sexta-feira, 20 de novembro de 2009

pirataria

líria porto

lá vai o cargueiro
mar adentro
transporta ouro negro
(es)cravos pimenta
tesouros de áfrica
(sofrimento
chibata)

lavai
consciência

*

senti_nela

líria porto

meu pai (não) compareceu
ao septuagésimo terceiro aniversário
de minha mãe

à beira do corpo coberto com flores
entre filhos e velas
mamãe lamentava-se
: logo hoje meu velho
logo hoje?

(20 de novembro de 1995)

*

en_talada

líria porto

atada a nada
nada em grude
em panela
de vaca-atolada

: via-crucis

*

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

arapuca

líria porto

um ponto duas laçadas
dois pontos três laçadas
três pontos quatro laçadas
assim se tece a carreira

(no cargo tudo são vagos
exceto contas-correntes)

um dia vem um pirralho
quer passar pelo atalho
cai mosquitinho na rede

*

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

limpo com jornal

liria porto

as vogais
as consoantes
brotam do papel
e proclamam
: depois da tempestade
ao invés de bonança
vem mais desgraça

*

terça-feira, 17 de novembro de 2009

desassossego

líria porto

a palavra usa e abusa
do escritor

fá-lo seu cavalo seu cachorro
seu escravo e se necessário
dá-lhe com a chibata
até que ele se curve
e a obedeça

*

amar_ras

líria porto

(posseiro do seu corpo
controla sua boca seus olhos
finca-lhe estaca entre as pernas)

) de uma coisa ele não sabe
pensamentos pulam cerca (

*

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

granizo

líria porto

a chuva desce doida inconsequente
o vento - seu comparsa - faz estragos
um raio chicoteia o céu cinzento
parece que os deuses estão bravos

*

película

líria porto

fosse beijo técnico que fosse
e não houvesse o tal amasso pra valer
só de me encostar naquele moço
iria pelos ares - poeira cósmica

: estrela de cinema
ou de tevê

*

domingo, 15 de novembro de 2009

armadilha

líria porto

outro dia
leva-se um susto

a morte se aproxima
e não se sabe ao certo
o momento

a hora da captura

*

sábado, 14 de novembro de 2009

olho aceso

líria porto

não é durante um sono
que desmoronamos

é num piscar

*

melancólica

líria porto

tem água
na lua

solidão
liquefeita

baldes
de lágrima

*

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

à la alice ruiz

líria porto

apaixonada
apaixovoa
apaixoanda
apaixorrasteja

*

"apaixonada
apaixotudo
apaixoquase"

(alice ruiz)

*

noel

líria porto

pôs as barbas de molho
quando viu eram grisalhas
e não houve uma navalha
para raspar-lhe o tempo

*

) sofrer é soda (

líria porto

não tem medo de defunto
de assombração de escuro
porém foge da paixão
como o diabo da cruz

já provou desse veneno
não vai repetir a dose

*

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

grileiro

líria porto

em terra de lobo
quem tem ovelha
é ele

*

(des)casal

líria porto

acostumou-se a pôr a mesa para dois
e depois que ele se foi repete o ritual

: falar sozinha

*

vã idade

líria porto

narciso olha n'água
e não suporta a careca

põe tampa no poço
ou compra um chapéu?

*

desastrada

líria porto

por desconhecer as bordas
esbarrões hematomas feridas

alma tem limites

*

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

montanhesa

líria porto

dissera-lhe a professora
tens olhos de folha seca
herança dos ancestrais

são castanho-esverdeados
ou verdes com algum barro
a parda cor dos pardais

*

terça-feira, 10 de novembro de 2009

infelizes

líria porto

o que foi feito de amália
a bela de olhos lânguidos
e de tristeza entranhada
cujos passos a levaram
para a sombra de antônio
um homem de gestos rentes
e sorriso ácido?

o que foi feito de amélia
aquela mulher desverdade
que passava suas tardes
sem dizer uma palavra
e que durante o trabalho
deixava em tudo o rastro
da sua poeira amarga?

o que foi feito de emília
da sua pálida pele
quando foi abandonada
tão quieta tão sem ânimo
até que veio um pássaro
e levou-a para o céu
para a suíte dos santos?

o que foi feito de ordália
adélia odília odete
ana

o que foi feito de ângela?

*

pororoca

líria porto

espero
a vida não para

transpiro

nos poros
impuros sentimentos

(e nenhum parâmetro)

*

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

comunicado

líria porto

escrevo-te para te dizer
morri daqui a um mês

foi morte natural
misto de saudade e tédio
não houve remédio

em teu nome encomendei faixa
vela flor amarela
e lágrimas

dorme sossegado nada de missa
arranja outra namorada
mas presta atenção

tem muito corpo são
em mente insana

: tem muita canoa furada

*

natal

líria porto

mal necessário
bem desnecessário

saco de papai noel

*

para compensar a força bruta

líria porto

atrás
homens e mulheres
são iguais

frente a frente
elas têm peito
eles - pendências

*

domingo, 8 de novembro de 2009

desesperador

líria porto

nas ruas procuro teu rosto
nos rostos procuro teus traços
nos traços procuro teus gestos
nos gestos procuro teus atos
nos atos procuro teu amor
nos amores procuro por ti
e não te acho

*

príncipe (des)encantado

líria porto

o amor
aquele outro
é perfeito

o nosso amor ronca queixa-se
fala inconveniências emite sons e odores
agarra-se a mesquinharias é carente
mas no final das contas ele
tão somente ele
aguenta-nos
leva-nos a sentir (des)prazeres
por longo tempo

) amores-perfeitos também murcham (

*

sábado, 7 de novembro de 2009

brincos colares e acessórios

líria porto

o céu azul que beleza
com nuvens que maravilha

quebram a rotina dos mares
ondas ilhas e navios

nu deserto sem oásis

na floresta tem
orquídeas

*

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

mar revolto

líria porto

a cor indigo blue
dos olhos de maria luiza
veste-me o coração
despe-me o sorriso

*

olhos de cais

líria porto

na rua jogo da bola
cento e dezenove
mora raquel

o orvalho ancora entre seus cílios
a lua diamantina

*
tem um sol no fim da rua
uma lua no começo
o preço é ficar na janela
da casa amar_ela
(dor de cotovelo)
*
líria porto
*

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

abraço

líria porto

o mundo fica leve tão pequeno
cabe na grandeza dos teus braços
no afago dos teus dedos

