofegante e um tanto cansado
aquele amante)

*

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

tropa de choque

líria porto

pelo andar da carruagem
ameaças ao futuro
eles voltaram ao poder
o abuso da polícia
continua

*

fogo cruzado

líria porto

quis enquadrar-me
colocar-me na mira
escapei
:
não sou a mãe do seu filho
nem sua refém

*

terça-feira, 6 de setembro de 2016

cartilhas

líria porto

semear letras
ao brotarem as palavras
colhê-las em ramalhetes
e ofertá-los às crianças
:
livros são buquês

*

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

sangria

líria porto

dei de ficar no quarto
só saio com verso pronto
perco parte da manhã

esse verso miserável
que me rouba o melhor sol
não vale um tostão furado

(falta-lhe vitamina d)

*

serragem

líria porto

tem gente que é cara de pau
tem gente que é fogo de palha
tem gente que é duas caras
e mentiroso e covarde

*

domingo, 4 de setembro de 2016

fraudes

líria porto

personagens de nós mesmos
inventamos sobre nós o que queremos
e passamos fielmente a acreditar

*

existência

líria porto

viver é poema épico
(solene como um soneto)
porém morrer é haicai

*

sal na boca

líria porto

tudo fosse estranheza
chorássemos o gosto – o sacrifico
do porvir

*

acabada

líria porto

pesadelos trituram-me as noites
transformam-me o repouso em aflição
dói-me a carne doem-me os ossos
(os pentelhos)
já dei coices no espelho e até na sombra
:
eu fui ferida de morte

*

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

nódoa

líria porto

a cada etapa da vida
viramos a página – algumas naturalmente
outras muito constrangidos

(assaltaram minha pátria)

*

o substituto

líria porto

sempre a tramar o golpe
que em eleições livres sequer seria
o síndico do edifício

*

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

colírio

líria porto

meus olhos
ficam claros quando choro
tenho lágrimas corrosivas
capazes de apagar
as nódoas

*

misógino

líria porto

não sei se consigo
com quem mais viesse
cercar o maldito
fazê-lo sentir-se
frágil acuado
tal como as mulheres
que ele humilha
com gestos palavras
de forma covarde

*

terça-feira, 30 de agosto de 2016

inesquecível

líria porto

então vieste senhora
diante dos teus algozes
dos seus focinhos dentuças
revelaste as artimanhas
e as entranhas do golpe
travestido de impeachment
(o que existe em suas tripas)

com galhardia e honra
e pela democracia
(ainda que ela sucumba)
terás lugar na história
:
volta querida

*

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

o suplício

líria porto

na verdade
há muita mentira
jogo de interesses
quem aponta o dedo
cheio de certezas
veio para a ceia
como fosse judas
por trinta dinheiros
e por traição

*

pandilha

líria porto

piores que tsunamis e tornados
o congresso do momento
sua corja de calhordas
e canalhas

*

rapina

líria porto

urubus rondam o congresso ratazanas
afiam os dentes aguardam para breve
a decomposição da carne as vísceras
da democracia

*

nocaute

líria porto

o verso pode ser
um murro com luva de boxe
(só a pancada – o choque)
nada de moralismo romantismo
auto-ajuda
ou luvas de pelica

*

a prova

líria porto

cinquenta e quatro milhões
noves fora - nada?
:
sem crime é golpe

*

domingo, 28 de agosto de 2016

modismos

líria porto

entrar na onda
é pra quem fica
na areia
:
vivo em alto mar

*

sepulcro

líria porto

na parte que me cabe neste minifúndio
exato o tamanho de uma campa
gravem este epitáfio sobre o mármore
:
aqui jazz um samba

*

sábado, 27 de agosto de 2016

arremesso

líria porto

conforme pronunciada
com raiva ou ternura
uma palavra se torna
pedra
                 ou pluma

*

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

estrelato

líria porto

a beleza que persigo
tanto se esquiva de mim
alguma coisa de rita
e muito de marylin

(howard e monroe)

*

velho

líria porto

o ofício dos ossos a capa de pele
a carne que sofre a morte
que em breve

*

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

trem de doido

líria porto

homossexuais rebeldes
desajustados
briguentos contestadores
grávidas violadas pelos patrões
viciados epiléticos bêbados
putas – todos para barbacena
é lá que se faz o controle
:
uma viagem sem volta

(prendam-me em camisa de flor)

*

pernoite

líria porto

achei que morava em mim
mas não – sou apenas hóspede
deste quarto/ sala
:
só trouxe a muda de roupa
à manhã já vou-me embora

*

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

cirrose

líria porto

as dores no fígado
(havia outro verso aqui)
podem levá-lo a óbito

a vida cobra com juro
cada dose de bebida

*

autobiográfico

líria porto

que papelão – um lapso
e tudo ficava escrito
não tinha como
evitá-lo

(vivia nas entrelinhas
nos pés de página)

*

terça-feira, 23 de agosto de 2016

o vinho

líria porto

uvas pisoteadas
a cada estouro das cascas
o caldo tinto – tu vinhas
comemorávamos
o pão eu fazia em casa
o amor trazias
do minho

*

caça

líria porto

sobretudo sobre nada
como um poeta sem tema
que só persegue
a palavra

*

malcriação

líria porto

a criança é queixo duro
mas levar tapa na boca
antes de acabar de falar
isso só piora as coisas

*

medalha

líria porto

a bandeira brasileira
a nação alegre
yellow red

*

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

mulher

líria porto

lua cheia lua nova
lua crescente lua minguante
lua azul lua de mel lua de papel
lua só
:
nua

