terça-feira, 30 de setembro de 2014

bererês

líria porto

carros adaptados
vidraças nas laterais
branco para anjos e virgens
preto para adultos velhos
e viúvas

(marieta não perdia um enterro
mas depois perdia o sono)

*

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

peso pesado

líria porto

o coração acelerou derrapou na curva
a vista ficou turva e quase bato
as botas

vou precisar mudar de rota

*

passeio

líria porto

dona pata sai do ninho
a ninhada corre atrás
no caminho tem um lago
a família foi nadar

dona pata pula n'água
os patinhos um a um
como fossem dez barquinhos
dentro d'água eles flutuam

dona pata alisa as penas
volta à casa - que beleza
põe os filhos sob a asa
e agora fazem a sesta

*

domingo, 28 de setembro de 2014

menor

líria porto

apaixonei-me pelo verso alexandrino
imenso lindo – mas quando ele se foi
reduzi-me à redondilha
e fiz silêncio

*

regresso

líria porto

saio de mim quando volto
até encaixar os ossos
os músculos a sombra
ajustar os pensamentos
levo tempo

saio de ti não demoro
fico mesclada
um só corpo
passo de dança
bolero

*

santo

líria porto

ele tem um defeito – é perfeito demais
para o meu gosto

*

promessas

líria porto

com tanto mandachuva
a sede não dá trégua

a seca é ficha suja
batuca na panela

não traz feijão pra pança
nem água para a goela

*

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

piu

líria porto

um voo
e tudo fica luz

azul
que não acaba

*

o amigo

líria porto

aquele que escolhemos
que nos acolhe nos ouve
que nos há e haverá
antes durante
depois

*

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

possessivo

líria porto

tem gente que fala
minha mulher meu homem
:
há prós e contras

*

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

sete erros

líria porto

o amor
que se repete
seguidas vezes
em que a gente
sai chamuscado
e não aprende
pois que o vício
cega-nos
emburrece-nos

*

triz

líria porto

por um tris
por um xis
por um bis
por um istmo
:
ao dispor

*

cti

líria porto

espaço branco
dividido por biombos
:
um trombo aqui
ali um baço  acolá um cálculo
uma uretra

*

a pimenta

líria porto

vermelha redonda ardida
formato de coração
:
quem se arrisca

*

a rachadura

líria porto

tudo dura menos
do que gostaríamos
ou mais

jamais a medida

*

o homem

líria porto

enfiou-lhe a mão pelo umbigo
tocou em tudo que é merda
não soube achegar-se ao útero
a zona do conforto

*

reprodução

líria porto

na raiz de tudo
um macho uma fêmea
a repetirem o ato
que os trouxe ao mundo

*

do incontestável

líria porto

a vida
sei da sua duração
do beco sem saída

isso me limita
mas não me constrange

*

domingo, 21 de setembro de 2014

do sono pesado

líria porto

começa a peleja
o galo bica-o
o sol dorme

ele toca o tarol
o sol nem se mexe
e ressona

a corneta do galo
um agudo e o sol
não se apruma

o galo endoidece
faz um rebuliço
cocóricocóóóó

o sol se levanta
mas em dias nublados
perde a cancha

*

sábado, 20 de setembro de 2014

a manicure

líria porto

vou dançar a valsa com a minha filha
eu fui mãe e pai  um trabalho duro
mantive-a na escola foi pra faculdade
sinto muito orgulho e não admito
que alguém ausente venha para a festa
e cante de galo

*

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

falta

líria porto

era a minha cachaça
e eu tenho delirium
tremens

*

engarrafamento

líria porto

cabeça tronco e rodas
a esquecer-nos das pernas pés
e dos passos

*

o síndico

líria porto

um ou outro tanto faz
nenhum deles deixo em branco
tem gente que pensa assim
eu não

ouço o que têm a dizer
procuro saber quem são
sua história a coerência
onde estão onde estiveram
com quem andam
mudam ou não de posição
pulam de galho em galho
têm caráter têm preparo?

*

para nós todos

líria porto

o burguezinho de merda
que vive em cada ser
é melhor envenená-lo
deixá-lo morrer à míngua
para renascer o homem
que não aceite injustiça
que não queira só pra si
as riquezas as belezas
as coisas boas
                  que existam

*

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

melodia

líria porto

o poema que não fiz alguém há de fazê-lo
e quando eu o vir saberei – é este – estava escrito em mim
mas não o transformei em beleza

*

furada

líria porto

minha força tua farsa
sigo firme – ferves de fúria
e inveja

*

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

prorrogação

líria porto

ao despencar-me de mim
o vento não me reerga
nem me jogue além

(ninguém me ligue à maquina)

a vida não empaque
nem rasteje

*

terça-feira, 16 de setembro de 2014

remanso

líria porto

chamou-me branca
olhei-o
preto feito piche
rimo-nos
perguntou-me
sabes onde estamos
disse-lhe
no paraíso

o voo foi lindo

*

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

goya

líria porto

imagina-me
debaixo das minhas vestes
sem blusa saia calcinha
do jeito que vim
ao mundo

(maja desnuda)

quem censura uma gravura
não poda meu pensamento
tampouco toca o universo

*

do lar

líria porto

lençóis e cobertas
guardados no armário

a louça limpinha
escorre na pia

nenhuma poeira
sujeira nem fales

porém eu confesso
rotina mais besta

que vida insossa
a dessa rainha

*

domingo, 14 de setembro de 2014

à espreita

líria porto

ao meio-dia
quando o sol é para todos
(ninguém faz sombra a ninguém)
os covardes se escondem
:
agem é na escuridão
na calada da noite

