domingo, 16 de março de 2014

desmatamento

líria porto

a cada poema que embolas
vai-se uma folha
uma lasca

ao fim do livro
uma árvore

(falácias de ecologia)

*

des_contaminação

líria porto

pangaré de troia
tinha vírus dentro
tudo violento

dar-lhe-ás purgante
livrarás a égua
de tal rocinante?

(privada contínua)

*

a tristeza

líria porto

precisamos
descuidar-nos dela
para que não cresça
nem se prolifere

*

sábado, 15 de março de 2014

vovô

líria porto

olhava-me nos olhos
ouvia as minhas razões
e não me julgava

(com ele aprendi a ser gente
pelo menos aprendi
a tentar)

*

com dúvida

líria porto

metade de mim sou eu
a outra metade também
razão para o desespero
:
o que espero de mim
senão esse ermo?

*

sexta-feira, 14 de março de 2014

pulso

líria porto

depois de domar o demônio
ordenei-lhe – agora vai

enfiou rabo entre as pernas
nem sequer olhou pra trás

*

quinta-feira, 13 de março de 2014

chifres

líria porto

nervo puído pavio curto
em pontas de vaca não se dá
murro

*

engula a bula

líria porto

melhor pressentir que remediar
a corda rebenta do lado dos frascos
e dos comprimidos

*

quarta-feira, 12 de março de 2014

matizes

líria porto

mesclar cores
olhares sentimentos
sustos
:
imaginar auroras
e crepúsculos

*

verbal

líria porto

eu outono
tu invernas
eles crescem
nós morremos
vós sabeis
quem nos enterra

*

ciladas

líria porto

nasci em casa pequena
cresci sob proteção – depois
eu caí no mundo
:
um tombo atrás do outro

*

terça-feira, 11 de março de 2014

a virgem

líria porto

nunca te li – em se tratando de homem
ainda sou analfabeta

*

flor

líria porto

nem tão ousada quanto a trepadeira
a saltar os muros fazer striptease
nem tão pudica como a violeta
a exalar perfume por baixo
dos panos

*

tempos

líria porto

não começou no começo
como todos os começos
começou no meio
eu já era velha

não terminou no final
como todos os términos
terminou no começo
no meio dele
e de mim

*

murros

líria porto

o mar bate na pedra
despedaça-lhe a alma

ela não sai do lugar

*

segunda-feira, 10 de março de 2014

líria porto

abrir as comportas da alma
chorar todas as tristezas

*

rio sem peixe

líria porto

chorar com a chuva – por ele por mim
pela saudade do que nunca houve
e dói mais ainda

*

a ver pavios

líria porto

eu ia rodar o mundo
com meu amor – de mãos dadas
demorei a ter coragem

acendo velas

*

sintonia

líria porto

mais que amor irmão amigo
e não é paixão nem nada
é reencontro

algo de outras vidas
que se foram
que virão

*

descartes

líria porto

trocamos confidências
fizemos planos
os anos se passaram
restaram-nos apenas
cartas amarelas
pétalas secas
sombras do que fomos
deslembranças

*

domingo, 9 de março de 2014

esconde-esconde

líria porto

mais preciso dela
mais ela se nega
presa ao céu da boca
grudada na goela

(salve-se a poesia
morra o poeta)

*

sexta-feira, 7 de março de 2014

o pires

líria porto

pedi esmolas - o que senti?
humilhação vergonha

quando perdi minha xícara
foi triste – mas tinha honra

*

o prato

líria porto

na posição de receber
de até mesmo transbordar
ao me sentir vazio
a ouvir barrigas que roncam
meu desejo é morrer
saltar no chão
virar caco
:
não sou dado às fomes

*

engrenagem

líria porto

alguns na linha de frente
outros nos bastidores
:
doutor gari cozinheira
professores operários
como água terra fogo
como oxigênio

*

quinta-feira, 6 de março de 2014

companhia

líria porto

no último furo
até a tristeza nos consola
estanca nosso choro
e nos carrega
no colo

*

entrega

líria porto

e por ser minha
dei-me e me dou
a quem quero
como quero

à morte
não evito falar disso
vou lhe dizer
sou tua – carrega-me
leva-me agora
ou volta outra hora