*

domingo, 21 de agosto de 2016

bem-vinda

líria porto

a chuva penetra o chão
dá de beber à floresta
alimenta os rios

*

ambíguo

líria porto

silhueta duma santa
e eu que nasci ateu
implorava àquela virgem
tirasse do meu caminho
aquele cristo cruel
que me batia de dia
e à noite
em minha cama
vinha extorquir meu corpo
furar-me com seu espinho
lamber-me o sangue
e o mel

*

a professorinha

líria porto

vou te ensinar passarinho
faz assim – balança as asas
dá um pulinho e voa

*

checkup

líria porto

olha as calhas os rufos
vê o estado das telhas

limpa os ralos os bueiros
a água não se acumule

a chuva é benfazeja
mas pode nos desabar

(a casa qual nosso corpo)

*

sábado, 20 de agosto de 2016

roteiro

líria porto

quanto me arrependo
não ter conduzido
com mão forte e firme
o leme as rédeas

o tempo não para
o vento prossegue
esparrama os sonhos
e as folhas secas

e é por orgulho
talvez covardia
que vagueio solta
barco à deriva

*

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

o galego

líria porto

terezinha por favoire
nosso amoire – o joaquim
sei que é teu mas bem podias
emprestar-mo sem reservas
seus bigodes aprumados
quando esfregam minhas pernas
fazem cócegas me animam
e eu me quedo tão feliz

(prometo-te
devolvo-to inteiro
sem faltar
nenhum pedaço)

*

solas

líria porto

descalço despercebido
lidava com a timidez
mas com roupa de domingo
a igreja abarrotada
na hora da eucaristia
um vexame
:
suas botinas chiavam

*

dodói

líria porto

mija fogo caga brasa
na toada mon amour
finca o pé segura o taco
ou serás em tempo breve
o próximo cadáver

*


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

proteção

líria porto

o que tenho no meio das pernas
vive esfolado – o jeito é tomar mais cuidado
e usar joelheiras

*

maravilha

líria porto

elke e eu
a mesma idade
ela morreu
vislumbro a lápide
a frieza do mármore
:
é sempre tão cedo
porém seja feita
a vontade da vida

(dorme criança
ri de deus atenta os anjinhos
e brinca de santa)

*

haicai

líria porto

a lua amarela
flor na lapela do céu
em noite de gala

*

companhias

líria porto

não era sozinha
tinha sua sombra
seus pensamentos
as lembranças
um ou dois espelhos
e ainda
sua autoestima

*

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

a louca

líria porto

sou eu mas não sou
pois que perdi o controle
posso passar por mim
dizer bom dia boa noite
reconhecer-me de longe
quem dera de algum lugar
em que alguém me afirme
saber de mim mais
que eu mesma

*

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

i(r)mã

líria porto

coincidência ou acaso
destino – seja o que flor
tropecei nas tuas pétalas
só assim me perfumei
e tantos anos depois
também tu tens o meu cheiro
estejamos longe
ou perto

*

origamis

líria porto

mãos livres
fazem dobraduras
papéis ganham o espaço
voam como pássaros
como aviões

(o papel do papel
é ser outra coisa)

*

acertos

líria porto

a coisa está braba
a dupla discute
periquito fala
a fêmea retruca
ela reivindica
direitos iguais
se houver acordo
o casal arrulha
acaso não haja
acabam com tudo
desfazem o par

*

fragrâncias

líria porto

ele enfia a cara
entre suas pétalas
parece que a dona
(pele perfumosa)
tem dentro um jardim
que ele pesquisa
como cientista
seres que procuram
a suprema essência
ou a própria origem

*

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

receita

líria porto

quiseram fazer de mim uma mulher direita
trocaram os ingredientes
deu no que dei

*

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

da sucursal do inferno

líria porto

de hoje em diante
(dez de agosto de dois mil e dezesseis)
todo inocente será réu
e deverá ser punido exemplarmente
:
ladrões criminosos usurpadores
juntamente com a cambada de congressistas
juízes banqueiros empresários latifundiários mídia
representantes das elites e da direita
terão vida boa e o dever de tornar cada vez pior
o salário e os dias do povo

escolas sem partido conduzirão à alienação
serão abolidos os direitos individuais e trabalhistas
sucateadas a saúde e a cultura
dilapidado o patrimônio público e instituída
a exclusão das minorias

pérolas aos porcos

(as reclamações
dirijam-nas
ao mordomo)

*

caliandra

líria porto

eu não sei dizer
quantas vidas tenho

nasci no cerrado
morri tantas vezes

resisti às secas
aos ventos incêndios

espinhos existem
são minha defesa

machuco as serpentes
toda vez que tentam

destruir os ninhos
que eu guardo dentro

*

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

gravidade

líria porto

ô vida dura
a gente luta emagrece
pensa que pode tudo
então bambeia o espartilho
e os peitos batem
à cintura

*

platônicos

líria porto

eu aqui tu aí e a lua lá
a aboiar as estrelas puxar as marés
rolar como louca ao redor
do sol

*

perspicácia

líria porto

tímidos e tristes
(observadores)
para disfarçar
usam ironia
um humor sagaz
(beiram o sarcasmo)
porém sentem afeto
por pedras
palavras
cães
gatos
cigarras

(uns são poetas
palhaços de circo
bichos do mato
veterinários)

*

domingo, 7 de agosto de 2016

rolo

líria porto

amava-me como se ama os amigos
e me achava meio doida – eu era doida por ele
o miserável fingia não ver e eu fingia gostar dele
como amigo

*

reflorestamento

líria porto

vovós – árvores frondosas
nascidas em terra fértil

sombra folhas flores frutos
os netos novas sementes

vovós somos matas
virgens

*

sábado, 6 de agosto de 2016

condenação

líria porto

moro sobre a cratera
houve-se um estrondo
um tremor de terra

se houver injustiça
quem vai penar no inferno
é o juiz

*

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

responsabilidades

líria porto

querer eu quero
poder eu posso
será que devo?

minhas palavras
não têm o peso
do meu silêncio

quando me calo
torno-me cúmplice
(eu sou covarde?)

porém se falo
eu pago o preço
(desço do muro)

*

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

gesto

líria porto

estreita-se a vida
a morte me espreita
e para enfrentá-las
(não com desrespeito)
dou uma banana
pra cada

*

terça-feira, 2 de agosto de 2016

desequilíbrios

líria porto

os que abusam da força
do poder da autoridade
são eles próprios covardes
fracassados impotentes

*

a esmo

líria porto

sem razão explicita
e no meio do nada
a vida faz curva
:
aonde vai a estrada?