*

(in)sustentável leveza

líria porto

as asas das borboletas
balançam os mares
provocam as marés

*

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

descompasso

líria porto

a alma vai veloz em disparada
o corpo passo a passo não a alcança

felizes caminhávamos de mãos dadas
naqueles velhos tempos da infância

*

terça-feira, 3 de novembro de 2009

e la nave va

líria porto

caminhei alguns calvários
tive tristeza alegria
desafios desenganos
porém nada permanente
quando a vida vira a página
quando amanhece de novo
o que deve ser será
vive-se

um olhar
um outro canto
o choro outras palavras
eu deixo a porta sem trava
se um amor quiser partir
outro por certo virá
é a vida seu compasso
a medida do possível

eu sorvo cada momento
eu bebo cada gotinha
eu choro rio padeço
repenso minhas fraquezas
aliso as marcas do tempo
deixo a vida dar os passos
voe ou rasteje
prossigo

sofres eu sofro junto
alegro-me quando te alegras
sou aquela caravela
que em plena calmaria
encontrou um novo rumo

se a bonança acabar
se voltarem o vento a chuva
um dia chega o estio

haverá amanhãs

*

domingo, 1 de novembro de 2009

na zona da lua

líria porto

ipê tão pequeno
tão pleno de flor
dormiu ao relento

a noite beijou-o
beijou-o beijou-o

acordou respingado
de sereno

*

sábado, 31 de outubro de 2009

bijoux

líria porto

costuro meu canto
com outras medidas
sou eu das palavras
limadas antigas
pois tais como as pedras
se ficam pontudas
se têm muita aresta
eu digo não prestam
estão mal cosidas

as letras redondas
quais seixos no rio
são um desafio
um cordão de pérolas
meus dedos já gastos
às vezes coletam-nas
com as pontas das unhas
que tenho esmaltadas
na cor das petúnias

*

prazeres

líria porto

cidades de minas gerais
cheiros sabores aromas
queijos doces frutas flores

sodoma e gomorra

*

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

recesso

líria porto

recostado no horizonte
o sol cochila

amanhã dorme até tarde
tem nuvem de chuva

*

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

zelo

líria porto

sobe numa galha noutra
olha as ramas curioso
parece que o passarinho
quer um canto para o ninho
e todo cuidado é pouco

*

freguês

líria porto

abre-lhe os colchetes
puxa-lhe os elásticos
depois se comporta
como se estivesse à mesa
: saboreia-lhe a carne
repete sua sobremesa
e satisfeito adormece

antes de ir embora
pede-lhe um café
deixa-lhe a gorjeta

*

terça-feira, 27 de outubro de 2009

o fio da navalha

líria porto

eu não sei que mágoa é essa
eu não tenho olhos d'água
isso é coisa de mulher
homem que é homem não chora
não se queixa não se dobra
homem que é homem aguenta

(não posso mais suportar)

sou um dique uma represa
o meu amor foi embora
não devo dar um gemido
há um mar de sofrimento
estampado no meu riso
pobre de mim ai de mim

(sou o cinismo em pessoa)

eu não sei que dor é essa
escorrega pela cara
atravessa-me o peito
sou um cabra de respeito
sou um homem muito macho
não me agacho não me curvo

(deus do céu quero é morrer)

*

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

rigidez

líria porto

algumas palavras secas
iguais bagaço de cana
tão somente são disfarce
de quem repete eu não amo
porém sofre chora sente
e tem todas as fraquezas
dessa tola raça humana

*

mentirosas

líria porto

paixões prometem-se
e às primeiras provações
desfazem-nos

*

desgarrados

líria porto

cobertas ralas
frio severo

escassas cartas
inverno

i n v e r n o

*

domingo, 25 de outubro de 2009

(des)equilíbrios

líria porto

paredes frias

(corredores não têm alma
no entanto me seguiam
conduziam-me aos lugares)

deixei a casa

(ampliei os meus ex-passos
corro paro rodopio
com medo de dromedários)

tropeço em corcovas

*

sábado, 24 de outubro de 2009

faminta

líria porto

eu disfarço tergiverso
finjo que ela nem existe
a tristeza me persegue
pede água pede alpiste

*

plenilúnio

líria porto

doce deleite
queijo do serro ou da canastra
(c)asa de mineiro

seresta

*

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

almodóvar

líria porto

outubro outubra-a
e sempre de (as)salto
vestido encarnado
sapatos vermelhos

a rosa que dança
aberta no asfalto
tem cheiro de carne
tem jeito de chaga
o tango penetra-a
sangra-a impenitente

*

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

capim

liria porto

não vou comê-lo
tão somente sou camelo
: rumino a rima

*

ancestral

líria porto

nas digitais
sinais atávicos

a aborígine
caçada no laço
mantém-se calada

seria feliz
solta no mato

*

a reza do povo

líria porto

o pão nosso de cada dia
sovado por estes braços fatigados
não nos seja subtraído por ninguém
menos ainda por tecnocratas
manipuladores de dados
e de cifras

amém

*
o girassol olha o sol
com olho de lua
*
líria porto
*

curiosidade

líria porto

ao olhar atento
pode escapar a capa
não o que está dentro

*

troviscos

líria porto

a vida segue a galope
em verdade o tempo venta
e nesse piscar de olhos
completei mais de sessenta

o meu espelho envelhece
depressa fica embaçado
daqui a pouco me esquece
veste pijama listrado

viver é tão de repente
a morte um denso mistério
em noites de lua plena
ninguém fique triste ou sério

quem quiser bailar comigo
tomar lugar nessa roda
coloque piercing no umbigo
ou cabelos cor-de-rosa

(sujei minhas mãos na terra
entendo os ranços da vida
exceto judiação
miséria fome e injustiça)

*

gol de virada

líria porto

os sonhos são redondos
como bolas de futebol

*

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

t. salomão

líria porto

eu tinha uma parceira
a turca

com ela eu tomava chuva
pisava nas enxurradas
voltávamos do colégio juntas
íamos ao cinema - ríamos
e chorávamos

tereza morreu e eu
sinto saudades de mim

*

brejo alegre - araguari

líria porto

o vento varria tudo
só ficava no lugar
quem tinha força raiz
aqueles que resistiam
às agruras do cerrado
ao ferrão dos pernilongos
à mortal monotonia

às vezes sinto saudade
retorno por alguns dias
depois volto para casa
coração a borbulhar
a transbordar boa água
agonias descampados
pessoas inesquecíveis

*

des_maio

líria porto

desmalha-se
vive\morre um pouco
floco de neve pétala
rio solto no despenhadeiro
poeira
cinza de borralho

(passarinho rompe o ovo
abre o olho pela primeira vez)

*

patrulha

líria porto

as sirenes
as viaturas

inocentes pagam
pelos predadores

*

luzes

líria porto

as cores mudam

a olhar miúdo
o azul me ilude

*

terça-feira, 20 de outubro de 2009

caráter

líria porto

mexe-se na fachada na pintura
a estrutura permanece
o alicerce

*

sem telha

líria porto

o vento sopra o fogo sobe
ninguém segura maria

ela só volta amanhã
depois da missa

qual brasa coberta
de cisma

*

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

criancice

líria porto

a mariposa pousa numa rosa
e ousa roubar duas pétalas
voar como as borboletas

*

ao vento

líria porto

é bom brincar de passarinho
abrir os braços a fingir que eles são asas
fechar os olhos e planar dentro do sonho
pensar num ninho ao regressar
à realidade