*

quarta-feira, 5 de março de 2014

faro

líria porto

palmo à frente do focinho
um quadro um vão
a parede

olhei com a nuca e achei
todas as pulgas

não me cocei pois recuso
tamanho luxo

*

doninha

líria porto

muita vez eu vejo coisas
mas noutras eu fico cega
procuro reviro tudo
e só consigo encontrar
minha estupidez

*

mistério

líria porto

apareceu um fantasma
subverteu meu lençol
à luz do dia

o sol ficou
mas à noite
ouvi arrulhos

*

vira-folhas

líria porto

disse-me com todas as letras
eu nunca vou te esquecer

nem passou uma semana
apresentou-me uma noiva

e quem virá amanhã?

*

das noites tumultuadas

líria porto

espreitava-me do alto
igual ave de rapina
quando viu que eu dormia
enfiou-me um bico rijo
perfurou minha barriga
e dali puxou-me as tripas

debati-me o quanto pude
e assim a esvair-me
mas sem forças pra gritar
acordei

ufa
que alívio

seria freud
ou jung?

*

terça-feira, 4 de março de 2014

pressentimento

líria porto

barulho
baque

prenúncio de algo grave
abalo na estrutura

não sei se parto se fico
se corro risco de fato

loucura
ou cisma?

*

segunda-feira, 3 de março de 2014

a floresta é uma árvore

líria porto

sua majestade
a rainha mariana
é imensa
e seu tronco
tem três metros
de diâmetro

o seu manto
verde rosa
é rodado
uma beleza
tão bonito
quanto o samba
da mangueira

nós
seus súditos
(malu francisco
e vovozinha)
não conseguimos
abraçar-lhe o tronco
(por enquanto)
:
um dia
seremos gigantescos
e não teremos medo
dos seus espinhos

*

auroras

líria porto

a infância não é um tempo perdido
é fonte inesgotável onde saciamos
nossas sedes nossas buscas
nossa curiosidade

*

alvorecer

líria porto

como saber das auroras
quem só olha os crepúsculos?

as moças tão belas
tão lépidas

*

domingo, 2 de março de 2014

rugas

líria porto

na precariedade das quase sete décadas
os dias –– um a um –– e por todos esses anos
tatuaram minha pele
:
tenho casca deferida

*

sábado, 1 de março de 2014

suspiro

líria porto

passa fel na nossa boca
e pede-nos palavras doces

quem sempre comeu melado
é que se lambuza

*

urgência

líria porto

não tem barriga me dói
se não achar u'a moita
um lugar mais reservado
faço ali mesmo
:
o verso não espera

*

bota fora

líria porto

saia blu-
sa saia calci-
nha saia cami-
seta saia su-
tiã saia
saia

saiam to-
dos que eu pre-
ciso da gave-
ta para a pa-
pelada

*

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

noitada

líria porto

de morte não
morreu de vodka
bêbado como uma égua

*

as quatro faces

líria porto

eu não sou eu
e a máscara que me cobre o rosto
sequer disfarça o outro

(serei um terceiro
que desconheço e um dia
virá de dentro do quarto
torcer meu pescoço?

quem vai me salvar
de mim?)

*

poder

líria porto

escondidos por trás de sorrisos
querem nos comer
vivos

*

acima de quaisquer suspeitas

líria porto

acorrentava-me
mordia-me os mamilos
enfiava sob minhas unhas
farpas alfinetes
agulhas

depois ia à padaria

*

na mira

líria porto

tirou a farda
(a arma sobre o criado-mudo)
quis apagar o meu fogo

(um perigo esse soldado
que faz o criado gritar)

*

incapaz

líria porto

sequer um verso na agulha
disparo o gatilho e não há
estampido nem susto

*

desvios

líria porto

enfiou-lhe um prego
depois um fósforo aceso
e ao final um saca-rolhas
(torceu e puxou)

seus olhos brilharam
:
sempre gostou de
ver-me-lho

(nenhum contato de pele)

*

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

metódico

líria porto

tudo dentro dos conformes
hora disso hora daquilo
o tempo delimitado
eis que chega o imprevisto
e o dia vai para o ralo

há sempre um vírus à espreita
uma casca de banana
um beijo mais demorado
uma alegria ou tristeza
um rabo de saia