*

desalento

líria porto

além da pele
secaram-se-lhe a alma
o desejo
desgraça pouca
é bobagem

(e a vida se escoa
e a morte não chega)

*

domingo, 31 de julho de 2016

tapa-buracos

líria porto

madame não mais o quer
então vem pra minha cama
sussurra-me o nome dela
fingimos que nos amamos
(também não tenho ninguém)
e a gente se locupleta
e a gente parece outro

*

sábado, 30 de julho de 2016

do aprendizado

líria porto

colo de mãe – terra firme
de onde se aprende a partir
navegar em mar revolto
voltar com o barco repleto de peixes
e as mãos em concha

*

sexta-feira, 29 de julho de 2016

figurante

líria porto

uns mais outros menos
na escola e na vida
fomos ou seremos
meros passistas
sem nenhum destaque
sem nenhuma alegoria

(da ala das baianas
sei que vou sambar
nua na avenida)

*

quinta-feira, 28 de julho de 2016

desuso

líria porto

deu teia de aranha e até picumã
mas o compadre chegou e a viúva
está salva

*

árido

líria porto

quem é do deserto
só conhece areia
não sabe o que é
terra fértil

*

consentimento

líria porto

fulano levanta minha saia
alisa-me debaixo da mesa
falo entredentes – canalha
sento-me sempre
junto dele

*

quarta-feira, 27 de julho de 2016

desigualdades

líria porto

amontoados nos morros
casebres de taipa latão
a dura vida dos pobres

a confrontá-los mansões
quem tudo tem tudo
phode

*

avozear

líria porto

faz-me de gato e sapato
e por querê-lo consinto-o
finjo-me aborrecida
no entanto rio-me
oceano-me
transbordo a bordo
de um menino

*

checkup

líria porto

fiz exames
passei nas preliminares 
o sangue é bom

(falta vasculharem as entranhas
remexerem as profundezas)

*

pé atrás

líria porto

estranhamo-nos – desconfianças à baila
olhares enviesados perguntas plenas
de espinhos

*

pouquidade

líria porto

há quem consiga
mudar de par todo dia
como trocasse a roupa
e preenchesse os vazios
que só se completariam
com novos acessórios

*;

terça-feira, 26 de julho de 2016

formosa

líria porto

maria não passa batom
nem precisa – é bonita
de nascença

*

desencontros

líria porto

repartida em gomos
uma bergamota
a terra
os meridianos
essas longitudes
greenwich é zero
nada mais importa
pois a nossa hora
jamais coincide
:
anoiteço
amanheces

*

segunda-feira, 25 de julho de 2016

editoras

líria porto

desconheço o mercado
e não sei vender meu peixe
então pesco pra consumo
meu e dos meus amigos
:
àqueles que me procuram
que apreciam o (des)tempero
há sempre um lugar um naco
alimento-os com fartura

(comemo-nos em prato fundo)

*

domingo, 24 de julho de 2016

benzedura

líria porto

uns mais uns menos
os medos que temos
dos sacripantas
:
um ramo de arruda
sal grosso água-benta
adiantam?

*

dos milagres

líria porto

o vosso deus
que acreditais e eu não
o arquiteto do mundo
fez tudo bem – tão perfeito
(vede as margaridas)
que às vezes penso
o sujeito
deve ser deusa

*

sábado, 23 de julho de 2016

o mexicano

líria porto

com seu chapéu
fazia-me sombra
cobria meu corpo
com o poncho

para minha boca
seus bigodões

*

jaulas

líria porto

nascidos para os espaços
confinados em gaiolas
homens bichos
e pássaros
:
rebeliões

*

quarta-feira, 20 de julho de 2016

desejo

líria porto

se esta lua fosse tua
eu mandava sequestrá-laa
só para tê-la sozinha
na intimidade

*

fracassados

líria porto

mulheres de grelo duro
tememos pinto mole
e saco murcho

*

recatada

líria porto

atrás da moita
uma enguia a lamber sua ervilha
e por trás um pau em riste

*

haicai

líria porto

sem nenhum recato
a lua rola no céu
alta madrugada

*

terça-feira, 19 de julho de 2016

intuição

líria porto

na ponta de uma sonda
lá de longe
muito além das nuvens e dos muros
onde nenhum homem chegaria
pode-se ver tudo
                       de olhos fechados

*

misturas

líria porto

a perfeição é fria
a face dos espelhos

a possibilidade dos cacos
(do caos?)
dos pedaços erros e defeitos
faz a diferença

prefiro os mosaicos
prefiro os mestiços

*

segunda-feira, 18 de julho de 2016

(des)equilíbrio

líria porto

pendemos pra um lado e outro
até que o vento decida derrubar
nossa sombrinha
:
vivemos na corda bamba

*

domingo, 17 de julho de 2016

atropelos

líria porto

vento sopra e folhas secas
disparam rumo ao pátio
como borboletas
em tempo de migração

*

eureka

líria porto

tem dia que de noite
acende-se uma luz
e quando a gente acorda
além do sol
a solução