*

sábado, 13 de setembro de 2014

ir_racional

líria porto

o bicho-homem
faz mal de propósito

(faltam-lhe princípios)

usa meio ilícito
massa de manobra

ao visar os lucros
danem-se os pobres

*

abatimento

líria porto

tanto tento no entanto
desencanto só me traz
espanto e sofrimento

para estancar o pranto
não adianta lenço

*

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

mausoléu

líria porto

a mão de ferro do tempo
dos acontecimentos
:
a resistência desaba
ouve-se um barulho surdo
o romper das estruturas
e és a tua casa

e trancas a porta
e fechas as janelas

*

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

um momento

líria porto

hora de plantar-nos
hora de encolher-nos

hora de jogar fora o relógio
de acertar sem ponteiros

*

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

o boi mocho

líria porto

podaram-lhe os chifres
mas ele soube
da traição

(depois de arrancar-lhe o couro
a vaca deu-lhe um chapéu
pra esconder-lhe 
a cicatriz)

*

plush

líria porto

hiberno
e sonho
que durmo
em caverna
juntinho
com
mamãe

onde?
na sibéria

*

seca

líria porto

choveu flor choveu flor choveu flor
e o néctar não matou
nossa sede

*

camuflagem

líria porto

a maquiagem
qual um reboco
disfarça estragos
estruturais

no entanto à noite
cara lavada
diante do espelho
a máscara cai

*

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

espectro

líria porto

abro os olhos não te vejo
sei contudo tu me rondas
sinto o cheiro ouço a voz
de quem nunca
foi embora

porque
nunca
veio

*

folhas secas

líria porto

o frio demora
o verde não chega

de toda certeza
somente a da sede

a da fome

*

domingo, 7 de setembro de 2014

costura

líria porto

afunda emerge afunda
a agulha conduz a linha
encarregada de juntar
todas as partes
e fixar
os detalhes

(a tesoura separa o todo
o bisturi corta a carne)

*

desbandeirado

líria porto

deitar-nos em berço esplêndido
sem ordens e sem progresso
que liberdade é pastar
capim verdinho e macio
e poder fazer a sesta

*

olhar

líria porto

a pessoa da pessoa
ri com os olhos
como fosse canarinho
a cantar pra nossa alma
sem solfejo pio
nada

*

panorama

líria porto

ninguém tem toque de midas
nem varinha mágica
:
para mudar-se o que existe
é necessário preparo
apoio políticas públicas
pés no chão e mãos
à massa

o mais é demagogia
e blá blá blá

*

sábado, 6 de setembro de 2014

na antártida

líria porto

a foca e o leão-marinho
resolveram se casar
:
a noiva toda de branco
(enfeitada com conchinhas)
o noivo – terno e gravata
(bigodes bem aparados)

pinguins foram a caráter
as tartarugas os ursos
os parentes dela e dele
(todos muito chiques)

o sol foi testemunha

*

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

duma figa

líria porto

perdi a mão para o verso
o pé não perdi - por isso caminho
melhor que o saci

*

bobinho

líria porto

o amor  ah o amor
pula de galho em galho
qual mico tolo feliz
sem se importar com o ridículo

*

costume

líria porto

sem um amor sem o outro
a vida murcha
urge-lhe arranjar mais um
(seja o último)
um que lhe banhe o corpo
leve-o ao sepulcro
por ele se vista de luto
jogue-lhe a última flor
herde os seus acúmulos

(sempre quis
viúva rica)

*

azedume

líria porto

meu amor não sobrevive
a inseguranças e provas
:
amores imaturos
esgotam-me

dão-me nos nervos

*

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

pós-parto

líria porto

coité de leite
tigela de coalhada
a meia lua parece
peito de mulher

*

fim

líria porto

no ponto onde o tempo vira
e outro dia começa
esse suspiro

o último

*

inundação

líria porto

se as lágrimas das mulheres não secassem
não haveria planícies planaltos caatingas
só mares e oceanos  de tanta água
com sal

*

rolagem

líria porto

as semanas caminham
com passos lentos ou rápidos

lembramo-nos dos dias dos meses
da datas

não da semana passada

*

magia

líria porto

tão pequenino o ipê
tão carregado de sonhos
de responsabilidade
que levar flores ao colo
cuidar do tom da beleza
com tempo seco
é milagre

*

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

descuido

liria porto

sem atenção aos detalhes
perdemos a noção
das arapucas

tem diabo em couro de vítima

*

terça-feira, 2 de setembro de 2014

quem o viu?

líria porto

o meu versinho sumiu
não aparece faz dias
em tempo de osmarina
não me canta
a cotovia

*

porta da frente

líria porto

eu gosto da claridade
de saber por onde piso
de ver quem anda do lado
de ajudar quem precisa
de também ser ajudada
de sentir que nesta vida
podemos ir de mãos dadas
sem temer

sem canalhices

*

palanque

líria porto

não errou
quem nunca fez

quem tem as mãos calejadas
sabe das dificuldades
que é preparar a terra
escolher boas sementes
plantá-las regá-las
exterminar toda a praga
retirar os parasitas
esperar a chuva o sol
o tempo da colheita

deitado na rede é fácil
torcer o nariz apontar
dizer - sou o novo
o milagre
fechem os olhos
confiem
eu sou o iluminado

*

barbaridade

líria porto

a poesia vai bem
o sol a lua as estrelas
o céu então nem se fala
o que me aflige é a terra
há tanto inseto veneno
e a gente sendo
                      cobaia

*

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

estomacal

líria porto

amarga não nem azeda
eu sou assim agridoce
pois que rio da desgraça
do peso que me amassa
como um dia atrás
das ostras

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

Arquivo do blog