sábado, 28 de dezembro de 2013

mormaço

líria porto

de mar até as tampas
segurem o sol
o sal me altera
a pressão

*

água na boca

líria porto

o mar que tens e não tenho
toca meu céu só de longe
então eu te envio um beijo
a ti que viraste monge

(enquanto isso vou a pique
fico aqui – a ver navios)

*

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

torrão

líria porto

com as solas dos pés
como as palmas da mão
reconheço-te

*

relâmpago

líria porto

voz de trovão
numa topada de nuvens
natureza bruta

(não sei
pra quê tanto
escândalo)

*

domingo, 22 de dezembro de 2013

cremação

líria porto

alguns amigos
parentes
vão se lembrar
e é só

alimento vermes
ou viro pó?

*

presentes

líria porto

os cabelos sedosos da mica
os cachinhos da iara
os versos cantados por elas
pela dri pelo imperador
ecoam na sala
no quarto

eu me ouço e me calo
descanso os pés

*

sábado, 21 de dezembro de 2013

comemoração

líria porto

bolachas maria ou maizena – uma caixa
e dois pacotes de margarina

mastigar a noite inteira
sem fazer perguntas

(há quem prefira hóstias)

*

vigília

líria porto

perco o sono
e quando ele me acha
aaaaaahhhhhhhhhhhh
bocejo

volto para a cama e tenho
pesadelo

*

moreno

líria porto

não me saem do pensamento
o sal o céu o sol
a tua pele

tu
a minha praia

*

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

fúria

líria porto

vou em frente volto atrás
ando pro lado se o motivo
é convincente
:
quando empaco
sai de cima sai de baixo

*

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

estágios

líria porto

dela ouvi de um tudo
da boca de minha mãe
houve bronca houve carinho
ordem pedido oração
lamúria canto revolta
canção de ninar menino
muita verdade e por certo
muita mentira

mamãe era humana
e divina

*

basta

líria porto

beijei a lama que pisavas
lambi tuas botas e ainda riste

fui besta mas nenhuma bisca
vai rebuscar os meus dias

*

convivência

líria porto

no cerne da minha ignorância
a ânsia de aprender com as andorinhas
a viver e a voar em bando

*

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

malandragem

líria porto

nua e linda –– despudorada
a lua me olha com cara de puta
depois da noitada

(eu podia ter feito um haicai)

*

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

dos males o melhor

líria porto

se o céu desabar pego um santo
anjo não – que anjo não tem sexo

*

víboras

líria porto

rodeiam-te antes do bote
rastejam – nós temos pena
é quando elas te engolem
:
tu morres
elas procriam-se

*

nuvens

líria porto

um pato um leão um sapo
um cachorrão bem peludo
um mundo todo de espuma
coroado de azul

*

rebarba

líria porto

um agulheiro nos pés
uma pedreira no lombo
nos olhos cacos
de vidro
:
a alma?
plena de assombro

*

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

auge

líria porto

subo subo
escalo a nuvem mais alta
depois eu salto em teus braços
e afundo fundo
em tua
alma

*

dependência

líria porto

brota de ti lá do fundo
dum ramo de fedegoso
uma erva tão daninha
a tirar-nos a alegria
(a tua e a minha)
de vadiar como a lua
livre no céu e sozinha
sem agarrar-me
ao pescoço

(acabe a tua anemia)

*

turbulência

líria porto

o vácuo
um frio na barriga
e a vaca no pasto
nem se aflige

*

um poema para ana elisa

líria porto

o céu
não dos anjos
nem dos santos
o céu dos poetas
tão mesclado
de infernos

*

verso

líria porto

não com fórceps
parto natural e se possível
de cócoras

*

barreira

líria porto

alguém me interdite
retire de sobre meus ombros
o peso de mim

alguém me imponha limites
e se puder me devolva
algum sonho

alguém me livre

*

antiagenda

líria porto

misturo departamentos
troco ponteiros horários
confio desconfiada
no que chamo de memória
(principalmente na minha)
então se houver certezas
melhor conferir primeiro
para não se quebrar a casca
antes do tal momento