*

sopro

líria porto

quando eu me for
não lamentes
o corpo é a maior prisão
voltarei pelas mãos do vento
onde estiveres
estarei
:
prometo

*

sexta-feira, 15 de julho de 2016

escândalo

líria porto

no espaço público
presos por gestos obscenos e atentado ao pudor
orquídeas e antúrios

*

septuagenários

líria porto

vinhos de boa safra
sem avinagrar sem perder
o buquê

*

quinta-feira, 14 de julho de 2016

egoísmo

líria porto

fechados dentro de noz
na escuridão de nós mesmos
se não quebrarmos a crosta
seremos sós para sempre

*

quarta-feira, 13 de julho de 2016

peso

líria porto

na cidade dos pés juntos
ninguém usa balança

*

matinê

líria porto

a sessão começou
segurou minha mão
tremíamos

(olhos fixos na tela
o namoro durou
duas horas)

*

terça-feira, 12 de julho de 2016

calcanhar de aquiles

líria porto

se quiseres vem
não vou me arrastar a teus pés
:
pensando bem
por que não trocas as meias
por verdades inteiras?

*

o viúvo

líria porto

o perfume as roupas
o leque que ela usava
mas minha pele é outra
não quero mais consolá-lo

(eu não morri)

*

domingo, 10 de julho de 2016

julgamento

líria porto

tudo a ver – nada haver
nenhum documento
evidência
:
nesse vácuo somos gado
rumo ao matadouro

*

puta que me pari

líria porto

sou minha própria ancestral
nasço e renasço é de mim

*

retrovisores

líria porto

aos setenta não olho os pés
nem os peitos nem as pernas
aos setenta olho à frente
também olho para os lados
pra não cair no buraco e nem ser
abalroada

*

destruição

líria porto

maria matou o marido
não foi com tiro ou com faca
matou-o com as palavras
e ele ficou tão sumido
perdido dentro do nada
que ela sentiu sua falta
e foi buscá-lo no bar

(um pudim de cachaça)

*

sábado, 9 de julho de 2016

chamado

líria porto

a lua na greta
abri a porta a cancela
espetei-me nas estrelas

*

tendência

líria porto

a gente cresce encorpa
incorpora à carcaça uma camada
por década

*

sexta-feira, 8 de julho de 2016

ressaca

líria porto

como fosse um lago
(o oceano dentro)
aparento calma

(transbordo
no centro)

*

a sete chaves

líria porto

por meu intermédio
os amigos comuns
jamais saberão
de ti

então não perguntes
o que sei sobre eles
segredos eu levo
pro túmulo

*

pintura

líria porto

maricota – olha a janela
parece que o sol derrama
purpurina lá na serra

*

terça-feira, 5 de julho de 2016

óbito

líria porto

ao chegar a minha hora
quero morrer como um forte
quem falece não fecha os olhos
:
quero a morte sem floreio

*

aleitamento

líria porto

grudado a seu úbere
o bezerrinho bebia mimosa
com sofreguidão

*

recreio

líria porto

bando de andorinhas
as crianças de uniforme
no pátio da escola

*

segunda-feira, 4 de julho de 2016

para encurtar a saudade

líria porto

ficas de lá da serra
eu de cá sem nem te ver
queria abrir a porta
correr pelo mundo
(eu iria tu virias)
abraçar-te em linha reta
nenhum cansaço
obstáculo
:
só tu
e eu

*

deboche

líria porto

pode rir
dizer-se feliz
eu não creio

não me parece alegria
a risada da hiena

*

domingo, 3 de julho de 2016

saca-rolhas

líria porto

precisou furar-me a goela
para me arrancar palavras

e o que foi que eu lhe disse?

vai-te à merda
coronel

*

d'amoníaco

líria porto

bebo a chuva bebo o rio
bebo o orvalho os olhos d'água
e sinto cheiro de mijo

(saudade de um outro tempo
sem a boca amarga)

volta querida

*

sábado, 2 de julho de 2016

desastroso

líria porto

tua própria falta
mais a outra falta

os tonéis vazios
morrer pela sede

dar c'os burros n'água

*

sexta-feira, 1 de julho de 2016

clandestino

líria porto

nem aqui nem aí
sem rg e sem cpf
no cu do mundo

*

a ponte

líria porto

um arco-íris
que nasce na tua janela
e morre na minha

*

quinta-feira, 30 de junho de 2016

azarão

líria porto

não vou apostar na mula
quero mesmo é uma zebra
para acabar co'as certezas
e galopar nessa dúvida
que alimenta a corrida

(adeus sorriso amarelo)

*

boca amarga

líria porto

um jeito obeso de vida
(doces bolos chocolates
e demais pecados)
e um estilo sedentário
podem nos matar
mais cedo

também dizem
ninguém morre
antes da hora

vai aí um chá de boldo
ou a torta de morango?

*

renúncias

líria porto

fosse muito abriria mão
mas é pouco – não posso me dar
ao luxo

*

quarta-feira, 29 de junho de 2016

aninha

líria porto

ela vende muamba da china
eu quero comprar um chinês
de olhos bem puxadinhos
sorriso fácil pelos lisos
para brincar comigo
ensinar-me a comer com palito
e a falar mandarim

(peço socorro
ela aninha-me)

*

truz

líria porto

o vento é veloz é voraz
e na sua avidez faz beatriz
esconder-se detrás do capuz

*

misturas

líria porto

teu corpo/meu corpo
um só corpo

arroz/feijão –– pão/manteiga
café com leite

fusão

*

terça-feira, 28 de junho de 2016

equipe

líria porto

sem a proteção da rainha
dos peões
dos cavalos torres e bispos
o rei do xadrez
sequer chegaria a príncipe