*

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

sem dó ré mi

líria porto

jogou-me do alto
reteve minhas asas
e nenhuma nuvem
para me amparar

cabeça na pedra
os miolos voaram
:
o coração segurei
com as duas mãos

*

nau frágil

líria porto

procurei por algo firme
encontrei pedra de gelo
o sol veio e à deriva
escapei por mão do amigo
cujo barco pescava
tristezas

*

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

humano

líria porto

coração não tem
botão liga/desliga e nem é
movido a pilha

corpos não são
robôs bonecas fantoches
marionetes
:
amam odeiam sofrem sonham
choram riem acertam erram voam
comem defecam
pensam

(no osso)

*

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

renúncia

líria porto

igual hiena
por dentro nem deus sabe
rasgada
triste como a terra seca
onde nada nasce

riu da vida
de pena de raiva
de si
:
abriu mão

*

espectro

líria porto

já não posso beijar a tua boca
viraste cinzas

eu não ia beijar a tua boca
já eras cinza

e me queimavas

*

descompromisso

líria porto

desmanchei a manhã
e assim de mancheias
eu me banho de creme
e argumento

manchei amanhãs
e segundas-feiras

*

areia

líria porto

swings
ménages
orgias
migalhas
:
desertos

*

domingo, 23 de fevereiro de 2014

princípios

líria porto

zelar as sementes
plantá-las em seu tempo
regá-las
vê-las brotar e crescer
fazer a capina
retirar as lagartas
a praga

colher
repartir o produto
sem se esquecer de guardar
as sementes do futuro

*

escaldante

líria porto

beduíno num camelo
o amor monta em mim e atravessamos
o deserto

*

sábado, 22 de fevereiro de 2014

cura

líria porto

se a dor voltar
deito-a em minha cama
e durmo no sofá

*

a prata da casa

líria porto

eu não quero tudo
eu não quero nada
na verdade eu nem quero
pra não ter trabalho

*

distúrbio

líria porto

não me acho
também não me procuro
prossigo assim perdida
agulha no palheiro

*

marasmo

líria porto

perdeu mão do verso
e sem o seu estro
tal como um camelo
a pastar desertos
ruminar areias
carregar no ventre
cólicas e cãibras
:
fomes despoetam-nos

*

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

cansaço

líria porto

para os uivos do corpo
ouvidos de mercador
para o silêncio da alma
alto-falantes

*

gato e sapato

líria porto

trancas a cara 
e não tenho a chave

então eu me zango 
e tu sais pra rua

sinto tua falta 
mas assim que voltas

a mágoa retorna e com ela
a amargura

(salgo demais a comida)

*

reviravolta

líria porto

maria temia os homens
o pai o irmão o marido
resquícios de um tempo ido
de servidão e silêncio

o abandono o desterro
maria fortaleceu-se
não quer nem precisa dono
comanda as rédeas do eu

*

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

vermelhos

líria porto

outubro me lembra almodóvar
(nasceu em setembro –– não deveria)
vinícius drummond lula
e eu

*

má-criação

líria porto

muitas vezes a favor
outras contra o vento
ora corro ora empaco
que subir e descer
depende

*

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

neuróticos

líria porto

somos tantos
o que nascemos
o que queriam que fôssemos
o que podíamos ser
quem nos tornamos
:
cada dia uns
e nem sempre os mesmos

*

sombras

líria porto

depois de noites e noites
de escuridão tenebrosa
vislumbrou o céu a estrela
o vulto da lua nova
só então venceu o medo
saiu de si – foi lá fora

*

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

desordem

líria porto

aqui ali acolá
em todo lugar que se olhe
as coisas desarranjadas

e a vida
esta turbulência

*

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

véu

líria porto

rendo-me à francesa
tal como um voile
um tule

*

domingo, 16 de fevereiro de 2014

panorama

líria porto

olhos não atravessam montanhas
o jeito é encarar a subida

*

geleira

líria porto

a lua jazia
o céu despencara
e o sol - ah o sol
era um coração
sem flama

*

carinho

liria porto

ao homem
com nome
de peixe
e nariz
de batata
eu mando
mil beijos
:
às pencas
em caixas

*

sábado, 15 de fevereiro de 2014

como me conter?