*

no muro das lamentações

líria porto

chorei todos os rios
depois chorei os mares e oceanos
chorei todas as lágrimas das viúvas
todas as chuvas
molhei todos os lenços lençóis
e fronhas

chorei as pitangas

*

domingo, 18 de outubro de 2009

longe

líria porto

quanto mais batia a clara
quanto mais batia a gema
quanto mais crescia o ovo
tanto mais eu me lembrava
de como gostas de bolo

coloquei manteiga açúcar
misturava com a colher
eu ficava com vontade
deu saudade de te ver
de voar onde estivesses

o fermento a farinha
o leite o sentimento
a essência do teu jeito
o gosto bom do teu beijo
eu te queria por perto

esqueci de um detalhe
olha só que distração
ao invés de assar o bolo
congelei foi a saudade
a lágrima a distância

o choro

*

folhas secas escondem segredos dos tempos verdes

aqui jaz

líria porto

um dia o moreno vai voltar
e quando regressar será mui tarde

lerá em minha lápide o epitáfio
bebeu taça de ausência e de saudade

*

clandestino

líria porto

aí vou eu onde vives
andar pela tua rua
ver a lua que tu vês
o teu mar a tua praia
conhecer cada nervura
entranhada no endereço

depois volto para casa
e de ti que me esqueceste
saberei cada detalhe
cada pedaço fatia
que por desamor um dia
tu teimaste em me esconder

*

sábado, 17 de outubro de 2009

pomo-de-adão

líria porto

a folha de parreira
as vergonhas de eva

pecado é comer maçã
com gosto de isopor

*

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

ascensão

líria porto

as alegrias postiças
jamais se sentira gente
foi só dor e sujeição
e o filho do patrão
pôs-lhe filho na barriga
(o menino não vingou)

ela nasceu no sertão
naquela sede de tudo
coração esfarinhado
o chão era pai e mãe
a terra seca sem viço
a sua cama o colchão

seu corpo virou moeda
moído na mão de todos
fosse qual fosse o macho
os direitos sobre ela
trocava-a por qualquer troco
partia sem despedir-se

nessa sorte sem fortuna
seu corpo se definhou
virou pele sobre ossos
nem freguês e nem comida
desgostou-se de tal fado
foi ser feliz lá em cima

marialva agora brilha
o seu espelho é a lua
o travesseiro uma nuvem
ficou linda como nunca
a estrela mais bonita
das que enfeitam a noite

*

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

propriedade

líria porto

na casa onde moro
sou peixe dentro do aquário
nado peito borboleta
mergulho flutuo divirto-me
afundo choro trabalho
nada aqui é proibido

eu sonho e tenho o mar
o atlântico o pacífico
um lago imenso tranquilo
um rio de águas claras
uma bacia uma bica
tanto faz

a casa é minha

*

estrelado

líria porto

numa panela de pedra
manteiga alho cebola
deixar dourar só um pouco
pôr a medida de arroz
o dobro d'água fervente
temperar com sal a gosto
quando secar - que delícia
comer purinho com ovo

*

fogaréu

líria porto

há um verso intermitente
está sempre à tocaia

no espelho vejo-o avesso
nuvem negra me atrapalha

sem espada sem nobreza
submeto-me à cangalha

ele empurra o travesseiro
abro os olhos mui calada

ele deita no meu peito
quer rasgar minha mortalha

eu tão pálida tão sem jeito
ele usa algum atalho

e entalha no meu ventre
sê poeta não te entraves

nem te escondas do vermelho
o crepúsculo ficou grávido

*

eu nunca vou te esquecer

líria porto

quando eu me for daqui
para um lá que não conheço
um lugar a sete palmos
onde os vermes têm fome
for largada numa vala
a minha carne sem dono
quando eu me for daqui
a vagar pelos escuros
e ficarem meus afetos
meus apegos meus amores
estes versos sem destino
serão a ponte

*

terça-feira, 13 de outubro de 2009

cabuloso

líria porto

talvez seja esteja sempre tenha sido ou se torne
daquelas pessoas a ouvirem pedras antes de atirá-las
pense rimas estridentes a implorarem esmola
numa sacola de plástico em sinais de trânsito
debaixo de chuva de granizo e fale fale fale ou não diga nada
feche-se em silêncios dê quatro ou sete estalos estéreis
histéricos agressivos adjetivados
fique mudo ou gago

ninguém o compreende
sente dor nevrálgica e não dor de dentes

*

das mãos de cora

líria porto

versos de milho
agora nos alimentam

nós
poetas sem rima
exilados da terra
vidas de cimento

*

quando vieres meu bem

líria porto

insiste na campainha
o tempo esse moleque
pôs tampão em meus ouvidos

não meças minha emoção
pelo tamanho dos versos
quando sinto - sinto muito

as palavras secam-me

*

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

descartáveis

líria porto

dentre as tralhas muitas lembranças
nenhuma que me sirva de mortalha
nem que se assemelhe à esperança

*

insosso

líria porto

segunda-feira
um dia de segunda
embora feriado

sem gosto de sábado
sem cheiro de domingo
um dia sorumbático

*

a prole

líria porto

busca energia
nas quatro philhas
recarregáveis

*

casanova

líria porto

um sofá para jandira
de couro macio
cheiro de cio
um querer bem

um sofá de canto
para o acalanto
o chamego
o quebranto

(a cor não importa
o outro era branco)

um sofá para jandira
descansar da vida
relembrar amores
esquecer desditas

(ser feliz)

um sofá para jandira
sentar-se aos domingos
cochilar e sonhar
com morangos

um sofá de nuvem
algodão ou pluma
um sofá de balanço
um colo

(de braços fortes)

*

arrimo

líria porto

fico a esperar prazenteiro
maria vem todo dia
traseiro fenomenal
meu fundo de garantia

essa mulher maravilha
me leva em sua canoa
recarrega minhas pilhas
faz-me a vida muito boa

navego nas suas ondas
no céu da boca o delírio
minha alegria se alonga
maria é o ar que respiro

sou marinheiro de sorte
maria é minha guarita
se me alcança a morte
maria me ressuscita

*

domingo, 11 de outubro de 2009

batente

líria porto

sente-lhe o cheiro
abraça-o por trás
encaixe perfeito

beija-lhe as costas
alisa-lhe o mamilo
os pelos do peito

o relógio grita
ele fala afobado
aquieta-te mulher

é segunda-feira

*

sábado, 10 de outubro de 2009

solteirona

líria porto

rezava pedia implorava
ia à missa todo dia
às novenas
prometia batia o pé
santo antonio fazia-se de surdo