*

segunda-feira, 27 de junho de 2016

vingança

líria porto

não carece d'água
basta ir à forra
pra lavar a alma
:
pra lavrar a alma

*

a regra

líria porto

fácil não é – nem difícil
viver é possível e morrer
obrigatório

*

remédio

líria porto

meta a língua nos versos
nos poemas metalinguísticos
não os engula a seco
nem comprimidos

(especialista é que emite receita)

*

domingo, 26 de junho de 2016

em todo canto

líria porto

olhos para vê-la
ouvidos para escutá-la
olfato para senti-la
tato paladar
:
aqui ali lá
a vida faz sentido

*

sábado, 25 de junho de 2016

familiar

líria porto

a terra em torno do sol
e em volta de si a lua
sua única filha

*

quinta-feira, 23 de junho de 2016

insucessos

líria porto

a inveja trava-nos
faz-nos incapazes
de seguir em frente

a inveja é treva
é luz que nos cega
fura-nos os olhos

(inveja é fracasso
caruncho por dentro
e por fora)

*

quarta-feira, 22 de junho de 2016

fases

líria porto

um riso uma taça uma bola
um ovo uma foice
uma vírgula
:
a lua de todas as formas
no espaço público

*

folia

líria porto

falo-te – vais falhar falir
resfolegar na fuligem
do teu próprio fumo

(soçobrarás pedra
sob pedregulhos)

*

visão

líria porto

quase sete horas
a lua de xale rosa
qual fosse uma ninfa

*

terça-feira, 21 de junho de 2016

drogas

líria porto

as dores são múltiplas
agudas ou crônicas
e fincam e queimam
e ardem nas vísceras
nos músculos na pele
nas veias nos nervos
porém nos atestam
há vida
:
morte é susto – freada brusca
derrapada em despenhadeiro

(pretendo morrer dormindo)

*

segunda-feira, 20 de junho de 2016

na veia

líria porto

por fora todo sangue é azul
por dentro nem todos somos
nobres

*

tipos

líria porto

na juventude
frustrou-se consigo

seu sangue raro/egoísta
seria salvo por outros

mas só ajudaria
pouquíssimos

*

domingo, 19 de junho de 2016

língua portuguesa

líria porto

roça-me a boca
lambe-me os mamilos
faz cócegas entre minhas pernas
pergunta-me se o arrepio
é devido aos bigodes
ou ao inverno

*

sábado, 18 de junho de 2016

subconsciente

líria porto

u'a manada de búfalos
esmaga minha barriga
acordo com dor aguda

(acendo a luz a dor some
apago a luz vêm os tigres)

*

sexta-feira, 17 de junho de 2016

vampiro

líria porto

qual picolé de groselha
na boca de uma criança
tu sorves minha energia
eu fico quase sem sangue

*

folhetim

líria porto

a ti que me esqueceste
estes mal traçados versos
plenos de recordações
de desejos inconfessos
de um tempo
em que nós nos tínhamos
nas horas mais descabidas
nas sombras da escadaria
ou no elevador do prédio

(tu eras dono de mim
a tua dona era ela)

*

quinta-feira, 16 de junho de 2016

voraz

líria porto

o tempo engole tudo
a goela do tempo é o túnel
que acaba no cu do mundo

*

invernos

líria porto

com roupa a velhice engana
põe luva meia agasalho
consegue certa elegância

sem roupa – calamidade
é tanta ruga pelanca
eu quero a pele do armário

*

quarta-feira, 15 de junho de 2016

lembranças

líria porto

os sapatos velhos
estalos de folhas secas
nas solas dos pés

*

rasante

líria porto

voo de esfolar o umbigo
procuro poesia e só encontro
um pedregulho

*

terça-feira, 14 de junho de 2016

prazer

líria porto

a roupa limpa passada – com cheiro bom de manhã
penduro-a no armário como se ainda morasse
em meu corpo de criança
:
respiro fundo e me sinto
purificada

*

segunda-feira, 13 de junho de 2016

altamiro

líria porto

dá duro na enxada
(mísero salário)
e ao final da lida
(mãos calejadas)
os goles no bar
:
na rua os meninos
criados sem pai

*

bígama

líria porto

a poesia madruga
a militância anoitece
eu vivo entre elas duas
minhas amantes
mulheres

*

impaciência

líria porto

o tempo não para
as horas expiram
porém o futuro
sequer o vislumbro
:
cansei-me da espera

*

domingo, 12 de junho de 2016

assaz sina

líria porto

a morte é de morte
mata tudo e todos
e isso não é vida

*

(des)aparição

líria porto

de cá da neblina
como se fosse um fantasma
o espectro do sol

*

sexta-feira, 10 de junho de 2016

foice

líria porto

a inocência
ceifada antes do tempo
qual pluma – sem rama
sem rima sem rumo
à mercê do vento

*

atitude

líria porto

aí me lembrei de bombril
(axilas – pelos pubianos)
mil e uma utilidades
mulheres na pia
e na cama
:
telefono e peço
pizza

*

quinta-feira, 9 de junho de 2016

das delações premiadas

líria porto

no vai e vem das palavras
nas intenções corrompidas
(manipulação dos fatos)
os delatores se prestam
(com o aval dos juízes
cumplicidade da mídia
e para se safarem)
a rechear as verdades
com fatias de mentiras
e desconfiança
(tudo bem engendrado)
:
entre notórios bandidos
introduzem gente limpa
que pelos seus compromissos
convicções atitudes
contraria interesses
escusos

(volta querida)

*

quarta-feira, 8 de junho de 2016

cãs

líria porto

quando ficarmos velhas
se parecermos uns cacos
nós montaremos mosaicos
encantaremos nos palcos
dos nossos netos

*

fatalidades

líria porto

não acontecem comigo
como não? não tenho estrela na testa
nem sou melhor que ninguém

(eu que tome tento)