líria porto

um touro na alma
tu surges com manto vermelho
e me pedes doçura

eu quero
sangue

*

necessidade

líria porto

não chovas no molhado
a precisão é do seco do árido
do ser_tão

*

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

paralelos

líria porto

tu e eu
lado a lado
sem nos tocar

*

emoção

líria porto

essa luz transversa
que me atravessa
todo fim de tarde
dá-me arrepio
eu não sei se rio
ou se verto lágrima

*

fiscal

líria porto

o meu verso enxuto
de poucas palavras
a ele computo
a missão do guarda
de só conferir
meu olhar arguto
depois de algemar
minha própria alma

*

par'adão

líria porto

vou plantar em meu canteiro
as sete alfaces de eva

*

cuidados

líria porto

prendia entre os joelhos
o corpo de cada filho
catava lêndeas piolhos
olhava-os depois com orgulho
pobres porém limpinhos
:
as roupas?
sempre em frangalhos

*

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

abalroamento

líria porto

esbarrou em mim
não me amassou e nem nada
mas conta pra deus e o mundo
que tivemos um acaso

*

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

físico

líria porto

não me chegas às veias
menos ainda às artérias
tu apenas me aconteces
abaixo da cintura

*

líquida

líria porto

incomodo-te e ainda me agradeces
por molhar a tua boca e matar-te
a sede

*

lataria

líria porto

por merecimento
amigo
serias trilhardário

ainda assim és rico
não te lamentes por teres amassado
o fusca

as portas permanecem abertas

*

ressonância

líria porto

coração não dá sossego
toca bumbo zabumba tarol
na banda esquerda

bam bam
bam-bam-bam

*

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

nem sempre é bom

líria porto

nasci de minha mãe
mas é de mim que renasço
alguma vez até tive
depressão
após o parto

*

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

enigmas

líria porto

o que há
o que é
o QI
o que oh
o cu

*

ambição

líria porto

por um verso irretocável
deu a alma pro capeta e o corpo
ao sacrifício
:
nem assim

*

nascimento

líria porto

não um verso qualquer
desses já fizeram
eu já fiz
quero um verso tão bonito
que provoque choro e riso
ao mesmo tempo

(como parir um filho)

*

domingo, 9 de fevereiro de 2014

barulhos

líria porto

tem hora que penso alto
tem hora que penso baixo
tem hora que penso raso
tem hora que penso
e afundo-me

*

sem piedade

líria porto

não lhe dou de beber
por mim a dor
               morre seca

*

diferenças

líria porto

rosa rosa era rasa
não amou príncipe negro
por preconceito de raça

rosa rosa desfolhou
príncipe negro também

(a morte é democrática)

*

vingança

líria porto

coço-me
até
virar
ferida

para
arrancar-me
a
casca

*

ponto cego

líria porto

eu olho para o dedo
o dedo não me olha
mas me aponta
um defeito

não sabe que vejo
sua unha suja

*

pensamentos

líria porto

sabem minhas senhas meus códigos
meus segredos
meus passos meus erros
meus defeitos
mas não sabem o que penso
:
toda cabeça é um cofre

*


sábado, 8 de fevereiro de 2014

atropelamento

líria porto

o que te rasga por dentro
é um caco de garrafa
ou um pensamento?

o que te amassa por fora
é o tempo a idade
ou o teu relógio?

*

lascívia

líria porto

sem limite
sem roupa
nem nada
nós dois
como o boi
e a vaca
a pastarmos
o capim
eu de ti
tu de mim

*

dimensão

líria porto

teu nome meu nome o de deus
do amigo do amor 
o da pátria
tudo em letrinhas minúsculas
como o verme a formiga
o mosquito
                o vaga-lume

tudo é nada
e é tudo

*

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

serviçal

líria porto

ajeita os cabides
arruma as gavetas
organiza a papelada
tira a poeira dos livros
mata os cupins
limpa o chão
lava os pratos
passa as camisas
dobra os lençóies
guarda as cuecas
as calcinhas
põe os sapatos nas caixas
não tem nada divertido
nesta moradia?

*

maledicência

líria porto

desde que o mundo é mundo
seja homo seja hetero  de um jeito ou doutro
mete o pau na mulher

*

nódoas

líria porto

não fosse o céu tão perfeito
limpíssimo esterilizado
(eu não suporto certezas)
aceitava virar santa
casar-me com antônio
de pádua

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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