*

das cicatrizes seculares

líria porto

um dia pequeno partiste eu fiquei
restou-se-me a culpa estrago sem jeito
saí pelas ruas de olhos sem ver
prendessem-me matassem-me
arrancassem-me os seios

chorei como a chuva do mês de dezembro

virei enxurrada poça d'água represa
secou-se-me o leite a vida ruiu
uma cunha partiu minha alma o espelho
morri reencarnei e ainda padeço
são mil estilhaços com teus olhos dentro

*

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

misericórdia

líria porto

nascera em ano bissexto
e sempre tão distraído
era traído e traía
a si mesmo

aparecera defunto
um tiro dentro do ouvido
uma coroa de flores
e os seguintes dizeres

: a quem mais amo/odeio
todo meu (res)sentimento

*

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

o fio da meada é cor de prata

líria porto

o tempo passarava e o canto do galo
rasgava como um dardo
as madrugadas

amanhã era hoje num instante
embora nos olhássemos e jamais
fôssemos grandes

a vida pássara deixa-nos atrás
traz-nos cabelos brancos

o galo canta
não sei se agora ou ontem

*

o seminarista

líria porto

afunda no decote
margeia os mamilos
escorre pelas bordas
desvia pros quadris
desce até as coxas
retorna ao umbigo
enquanto a prima dorme
cheirosa igual canela
biquini cor-de-rosa
virgem por triz

*

socorro

líria porto

os azuis surtam
ficam quase roxos
caem e desmaiam
como hematomas

chamo a enfermeira
vem roberta silva
faz-lhes boca-a-boca
eles se aproveitam

: beijo de língua

*

pulmões

líria porto

refutam resfolegam refustigam
e têm a mania de pneumonia

*

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

secret-ária

líria porto

eu tu

nós

atas
desatas
meus olhos

*

almofariz

líria porto

a dor da saudade
pode ser comparada
à dor do alho
socado com sal

*

o rato que rói

líria porto

nos arredores de belo horizonte
a fé não remove as montanhas
fá-lo a mbr
minerações brasileiras reunidas s/a

*

gerais

líria porto

colinas desdobram-se
horizontes após horizontes
e lá onde pensamos que termina
ainda há minas

incontáveis

*

terça-feira, 6 de outubro de 2009

passe-livre

líria porto

quando a foice do destino
ceifar de mim as estrelas
vai me encontrar precavida
não sou de arrastar sandálias
já vivi suficiente
das cangalhas me livrei
aprendi a bater asas
a circular sem fronteiras
marquei encontro com lúcifer
na caldeirinha do meio

*

invisibilidade

líria porto

esta dor que quando olhas
não compreendes por quê
não é de fratura exposta
é de amor sem resposta
a solidão ninguém vê

*

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

gradil

líria porto

na gaiola um passarinho
mavioso sabiá
pobrezito triste sina
ter asas de não voar

*
*
o silêncio é poliglota
comunica-se e faz-se entender
em todas as línguas
*
líria porto

infâmia

líria porto

o rio nasce espontâneo
brota do ventre da terra
rasga seu leito estreito
escorre por entre as pedras
ganha corpo correnteza
leva cardumes inteiros
atravessa as florestas
as campinas as veredas

o rio recolhe às margens
o canto das lavadeiras
a alegria dos pássaros
o corpo d’algum menino
anzóis canoas as redes
o riso das cachoeiras
sua vida peregrina
até se jogar no mar
quando cumpre seu destino

há homens pensam-se deuses
violam as águas do rio
roubam-lhe as riquezas
desviam-no da sua trilha
transformam-no em mijo seco

*

antes que a luz me apague
visto teu olho nu
*
(líria porto)
*

o menino

líria porto

tinha três anos não mais
fez um buraco n’areia
e num balde pequenino
buscava água do mar

(trabalhou horas a fio)

quando viu a maré cheia
deu um sorriso e gritou
mamãe mamãe corre aqui
trazi o mar para a praia

*

a todo vapor

líria porto

passageiros como as nuvens
deixem-nos chover
trovejar mudar de forma
derreter ante o azul
evaporar

viver é névoa

*

grisalhos

líria porto

pelas ruas e esquinas
pelos brancos à procura
de aventura e vida

*

quando o amor se esfuma

líria porto

de tanto tecer possibilidades
tive l.e.r. (lesões por esforços repetitivos)
e quase fiquei triste

ainda não desisti
embora a dor persista

*

domingo, 4 de outubro de 2009

arte

líria porto

existe um ipê amarelo
floresce na minha serra
antes da chuva ele explode
nada vi assim tão belo

acho que o menino deus
esteve a brincar com ovo
sujou os dedos de gema
e limpou a mão nas flores

*

(in)experiência

líria porto

eu plantei uma roseira
quando ela floresceu
sangrou-me os dedos

eu então fiquei cabreira
ou rosas são perigosas
ou não sei lidar com elas

*

sábado, 3 de outubro de 2009

meia volta

líria porto

nuvem escura vento forte
a carroça do leiteiro com capota
maricota - bota a saia na cabeça
lá vem chuva

*

todo dia

líria porto

pergunto à poesia
ela não responde talvez saibas
: onde amarrei meu burro?

*

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

torre de babel

líria porto

letras embaralhadas
perfilam-se ante meus olhos
não entendo patavina

poliglotas trogloditas
cientistas eruditos
deu nó na ponta
da língua

*

lucubração

líria porto

viver é capricho
ou é nada disso
quem pode saber
se as pedras não dizem
os lagos cochilam
os rios se esvaem
os montes se calam
e os homens não prestam
atenção

*

evidente

líria porto

falar de amor a quem amamos é tão óbvio
que nos descuidamos

esquecemo-nos de perfumar os dias óbvios
oferecer as flores óbvias dizer o óbvio eu te amo
e fica tudo assim tão óbvio que amar
parece desamor

*

rem

líria porto

o corpo quieto estirado na cama
a alma vagueia por mundos e sonhos
e vai à espanha toureia o toureiro
e vai onde estejas te beija te beija
igual passarinho por ninhos e longes

conhece outros mares navios lugares
piratas corsários reinados rebanhos
a alma é livre o corpo é escravo
e peca e cansa padece envelhece
enquanto a alma prossegue encantada

*

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

mistura fina

líria porto

minha mão branca em tua cara preta
tua mão preta em minha cara branca
desancam quaisquer preconceitos

meu peito encaixado no teu
teu corpo por cima do meu
as pernas embaralhadas

café com leite

*

bandoleiras

líria porto


maritacas maritacam
voam em bando
bicam verdes amarelos
e no meio da algazarra
roubam caquinhos do céu
para enfeitar as asas


*

brejeira

líria porto

a saudade apertou
pegou a gaita a matula
e picou a mula

está lá

*

rebordosa

líria porto

levei do teu copo
a sede que tinhas

sem água boca amarga
investigo - fui justo comigo?