*

vai-volta

líria porto

em hospitais pobres
caixão conduz um cadáver à cova
e é trazido de volta para servir
outro defunto

*

cúmplices

líria porto

não era o marido
sequer namorado
ou amigo

talvez fossem parentes
(amantes)
estavam sempre unidos
mais que misto-quente

(eram o arroz
e o feijão)

*

terça-feira, 7 de junho de 2016

projeção

líria porto

o espinho veio com tudo
formou-se a poça de sangue
a dor fincou lá no fundo

fica a pensar num punhal
no brilho da sua lâmina
na palidez do defunto

*

mulher de palavra(s)

líria porto

falo o que sinto e pressinto
cumpro o que prometo
digo a verdade possível
e minto às vezes
(quase sempre pra mim mesma)

*

segunda-feira, 6 de junho de 2016

íngua

líria porto

perfuro-o com faca
o verso não sangra
parece batata
ou nabo
ou banana

na lâmina
a nódoa
e os nódulos
na garganta

a dor?
indizível

*

domingo, 5 de junho de 2016

sadismo

líria porto

amava as ervilhas
mas antes de mastigá-las
espetava-as uma a uma
divertia-se

*

colecionadores

líria porto

artigos poemas cartas
os livros que escrevemos
o que temos nos arquivos
nas estantes nas gavetas
nosso inventário de sonhos
pensamentos desejos delírios
frustrações

*

sexta-feira, 3 de junho de 2016

indigesta

líria porto

por fora branca
dentro sou negra
pele vermelha
oriental

gente e bicho
cuidado comigo
sangro
e sou fêmea
:
perigo para mais
de mil talheres

brocado

líria porto

forraram a noite com um pano escuro
tão velho e tão furadinho que através dele
a luz foge do céu

(estrelas são poás)

*

estilingue

líria porto

a caneta é meu bodoque
e as palavras são pedras que atiro
com a pontaria dos sentidos

*

pássaro

líria porto

se me cercarem
impedirem-me de sair pela porta
fujo pela janela e não cantarão vitória

(moro no nono andar)

*

terça-feira, 31 de maio de 2016

planejamento

líria porto

a casa a prole
o sustento
para o momento dois filhos
esta é a família possível
dentro de cada
orçamento

tudo na ponta do lápis
a vida o sonho
a alegria

*

segunda-feira, 30 de maio de 2016

bandoleiros

líria porto

papagaios
maritacas
(bicos duros)
quebram cocos
comem tudo
jogam cascas
pelas ruas
pelas praças
:
quem quiser
que limpe

*

deputar

líria porto

é de emputecer
que nessa disputa
a reputação
pese tão pouco

(qualquer puto ou puta
qualquer ficha suja
fica inimputável
e por isso esputo
cuspo
minha náusea)

*

sábado, 28 de maio de 2016

domingo

líria porto

maria levava um no colo
um outro ia no bucho
a prole toda miúda
enquanto seu homem
na rua
bebia co'as raparigas
assistia o futebol

*

fúria

líria porto

meu velho corpo
onde tudo sobra
abriga uma cobra
caninana

*

cortejo

líria porto

vovó seguiu viagem
para a terra dos pés juntos

sequer arrumou amá-la
ou preparou matula

vovó virou entrelinha

*

sexta-feira, 27 de maio de 2016

imaginário

líria porto

qual numa aparição
surges do pensamento
e eu te sinto tão real
como fosses carne
e osso

*

olfato

líria porto

farejo teu cheiro
como um cão fareja
a fêmea

(desejo afina
a saliva)

*

pa_la_dar

líria porto

chupar é verbo gozoso
lamber comer também são
a perdição pela boca
desde os tempos de eva
e adão

*

o pirulito

líria porto

três ninhos para um
passarim de galho em galho
a esposa a amante a amiga
:
o meu compadre definha
a olhos vistos

*

versinhos

líria porto

descolibri
um beija-flor sozinho
sem flor e sem ninho

*

quarta-feira, 25 de maio de 2016

posições

líria porto

estou entre aspas
vez por outra ponho-me dentro dos parênteses
porém - quando fico explícita - sai de baixo

*

terça-feira, 24 de maio de 2016

gravações

líria porto

pelas mãos do ministro
a revelação da tramoia
a ação dos golpistas

(exigimos a dilminha de volta)

*

segunda-feira, 23 de maio de 2016

alucinação

líria porto

tua ausência me rodeia
e do teu corpo de vento
sopras à minha nuca
palavras que não dirias

(será que fiquei maluca
ou são os meus pensamentos?)

*

o banho

líria porto

a bacia d'água
no quintal de casa
só pra ver a lua
nua como veio
ao mundo

*

puxa-saco

líria porto

pisca pisca
pirilampa
luz acende
luz apaga
faz de tudo
joga isca
dá presente
e rasteja
e bajula
e ri muito
:
não sabe viver
sem homem

*

domingo, 22 de maio de 2016

metamorfose

líria porto

sem que se perceba
as cidades mudam

sempre um edifício
a demolição

no espelho as rugas
os cabelos brancos

eu que sou assim
fui outra pessoa

a de ontem hoje
a de amanhã

*

fingimentos

líria porto

entre a morte
e a vida
encaro a primeira
que sua rasteira
é definitiva

(a vida
esta sorrateira
mostra-se bonita
porém bate
e mente)

*

fuga

líria porto

temia os desencontros
ia embora antes do fim
sem se entregar totalmente
sem deixar o próprio corpo
penetrar os labirintos
de alguém

sexta-feira, 20 de maio de 2016

zangão

líria porto

em meu velho coração
o menino fazia das suas – entupia-me as artérias
com uma cara tão séria que eu morria
de rir

*

histórias da vovozinha

líria porto

na ditadura dos ratos
a maldade prevalece
a negociata

os porcos e os insetos
tomam lugar nas pastas
no exército há gorilas
e os anjinhos são
morcegos

temer o quê?