(ou vou chegar atrasada
no meu próprio enterro)

*

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

fim

líria porto

as meninas dos olhos
saltam sem paraquedas
no sono eterno

*

cabisbaixo

líria porto

andar sobre pedregulhos
buscar nas sombras a cruz
consigo mesmo apostar
quem vai vencer a corrida

brincar sozinho
perder-se dentro
de cismas

*

o grito

líria porto

um berro preso na goela tão calado quanto o túmulo
fazer o quê com a vida – esta porrada no fígado
esta sucessão de sustos

*

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

autocrítica

líria porto

falhei pelos cotovelos e as falas repetitivas
são verdadeiro atropelo

*

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

césar

líria porto

artista de circo olhos verdes
dava voltas no globo da morte
e nem sei se era bonito

(fazia barulho em meu corpo
de menina-moça)

*

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

no calor

líria porto

o leque de madrepérola
e eu fechava os olhos para sentir a brisa
sobre a corcova de um dromedário

*

desfalecer

líria porto

o dente quebrado a poça de sangue
o corte no queixo e eu sem saber
vai para onde?

desmaio – morrer por instantes
perder por nocaute

*

domingo, 8 de dezembro de 2013

antropófago

líria porto

queria-me nua
tão completamente
que depois das vestes
arrancou-me a pele
fiquei carne viva

então me salgou
comeu uma parte
e não satisfeito
congelou o resto
pra comer mais tarde

*

menta

líria porto

o amor é uma saraivada de balas
contra e a favor

*

patins

líria porto

não tinha equilíbrio
mas bem que eu quis
ter rodas nos pés

sair por aí
romper as barreiras
sorriso de corpo
inteiro

*

neuroses

líria porto

humanos mamíferos
grudados às tetas
famintos de vida
cheirados lambidos
em tudo outros bichos
ou feras distintas?

*

sábado, 7 de dezembro de 2013

eva

líria porto

ah – aquela zinha
falava-se vinha
dava no pé
:
cachos maduros
uvas

*

pro_lixo

líria porto

meu vestido de bolero lero
comprado em boutique
tinha tanto zero e era tão chique
parecia feito por um costureiro
de paris ou londres

usava-o e ficava tão bonita
(eu me achava)

um dia um moreno me olhou de cima abaixo
e o meu amor –– só de ciúme –– transformou o meu vestido
em trapo

(o filho da puta)

*

habilidades

não fiz crochê fiz tricô
que tem apoio mais firme
duas agulhas compridas
contrói-se toda a carreira
conversa-se - vê-se tevê

já crochê acho difícil
os pontos de um em um
contá-los bem e medi-los
olhos ali sempre fixos
(sem falar que é mais bonito)

*

crescimento

líria porto

eu andei corcunda porque te amava
carreguei nas costas o teu e o meu peso

agora resolvi – toma tuas pedras
eu só levo as minhas

(e um alívio dentro)

*

domínio

líria porto

eu – minha patroa – sou um ser terrível
tento me enquadrar pôr sela e cabresto
no que em mim é livre

(o espírito)

*

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

glutões

líria porto

comia-a comia-a não se saciava e quando lhe pedia
dá-me um descanso reclamava –   já não gostas
de mim

*

papagaio de pirata

líria porto

não pouses
em meu ombro
ave de rapina

*

congênita

líria porto

a cicatriz junto ao nervo
um triz e eu cegava – por isso
a neblina

a cortina cinzenta

*

resquícios

líria porto

sexta fera
sábado trôpego
domingo deprê

*

tantos homens

líria porto

deitou-se com uns e com outros na ânsia de um
fosse o amigo o amante o pai da criança
que não há e nem ouve

(abortou-se)

*

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

mandela

líria porto

a tua cor de terra
deu-me humanidade
:
ela te seja leve
um dia – logo
em breve
vou aí
beijar-te os lábios

*

vade retro

líria porto

de dar nós nas tripas entupir as veias
areia nos olhos ou cacos de vidro
a tua mentira a fazer-nos tolos
és tu o tal lobo em pele
de velho?