*

rabo de fogão

líria porto

visão embaçada
ora pelas lágrimas
ora pela fumaça
ora pelas lentes sujas

oração contrária

*

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

passageiro

líria porto

à frente a estrada atrás a estrada
no centro - eu - parado
dentro do carro em movimento

*

terça-feira, 29 de setembro de 2009

tanto (a)mar

líria porto

os pezinhos de malu
voam sobre as ondas

o (a)mar faz cócegas

*

coerência

líria porto

foram todos por lá
é preciso saber
estar só(brio)

aqueço minha sopa
caminho com a sombra
planto sementes

(o silêncio é pudoroso)

*

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

calendário

líria porto

segunda é dia de sono e trabalh
terça é dia de trabalho
quarta é dia de trabalho e jogo
quinta é dia de trabalho e coisas
sexta é dia de atrapalho e noite
sábado é dia de mercado e boldo
domingo é dia

*

domingo, 27 de setembro de 2009

galardão

líria porto

o poleiro despencou
pulei para o andar de cima
estou nas nuvens

perto da lua
estrela na testa
bico aberto

*

teia

líria porto

eu me atrevo e uma aranha
espia o que escrevo

: ela mata mosquito no silêncio
eu mato no grito

*

sábado, 26 de setembro de 2009

(ao fantasma da biblioteca)

líria porto

uma folha uma página uma pétala
minh'alma na terceira prateleira

vez por outra
leia-a

*

de vão em vão

líria porto

tu e eu - corpos colados
um parque de diversão
montanha russa teus braços
o coração bate bate
se eu morrer desse enfarte
terá sido a salvação

*

ateu sofrimento

líria porto

dói-me a tua dor
e nada posso
a não ser
ficar do teu lado
segurar as tuas mãos
rezar rezar e rezar
sem crer
no onipotente

*

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

esqueleto

líria porto

escrevo
depois faço a poda

só sobram
os ossos descarnados
do poema

*

prazo

líria porto

preciso de um tempo
é quase o final do jogo
o show está pelo fim
eu já te posso esquecer
só preciso de um tempo

não me peças além disso
pode ser que eu não consiga
não demora quase nada
apenas um pouco mais
que o resto da minha vida

*

rupestres

líria porto

entre a história dos dois
a montanha a separá-los
de um lado a pouca força
do outro palavras parcas
e as rochas tão caladas

de cá vivia uma louca
de lá morava um poeta
o homem sangrava versos
as unhas dela rasgavam
feriam a pele da pedra

e a fina chuva regava
os gestos do amor eterno

*

rimas caninas

líria porto

corações perdigueiros
farejam e caçam
amores verdadeiros

o meu vira-lata
também vai à cata

*
bando de andorinhas
o céu cortado em pedaços
tesouras tesouros
*
líria porto
*

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

negociação

líria porto

nem sempre foi assim
eu não tinha areia nos olhos
nem neblina

o rouge o batom borrados
não são culpa minha
nunca fui desleixada

está bem
pagas só quinze

*

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

gris

líria porto

verde não te quero verde
quero-te bem maduro
no ponto certo do apuro
dos teus cabelos cinzentos
das tuas marcas e rugas
que o tempo faz quando cura
as desilusões

*

pretinho básico

líria porto

marieta tinha medo de defunto
mas não perdia um velório

enviuvara cedo
e de certa forma
gostava da cerimônia

*

chuá chuá

líria porto

a chuva me embala
canta para eu dormir
a canção das águas

*

primavera de praga

líria porto

ser lida
esse lado é o lodo
da notícia

grotesco é gravar
agressões e grosserias

meu cavalo é puro sangue

*

fiel

líria porto

ela se dedica a ele
ele se dedica a ela

nessa tabela
não cabe cadela
nem cachorro

captou bentinho?

*

terça-feira, 22 de setembro de 2009

ao hospício

líria porto

ela é louca louca louca
não coordena mais nada
ainda escreve com pena
arranca as penas da asa
só bebe água da chuva
e em seus olhos de louca
correm soltas enxurradas

nas noites de lua cheia
pendura-se aos parapeitos
estufa o peito e voa
só falta um dia essa louca
jogar-se com suas penas
não restar nenhuma asa
nenhuma louca

que pena

*

a chuva

líria porto

suja-me os pés
lava minha alma

*

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

pé-de-vento

líria porto

vassourinha piaçava
varre as folhas para o canto

vem o vento esse atrapalho
sopra as folhas esparrama-as

senhorinha fica brava
sobe logo nas tamancas

trabalheira redobrada
dor nos quartos dor nas ancas

esse verso não tem trava
qual risada de criança

quem quiser brincar de roda
pode vir - viva a infância

*

abstinência

líria porto

o mar não pára
vai e vem irrequieto
chega à praia passo à frente
depois acho se arrepende
arreda o pé

a serra por sua vez
permanece embasbacada
a olhar o mar de longe
com desejos de tocá-lo
o corpo não lhe obedece

*

velho

líria porto

acelera os passos
tropeça em si mesmo
igual passarinho
de asas quebradas

(ao apear do corpo
vai ser pensamento)

*

domingo, 20 de setembro de 2009

concórdia

líria porto

durou dez anos
perfeitos harmônicos
redondos como bolha

ele não se despediu
ela embarcou no trem
ele se casou com outro
ela se juntou a alguém
e foram felizes
felizes

) nunca discutiram
a relação (

*

asas

líria porto

passaroco pequenino
na galhada da mangueira
faz a festa de domingo
limpa a pena passa o bico
canta um canto tão bonito
que o poeta vê seu verso
perder o sentido

*

sábado, 19 de setembro de 2009

carimbado

líria porto

o meu amor adotivo
aquele que apareceu
entrou como quem não quer
ficou como quem não é
legitimou-se sem sê-lo

*

cruz

líria porto

hímen complacente
virgem para sempre
por mais homens
que viessem

não chora não ri
não pergunta nem responde
passa horas e mais horas
a olhar o teto

*

eutanásia

líria porto

ao apagar das luzes cerrem-me os olhos
levem-me à tumba para sossegar
não me deixem o corpo a pairar insólito
como a folha seca que ao vento jaz

*

mutilação

líria porto

o corpo frágil a vontade férrea
anseiam outro par de pernas

*

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

mundana

líria porto

de nada adianta
correr atrás dela
quando ela me quer
ela me procura
diz-me sem frescura
sou somente tua
podes me (ab)usar

eu por um momento
quase acredito
durmo sossegada
ela me abandona
fica transparente
vai pra não sei onde
faz não sei o quê

viste a poesia?