*

quinta-feira, 19 de maio de 2016

o jogo

líria porto

mulheres com pele de loba
lobos com pele de homem
homens com pele de cordeiro
ovelhas com pele de mulher

*

linha de produção

líria porto

a gente branca planeja
a gente parda vigia
(capitães do mato)
a gente preta executa
e limpa toda a sujeira

e existe filho da puta
que chama isso igualdade
(em nome de deus)
mas nós sabemos quem lucra
quem é patrão
                        ou servo

*

quarta-feira, 18 de maio de 2016

arre égua

líria porto

um golpe a galope
no lombo o temer o cunha
o renan e a corja de terno
e toga

*

melancolia

líria porto

quem quer vinho venha
sente-se à mesa

vou servir do queijo
que trouxe de minas

pôr tocar um disco
do lucho gatica

relembrar um tempo
que já vai tão longe

que sumi de mim

*

segunda-feira, 16 de maio de 2016

o substituto

líria porto

mostra-se simpático age nos bastidores
e como quem não quer - crau
abocanha o que é do outro

(sempre um sorriso cretino)

*

disparada

líria porto

o tempo – esse quadrúpede
galopa salta relincha deixa poeira pra trás
e a gente vai na garupa

*

domingo, 15 de maio de 2016

suicida

líria porto

o que faço é no aberto
no espaço
não como um pássaro
(não tenho costas quentes)
eu me jogo – folha seca
e rodopio

(só o faz quem tem coragem
ou loucura)

*

sábado, 14 de maio de 2016

massa de manobra

líria porto

falo falo falo
confiro e observo
não há mulher no ministério
e os escrotos insistem
precisamos delas
na política

(belas recatadas do lar)

*

sexta-feira, 13 de maio de 2016

poema para silvana

líria porto

um ninho de guaxo
que abrigue pássaros
e gente de toda espécie
de todas as raças
que mantenha em sua palha
a democracia – aquecida
e no aguardo
de dias melhores

*

o cacete

líria porto

quem era doce
acabou-se
agora é pau
e hematoma

teremos tempos
amargos
de azedume
e violência

nos olhos gás
de pimenta
e seu (d)efeito
imoral

*

quinta-feira, 12 de maio de 2016

rabugenta

líria porto

cansou-se das palavras
não suporta ruído
nem ao menos silêncio
então se isola
põe-se a resmungar
conversar entredentes
murmurar absurdos

*

quarta-feira, 11 de maio de 2016

anúncio

líria porto

os que desejamos
são homens de fato
não ratos

(desses queremos distância)

*

lesa-pátria

líria porto

um golpe à solapa
(com a mão do rato)
pancada na nuca
assalto ao poder

de toga de terno
homens e mulheres
violam as leis
ou batem panelas

a mídia a serviço
(de verde e amarelo)
produz inverdades
camufla bandidos

os trabalhadores?
quais pobres diabos
largados à margem
do inferno

*

terça-feira, 10 de maio de 2016

códigos

líria porto

uma vida intensa
quase paralela
à vida dos dias
acontece à noite
enquanto dormimos
sem nenhuma lógica
com espaço tempo
acontecimentos
:
até mortos vivem
dentro do sonho
(e do pesadelo)
e não há distância
e nem paradigma
para o inconsciente

*

interpretações

líria porto

quero entender – não consigo
o que acontece contigo
pois desconheço meu íntimo
mas pensas que sabes tudo
e por isso me julgas

*

segunda-feira, 9 de maio de 2016

sem crime de responsabilidade

líria porto

uma onda
daquelas devastadoras
que invadem além da praia
e causam tantos estragos
à vida do povo
:
um tsunami
é golpe

*


maria-fecha-a-porta

líria porto

titia é assim – vexada
alguém a toca reflui
às vezes até se excita
mas fica ali no seu canto
sem muito viço
e sem luz

*

domingo, 8 de maio de 2016

vidraças

líria porto

dependentes de óculos
meus olhos – sem suas lentes
padeceriam de sombras

(outro vício?
a palavra escrita)

*

ludi

líria porto

miúda raquítica
crescia tanto quanto
qualquer um pão ázimo

um dia voltei
oh que maravilha
ela desbundara
tornara-se a mais notável
de todas as lindas
da nossa família

*

sábado, 7 de maio de 2016

plágio

líria porto

tudo é sentinela
que se piscar desanda
sai do prumo

*

dos ditos populares

líria porto

as seis dezenas
não acerta uma
ilude-se
azar no jogo
sorte no amor

retorna à casa
o bilhete
:
adeus marido
fui-me embora
o compadre
ganhou
na loteria

(desgraça pouca
é besteira)

*

fim de linha

líria porto

não te vi na quinta
nem na sexta-feira
hoje não posso
amanhã viajas
segunda é do cão
reunião na terça
futebol na quarta
assim adiamos
a tal pá de cal

(o amor aos trapos)

*

no olho da outra

líria porto

levaste-me para tua casa
(como num sequestro)
trataste-me como à tua mulher
depois saíste para encontrá-la
deste qualquer desculpa

(odiei trocar de papel)

*

sexta-feira, 6 de maio de 2016

tédio

líria porto

nos dias que os dias não passam
e as noites ficam mais longas
devíamos viver dobrado
porém ficamos exaustos
das nossas horas
de porre

*

fantasmas

líria porto

quem morre morreu mesmo
ou vive em outros planos
em outros panos lençóis
a assombrar-nos à sombra
no meio meio da noite
com suas vozes
além?

