quinta-feira, 8 de julho de 2021

identidade

líria porto


os que renegam a raça
escondem as origens
não merecem ser chamados
de mestiços
:
tornam-se brancos encardidos
capitães do mato

*

tática

líria porto


a poesia não foi embora
apenas tomou distância
para acelerar na volta

*

quarta-feira, 7 de julho de 2021

pandemônio

líria porto


tal como um camelo mastiga o deserto
passo o tempo a ruminar as horas
sem saber ao certo o dia da semana
se é começo ou fim
de mês
acordo no meio da noite
amanheço sonolenta
sumiram-me os sonhos
não há domingos
doem-me as corcovas
:
os pesadelos permanecem

*

quinta-feira, 1 de julho de 2021

temporário

 líria porto


daqui por diante
só por enquanto
dia após dia

oral

líria porto


sem cerimônia
abriu-lhe a braguilha
e meteu a boca

descartáveis

líria porto


o homem se desumaniza de tal forma
o sofrimento a vida e a morte do outro
já não lhe importam

*

cigarra

líria porto


conquanto
e apesar da idade
não tenha dificuldade
para transportar o corpo
deixará sua carcaça
em algum canto da praça
irá ousar
outro voo

*

quinta-feira, 17 de junho de 2021

desesperadamente

líria porto

abraçar a beleza como um náufrago
agarra uma tora em plena
correnteza

*

segunda-feira, 14 de junho de 2021

nulidades

líria porto


homens que detestam mulheres
machistas motorizados
(as cacholas não passam de capacetes)
a seguirem
a louvarem o chefe
misógino cabeça oca
arruaceiro sem nenhum caráter
bandoleiro verde amarelo
profissional do nada
:
nádegas
grudadas
ao sofá

*

sexta-feira, 11 de junho de 2021

monotonia

líria porto


no exato ponto em que estamos
tudo é tão chato
maçante
o tempo pasta e rumina
horas de ontem e amanhã

*

quinta-feira, 10 de junho de 2021

imprevisto

líria porto


morava sozinha
ficara confusa
não sabia ao certo
se era quarta ou quinta
se limpava a casa
ou se ia à feira
mas sentia frio
e a tosse intensa
levara-a a deitar-se
descansar da lida
:
morreu no domingo

*

terça-feira, 8 de junho de 2021

paciência

líria porto

pesou o peso de gêmeos
nos pratos daquela balança
houve o equilíbrio possível
e enquanto durou o convívio
deixou crescerem
as crianças
então pediu
o divórcio

*

meia tigela

líria porto


tão só tão lua
tão luz tão sol
tão eu tão tua
tão tu só teu
tantão
tantim

*

que noite

líria porto

almofada de alfinete
em cama de faquir

safo

líria porto


debaixo da minha saia
seres alados e até mesmo
alguns fantasmas

*

desejo

líria porto


enfiar o bico
na corola de uma flor
igual colibri

*

a bolha onde vivo

líria porto

cada vez mais rija e espessa
era uma película

praga

líria porto


a alma do povo
que paira sobre vós
há de condenar-vos ao inferno
mas antes - espero
apodrecereis atrás das grades
oh bestas feras

*

calendas

líria porto

desde
então
tudo
agora
fica
pra
depois

*

criação

líria porto

nem led nem pilhas
dão vida a meus brinquedos
sou eu que falo com eles
alimento-os
conto-lhes histórias
coloco-os para dormir
e até ouço desaforos
e protestos
:
o pluto a bruxinha
o arthur - meu burrico vermelho
são inteligentes e sabem o que é bom
pro brasil e pros brasileiros

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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