*

escalada

líria porto

tão grande o cansaço
e nem se chegou
à escadaria

um degrau e outro
e mais outro e outros
pra alcançar-se o topo

o céu impossível

*

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

nas conchas

líria porto

como moisés
parti o mar ao meio
atravessei-o a pé

tropecei num peixe
feri-me com espinho
mar vermelho

: vinho

*

curta-metragem

líria porto

olhou de lá da janela
sentiu a forte atração

viu seu corpo no asfalto
pessoas a seu redor

faria um vôo contrário
algo cinematográfico

seria clássico rápido
(adeus adeus solidão)

*

grand finale

líria porto

enquanto dormimos
a morte ronda a cama
assiste nosso ensaio
na primeira fila

*

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

sob a luz de velas

líria porto

as mãos de minha mãe
cruzadas sobre o peito
não vou esquecê-las

os seus dedos frios
antes tão macios
entre meus cabelos

o cheiro de flor
cheiro forte e doce
em minhas narinas

quero minha mãe
eu me sinto velha
mas eu sou menina

*

terça-feira, 15 de setembro de 2009

susto

líria

roupa no varal
fantasma

(an)dança
sem corpo

alma

*

rabiscos

líria porto

eu rabisco
rabiscando eu corro o risco
de riscar sem ter compasso
de dançar errando o passo
de passar a ser um traço
de traçar olhando nisso
de olhar pro meu rabisco

porém rabisco não é verso
rabisco não é poesia - é loucura
é teimosia

*

cobarde

líria porto

que vontade que vontade
enfrentar o meu espelho
cortar bem rente os cabelos
tirar deles toda a tinta
e deixar que as cãs me venham
flocos de neve branquinhos
sobre cabeça tão quente

cadê coragem?

que vontade que vontade
vestir-me largos vestidos
nada mais a me apertar
nem roupas e nem dinheiro
ser eu natural feliz
e em meu aniversário
fincá-las uma por uma
as mais de sessenta velas
num bolo cheio de doce

cadê coragem?

que vontade que vontade
com a alegria que tenho
rir das rugas rir de tudo
falar das minhas verdades
sem nenhum constrangimento
ir lá onde o amor está
desafiar a rival
dizer-lhe eu sou mais eu
esse amor agora é meu

cadê coragem?

que vontade que vontade
romper os grilhões da vida
com minha cara coragem
porém pergunto ao espelho
cadê coragem

cadê coragem?

*

gêmeas

líria porto

alegria e tristeza nasceram juntas
uma gostava da luz a outra gostava das trevas

riram
choraram
cresceram
envelheceram

: alegria morreu primeiro

*

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

eco

líria porto

certezas são riscos n'água
não resistem ao pé-de-vento
não valem um tostão furado
uma casca de ferida

todas tão repetitivas
batidas na mesma tecla tecla tecla
gravadas no mesmo oco oco oco oco
no arremedo medo medo medo
da vida ida ida ida
ida

*

domingo, 13 de setembro de 2009

ilusão

líria porto

aquele amor pareceu-me o vento
e durou o tempo de uma lufada

fez arder os olhos balançou-me o peito
prosseguiu caminho fiquei eu na estrada

*

ostras

líria porto

numa noite lânguida cheia de feitiço
a lua se expande o calor persiste
haja um milagre um fator explícito
seja nosso pleito amar e morrer
nesse alagadiço

*

rebeldia

líria porto

quanto mais livre um artista
quão mais difícil é detê-lo
contê-lo dentro dos cinzas
dos amarelos

*

servente

líria porto

pobre homem
pau pra toda obra
andaime

*

mea maxima culpa

líria porto

ajudei a elegê-lo
ele - essa pedra de gelo
a beber uísques

*

deusmelivreguarde

líria porto

uma assombração ronda-me a casa
há passos gemidos cochichos arrulhos

morena d'olhos d'água

*

cúmplices

líria porto

o par de andorinhas
voa paralelo
dá as mesmas voltas
sobe desce roda
pousa no telhado
uma junto à outra
como se estivesse
de mãos dadas

*

tardam mas não faltam

líria porto

são tantas manguinhas miúdas
e eu na janela à espera do suco

*

película

líria porto

ei-la - a manhã
ancas largas pele azulada
despida de nuvem

bonita como artista de hollywood

*

sábado, 12 de setembro de 2009

doce

líria porto

se por (a)ventura me queres
tira o cavalo da chuva

coloca-o para dentro
não vais deixá-lo ao relento
a noite toda

*

disque-me-disque

líria porto

é estilo do grilo repetir-se
cri cri cri

eu não creio
ou melhor - duvido
até de mim

*

insípido

líria porto

tem gente que ama na retranca
não se entrega não tem febre
não tem sudorese
não beija não chora
não sonha não sangra
não faz planos

tem gente que nem é gente
é prosopopéia

*

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

o cabaço

líria porto

penso assim aos borbotões
estou cheia de senões
se fossem abotoados
os pingolins dos meninos
ia ser um desatino
desarrolhar os coitados

acho mesmo houve engano
nas meninas muito pano
os rapazes sem cortina
triste é a nossa sina
um selo de validade
desde a mais tenra idade

*

burro-de-carga

líria porto

na espinha dorsal
dor de sal e espinho
vinho avinagrado
tonel de sofrimento
bebido todo dia
em grandes goles

*

maria da silva

líria porto

aporta no lirismo
faz verso a esmo
cai no marasmo
e por osmose
perde a sequência

*

gralha

líria porto

choco letras

nessa hora
se saio da cama
quebro ovos

*

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

diablo

líria porto

o fogo sobe a serra - capeta
morde o verde cospe os gravetos
queima as árvores os ninhos
expulsa aves répteis mamíferos
deixa por onde passa
cinza e carvão

cadáveres

*

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

reumantismo

líria porto

dia após dia ano após ano
não sei quem põe sobre nós
uma camada tênue
nem sentimos que mudamos
mas ao comparar as fotos
tem retrato de criança
entre os nossos

*

assim assado

líria porto

na sala formalidades
no quarto solta folgada
nem vou contar os detalhes

boca-de-forno é quentíssima
diaba embaixo das saias

*

terça-feira, 8 de setembro de 2009

conceitos

líria porto

a casa onde passei meus dias
precisou reparos trocar vasos veias
reformar fachada mudar reboco
alargar espaços ganhar claridade
piso novo

a vida nos refaz

ou não

*

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

instruções

líria porto

meninas
em dias de função
não se aflijam

ouçam a demanda do freguês
afastem bem os joelhos
deixem-no entrar
: não se entusiasmem
nem lhe beijem a boca

ao final
confiram as trinta moedas
e se receberem mais
acertem o troco

jamais se esqueçam
somos honestas e zelamos
pelo nosso nome

assinado
: mãe railda de cualcutava

*

domingo, 6 de setembro de 2009

cai cai haicai

líria porto

fachada de igreja
noiva alegre e esvoaçante
borboleta branca

*

contra_partida

líria porto

minha casa é um coração
abri mão do corre_dor
giro nela o dia e o mês

minha casa é um pardieiro

) quem quiser morar comigo
levante o dedo (

*

semideus

líria porto

espalhou cacos de vidro
nos degraus

quem quiser estar consigo
vai sangrar

*
toda palavra
escrita falada distorcida omitida silenciada
precisa saber seu lugar
silêncio
*

gaiola

líria porto

debaixo dos holofotes
o corpo ganha sombras
preço da fama

passarim enquanto voa
livra a sombra dos pés

*

sábado, 5 de setembro de 2009

posso

líria porto

mato sede apago fogo
acomodo-me facilmente
mas se achar um furinho
pingo fora

*

uma coisa leva à outra

líria porto

igual um falcão
meu coração voa alto

depois se esborracha
(como uma bolacha)

tem café?