*

tosse

líria porto

pode ser tuberculose alergia
insuficiência cardíaca virose
pode ser muita coisa – até asma
engasgo pneumonia
ou esse nervoso que me ataca
quando preciso falar
e mais que a necessidade
faz-se forte a timidez

*

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

estouro

líria porto

dizer as coisas como prece
ensinaram-me – assim era minha mãe
(eu fui bem criada)
porém me dou conta e saem-me à boca
cobras e lagartos

*

cisma

líria porto

tais quais helicópteros
uns grilos sobre meus
pensamentos

a rima é no esquerdo do peito
em cima do nódulo

*

portais

líria porto

castanhos terrenos – teus olhos
nada mais nada menos

*

re_curso

líria porto

quando o sonho é pesadelo
uma ducha fria pode
                        desfazê-lo

*

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

sem choro

líria porto

quando eu morrer
ninguém me mande coroas
enviem-me buquês de noiva
de toda cor e espécie
e façam festa
e dancem
:
a lua seja de mel

*

bu_cólica

líria porto

cheiro de mato me mata
arvoro-me e sou poeta
verso e reverso por terra
a poesia na lata

*

colegial

líria porto

blusa branca saia azul
joelhos sempre à mostra
a calçola o soutien
(eu nunca usei anágua)
sapatos meias soquete
assim eu ia à escola

a cabeça?
nas nuvens

*

inovação

líria porto

quis ensiná-la do meu jeito
reagiu – fritou-os com casca

falou do sangue das regras
e tal inventara foi
um sucesso

cada um
cada qual

*

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

quase se_tenta

líria porto

a vida me roça
esfrega-se em mim
com segundas intenções

(e nem precisava)

ao mais leve aceno
agarro-me a ela
entrego-me

(em posições inusitadas)

*

volúpia

líria porto

vago o lume
pisco pisco
meu amor
está em casa
pego a faca
corto o impulso
faço canja
molho pardo
com cebola
e muita salsa

*

associações

líria porto

o pó preto a água fumegante
o cheiro da casa de mamãe
e eu –– filha e mãe –– a sorte
no fundo da xícara

*

infestação

líria porto

a batida do verso que faço
qual aço sobre minha cabeça
martela martela martela
e mata o piolho
na marra

(preferia que fosse na unha)

*

calhambeque

líria porto

capota de lona largos estribos
pneus de borracha maciça
nasceu nos primórdios
do século XX

grandes faróis bancos inteiriços
levava o vovô e a vovó
pra baixo e pra cima

(girem a manivela
do ford bigode)

*

equipe

líria porto

sem a proteção da rainha
dos peões
dos cavalos torres e bispos
o rei do xadrez
sequer chegaria a príncipe

*

pedalar

líria porto

lá ia eu
com equilíbrio
e sem atropelar
a lei

*

revide

líria porto

nariz empinado
o rei na barriga
faz pouco da dona do fusca
entra no carro de luxo e o motor
não funciona

sorriso nos lábios
a moça vira a chave
e a viagem continua
:
quem bole com bruxa
tem troco

*

domingo, 1 de dezembro de 2013

entendimento

líria porto

para que me ouças
eu me silencio

um dia saberás
palavras dizem pouco
(pensamentos têm força)
e mesmo que não vejas
estarei por perto

na voz do mar
do vento

*

perdição

líria porto

doce deleite
dez litros de leite um quilo de açúcar
a vida à beira do fogão

na boca – com ou sem queijo
um manjar dos deuses

*

sempre

líria porto

aqui ali acolá
onde ele anda ela vai
(ora na frente ora atrás)
conforme o lado da luz
segundo o flanco do sol
(a sombra segue seus passos)

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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