*

aurora

líria porto

a manhã
fala por si
sol

*

justiceiros

líria porto

destrinçadas as verdades
algumas ficam ocultas
:
ganha quem paga
para forjar testemunhas
e nem todos os juízes
são impolutos

(vez por outra
cortam a cabeça de algum
para limparem a barra
justificarem
o futuro)

*

quinta-feira, 5 de maio de 2016

a zebra

líria porto

quase um código de barras
vestido prêt-à-porter

*

escuridão

líria porto

campeio o sono por todo canto
conto os carneiros os bois as vacas

os passarinhos os pirilampos
todas as letras do dicionário

os grãos de areia lá do saara
as folhas verdes da amazônia

e as estrelas da via láctea

(monstros
golpeiam
a minha
pátria)

*

quarta-feira, 4 de maio de 2016

a vida

líria porto

cada dia um pouco
igual conta-gotas

vez por outra
alguém quebra
o frasco

*

segunda-feira, 2 de maio de 2016

haicai

líria porto

tarde de domingo
maritacas no arvoredo
a sua algazarra

*

domingo, 1 de maio de 2016

capiroto

líria porto

tipo insanguíneo
no peito só cavidades
e nas veias nenhum líquido

em sua boca
fumaça e bafo
de enxofre

*

inverno

líria porto

mortes em asilos
ocorrem em série

expostos ao frio
os pulmões dos velhos

não aguentam vírus
e nem bactérias

*

sábado, 30 de abril de 2016

estrangulamento

líria porto

magistrados
deputados senadores
empresários ruralistas
todos bem articulados
com o grande capital
e a rede globo
para o golpe – o sequestro
da democracia

*

desaliança

líria porto

esperei por ti
não vieste
então te peço
não venhas
passou aqui
um soldado
vim ser mais um
na cadeia
:
feia
sem recato
que sorte

*

desenfreados

líria porto

quem segura a tempestade
o vento o furacão – quem põe rédeas
na catástrofe
:
o supremo tribunal?

*

guerrilha

líria porto

pensam que nos derrubam
caímos e levantamos
curamo-nos das feridas

temos mais que sete fôlegos
muito mais que mil motivos
e nascemos livres

(somos múltiplos)

*

terça-feira, 26 de abril de 2016

cambada

líria porto

pobre niemeyer
deu-nos pra beber
cuias de veneno

câmara e senado
como dois pedaços
de um ovo gorado

às vezes eu penso
o atual congresso
é invenção do demo

(fora bela viola
dentro pão bolorento)

*

à força

líria porto

a chave rodava no tambor
mas não abria a porta – tiveram
que arrombá-la

entrar de qualquer forma
é o mesmo que estuprar

*

segunda-feira, 25 de abril de 2016

recusa

líria porto

minha vassoura de bruxa
de tantos voos e sonhos
não vai varrer a sujeira
a lambança dos senhores
pra debaixo do tapete

(isso nunca)

*

haicai

líria porto

a lua desmaia
no céu azul da manhã
o sol do outro lado

*

empata-foda

líria porto

a luz do poste
embaça estrela
e meteoro

(na roça
teríamos
brilho)

*

niño

líria porto

dormia sozinha
punha os olhos na bainha
pra te ver em sonhos

e quando tu vinhas
ajeitava-me no ninho
do teu corpo em concha

*

domingo, 24 de abril de 2016

liríadas

líria porto

vez em quando chovo
atiro meteoros – assusto os cachorros
que me roubam o osso e me furam
os olhos

*

justificativas

líria porto

mentir não minto
mas falo meias verdades
e coisas que imagino

*

meia-tigela

líria porto

a lua cheia
pinga a noite inteira
gotinhas de leite
nas sete canecas

quando amanhece
ela bebe tudo
:
a branca de neve

*

sábado, 23 de abril de 2016

alar-me

líria porto

a boca do imundo
a vomitar o golpe
a sujeira imposta
cujo nome
é impeachment
sem crime

*

cada qual

líria porto

morreu meu pai como um lord
de pé

a morte mirou seu peito
um tiro só

espero a mesma sorte
meu coração  sem alarde
rebente a corda

(mamãe lutou bravamente
ficou dez anos no leito
sua trincheira
e quase matou a morte
de impaciência)

*

sexta-feira, 22 de abril de 2016

empréstimo

líria porto

amei um e outro
e nenhum era meu

*

charco

líria porto

não sou modelo de nada
sou o avesso das virtudes
transbordo todas as margens
deságuo em quaisquer braços
nunca meço as consequências
jamais penso no futuro

*

quites

líria porto

um verso
cato-o na rua
bem à beira da sarjeta
trago-o comigo pra casa
agasalho-o alimento-o
ele voa vai à árvore
traz-me uma flor
agradeço-lhe
coloco a flor nos cabelos

*

madame cunha

líria porto

seus olhos
esbugalhados – um susto
o que terão visto?
(o que verão imagino
será mil vezes pior)
:
psicopatas são capazes
de arrancar-nos o cu
de deixar-nos carne viva
se nós não somos
seus cúmplices

*

terça-feira, 19 de abril de 2016

autorização

líria porto

sonhei com a poesia
(o espectro daquelas rosas
coroadas com espinhos)
ela me disse – volta
retoma o verso
expressa tua revolta
palavras são como pedras
ou pétalas
conforme a hora

*

incômodo

líria porto

dolorimento nas tripas
terei engolido o grito
que me causa
sofrimento?

*

segunda-feira, 18 de abril de 2016

túnica

líria porto

meu corpo veste vermelho
porém minha alma hasteia
a bandeira brasileira
usurpada por golpistas

*

excelência

líria porto

por mim que sou um apátrida
sem pai sem mãe sem família

por mim que sou um canalha
que aceita roubo propina

eu mato a democracia
eu juro sobre a bíblia

*