*

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

sem energia

líria porto

esvaio-me
sumo pelo ralo
tomo um banho frio

caio no mar_asmo

*
todo espelho
é a minha cara
*

estrangeiro

líria porto

daqui sei quase nada
nem vinho nem vôo

: quanto ficarei?

qual barco em mar alto
sem bússola sem direção

: cadê bandeira?

*

bisturi

líria porto

médicos disseram-lhe
: pressão nas alturas
é como raio

pode chover canivete

*

felicidade

líria porto

ruth foi para beirute
e ao vê-lo sobre um camelo
decide-se

uma tenda
o chão de areia
as estrelas

quem nada quer
nada pe(r)de

*
com sorte
sara
*

caríssimo

líria porto

sonhos imensos
entalam e não entram

a porta é estreita

*
um gato mia no mato
fato corriqueiro
*

flash

líria porto

tem noite que a lua se supera
fica tão bela tão esplendorosa
que meu verso todo prosa
perde o freio

*

mudança

líria porto

troquei o corredor pela escada
beiro o céu

) é bom ser nuvem
poder chorar sem lenço (

o joelho dói
passo saliva

) sorte (

*

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

o raio cai

líria porto

os homens e as árvores
com a passagem do tempo
engrossam o tronco

*

anjinho

líria porto

corria atrás de si
qual cachorro atrás do rabo
perseguia a própria sombra
ia prendê-la nos ombros
esconder as asas

(queria ser igual lúcifer
o cão danado)

*

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

delicadeza

líria porto

amaciar os passos
: e que as pedras não sintam
a dureza dos pés

*

hijos de la santa madre

líria porto

galinhas chocas
ninguém trisque um dedo
no recheio dos seus ovos

*

ilusão de ótica

líria porto

a mulher do próximo
é muito mais próxima
que o próprio

*

novelo

líria porto

o que fizemos nós
o que a vida fez de nós
: desatamos desatamos nós
e somos noz

*

terça-feira, 1 de setembro de 2009

insatisfação

líria porto

oco
vazio
vácuo
buraco
oco vazio
vácuo buraco
oco vazio vácuo
buraco oco vazio vácuo

) falta-se
por mais que o preencham (

*

amantes

líria porto

parecíamos garimpeiros
a vasculhar o cascalho

procurávamos um no outro
pepitas diamantes

prazeres

*

fora de foco

líria porto

a escrever eu me isolo
posso ir morar no polo
conviver com pinguins
e nessa rima ruim
parir do invólucro
o insólito o irrisório
o descabido
o que interessa a ninguém
nem a mim

*

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

ninguém dorme com um barulho desses

líria porto

cansada de se repetir
deu um tiro - entrou num ouvido
saiu no outro

*

extermínio

líria porto

incapaz de matar moscas
criava sapos e aranhas

fizessem eles o trabalho sujo

*

rei_nação

líria porto

a mim me interessa
ter rei e rainha
no meu tabuleiro

ninguém me aborrece
sou eu quem decide
o rumo da peça

xeque mate
: a bola é minha

*

domingo, 30 de agosto de 2009

trabalheira

líria porto

meu pai vendia feijão e arroz
no armazém de secos e molhados

minha mãe cozinhava feijão e arroz
alimentava onze bocas

(nós estudávamos
eles nos davam vida boa)

*

sherloc

líria porto

o corpo do gato
sem nenhuma das suas sete vidas
é prova cabal
do múltiplo assassinato

*

aquela mulher

líria porto

mãos frias olhos vagos
rosto encovado soluços
vai à casa do homem-sapo
perambula pelas ruas
becos parques praças
orfanatos conventos
asilos esquinas
presídios

s
o
l
i
d
ã
o
tem companhia

*

favor

líria porto

acerto tudo - do primeiro ao último centavo
: difícil é pagar o que não tem preço

*

íntimos

líria porto

passa a roupa
avesso direito
frente costas cós
gola barra

ele vem
abraça-a por trás
faz-lhe cócegas
amarrota tudo

dão risadas

*

supremacia

líria porto

desde que nasci toureio a morte
ela não desiste e eu prossigo

um dia quando a infame me quedar
dir-lhe-ei - eu te venci

cansei-me de viver
aqui não fico

*

sábado, 29 de agosto de 2009

insensíveis

líria porto

finge dormir - o pensamento ferve
borbulha como lava de vulcão
minhoca em pedra quente

quase funde o cérebro
ninguém percebe

*

cafundó

líria porto

passarinho passaroco
é no oco do mundo
que me afundo no teu canto
nu recanto de poesia
desde o dia que nasci
um saci desengonçado
atado às raízes

*

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

na corda bamba

líria porto

dentro de nós mora um anjo
e também um diabinho
é um tal de puxa empurra
puro desequilíbrio

*

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

azar

líria porto

linda flor caiu do galho
girou tal qual bailarina
e ao tocar o asfalto
virou purpurina

*

ébano

líria porto

quando eu nascer outra vez
quero ser negra retinta
e os meus cabelos pretos
deixá-los à carapinha
brancos só mesmo os dentes
e nos olhos azeviche
carregar a minha áfrica
seu sol ardente sua púrpura

quando eu nascer outra vez
vou dançar com o meu povo
no compasso do batuque
e dentro da pele quente
conduzir-me à altura
da cor e da raça esplêndidas
da beleza de ser gente
no coração - na estatura

*

cuidado

líria porto

o diabo já foi anjo
conhece os caminhos do céu
e sabe como ninguém
fingir-se santo

*

pau do cerrado

líria porto

segredos do vento
de sopro e assovio
ninguém os decifra
nem nós que nascemos
em ventania

de terras tão planas
de galhas torcidas
ao vir pras montanhas
eu trouxe e te entrego
o sal da saliva

*

saudosa maloca

líria porto

simples e direto igual um soco
meu verso é como eu doido varrido
e sem qualquer razão fica vermelho

) era esse meu slogan predileto
: viva a rússia - abaixo os estados unidos (

*

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

amélia

líria porto

ficava lá disponível
limpa macia perfumada
igual blusa no cabide

ele vinha usava-a
voltava-se para a parede

foi visto no shopping
de roupa nova

*

terça-feira, 25 de agosto de 2009

cadela

líria porto

ando ela anda
deito-me ela se deita
sento-me ela se senta
ou fica ali do lado

minha sombra não me deixa
às vezes levanta as orelhas
e sacode o rabo

*

a tia

líria porto

o traçado da letra
a delicadeza da palavra
maria da glória - simples
extraordinária

