poesia me perdoe
nesses momentos de angústia
ameaças sacrifícios
só posso encontrar beleza
nas ações da resistência
porquanto palavras vãs
são disfarce covardia
de pessoas coniventes
com a barbárie
a injustiça
mulheres
mirem-se no espelho das michelles
marcelas amélias
respaldem o grande o rico o poderoso
homem branco
e nem pensem nas marielles beneditas
conceições
estas devem ficar nas senzalas
caladas e debaixo de relho
(as que falem por pretos e pobres serão
metralhadas)
sinto saudades de mim de um tempo em que nem me havia e uma ancestral antiga descendente da avó símia trouxe-me ao século vinte para acertar comigo umas pendengas umas dívidas
michael trêmulo
golpista e sem habilitação
com sua bagagem de quinhentas merrecas
assumiu o volante do furgão verde amarelo
repleto de boias frias
e sem condições para dirigi-lo
freou nas retas
derrapou nas curvas
invadiu os barrancos
e jogou o furgão
no abismo
tu ele eu e nós todos condenados a morrer (é um desígnio) viveríamos melhor e mais felizes se além de respeitar as diferenças lutássemos por sonhos coletivos
não sei do começo
da sequência
do que veio antes ou depois
do que há no momento
e o que vejo é vão é opaco
é o buraco
é um zero à esquerda do cifrão
e não fede nem cheira
o esmeril come o ferro
o ferro –– macho –– resiste
chega a soltar faísca
e geme
:
fica afiado o espeto
perfeito para o churrasco
a queima da carna
a brasa
a pressa do rio
vontade de (a)mar
seguir aos tropeços
livrar-se das margens
vagar noutras plagas
de sal lambuzar-se
sumir de si mesmo
deixar-se beber
naufragar
minha cabana de taipa
não tem tranca não ter cerca
tão somente a vira-lata
(ótima companhia)
e eu
a mansão do magnata
tem muralha tem guarita
câmeras de segurança
quatro pitbuls
dois buldogues
carros blindados
motoristas
guarda armado até os dentes
e gente trêmula
o corpo –– qual gaiola –– trancafia
toda a nossa dor e sofrimento
só o pensamento voa livre
e não há polícia nem juízes
que o condenem ao cárcere
ao exílio
:
nosso pensamento é quem governa
nosso pensamento é quem preside
enfrento o medo olho-o no fundo do olho até lhe faço careta : chego a tremer a sentir as pernas bambas mas fico firme não deixo que me domine que me esmague a cabeça