meu povo tem outra cara
os que foram pra avenida
brancos ricos bem nutridos
(os privilegiados)
querem manter as mamatas
as férias em miami –– as contas
na suíça
:
eles pediram o impeachment
e tacam fogo no circo
o cheiro denso da chuva
penetra minhas narinas
volto a ser a menininha
a soluçar todo o choro
sem consolo sem alento
que só cessa quando dorme
nos braços de sua mãe
valia-se da força
para dominar mulheres
submetê-las a sevícias
espancá-las humilhá-las
por isso creio –– o crime
dessa mulher sem peia
foi legítima defesa
d'agora em diante
(e agora nunca acaba
ou pelo menos durante)
não me preocupam as horas
pois que agora foi ontem
e continua agora
desde quando fui criança
até a hora da morte
a língua é áspera
inspirados são seus olhos
e pela vida ela pasta
a doar seu corpo inteiro
(o couro o leite a carne)
a homens degenerados
que não percebem nem sentem
a humanidade
da vaca
foram muitos pesadelos
e a cada vez que acordava
mais um assalto
outro susto
:
os bandidos variavam
só eu era o mesmo pato
com mesma cara de espasmo
e dor de barriga
consigo lavar dois banheiros com meio balde d'água ficam tão limpinhos perfumados na próxima encarnação posso ser arrumadeira : nesta não – de mim afasto esse carma
a vida –– essa peleja
uma batalha sem trégua
a gente faz o diabo
rói as unhas
arranca os cabelos
mata um leão por hora
nada contra a correnteza
(usa todos os chavões)
até que a morte apareça
e passe a régua