*
o dia promete
mas não cumpre
*

o mundo

líria porto

jamais saberei dos detalhes
das minúcias

tento aprender o novo
abrir arregalar o olho

tudo é misterioso

esdrúxulo

*

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

es_fera

líria porto

quem dera que a terra
rodasse para o outro lado
e pudéssemos retornar
ao ponto de partida

a infância é um templo lindo

*

os miseráveis

líria porto

quem janta sua fome espanta
jante mal ou jante bem

terrível é quem não janta
e não almoça

e não tem

*

de mau a pior

líria porto

o sol sobre o olho
o sal sobre o molho
o mal sobre o bem
o tal do olho gordo
o estorvo o atrapalho
o dente de alho
na boca de alguém

*

neblina

líria porto

como fosse um cãozinho
que não abanasse o rabo

ou então um passarinho
incapaz de bater asas

viver sem ti não tem graça
o mundo todo se embaça

é igual viver sem brisa
sem lua e sem azul

*

domingo, 23 de agosto de 2009

pasmos

líria porto

entre velho e novo
um ser boquiaberto
sem saber ao certo
se foi a galinha
ou o ovo

entre certo e errado
um nunca satisfeito
um sempre sistemático
truncado pelo meio
sem arremate

entre muito e pouco
um sujeito rouco
a pedir um cado

entre um e outro
nada nada
nada

nabo

*

fósseis

líria porto

paixões e amores acabam
perecem evaporam-se

muita vez não sobra coalho
nenhuma atitude dócil

lembramo-nos dos que amávamos
somente em detalhes sórdidos

e sequer consideramos
quão fomos intolerantes

inóspitos
ignóbeis

*

pega

líria porto

não entendo tua pressa
mal fizeste vinte anos
de tudo pouco conheces
nem tristezas nem espantos

não corras tanto menino
vai devagar ri um pouco
aproveita tuas f(r)estas
olha as flores ouve o canto
a idade um dia pesa
os olhos murcham e o pranto
inundará duas pistas
não te aceleres - o tempo
é bem maior que a avenida

) vruuuummmmmm (

espera guri espera
tenho presentes comigo
um bombom um salto um grilo
quero te dar castanhas
ensinar-te minhas manhas
olhares além do umbigo

*

eu_tanásia

líria porto

descuido desprezo
condenam o amor
à morte lenta

) procura-se um cúmplice
capaz de desligar aparelhos (

*

sábado, 22 de agosto de 2009

arrepios

líria porto

vento varre minha terra
vem dum lado doutro
junta cisco dá um sopro
forma redemunho

tenho um medo
dos diabos

*

turista

líria porto

penduro-me como morcego
em teu ponto cego
e assim
sem que o percebas
bebo teu sangue gosto de morango
durante as férias

*

comprimido

líria porto

afogo a tristeza no copo
bebo-a num só gole

*

brevê

líria porto

lá vem o dia
lá vem a noite
a estrada anda
levem a roupa do corpo
lavem a alma

amanhã é agora

) vaca amarela
pulou a janela
quem morrer morreu
ele ela ou eu
a vida não pasta (

*

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

suicida

líria porto

sair do circuito
fugir do ruído
tudo é doído
e é seu intuito
arruinar-se
diluir-se
fluidificar-se
descuidar-se
ir-se

(f)ui

*

registro

líria porto


um anjo diz
helenice não

e a mãe feliz
batiza-a
flor-de-lis


*

terça-feira, 18 de agosto de 2009

namoro

líria porto

eu na janela
o sol no horizonte
e olho no olho
nós nus

*

concorrente

líria porto

um dos segredos
é a disputa de quem se diz
puta

*

putinha

liria porto

na entrega do produto
a lua tudo faz para o sol
não ficar puto

) vê estrelas (

*

bolhas

líria porto

ele pensava nela
e ela pensava
na morte da bezerra

quem acha que acerta
erra redondamente

*

virgem santa

líria porto

vão precisar de um bravo
para fazer a façanha
o mato cresce e tem onça
entre as pernas dessa aranha

*

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

cartas

líria porto

palavras silenciosas
dentro de envelopes
acham destino

e troam como tambores
levam para as pessoas
notícias boas

*

diferenças

líria porto

aquele que nos leva
a fazer com alegria
todas as tarefas
é líder

o fracote
a usar chicote
é chefe

) braços sem abraços
transportam carga (

*

gerações

líria porto

derrubar a parede
alargar o corredor

permitir que a luz se adentre
mudar o lugar das sombras

aprender - a experiência
dos ancestrais é inócua

*

sábado, 15 de agosto de 2009

depois do choro

líria porto

c_alma voltou - veio mansa
acomodou-se no canto
aproximou-se aos poucos
acalentou-me o corpo
fez-me dormir

sou criança

*

consideração

líria porto

lavou o corpo da morta
com água morna

maria não gostaria
de banhar-se em água fria

*

disfarce

líria porto

debaixo da capa a culpa
as emoções proibidas
as marcas de batom

(e as manchas roxas
nas coxas)

*

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

mundos e fundos

líria porto

olhos fechados corpo quieto
sem mover um músculo

e o pensamento solto
a recordar planejar sonhar

ninguém sabe da sua extensão

*

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

colcha de retalhos

líria porto

eu tu nós
ao doarmos órgãos
somos recicláveis
e não descartados
como lixo humano

e sobrevivemos
ao inexorável
à morte cínica
à rigidez ao frio
à inutilidade

à desesperança

*

terça-feira, 11 de agosto de 2009

tantan

líria porto

forte como a pétala
fraca como a muralha
tenho cílios de arco-íris
alma de batata-palha

*

ganidos

líria porto

finquei todo meu desejo
no branco lençol do leito
deitei-me só e de borco
e assim eu em decúbito
abraçada ao travesseiro
farejava o teu cheiro
qual um cachorro

meu corpo de tanta ânsia
derramava a substância
advinda do meu cio
as lágrimas me afogavam
transformavam-se em lagoa
de quebrantos

a fresta entre minhas pernas
jogadas de qualquer jeito
abrigava a rejeição
as ausências repetidas
das vezes que te chamei
sem retorno

não vieste não virás
e o vão do meu umbigo
a ganir nos teus ouvidos
não te deixará

*

ruindade

líria porto

a dor sem entranha montava-lhe as costas
fincava o ferrão a espora o chicote
: galopa galopa galopa

a pobre anciã já sem força gemia
não posso não posso
n ã o p o s s o

deus e o diabo
espiavam

sem dó

*

não tinha dono

líria porto

viu um cachorro
acompanhou-o

viver sem carne
é osso

*

versinhos encapetados

líria porto

quando nasci
não tinha anjo disponível
então um diabinho com um tridente
espetou a minha bunda e disse - vai
cai na vida

*